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Full text of "Cancioneiro da Ajuda"

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( 13 ■ 




CANCIONEIRO DA AJUDA 



»M 



EDIÇÃO CRITICA E COMMENTADA 



POR 



CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELLOS 

DOUTORA EM PHILOSOPHIA (Hon. caus.). 



VOLUME II 

INVESTIGAÇÕES BIBLIOGRAPHICAS , BIOGRAPHICAS 
E HISTÓRICO -LITTERARIAS. 




HALLE A. S. 

MAX NIEMEYER 

1904. 



/ 



A 

SUA MAJESTADE 

A RAINHA DE PORTUGAL, 

* SENHORA 
D. MARIA AMÉLIA 



COMO TROVA DO MAIS PROFUNDO 
RESPEITO E GRATIDÃO 



A AUTORA. 



Resenha Bibliographica. 

Suum cuique. 

O Cancioneiro que publico em edição critica, precioso docu- 
mento da historia social e litteraria da península nos sec. XIII e 
XIY, já foi impresso. Coube -lhe até a vantagem de ser o primeiro 
entre os escriptos medievaes portugueses, tirados a lume na fecunda 
revisão das litteraturas românicas, iniciada no 1° quartel d'este 
século. Da edição feita em 1823, e de outra posterior, occupa- 
ram-se numerosos e illustres escriptores, entre nacionaes e estran- 
geiros, que todos reconheceram nas poesias que encerra, o estylo 
dos trovadores provençaes. Todos foram também unanimes em re- 
feri-los á primeira época da litteratura, chamada Era de D. Denis, 
único monarca a respeito do qual sempre tinham corrido vagos 
boatos litterarios. 

Sobre os limites d'essa era, o auctor ou os auctores do Can- 
cioneiro, suscitou -se todavia longa e douta controvérsia, de curiosa 
evolução , visto que os litigantes tiveram de modificar as suas opiniões, 
á medida que foram surgindo, de 1843 para cá, noticias pormeno- 
rizadas sobre outras collecções de versos gallaico- portugueses, des- 
cobertas na Itália e que derramaram luz cada vez mais intensa 
sobre os textos da compilação anonyma. 

Cumpre -me por isso principiar, registando as publicações mais 
notáveis, relativas a todos esses monumentos, para melhor orien- 
tação do leitor, e dar conta, resumidamente, tanto dos serviços 
prestados, como dos pareceres emittidos por mestres como Raynouard 
e Diez, e eruditos eminentes como Bellermann, Varnhagen, Wolf, 
Storck; João Pedro Ribeiro, Ribeiro dos Santos, Ri vara, Alexandre 
Herculano, F. Adolpho Coelho, Theophilo Braga; Ernesto Monaci, 
Cesare de LoUis; Paul Meyer, Alfred Jeanroy; Henry R. Lang, 
e vários outros, que se occuparam dos trovadores de cá. A fim 
de não inculcar ideias menos exactas na mente de quem me ler, 

1 



— 2 — 

preferi todavia dar a esta exposição caracter não meramente prag- 
mático. 

Por conveniência practica poderíamos dividir a historia da ex- 
ploração em três períodos. 1° abrange quasi meio século, de 
1800 — 1849; o 2"^° alcança até 1875; o 3° deverá expirar no 
anno em que sahirem estas paginas. 

§ 2. Completamente occulto por espaço de séculos, e enco- 
berto mesmo depois de haver dado entrada numa bibliotheca official 
da metrópole, a do Real Collegio dos Nobres, o vetusto monu- 
mento foi tirado do seu esconderijo no começo do nosso século por 
um intelligente reitor d'aquella casa, e do Conselho de S. M. 

Ao Dr. Ricardo Raymundo Nogueira, lente jubilado na 
faculdade de leis e homem de grande influencia, por ter sido um 
dos governadores de Portugal, emquanto D. João YI, assustado com 
a invasão napolepnica, estacionava no Rio de Janeiro, cabe o mérito 
de haver chamado, com fervor desinteressado, a attenção dos circules 
mais cultos de Lisboa, i. é. da Academia Real das Sciencias, para 
estes textos de poesia vulgar. Entre os sábios e curíosos que 
manusearam o volume na livraria do Collegio, graças á sua obse- 
quiosa amabilidade, nomearei apenas aquelles dois que confessaram 
publicamente os favores recebidos, e a elles responderam com factos. 

§ 3. Foi o primeiro António Ribeiro dos Santos, activo 
veterano das lettras (1745 — 1818), o qual condensou, penso que 
no ultimo decennio da sua vida, as suas rápidas investigações 
num capitulo de uma Historia da poesia portuguesa, trabalho de 
compilação que se conserva inédito na Bibliotheca Nacional de Lisboa, 
cujo director fora. i) 

Do segundo, o allemão Christian Friedrich Bellermann, 
a quem o códice e também o ms. de Ribeiro dos Santos foram 
franqueados em 1819, terei de fallar mais tarde, porque guardou na 
gaveta os fructos das suas vigílias portuguesas, muito além dos 
clássicos nove annos do poeta. 

P. A. R. dos Santos, Memorias da Poesia em Portugal, com uma 
breve noticia de dous Cancioneiros até agora desconhecidos. — 



1) Quanto ao seu saber linguistico bastará lembrar que, ignorando por 
completo o metliodo scientifico, pretendia reconhecer no português um 
dialecto céltico moderno. Com relação ás cinco relíquias da litteratura 
portuguesa vid. p. 10. 



~- ,^ — 

4 Vol. in 4'°. — Cap. II: Da Poesia portuguesa no sec. XIII. Noticia 
de um Cancioneiro inédito. — Antes do 1818.^) 

Neste estudo o auctor descreve rapidamente o códice, com alguns 
descuidos que posteriormente teem sido repetidos frequentes vezes 
(como o de chamar maiúscula a lettra). Em seguida dá ideia 
do seu valor litterario, na previsão que não seriam inúteis as noticias 
que fornecia pela primeira vez. Os primeiros ramos de cada trova 
ou rimance são, segundo elle, menos versos do que prosa, porque 
não guardam regularidade alguma de medida. Parecem obra muito 
archaica, pela linguagem, que é o dialecto português - galliziano, 
fallado na provinda de Entre Douro e Minho nos primeiros séculos 
da monarchia. Trazem bastantes termos e modos de dizer, extinctos 
de ha muito, mas de que ha exemplos no Poema do Cid, nos 
versos de Berceo e nas Cantigas de Alfonso o Sábio. Cotejada 
com a do Cancioneiro de Resende, a versificação é muito mais irre- 
gular e rude. Divisam -se nella os esboços de uma poesia nascente, 
producção do século XII ou XIII. Julga o relator que as canções 
são todas de um único poeta, também a uma só dama que amava 
extremamente e de quem era mal correspondido. Fallando quasi 
sempre do mesmo assumpto, varia engenhosamente as suas ideias, 
com fecundidade de invenções. Para demonstração. Ribeiro dos 
Santos aproveita trechos, que parecem relacionar -se com episódios 
do romance do poeta: a cantiga da monja de Nogueira; as que teem 
allusões ás três damas de nome Joanna, Sancha ou Maria; á filha de 
Dom Paay Moniz; a Santarém; á sua estada fora de Hespanha, etc. 
No fim copia as poesias da 1" e da ultima folha. Da Carta- proemio 
do Marquês de Santilhana ao Condestavel de Portugal, em que pela 
primeira vez se havia tratado da antiga lyrica peninsular 2) e da 
preponderância da Galliza na peninsula até ao sec. XII, já dissera 
num capitulo anterior. 3) 



1) Bibl. Nac: Obras de Ribeiro dos Santos, Vol. XIX p. 178 — 183. 
O capitulo que se refere ao segundo Cancioneiro inédito foi por mim publi- 
cado recentemente. Vid. Uma Obra Inédita do Condestavel de Portugal, 
Madrid 1899. — Extracto dei Homenaje á Menéndex y Pelayo en el ano 
vigésimo de su profesorado. Estúdios de erudicion espanola. — Cf. Innoc. 
da Silva, Dicc. Bibliogr., Vol. I p. 254 No. 1384; e 1354. 

2) Vid. Cap. II 94 e Cap. V. 

3) Memorias de Litteratiira , Vol. VIII p. 246: Da Poesia portu- 
guesa nos sec. XII e XIII. — Contém noções justas, de mistura com apre- 
ciações falsas. 

1* 



— 4 — 

§ 4. Ê desconhecida a data exacta d' este primeiro ensaio, 
destinado certamente a sahir nas Memorias de Litteratura da Aca- 
demia, onde Ribeiro dos Santos, um dos sócios fundadores, havia 
publicado vários estudos desde 1779. Ignoro por tanto se é anterior 
ou posterior á resolução d' este estabelecimento scientifico de publicar 
o Cancioneiro. 

Em Junho de 1815 os académicos já tinham incumbido á 
commissão da lingua portuguesa, continuadora eleita do mal fadado 
Diccionario, a reimpressão do Cancioneiro de Resende, com a 
clausula estranha de, compilando -o em melhor ordem, „inserir nos 
legares competentes (!) as poesias do outro, mais antigo, existente 
na Livraria do CoUegio dos Nobres", obtida a auctorização prévia 
do Governo, 

Deu parte d' este singularissimo intento o Secretario da Aca- 
demia, asseverando: „que d' estes nossos Cancioneiros e dos Roman- 
ceiros de Hespanha se vê que nenhum povo na Europa cultivou 
tanto e tão cedo, como o das Hespanhas, esta nova poesia de trovas 
e romances!" E ainda, „que D. Denis fora pulidor e enriquecedor 
da lingua, compondo versos e trovas que emparelham, se não ex- 
cedem as dos poetas provençaes". Vae sem dizer que o informador 
nunca lera uma só linha do trovador coroado, repetindo simples- 
mente os dizeres da fama, — deusa que os académicos de então 
acatavam ainda com exagerada boa fé.^) 

2°. José Bonifácio de Andrada e Silva, — Discurso contendo a 
historia da Academia Real das Sciencias desde 25 de Junho de 
1814 até 24 de Junho de 1815; em Historia e Memorias da Acad. R. 
das Sciencias, Yol. IV, Parte 2'*'' p. 14. — Anno 1816.-) 

§ 5. O inexequivel plano gorou- se. E verdade que a licença 
foi concedida. Um anno depois, na sessão publica de 24 de Junho, 
relatava -se que o reitor do Collegio se havia encarregado de obter 
a faculdade para entregar o Cancioneiro, e que o Snr. João da Cunha 
Taborda se oíferecera para o copiar, ficando com a incumbência de 
dirigir os trabalhos Joaquim José da Costa de Macedo. 

3". Francisco de Mello Franco, — Discurso recitado etc. em Hist. 
e Mem. da Acad. R., Vol. V, Parte 1"^ p. XXIV. — Anno de 1817. 



1) In petto considerava muito provavelmente como trabalho individual 
de D. Denis o Cancioneiro do Collegio dos Nobres. 

2) Nos Discursos anteriores não encontrei referencias ao Cancioneiro. 



— 5 — 

§ 6. Passados mais dois annos, dava- se a copia como prompta. 
Louvando os sócios, o conferente dizia: „Já colhemos novos fructos 
d' este seu louvável zelo, possuindo acabadas as copias do Can- 
cioneiro Velho que existia (sic) na Livraria do Keal Collegio dos 
Nobres e de que já se deu parte em outra sessão publica." 

4°. J. B. de And rada e Silva, — Discurso histórico recitado na Sessão 
publica de 24 de Junho de 1818; em Hist. e Mem. da Acad., Vol. VI, 
Parte V^ p. V. — Anno 1819. 

§ 7. Mas emquanto a douta corporação, em continuas mudanças 
de casa e vagarosos aprestes perdia não só o tempo, mas ... até 
o treslado do códice, um nobre estrangeiro, que havia residido muitos 
annos em Portugal como Embaixador do governo britannico, teve 
influencia e curiosidade sufficiente para mandar tirar um novo tres- 
lado. Pode ser também que adquirisse outro, executado a pedido 
de um seu conterrâneo, parente de Herbert Hill, membro dos mais 
intelligentes da feitoria inglesa de Lisboa. Fallo de Robert Southey, 
o notável poeta e historiador, i) enthusiasta pelas cousas de Portugal 
e Hespanha desde a sua viagem através da península (1795 — 9 6). 2) 
Mas ainda não contente de poder incorporar um apograjjho do 
Cancioneiro na sua opulenta livraria, Lo rd Charles Stuart de 
Rothesay^) o fez imprimir á sua custa em Paris, na typographia 
particular da embaixada. Estil claro que sem intuito commercial. 
Os 25 exemplares de que dizem constava a edição, foram dis- 
tribuídos entre outros tantos homens de sciencia, seus amigos de 
França e Portugal.^) 

5°. Fragmentos de hum Cancioneiro Inédito que se acha na Livraria 
do Real Collegio dos Nobres de Lisboa. Impresso á custa de Carlos 



1) É Grilzmacher que affirma (Jahrbuch VI 352) ter visto na Biblio- 
theca de Berlim a cópia de que Lo rd Stuart se serviu, tirada por ordem de 
Southey, ignoro quando. A acquisirão foi feita provavelmente em 1855, no 
leilão da livraria de Lord Stuart. — Cf. Diez, Kunst- und Hofpoesie p. 16. 

2) Sobre a descripção da sua viagem v. Foulché-Delbosc, Revue 
hispanique V, No. 208. 

3) Eothsoy, Rothsey, Rothsay são formas inexactas, que Decor- 
rem freqiientemente na litteratura quo historio aqui. 

4) O exemplar de que me servi pertence á Bibl. Real da Ajuda. 
Posteriormente tive outro á mão para verificações, proveniente do espolio 
de um bibliophilo portuense, o Dr. Vieka Pinto, e propriedade do iihistre 
poeta Joaquim de Araújo. 



— 6 — 

Stuait Sócio da Acad. Real de Lisboa. Em Paris, no Paço de Sua 
Magestade Britânica. Em 4*° gr. — 1823. ^) 

§ 8. O raríssimo volume consta de 72 folhas, sendo de pre- 
liminares e innumeradas as três primeiras i. é. o frontispicio, uma 
curta Noticia do Ms., e um imperfeito fac-simile. Encerram o 
texto as 69 que seguem, numeradas de 41 — 108, tendo inter- 
calada entre a 102' e 103* outra que no original precedia a pri- 
meira, como folha de guarda; com mais uma, innumerada, no fim. 
A estranha paginação representa a que constituía a do Cancioneiro, 
precedido (como contar -se -ha) de 39 folhas de um Nobiliário e mais 
a folha avulsa a que acabo de referir -me. 

Lord Stuart estava de fé que a reproducção manuscripta era 
não só integral e fidedigna, mas rigorosamente diplomática, e tinha 
dado ordens para a impressão o ser também. Infelizmente, a rea- 
lização não correspondeu por inteiro ao ideal planeado. O amanuense 
paleographo, encarregado da cópia (quem quer que fosse) não leu 
sempre bem, por não comprehender suffi cientemente os textos, de 
modo que os crivou de erros. 2) Tampouco imitou com rigor a dis- 
posição graphica das cantigas de sorte a produzir pelo menos um 
decalque materialmente fiel do Ms. De génio económico, sup- 
primiu as paginas e meias paginas em branco, assim como os cla- 
ros entre cantigas e estrophes, e transferiu fragmentos e poesias in- 
teiras de uma columna para outra. D' este modo alterou o aspecto 
geral e reduziu a paginação em 7 folhas, das 75 de que então con- 
stava o velho pergaminho, (numeradas de 41 — 114, com exclusão 
das duas colladas contra a capa e que hoje estão numeradas 115 
e 116). Imprimiu como principies de cantiga certos remates, 
originariamente providos de toadilha musical independente, que 
accompanham algumas composições; não reparou nas vinhetas es- 



1) No catalogo da Livraria de Lord Stuart, rica de 4323 lotes, o apo- 
grapho (No. 583) tem o titulo Cancioneiro inédito em Portuguex,- Oallixiano 
qice parece ser obra do sec. XIII, ms., being a faithful transcript from 
the original in the library of the Real Collegio dos Nobres ai Lisbon. — 
O exemplar impresso é No. 494. — Vid. Catalogue of the valuable library of 
the late right honourable Lord Stuart de Rothesay , including many ilhi- 
minated and important manuscripts, chiefly collected during many years 
residence as british ambassador at the courts of Lisbon, Madrid, The 
Hague, Paris, Vienna, St. Petersburg and Braxil, which ivill be sold by 
auction . . . . on thursday the 3Pt day of May 1855. 

2) Nao reproduzo a lista que organizei, mas ponho -a á disposição 
de quem tiver interesse em vê-la. 



_ 7 — 

boçadas ou projectadas, que se notam de longe em longe; e dividiu 
mal os grupos de poesias. D' esta arte illudiu os críticos, 
que da continuação quasi ininterrupta dos textos tira- 
ram illações a favor de um só auctor. Confiados na absoluta 
fidelidade paleographica da reproducção, deixaram também d'ahi 
em deante de recorrer ao original! 

§ 9. Eis a lista das principaes divergências na disposição gra- 
phica e typographica: 

F. 48''. — Os cinco versos collocados por Stuart na col. 2* deviam 
estar na 1", enchendo ahi as linhas 14 — 30, mas com intervallos 
de três, reservadas á notação musical. 

F. 53. — Antes das palavras da cantiga 58 Por Deus haviam 
de estar em branco 17 linhas, destinadas para uma vinheta. O 
texto principia no original na linha 21. Al" columna termina em 
desanpar. A 2" apresenta por isso um aspecto totalmente diverso: 
duas estrophes e meia espessas, e no fim a estrophe inicial da 
cantiga 59 com os intervallos competentes. 

F. 53''. — Ainda aqui o agrupamento differe; não ha espaços 
em branco entre as coplas. A estrophe inicial do No. 60 pertence 
ainda á 1' col. Antes da cantiga 61" ha um vácuo onde caberia 
perfeitamente a estrophe supplementar que se encontra em outro 
cancioneiro português (O Cancioneiro Colocci-Brancuti). 

F. 54. — Falta a indicação do espaço reservado para a vinheta. 

F. 54''. — Esta meia -folha devia estar vazia. — 

De 54" a 64"^ temos portanto um adiantamento de meia-folha. 

F. 55. — Não se apontou a existência da vinheta. — 

De 65 a 75 lavra differença na importância de uma folha inteira, 
por Lord Stuart não têr deixado em branco o verso da f. 65. 

De 75 a 78 ha differença na importância de folha e meia pela 
mesma razão: a f. 76" está em branco no original. 

De 78" a 81 ha differença de duas folhas, porque 80" está em 
branco no original. 

De 81" a 84 a differença ó de três, por 83" e 84' estarem 
em branco no original. 

De 84" a 85" ella é de três e meia, por 87" estar em branco; 
na 86" de quattro, por 88" estar em branco; de 86" a 89" de 4Y2 
por 90" estar em branco; de 90 a 94 de cinco, por causa de 94"; 
de 94" a 100 de 51/2 por causa de 99"; de 100" a 103" de seis 
por causa de 103; de 104 a 108 de 6Y2 por causa de 109; em 



108'' de 7 por 114'' estar em branco. A ultima folha innumerada 
(a 116') foi descoUada da pasta direita, á qual servira de forro. 
A 115", pegada na outra metade da pasta, não foi aproveitada para 
a edição. 

A lista junta dará ao leitor ideia mais adequada das alterações 
numéricas : 



Num. 


Num. 


Num. 


Num. 


Num. 


Num. 


de 


do 


de 


do 


de 


do 


Stuart 


original 


Stuart 


original 


Stuart 


original 


41 


41 


64 


V 


87 


91^ 


V 


V 


V 


65 


V 


92 


42 


42 


65 


66 


88 


V 


V 


T 


V 


V 


V 


93 


43 


43 


66 


67 


89 


93- 


V 


V 


V 


V 


V 


94 


44 


44 


67 


68 


90 


95 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


45 


45 


68 


69 


91 


96 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


46 


46 


69 


70 


92 


97 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


47 


47 


70 


71 


93 


98 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


48 


48 


71 


72 


94 


99 


V 


V 


V 


V 


V 


100 


49 


49 


72 


73 


95 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


101 


50 


50 


73 


74 


96 


V 


V 


V 


V 


V 


V 


102 


51 


51 


74 


75 


97 


V 


V 


V 


V 


V . 


V 


102^ 


52 


52 


75 


76 ' 


98 


V 


V 


V 


V 


77 


V 


103 


53 


53 


76 


V 


99 


V 


V 


V 


V 


78 


V 


104 


54 


54 


77 


V 


100 


V 


V 


55 


V 


79 


V 


105- 


55 


V 


78 


V 


101 


106 


V 


56 


V " 


80 


V 


V 


56 


V 


79 


81 


102 


107 


V 


57 


V 


V 


V 


V 


57 


V 


80 


82 


103 


108 


V 


58 


V 


V 


V 


V 


58 


V 


81 


83 


104 


109- 


V 


59 


V 


84^ 


V 


110 


59 


V 


82 


85 


105 


110- 


V 


60 


V 


V 


V 


111 


60 


V 


83 


86 


106 


V 


V 


61 


V 


V 


V 


112 


61 


V 


84 


87 


107 


V 


V 


62 


V 


88 


V 


113 


62 


V 


85 


V 


108 


V 


V 


63 


V 


89 


V 


114 


63 


V 


86 


90 


109 


116 


V 


64 


V 


91 







— 9 — 

§ 10. O prefacio informa incompletamente e nem sempre segu- 
ramente sobre o códice, cingindo -se, como o leitor reconhecerá, 
em alguns pontos ás opiniões de Ribeiro dos Santos, que não 
nomeia. Diz que o Cancioneiro está interpolado: começando de 
apparecer na primeira folha, como parte de obra antecedente (quer 
dizer que principia com a folha numerada 102')^) é logo inter- 
rompido por um Nobiliário que se mette de permeio,'^) tornando 
a apparecer depois de elle acabado. O Cancioneiro é talvez do 
tempo de D. Denis, sendo o Nobiliário mais moderno. A lettra, 
que é maiúscula (sic), parece ser do sec. XIV ou XV. O idioma, 
mais antigo que os caracteres, é do sec. XIII, e decerto anterior 
ao reinado do monarca -trovador. As primeiras estrophes são prosa; 
as seguintes são realmente versos com medidas assaz certas e 
regulares. 

§ 11. Em substituição d'' e&ta Noticia {ou como Post-scriptum) 
costuma accompanhar os exemplares de Stuart uma Advertência^ 
um pouco mais extensa, impressa em 1824 ou 1825 em folha 
solta. ^) Ambas são obra de um benemérito luso -francês, intelligente 
e sympathico industrial, que nas horas vagas se dedicava a as- 
sumptos litterarios. "^) Sócio da Academia, em cuja fundação ajudara 
ao Duque de Lafões, relacionado com Raynouard, cuja Ode a Camões 
traduziu, T imo th e o Lecussan Verdier viveu expatriado em Paris 
de 1819 — 1823, dirigindo ahi edições do livros portugueses. 

Na Advertência amplia e detalha um pouco a descripção do 
códice, emendando tacitamente alguns erros, e repetindo outros. 
Do aggregado de duas obras tão diversas em assumpto e estylo, 
como o Nobiliário e o Cancioneiro, tira a conclusão surprehendente . . . 
que não são coevas, nem mereceram a quem as juntou egual apreço! 



1) Affirma o editor que esta folha de guarda se acha na impressão a 
foi. 103. Como se vê da tabeliã comparativa, deveria ter dicto „ depois de 
foi. 102 do original." 

2) Diz que o Nobiliário vae de foi. õ — 40. Leia -se: de foi. 2 — 40. 

3) A noticia foi distribuída antes da transferencia do Cancioneiro para 
a Bibliotheca da Ajuda. 

4) Vid. Pmiorama, 2^^ Serie; Vol. I p. 407; Dicc. Bibliogr. de Inn. 
da Silva Vol. II p. 317 e Vol. VII p. 370 — 374; Visconde de Juromenha, 
Obras de Camões^ Vol. I p. 213; e principalmente Actas das Sessões da 
Academia Real das Sciencias 1849 p. 50. Ahi se afíirmou perante a 
Academia inteira que Lord Stuart aproveitou os talentos e conhecimentos 
da lingaa portuguesa de que dispunha o francês Lecussan Verdier, 



— 10 — 

Algumas poucas canções parecem vertidas de trovas provençaes. 
Na linguagem encontram -se gallicismos. O metro predominante 
prova que Faria e Sousa tinha plena razão ao insurgir -se contra 
os que reivindicavam para o quinhentista Garcilasso a introducção 
dos hendecasyllabos na península. Aponta para as notas ao Nobi- 
liário do Conde de Barcellos, nas quaes o mesmo polygrapho cha- 
mara em 1646 (Madrid) a attenção do publico para seis trovadores, 
mencionados naquellas prosas antigas „de quasi 400 annos uns, 
e de mais de 300 outros". i) 

Allega que muito mais antigos eram os versos de Gonçalo 
IJermigues, excellente poeta português, que florescia pelos annos de 
Christo 1090. Infeliz lembrança, porque aquella daninha entidade 
legendaria (de braço dado com Egas Moniz, Mendo Vasques de 
Briteiros, e mais personagens fabulosas, em cujo nome os falsados 
do » tempo das mudanças « haviam espalhado metros, rimas, vocábulos 
e pensamentos estupendos) tornou a levantar a cabeça com dobrado 
arrojo, desde que pelo cancioneiro ficoii provada a existência d'aquella 
antiga poesia gallaico- portuguesa, a cujas invenções subtis e gra- 
ciosas palavras o Marquês de Santilhana se referira no sec. XV. 2) 

§ 12. Os artigos dedidados por sábios forasteiros e nacionaes 
á publicação de Lord Stuart, dos quaes tenho noticia, são os se- 
guintes : 

6°. Raynouard no Journal des Savants p. 485 — 495 do mes de Agosto 

de 1825. 
7°. Diez na Revista Berliner Jahrbúcher fur wissenschaftliche Kritik. 

No. 21 e 22. — Fevereiro de 1830. 
8°. João Pedro Ribeiro, Reflexões filológicas. No. 2 p. 5. Coimbra 
1835; e No. 5 p. 18. 1836. 



1) Vid. Cap. V. 

2) O principal culpado foi por ventura Ribeiro dos Santos. Tendo se 
occupado longamente d' estas relíquias apocryphas em cuja authenticidade 
acredita, as commentou „com muita erudição" numa das suas Memorias: 
Dos mais antigos monumentos da poesia portuguexa nos sec. XII e XIII. 
no Jornal da Sociedade dos Amigos das Letras. Vol. 1836, No. 2. Rivara 
enalteceu - as , no Panorama, 2^^ Serie, Vol. I p. 406. Costa e Silva no seu 
Ensaio tece elogios a algumas, regeitando outras. Th. Braga defendeu -as 
repetidas vezes de 1867 até hoje, introduzindo -as no seu Cancioneiro 
popular. E ainda neste anno de Jesu- Christo continuam em Portugal e 
Galliza a impôl-as á devoção dos leigos, em livros de instrucção ofíicial e 
extra -official. A critica illustrada de J. Pedro Ribeiro, Diez e alguns outros 
sábios ainda não surtiu effeito. Por isso mesmo é dever meu tornar sempre 
de novo ao assumpto. 



— U — 

9°. Joaq. H. da Cunha Eivara, no Panorama, 2"** Serie. Vol. I 

p. 406. Lisboa 1842. 
10°. J. da Cunha Neves Carvalho Portugal, Noticias de alguns 
trovadores portugueses e gallegos nos primeiros séculos da monarchia 
e de suas poesias ^ considerados como elementos de progresso , no Pano- 
rama, 2^<' Serie. Vol. III p. 72 — 78 e 325 — 340. — Anno 1844. i) 

§ 13. O precursor de Diez restringiu -se a accentuar a im- 
portância linguistica e litteraria dos novos textos românicos, con- 
siderando -os anteriores ao Conde de Barcellos, e muito provavel- 
mente da época de D. Denis. 

§ 14. O mestre, a cujo alcance não estava nenhum dos exem- 
plares (a ponto de se vêr obrigado a mandar tirar um treslado sobre 
o de Eaynouard) baseando -se na notável monotonia das 260 canções, 
suppõe, como Ribeiro dos Santos, que todas seriam de um só auctor, 
cujo nome, inscripto no principio do códice, se perdeu. Se fossem 
vários os poetas, encontraríamos seus nomes á frente do cancioneiro 
parcial de cada um, tal qual acontece nas compilações da Provença 
e Allemanha e nos cancioneiros peninsulares dos séculos XY e XVI. 
Diez aventa ainda a hypothese que o auctor seria o Joan Coelho, 
nomeado em uma das trovas; 2) e refere certa allusão a um Rei 
de Castella e Leon^) a Alfonso X., o liberal fautor da musa pro- 
vençalesca. 

§ 15. A primeira these sobre a unidade das cantigas adheriu 
o auctor das Dissertações chronologicas ^ dirigindo, além d' isso, ob- 
servações sensatas sobre a importância do cancioneiro aos continua- 
dores do Diccionario da Academia. Distinguindo entre a idade do 
pergaminho, que suppõe do sec. XIV, e a do auctor, que colloca 
no sec. XIII, João Pedro Ribeiro fixa as datas 1230 — 1252, 
por julgar devam referir- se a Fernando III. as allusões ao soberano 
de Castella e Leon. Aponta concordâncias entre o vocabulário das 
trovas e os documentos do reinado de Affonso III. e propõe uma 



1) Desconheço um artigo do grande romancista e diplomata hespanhol 
D. Juan Valera que dizem escripto em 1827. Também não vi outro de 
Silva Leal, datado de 1843 que encontrei citado. Villemain no Cours de 
littérature française, Bruxelles 1840 (p. 677) suppõe o Cancioneiro des- 
coberto por Lo rd Stuart na Bibliotheca de Coimbra! Ainda ha mais vbsti- 
gios do interesse que a publicação despertou entre os cultores das lettras 
como p. ex. a Carta do Bispo -Conde Fr. Francisco de S. Luiz ao Dr. Ant. 
Nunes de Carvalho que transcrevo nos Docum,entos. 

2) CA 89. 

3) CA 256. 



_ 12 — 

serie de emendas. Com todo o direito taxa de medíocre paleo- 
grapho o que transcreveu o texto a favor de Lord Stuart. 

§ 16. Eivara, o activo director da Bibliotheca Eborense, 
adopta o mesmo parecer. Conta que houve quem reparasse no titulo 
Cancioneiro^ como impróprio para obra de um único auctor. Prova 
que certas palavras archaicas, como chus (= plus), frequentes 
ainda em escripturas do principio do sec. XIV, não se encontram 
facilmente depois de 1330. E faz -se eco da opinião geral que 
lamentava a raridade da ediyão privilegiada e a nimia fidelidade 
da reproducção, censurando o editor por ter conservado todas as 
abbre viaturas e nào separar palavras conjugadas, nem ligar as que 
andavam repartidas em syllabas, para a solía, embaraçando d' este 
modo inutilmente a leitura. Finalmente exprimiu o voto que outra 
edição substituísse de prompto aqueUa raridade bibliographica. 

§ 17. Prestando ouvido attento a estas vozes João da Cunha 
Neves Portugal preparou-so a realizar o justo desejo. Estudou as 
litteraturas românicas, com affinco, mas naturalmente sem conheci- 
mento bastante dos problemas philologicos e litterarios.^) No seu 
ensaio disserta tanto sobre a origem commum como sobre a ad- 
mirável semilhança, das linguas neo- latinas. Apresenta amostras 
poéticas das principaes, comparando -as com algumas das trovas 
gallaico- portuguesas. Com relação á idade do Cancioneiro, decla- 
rado por Verdier muito anterior ao Conde D. Pedro de Barcellos, 
tanto pela linguagem como pelo estylo e metros, concluo que o 
auctor da coliecção, ou ao menos da maior parte d'ella, com bom 
fundamento se podia suppôr do tempo de Sancho I de Portugal. 

§ 18. Além d' estes estudos impressos existe outro inédito que 

merece registar-se, escripto entre 1825 e 1847, 2) por D. João 

da Annunciada (f 1847). 

11°. D. João da Annunciada, Historia da Litteratura poética por- 
tugiiexa desde as origens até Miguel do Coido Guerreiro. — Ms. 
da Bibl. d' Évora, 556 pag. in 4'". Vid. Cap. XXVIII p. 150—194.— 
Escripto entre os annos de 1825 e 1847. 

Cónego regrante de S'° Agostinho, e depois da extincção das 
ordens monásticas cónego da Sé de Évora, ^) este erudito muito 



1) Também presta fé á authenticidadedosversosdeGonçalo Hermigues. 

2) Devo o conhecimento d' este trabalho ao meu bom amigo o Dr. J. Leite 
de Vasconcellos que o descobriu na Bibl. de Évora em Maio de 1899. 

3) Inn. da 8ilva, Diccionario Bibliographico. Vol. III p. 285. 



— 13 — 

relacionado com Lord Stuart (que antes de embarcar para o Brasil 
lhe deu, em mão própria, um exemplar da edição), e também com 
Raynouard, o qual lhe enviava as suas obras — escreveu um extenso 
tratado de litteratura pátria. Um dos capitules é uma dissertação 
sobre o Cancioneiro. Alli discute o titulo, assentando que, visto 
o gallego e o português pouco ou nada terem difPerido entre si até 
ao sec. XIV, tanto lhe convinha a epigraphe Cancioneiro português - 
(jalliziano, como a de Cancioneiro galliziano -português , mas que 
o mais apropriado seria: Gaia- Sciencia dos trovadores portugueses. 
Quanto ás obscuridades do texto' separa as materiaes (como divisão 
de conglomerados graphicos de palavras, orthographia, ponctuação, 
hyphens etc.) das de ordem syntactica, de estylo e de léxico. 
Oíferece em seguida a interpretação de 400 vocábulos e expressões, 
coordenadas alphabeticamente, acertando umas vezes e outras não.^) 
Com relação ao assumpto, caracteriza o cancioneiro num estylo bastante 
retorcido como pobríssimo de ideias, falto de conhecimentos, quanto 
pode ser. 

y> Nenhum facto histórico, sagrado ou -profano, nem descripção 
geographica, nem allusão mythologica alli se encontra; todo elle con- 
siste num dizer repetido, intimado, paraphraseado de mil formas 
e maneiras; o desprezo da dama é o maior tormento do amante 
porque o amor pelo bem amado cresce no amante á medida das 
suas prendas; a desconfiança ou receio de o não goxar augmenta 
a violência do sentimento. Não valem amigos; a existência torna - 
se dura, a morte suave; quer -se ser insensivel, porém o bom parecer 
da dama o não permitte, quer -se morrer, mas não se pode; d' aqui 
as invectivas contra Amor, as maldições ao dia em que se foi nado, 
ao dia em que primeiro se viu a dama e cila agradou; d' aqui 
os desejos de ensandecer, as blasfémias contra Deus que não tem 
poder sobre as vontades; d' aqui finalmente a necessidade de se ter 
ódio a si próprio p&r se ver desamado. « 

Suppõe que não seriam muitos os auctores do Cancioneiro, mas 
um só, e natural de Portugal por causa das allusões geographicas 
a Santa Yaia, a Maia, o Porto, Villa Nova de Graia. Inclina -se 



1) Eis alguns exemplos: beeyga, composto de bem e igar =^ iguala! — 
cha, o mesmo que ca! — endoado, dorido, sentido; usa Jorge Ferreira! — 
fiux, confiança; mui usada! — sentirigo, ou he palavra imaginada ou sino- 
nimo de Santarém! 



— 14 — 

a crer que esse auctor único fosse o trovador João Soares de 
Paiva, da era de 1230. 

§ 19. Devemos um logar á parte ao já mencionado Christiano 
Frederico Bellermann por ter colhido os materiaes para o seu 
importante estudo sobre os velhos cancioneiros portugueses nos pró- 
prios manuscriptos e em impressões raras, durante a sua estada 
em Portugal de 1818 — 1825. 

12°. Dr. Christian Friedrich Bellermann, Die alten Liederbiicher 
der Portugiesen oder Beitrãge %ur Oeschichte der portugiesischen 
Poesie vom 13. bis ■x,um Anfang des 16. Jahrhunderts nebst Probe^i 
aus Handschriften und alten Drueken. — Berlin 1840.^) 

No juizo que formula sobre o valor artístico da obra, preciosa, 
sim , mas que ainda assim não nos indemniza senão muito imperfeita- 
mente dos Cancioneiros perdidos de D. Denis e seus cortesãos, do- 
cumenta tino critico e fervorosa sympathia. E diz: 

y> Nestas cantigas não ha vestígio d' aquella lueta entre o racio- 
cinio frio e a paixão amorosa que se nota posteriormente em tantas 
poesias peninsulares , lucta na qual o namoi'ado acaba sempre por 
sacrificar o melhor do seu sentimento ás subtilezas da razão. Para 
o nosso poeta o amor é o que existe de mais sagrado e sublime; 
não se revolta contra o seu poderio, posto que por elle soffra e 
morra. Por isso mesmo os seus versos parecem nascer de senti- 
mentos reaes .... Apesar de uma grande monotonia, ha ahi 
verdadeira e intim,a poesia affectiva, que brota de um 
coração commovido,^) o que lhes dá certa vehemencia que se 
impõe , um. valor duradouro e a primazia sobre as composições lyricas, 
recolhidas nos cancioneiros impressos da península. « 

Bellermann reproduz 21 poesias, em lição critica geralmente 
boa, traduzindo quatro, lindamente. 3) Como se vê da passagem 
citada, estava persuadido, como os mais, que um único poeta foi auctor 
de todas ou quasi todas as trovas. Em harmonia com Ribeiro dos 
Santos tenta reconstruir a historia do namorado, juntando todas as 
allusões e referencias a localidades peninsulares, pondo porem de 
parte, como não pertencentes ao cyclo principal, i. é. ao romance 
do auctor, alguns versos alegres e os que se referem a certa 



1) Vid. p. 8 — 14; 46 — 47 e 55. 

2) O sublinhado é meu. 

3) As poesias traduzidas estão na nossa edição numeradas 189, 99, 27õ 
e 91; as simplesmente transcriptas : 1.37, 48, 295, 236, 247, 181, 251, 33, 
256, 198, 243, 110, 116, 269, 47, 183, 306. 



— 15 — 

D. Leonor. 1) Collocando-o na segunda metade do sec. XIII frisa a imi- 
tação provençal de que é prova segura o decasyllabo jambico. 
Fallando do Conde de Barcellos, aventa, mas regeita como indecisa 
a hypothese, suscitada naturalmente pela junoção do Cancioneiro com o 
Nobiliário e pela menção do logar Barcellos em uma das Cantigas. 2) 
Recorda também o trovador gallego João Soares de Paiva, a 
cujos amores infelizes com uma infanta de Portugal o Marquês de 
Santilhana havia alludido; sem comtudo pretender identificá-lo com 
o auctor das cantigas. 

Na descripção do códice affasta-se um tanto (não muito) de 
Ribeiro dos Santos e Lecussan Verdier. E, por exemplo, o pri- 
meiro que menciona as miniaturas e vinhetas.^) Ao propagar a 
falsa noticia sobre a lettra maiúscula do códice, fiou -se (sup- 
ponho eu) mais nas indicações alheias, impressas, do que na sua 
memoria e mesmo nos apontamentos por elle próprio colhidos, 
vinte annos antes.*) E tal reserva comprehende-se. 

§ 20. Sobre este trabalho consciencioso baseia -se um estudo 

notável de Fernando Wolf, o príncipe dos hispanizantes de então, 

o qual por meio de uma conjectura suggestiva, ahi enunciada, veio 

a ser o iniciador de um novo periodo de investigações, muito mais 

fecundo que o primeiro. 

13°. Ferdinand Wolf, em Hallische Litteratur - Zeitung No. 87 — 91 
(i. é. Vol. II p. 82 — 86, 89—112, 117 — 120); o Nachschrift a 
col. 214 — 216 da Miscellanea do dito jornal.^) 

Foi no Post-Scriptum que o sábio Yiennense, fundando -se 
nos famigerados dizeres de Duarte Nunes de Leão sobre a activi- 
dade litteraria de D. Denis e sobre o achado, em Roma, no sec. XVI 
de um Cancioneiro com obras do monarca, accentuou a urgência de 
se fazerem buscas na Bibliotheca do Vaticano, dizeres aos quaes 



1) CA 198 Por Deus! ay Dona Leonor. 

2) CA 236. 

3) Vid. von Schack, Oeschichte der dramatischen Litteratur und 
Kimst in Spanien, Vol. I p. 96. 

4) Creio que o estudo foi redigido com bastante antecedência a 1840. 
Pelo menos Bellermann não estava informado da suppressão do Collegio 
dos Nobres, nem da transferencia do Códice, nem ainda do achado das 
folhas soltas em Évora. O projecto da Academia, de publicar o Cancioneiro, 
a que elle se refere, deve portanto ser o de 1814. 

5) O artigo de "Wolf foi traduzido por Edelstand du Méril no 
Journal des Savants de Normandie p. 30 — õl e 79 — 95. 



— 16 — 

Bellermann havia vagamente alludido na sua memoria, e que terei 
de transcrever mais tarde. ^) 

§ 21. O illusti'e sla vista Kopitar encarregou -se, a pedido de 
Wolf, de promover essas pesquisas, mas como, executadas frouxa- 
mente pelos empregados do Vaticano, não surtissem o eifeito 
desejado, fallou do seu propósito e das suas tentativas infructuosas 
a um franciscano português, o Padre J. I. Roquete. Este, va- 
lendo -se da influencia de outro Embaixador português, o Vis- 
conde da Carreira, conseguiu que os Custodes, renovando a cam- 
panha com mais interesse, descnbrissem o importantissimo códice 
4803, um verdadeiro thesouro, no qual, a par do Cancioneiro pro- 
curado de D. Denis, surgia, em torno do monarca, uma plêiada 
brilhante de mais de 100 poetas, com um pecúlio de 1200 e 
tantas poesias gallaico- portuguesas. 2) 

Parece que Wolf planeou editá-lo. Adolpho Tobler, então 
um novel romanista, mas de ha muito uma das glorias mais res- 
plandescentes da nova sciencia, coordenou logo a lista dos trova- 
dores, a instancias do professor de Vienna, penso que em 1847. 

§ 22. Mas antes que este chegasse a realizar o seu intento, 
um brasileiro, bem recommendado, conseguiu por empenhos diplo- 
máticos que lhe fossem extractadas as poesias de D. Denis, o 
melhor e mais fecundo dos poetas ahi representados, e ainda então, 
na mente de muitos, o primeiro que em Hespanha metrificara em 
rima, á imitação dos Avernos e Limosinos. 

14°. Dr. Caetano Lopes de Moura, Cancioneiro d' El -Rei D. Dinix, 
pela primeira vex impresso sobre o manuscripto Vaticano com 
algumas notas illustrativas e uma prefação histórico - litteraria. — 
Paris, Aillaud, 1847. 

A edição é defeituosissima (in wissenschaftlicJier Hinsicht sehr 

ãrmlich)^ tão illegivel como a do Collegio dos Nobres, não só 

para os menos versados em paleographia. O trabalho de Caetano 



1) Vid. § 110. 

2) Pode ser que a existência do Códice não fosse absolutamente des- 
conhecida. A copia que possue um mysterioso Grande de Hespanha é do 
sec. XVIII, segundo a única testemunha que a viu. Mas como esta, o 
auctor das Trovas e do Cancioneirinho , se engana freqiientemente nos 
seus cálculos e nas suas conjecturas, a decisão resta duvidosa. Vid. Cap. V. 

Pelo mesmo motivo teremos de pôr de remissa o que Varnhagen diz 
a respeito de Mayans y Siscar (ou outro bibliophilo hespanhol) no opúsculo 
Th. Braga e os antigos Romanceiros de Trovadores p. 22. 



- 17 — 

Lopes de Moura, que de modo algum estava preparado para a 
difficil empresa, restringe -se a um punhado de notas e a uma 
Introducçãosinha, na verdade um pouco mais ampla e succulenta 
do que fora a de Lecussan Yerdier. Na impressão do texto tam- 
bém foi muito infeliz. Innumeras passagens estão faltas de sen- 
tido, de deturpadas que vão. Nem mesmo separou e numerou as 
poesias. A desoripção do códice é pouco exacta. Sendo a lettra 
do principio do sec. XVI ou fins do anterior, data -a dos principies 
do XV, provocando d' este modo muitas conjecturas erróneas. Com- 
prehende-se que adoptasse a ideia de possuiraios no códice Vati- 
cano se não o mesmo volume, pelo menos copia antiga d'aquelle 
que o Marquês de Santilhana disse haver visto, sendo moço, em 
casa de sua avó. 

Não leu as trovas todas, mas notou vários nomes de auctores. 
Communica também alguns dados sobre D. Denis, seu pae Affonso III, 
e vários personagens históricos, que se distinguiram como trova- 
dores (Fernão Fernandes Cogominho 1261; João Lobeira 
1278; Diogo Lopes de Bayão 12G4). Folheando o volume, des- 
cobriu uma das cantigas do Cancioneiro do Collegio dos Nobres, 
attribuida a certo poeta, cujo nome lhe parecia ser Joan Vaz (erro 
por Juan Vaasques).^) 

§ 23. E natural que a descoberta do Cancioneiro da Vaticana 
alvoroçasse o mundo scientifico e que o eco se repercutisse no 
seio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, tanto mais qiie um 
renascimento vivaz dos estudos históricos parecia então querer des- 
abrochar em Portugal, sob o impulso individual mas vigoroso de 
um verdadeiro cultor da sciencia. 

Eis os factos relativos aos Cancioneiros, que ahi tinham occor- 
rido desde 1823, e que devo registar aqui, embora o seu verdadeiro 
logar seja no capitulo seguinte. Pouco depois da publicação de 
Lord Stuart, o governo mandou transferir o original para a Biblio- 
theca Real da Ajuda, onde ficou depositado e para onde mandou 
recolher posteriormente mais onze folhas desmembradas que appare- 
ceram em Évora. Naquelle deposito estava por tanto, quando 
Alexandre Herculano, ao aceitar em 1839 o cargo de Biblio- 
thecario d' El -Rei D. Fernando, ficou incumbido de desempenhar 
idêntica funcção na Livraria da Ajuda. Debaixo da sua égide 

1) CA 242. 



— 18 — 

começou para a maltratada relíquia, entrada finalmente em porto de 
salvação, após seis séculos de abandono, um período de bonança 
e ao mesmo tompo de actividade fecunda, posto que lenta, indirecta, 
e exercida quasi inteiramente por forasteiros. 

Além de prevenir a sua imminente e progressiva deterioração 
e de a tornar accessivel aos estudiosos, a medida do Governo 
surtiu outro efeito ideal, de maior alcance. 

Desculpe o leitor se abro aqui um parenthese. Sem ella, 
Portugal talvez não contasse entre as suas obras -primas as Narra- 
tivas Históricas^ o Eurico e o Monge de Cister. O torso grandioso 
da Historia de Portugal, porventura não estaria esculpido e neste 
caso a lingua e a litteratura do pais, vigorosamente retemperadas 
por essas e outras creações magistraes, executadas ou promovidas 
por Herculano, não seriam o que hoje são. De 1832—1851 o 
» mestre de todos nós«, como Oliveira Martins e Anthero de Quental 
costumavam appellidá-lo, teve de folhear innumeras vezes, em leitura 
assidua, as laudas do volume em que estão, par a par, os restos 
do Livro de Linhagens e o Cancioneiro, obras muito diversas, mas 
que se completam e explicam de um modo feliz, com relação á 
historia da civilização pátria. Tanto para poder editar os cadastros 
da fidalguia nos Monumentos históricos de Portugal, cujo fundador 
e editor era, como para poder crear o romance, a novella e o conto 
histórico, e ainda para desenhar os quadros de historia nacional 
até 1279, Herculano teve de arrancar os seus mais Íntimos arcanos 
a ambas as obras, compenetrando -se do espirito da Idade Media 
que nellas respira e falia. 

Com relação aos trabalhos da Academia e em especial quanto 
ás publicaçães da secção de lingua e litteratura, é verdade que 
não conseguiu organizá-las, de modo a logo lhes imprimir direcção 
superior e fundar escola. Nas noticias que seguem neste capi- 
tulo e no seguinte, veremos todavia que nunca deixou de interessar - 
se pelos que tomavam sobre si o encargo de publicar o Cancio- 
neiro e que os auxiliou sempre generosamente. 

§ 24. Sob a impressão produzida pelo apparecimento do 
códice da Yaticana e o trabalho imperfeito de Lopes de Moura, 
irritada por ventura também por boatos surdos sobre os empre- 
hendimentos individuaes de um enérgico erudito, vindo de fora 
parte, o qual estava decidido a publicar com o apoio de Herculano 



— 19 — 

uma edição critica do Cancioneiro de Lisboa, e em seguida o de Roma, 
a illustre corporação começou a agitar -se, cogitando sobre o com- 
promisso mallogrado de 1814. Uma sessão litteraria foi convocada 
para 25 de Abril de 1849. Neves Portugal formulou então 
uma proposta positiva para a impressão official do » texto mais 
valioso da litteratura pátria «, declarando -a inadiável. 

15°. João (la Cunha Neves e Carvalho Portugal, Proposta para 
a impressão do antigo Cancioneiro do extincto Collegio dos Nobres, 
impressa nas Actas das Sessões da Academia Eeal das 
Sciencias de Lisboa. Vol. I p. 48 — 54. — Lisboa 1849. 

Criticando mais uma vez a edição de Lord Stuart de inintelli- 
givel pela sua fidelidade formal, e roçando pelas obscuridades do 
idioma mixto ou «artificialmente composto* em que, segundo elle, 
as trovas estão escriptas, asseverou que, tendo continuado a occu- 
par-se da lingua e litteratura provençal e francesa, conseguira 
dar -lhes sentido corrente. Prometteu um glossário » razoado «, offe- 
recendo á Academia os seus serviços para tudo o mais. 

§ 25. Esta proposta havia de ser tomada em consideração logo 
na primeira assembloa de Effectivos. E realmente pouco mais 
tarde, a IG de Maio, discutiram -na, assentando que a Classe de 
Sciencias moraes o bellas lettras nomeasse uma comraissão, entrando 
o próprio auctor do plano, afim de tratarem do modo de a levar a 
efeito e apresentando mais tarde o seu parecer aos consócios.^) 

Em Julho (11), o director podia participar que para membros 
da commissão foram nomeados, além de Cunha Neves, Alexandre 
Herculano e o secretario perpetuo da Academia. 2) Após ainda meio- 
anno (em 19 de Dez.)^) . . . ficou finalmente decidido . . . copiar -se 
mais uma vez o manuscripto da Ajuda! 

§ 2G. Quando tornaram a reunir a 10 de Outubro, alguém teve 
de confessar tacitamente que a receada iniciativa particular havia, 
ainda d' esta vez , tomado a dianteira ao primeiro instituto scientifico 
do pais. — O innominado depositou sobre a mesa, entre outros 
donativos, um livrinho de apparencia muito modesta, dado á luz 
por Francisco Adolfo de Varnhagen, encarregado de negócios 



1) Actas das Sessões I p. 91. 

2) Ib. 239. 

3) Ib. 421. Veja-se a Portaria do Governo, publicada no Diário de 
15 de Agosto de 1849 (No. 191). 

2* 



— 20 — 

da legação do Brasil na corte de Madrid, i) O » livrinho «, de que 
logo fallarei, era a ambicionada edição »critica« do Cancioneiro. 

§ 27. As peripécias posteriores conservaram -se e conservam- 
se encobertas aos olhos dos profanos. Parece todavia que os dese- 
jos platónicos e as esperanças bretonicas de verem surgir por 
entre os confrades um campeão salvador não se extinguiram por 
completo. Da ordem de tirar copia já disse. 2) Ha quem afíii-me 
que entre 1855 e 1865 os Académicos resolveram imprimir no 
Corpo histórico, intitulado Portugalise Monumenta Histórica, 
os antigos Cancioneiros todos, como complemento orgânico e im- 
prescindível dos Nobiliários (publicados de 1859 a 1861),^) ou pelo 
menos o manuscripto de Roma, mas que não conseguiram obter o 
treslado.*) Segundo outros, tratava -se apenas do Cancioneiro da 
Ajuda, ^) numa edição independente d'aquella magna collecção 
histórica. Um apographo d' èst' ultimo, que existe no Archivo da 
Academia (de mão e lettra do benemérito paleographo João Pedro 
da Costa Basto) estava, dizem, destinado a este fim. Ignoro todavia, 
quando se tirou. Talvez perto de 1870, visto que então constava 
a Yarnliagen^) haver uma sabia corporação, por todos os titulos 
habilitada, que se propunha editar o Cancioneiro do Yaticano, e 
premeditava também nova impressão do Cancioneiro da Ajuda. 

Seguiu -se um longo silencio, interrompido só nestes últimos 
annos, como contarei no fim d' esta Resenha. 

O que se passou fora do recinto do antigo convento de Jesus 
explica e justifica até certo ponto a inactividade dos Académicos. 



1) Actas das Sessões I 297. 

2) J. da Cunha Neves Portugal morreu em 1856. 

3) Th. Braga numa Proposta para a impressão dos Cancioneiros 
Trobadorescos Portuguexes (No. 74 d' este elenco) affirma que a copia 
diplomática do CA, existente na Academia, era destinada ao Corpo dos 
Scriptores. 

4) F. A. Coelho assim o imprimiu na Bibliographia Critica (p. 188). 

5) Veja -se o parecer de I. F. Silveira da Motta, A. C. Teixeira de 
Aragão, Henrique da Gama Barros sobre a Proposta a que alludo ua nota 
3. Nelle afíirmam a p. 8 que nenhum dos académicos encarregados da 
pubhcação dos P. M. H. pensou em incluir os Cancioneiros na collecção, 
porque nenhum os considerava narrativas históricas. E de facto em 
1874, a secção de Historia e Archeologia, tendo de pronunciar -se sobre 
aquella publicação, nem sequer fallou dos Cancioneiros. 

6) Vid. §§ 38 e 39. 



— 21 ~ 

§ 28. O volume, depositado em 1849 na mesa da Academia, 
tem o titulo seguinte: 

16°. Trovas e Cantares de um Códice do XIV século ou antes mui 
provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. — 
Com dois fac -símiles. — Madrid, 339 pag. in 16". 1849. 

A Introducção (de XLII pg.) é datada de 16 de Julho do 
mesmo anno. Seguem as Trovas e os Cantares com numeração 
até 286. Um l*^ Supplemento de a — i contém as poesias »que 
ficaram sem collocação, por haver duvidas para esta; ou por pare- 
cerem estranhas ao assumpto geral das outras «. Um 2^° Supple- 
mento, de j — s, encerra »os troços que parecem fragmentos (i. é. 
principies) de cantares ou que evidentemente o são.« Num 3° Suppl. 
de t — « vão incluídos » troços que manifestamente são os finaes de 
vários cantares «. Um Romance do Conde de Barcellos, da lavra 
de Varnhagen, forma o V^ Appendice. O 2*^° consta da uma Ta-' 
bella comparativa das Cantigas com os legares em que se acham 
na publicação de Stuart. O S^^ abrange varias composições em 
dialecto gallego. O 4^° é um glossário de algumas vozes antiquadas. 
Uma advertência final, na qual se emendam vários erros de sepa- 
ração das cantigas, informa que haviam de seguir -se notas eluci- 
dativas, mas que o auctor preferia reservá-las para o futuro. Segue 
finalmente a lista de erratas. 

Bastará este indiculo para convencer da somma de tra- 
balho, gasto nesta edição (que Varnhagen ainda assim chama 
modestamente »de ensaio e estudo «) e da sua valia superior, com- 
parada com as publicações de Lord Stuart e Lopes de Moura. 

Ás 260 Cantigas da impressão de 1823 juntara mais 42, 
tiradas das 11 folhas avulsas, vindas de Évora, i) e copiadas por 
Herculano. Na leitura do texto não faltam signaes de methodo 
critico, embora, de modo algum, se possa considerar isento de erros, 
ás vezes bem estranhos. 2) O que embaraçou e em parte annullou 
os esforços do editor foi a ideia antiga e preconcebida de o Can- 



1) O termos por junto um pecúlio de 312, em logar de 302 (260 + 42) 
resulta de pequenos erros de calculo de Varnhagen. A cantiga numerada 6 
nas trovas é, p. ex. a f linda da antecedente; e o fragmento x. é o final 
da 172. 

2) A lista dos erros de leitura, que coordenei em 1877, consta de 
muitas centenas de exemplos. Os principaes já foram notados por Diez a 
p. 139 — 142 da obra registada aqui sob o No. 22. — Cf. Cap. lII. 



— 22 — 

cioneiro ser obra de um só aiictor, e todas as poesias dirigidas a 
uma única dama. Collocando-se neste ponto de vista falso, mas 
então geralmente aceite, resolveu dar nova ordem » lógica e natu- 
ral « ás cantigas, a fim de reconstituir o romance do ti'Ovador. 
Para legitimar a ousada tentativa forjou a lenda de estarem bara- 
lhadas tumultuariamente as folhas do velho pergaminho. Um 
simples exame material dos cadernos e do seu nexo, feito con- 
scienciosamente, tê-lo-hia desilludido, persuadindo -o do contrario. 

Mais coherente e justificado era o presupposto que equipara o 
Cancioneiro da Ajuda ao Livro das Cantigas do Conde de Barcellos, 
visto esse livro ser, além do Cancioneiro de D. Denis e do de 
Alfonso o Sábio, o único de que temos noticia antiga e authenticada. 
A conjectura já fora, de resto, formulada por Bellermann, com 
toda a reserva; e podia- se, e ainda hoje se poderia defender, com 
'tanto que se procure no Livro das Cantigas, não um álbum com 
versos do Conde, mas antes uma compilação feita por sua ordem 
6 sob a sua direcção, i) No sentido em que Varnhagen a tomava, 
a attribuição é fundamentalmente falsa, sendo também mera phan- 
tasia a identificação da supposta dama do trovador com a Rainha 
D. Maria, filha de Affonso IV. de Portugal e esposa do Rei de 
Castella Alfonso XI. 

Apesar d' estes e d' outros graves defeitos, o volume de Varn- 
hagen prestou ás lettras um serviço deveras valioso, tornando 
accessivel a muitos os textos de que até, então haviam tido o mono- 
pólio somente os 25 eleitos de Lord Stuart. 

§ 29. Todos os que deram conta das Trovas assim o reco- 
nheceram. O primeiro artigo de que tenho noticia, saliiu num 
jornal pouco conhecido. 

17°. Revista popular, Vol. II p. 201 No. 25. — Lisboa, 1849. 

O anonymo auctor concede a Varnhagen largas vantagens 
sobre o predecessor, por apresentar bastantes versos inéditos, estando 
todos dispostos em melhor ordem e mais intelligiveis. 

§ 30. O segundo a tomar a palavra era sócio da Academia. 

18°. José Maria da Costa o Silva, no Ensaio biographico - critico 
sobre os melhores poetas portuguexes. Vol. I, cap. 7 — 9. Lisboa, 
1850. 

1) Cf. Cap. V. 



— 23 ~ 

Este historiador da litteratura pátria aventa algumas duvidas 
a respeito dos novos resultados, principalmente quanto á attribuição 
das cantigas a um só poeta e também quanto á ordem dada ás 
trovas, mas sem bastante conhecimento de causa. ^) 

§ 31. Os accrescentos promettidos por Varnhagen foram publi- 
cados ao cabo de um anno incompleto no mesmo formato e typo, 
como continuação do volume, e com a epigraphe seguinte: 
19°. Post Scriptum: Notas (p. 339 — 368). Madrid, 1850. 

Depois de novo confronto da sua impressão com o original, 
tendo emprehendido uma exciu^são a Galliza onde estudou a lingua 
viva, o futuro Visconde de Porto Seguro, já então sócio livre da 
Academia, 2) encontrava -se habilitado a emendar e explicar varias 
passagens. Eebate também as observações criticas de contradictores 
como Costa e Silva, tentando reforçar a sua argumentação. Refere- 
se á inscripção Rei D. Diniz (ou antes Rey Dõ Denis), na 
orla inferior do códice,^) que primeiro desprezara ou não vira, 
opinando que ella indica, não o auctor, mas o possuidor do volume, 
o qual portanto julga anterior ao anno 1325. Falia das 16 vinhetas 
(a que Bellermann se referira) sem comtudo comprehender a sua 
significação. E communica mais escriptos em dialecto gallego. 

§ 32. A opinião geral dos Portugueses sobre as publicações 
de Yarnhagen acha -se condensada nos artigos do Diccionario 
Bihliographico. Segundo Innocencio da Silva o estudioso brasileiro 
conseguiu não só dar ás Trovas o agrupamento e o nexo que lhes 
faltam no códice original, mas illustrou este sobre todas as espécies 
que podem interessar -nos, tornando inútil a publicação de Lord 
Stuai-t. 

20°. Innocencio Francisco da Silva, Diccionario Bihliographico 
portuguez, Vol. II p. 320. Lisboa 1859.^) 

§ 33. O que de melhor se escreveu a respeito do Cancioneiro 
é obra de três sábios estrangeiros: o grande hispanista austríaco 
Fernando "Wolf; o fundador da philologia românica, Frederico 
Diez; e Milá y Fontanals, o primeiro representante d' esta sciencia 



1) Cf. Inn. da Silva, Dicc. Bibl. VII, 389. 

2) Actas das Sessões da Acad. R. das Sciencias de Lisboa, Vol. III 
p. 38, 39, 40. 

3) Nos Capp. III e V hei de tratar da inscripção: Rey Dõ Denis. 

4) No mesmo vol. ha artigos sobre a ed. de Lord Stuart a p. 25 
No. 107 e p. 317 No. 381. 



— 24 — 

na península. Elles resumiram em dissertações concisas, mas sub- 
stanciaes, tudo quanto os fragmentos publicados podiam revelar a 
mestres competentes e perspicazes sobre a actividade litteraria de 
Alfonso X, D. Denis e o supposto auctor do Cancioneiro da Ajuda. 

21°. Ferdinand "Wolf, Studien xur Oeschichte der spanischen und 
portugiesischen National- Litteratur. — No. IV. Zur Oeschichte 
der portugiesischen Litteratur ini Mittelalter, especialmente pag. 
709 — 716. — Berlin, 1859-0 

22°. Manuel Milá y Fontanals, De los trovadores en Espana. — 
Parte IV: Influencia provençal en Espana. Capitulo 3: Trovadores 
gallego -portugueses (p. 492 da 1* e p. 521 da 2*** edição, a qual 
citarei). — Barcelona 1861. 

§ 34. O artigo de Wolf é nova edição accrescentada do estudo 
publicado em 1843. O auctor acha quasi indubitáveis os resultados 
de Varnhagen e dignos de serem expostos detalhadamente ao publico 
allemão. — Na persuasão errónea que o Cancioneiro da Ajuda era 
posterior ao Cancioneiro de D. Denis 2) estabelece que a imitação pro- 
vençalesca predomina ahi, tanto no assumpto exclusivamente pala- 
ciano dos poetas que trobam d' amor por sas senhores, como no 
metro, decasyllabo jambico, faltando os géneros semi -populares, com 
rhytmos de dança briosa e ligeira, que approximam os cantares 
de amigo de D, Denis á poesia da França do Norte e documentam 
ao mesmo tempo certo contacto com a musa do povo. 

§ 35. O acume critico do illustre peninsular é notável. Apro- 
veitando, além do volume de Varnhagen, os escriptos de Bellermann, 
Diez e Wolf e uns artigos de Morayta sobre Alfonso o Sábio, ^) 
traçou um quadro exacto, embora incompleto, da evolução da lyrica 
gallaico- portuguesa desde a 2" metade do sec. XIII até 1458. Como 
Wolf, distingue entre os cantares á maneira popular, de assumpto 
e forma pouco grave, com rimas imperfeitas (cuja analogia com a 
primitiva poesia do Norte da França põe em evidencia) e entre os 
versos palacianos com pretensões cavalheirescas que ostentam estro- 
phes, consonancias e tornadas segundo a moda da Provença, ser- 



1) Cf. Jahrbuch VI p. 99 — 100, onde se lê um relatório de P. Wolf 
sobre o Historia critica de la literatura espanola de A. de los Rios. 
Vol. III e IV. ' 

2) D' aqui em deante designarei o Cancioneiro da Ajuda com as siglas 
CA e o de D. Denis com as siglas CD. 

3) Miguel Morayta occupou-se das Cantigas de Maria na revista 
denominada primeiro : La Discusion e mais tarde La Raxon , Sept. e Out. 
de 1856. — Nunca alcancei vê-la. 



— 25 — 

vindo -se mesmo de vocábulos e modismos limosinos. Quanto aos 
schemas métricos, chega ao resultado que cá e lá abundam formas 
análogas, não sendo fácil todavia achá-las completamente iguaes. 
Nota a gerarchia dos trovadores (na falsa fé, de resto, que também 
Aífonso IV de Portugal e um seu fillio, chamado D. Denis, como 
o avô, haviam poetado). Accentua a ausência de toda a erudição 
escolástica. Com respeito ao Conde de Barcellos aceita as razões 
de Varnhagen por muito boas. Com critério superior ventila final- 
mente o duplo problema, quaes seriam as causas que tornaram a 
lingua gallega vehiculo da lyrica hespanhola? e quaes as causas da 
existência de uma escola poética em Portugal, com antecedência 
á castelhana, assim como da sua cultura, não somente por gallegos 
e portugueses, mas também por castelhanos? — problema de que 
terei de occupar-me mais tarde, voltando então ás theorias de Milá 
y Fontanals. 

§ 36. Segue -se um livro magistral, que todo elle versa sobre 
a primeira época da poesia palaciana em Portugal, admirável syn- 
these histórica sobre as suas origens, sua evolução e o rasto que deixou. 

23". Friedrich Diez, Ueber die erste portugiesische Kunst- und Hof- 
poesie. Bonn, E. Weber 1863. 142 pag. 

Temos ahi a analyse cuidadosa das formas poéticas ; um estudo 
fundamental sobre a lingua ; uma fina caracterização , tanto das poesias 
puramente provençalescas como das de feitio popular; contribuições 
valiosas á critica dos textos — tudo elaborado com igual competência. 
Diez aponta também concordâncias com um poeta do Meio -Dia da 
França, 1) confessando todavia não haver descoberto nem uma só trova 
que fosse" versão integral ou imitação directa de outra estrangeira. 
De passagem propõe uma excellente explicação da graphia Ih, nh, 
que Portugal, a seu ver, adoptou dos provençaes. 

Quanto ao nosso Cancioneiro mostra que dois versos, não com- 
prehendidos pelo editor, estão redigidos ou em francês archaico 
perfeito, ou em provençal. Com relação ao auctor, a argumentação 
de Varnhagen não o convenceu: »Zur Ueberzeugung fiihrt 
seine Hypothese noch nicht.« Indicando os lados fracos do 
systema, a difficuldade de interpretarmos bem essa lyrica essen- 
cialmente subjectiva, estabelece que entre as cantigas assignadas pelo 
Conde, conservadas no códice de Roma (de que mandara formar 



1) Uo de Saiat-Cire. 



— 26 — 

o índice para seu uso), não ha nenhuma que se ache no de 
Lisboa. Aponta também para João Vaz, compositor de uma dos 
cantigas do CA, segundo Lopes de Moura — circumstancias que, se 
não destroem, abalam a construcção de Varnliagen. Ao copiar e 
traduzir em verso uma serie de cantigas, seis das quaes pertencem 
á nossa colleeção,i) tem em mira mostrar a pobreza extrema — 
die Gedankenleere — e o convencionalismo incolor dos aulicos 
portugueses. 

» Se de um, lado é certo que as raizes d' esta poesia estão na 
outra vertente dos Fyreneus e que a techniea é alheia , é positivo tafnbem 
que os 2)ortuguêses não fizeram esforço algum para compenetrar -se 
da totalidade das ideias que animam os trovadores provençaes, nem 
para imitar o seu estylo. Faltou -lhes a vontade ou o talento para 
competir com elles; ou faltaram -lhes as condições particularmente 
propicias da vida no Sul da França . . . 

No território provençalesco a poesia artistica, ef florescência es- 
pontânea da jyoesia j^ojjular, tinha base nacional. A de Portugal, é, 
pelo contrario, um,a planta exótica, de estufa. Brotando e crescendo 
apressadamente, murchou com egual rapidez, setn lançar sementes 
fecundas no solo. Os seus cultores não desconheciam esta, circum- 
stancia. Por isso procuraram nacionaliza -la, ajyproximando a nova 
arte dos géneros e da maneira indigena do p)ovo. D' ahi a pre- 
dilecção pelo refran, a forma dialogada e, o que é de mais peso, 
a imitação do estylo vulgar. D' ahi também a renuncia a pensa- 
mentos peregrinos e a todas as espécies que não teriam correspon- 
dido a nenhuma realidade na vida da nação. « 

Como traço mais saliente nota a espliera limitadissima das 
ideias que o poeta português percorre; a repetição, até á saciedade, 
dos mesmos dizeres typicos; a falta de imagens e de adornos rlieto- 
ricos; a extrema singeleza da phrase. 

Escuso analysar aqui o que ha de demasia nestas considerações. 
A nossa exposição irá desfazendo -as pouco a pouco, substituindo -as 
por outras mais idóneas e menos exclusivas. 

§ 37. Um passo avante na descoberta dos verdadeiros auctores, 
representados no CA, e na demolição das theorias de Varnhagen, 
foi dado pelo romanista W. Grúzmacher^ que tivera occasião de 
inspeccionar rapidamente o códice Vaticano 4803. Sem haver á mão 



1) CÁ 74, 185, 251, 229, 99 e é8. 



— 27 — 

um exemi)lar das Trovas, mas guardando bem fixadas na memoria 

as observações criticas de Diez, procurou ahi cantigas idênticas ás 

do CA, e encontrou quatro, sendo duas de Pêro Barroso i) outras 

tantas de Pedron ou, como eu o chamo, Pedr' Annes Solaz. 2) 

Além d' isso transcreveu com varias outras cantigas, uma do Conde 

de Barcellos. 

24°. W. Grúzmaclier, Ziir galicischen Liederpoesie im Jahrbuch filr 
romanische und englische Litteratur. Band VI p. 351 — 361. — 
Leipzig, 1865. 

§ 38. Varnhagen que semjjre procedeu com incontestável boa 
fé, desinteresse, e verdadeiro talant de bien fere, alvoroçado 
com a primeira noticia de Moura sobre João Vaz e mais ainda 
com o achado de Griizmacher, havia entretanto explorado em Madrid 
uma copia do Códice Vaticano, resguardada em casa de um Grande, 
seu amigo, a qual mandou tresladar, para no anno seguinte (1858) 
a collacionar na Bibliotheca do Papa com o códice 4803. Nestes 
actos descobriu 50 das canções anonymas do CA, assignadas por 
13 trovadores diversos, 3) com pequenas variantes de texto, que 
permittiam restaurá-las e completá-las. Em presença de factos tão 
convincentes, renunciou á opinião errada de considerar o CA como 
obra do Condo de Barcellos, sustentando embora, e com razão, a 
possibilidade de o Livro das Cantigas ter sido uma miscellanea de 
trovas suas e alheias. — O quanto lhe custou largar a ideia antiga, 
reconhece -se pela nova e injustificável liypothese que considera o 
Conde de Barcellos como plagiário que se houvesse apropriado todas 



1) CA 222 e 223. 

2) CA 282 e 283. 

3) Ha engano na conta. Na realidade, as cantigas que assignala são 
apenas 49. Temos 8 de Fernam Velho CA 257 — 264. 

8. de João de Guilhade 229 — 234, 240 e 228. O No. 235 (= Trovas 

243) não esta no CV; No. 240 é de Estevam Froyam. 
8. de Vasco Rodrigues de Calvelo 293 — 301, com exclusão da 299. 

4. de João Vasques 242 — 245. 

5. de Pêro da Ponte 288 — 292. 

2. de Pedr' [Annes] Solaz 282 — 283. 

2. de Pêro Barroso 222 — 223. 

2. de Affonso Lopes de Bayão 224 — 225. 

2. de Mem Rodrigues Tenoiro 226 — 227. 

3. de Pay Gomes Charinho 246,248j__255j\ 
1. de Ayres Vaz 213. 

1. de João de Aboim 184. 

3. de Roy Fernandes 308 — 310. 



— 28 — 

essas cantigas alheias, supprimindo os nomes! É pura phantasia 
também quanto se diz a respeito da sua qualidade de rimante 
d'El-Rei e suas relações com Alfonso XI. Nem soube abandonar 
o erro que as poesias se acham no CA numa confusão caótica. Con- 
cede apenas que nas partes em commum a ambos os códices, as 
folhas não soffreram transtorno! Tão pouco se resolveu a aceitar 
algumas emendas e apreciações de todo o ponto seguras do »Snr 
Dietz« (sic!), posto que se mostre benevolamente disposto a con- 
siderá-lo como primeira auctoridade nestas matérias. O modo de 
ver de F. Wolf também lhe mereceu reparos. 

25°. Novas Paginas de Notas ás Trovas e Cantares i. é. á edição de 
Madrid do Cancioneiro de Lisboa , attribuido ao Conde de Barcellos. 
Paginadas de 373 — 306. — Vienna, impressa de C. Gerold, filho, 
(s. d. Creio que 1868 ou 1870). i) 

§ 39. Simultaneamente o diplomata brasileiro publicava uma 

parte das cantigas do CV^) (50 composições das mais características, 

extrahidas do apographo madrileno) numa edição meritória, ainda 

que a escolha não satisfizesse plenamente os desejos dos estudiosos, 

nem a impressão agradasse a todos, pela bizarra esquisitice do typo 

empregado. 

26°. Cancioneirinho das Trovas Antigas eolligidas de um grande can- 
cioneiro da Bibliotheca do Vaticano. — Precedido de uma noticia 
critica . . . com uma lista de todos os trovadores que comprehende etc. 
Vienna, typogr. da Corte 1870 (170 pag.). 

Ha nova edição mais correcta de 1872. — O texto de ambas 

deixa muito a desejar.^) O que se diz na noticia critica a 

respeito do CA é pouca cousa. O códice -pae do apographo de 

Roma constava outr'ora de 300 folhas, mas já estava falto das primeiras 

102 quando d' elle foi tirada copia, facto que levou ao espirito de 

Varnhagen a suspeita que poderiam ser d' estas 102 as que no 

Cancioneiro de Lisboa ainda subsistem. Oppõe-se porém, como 

reconheceu e não sonega, o argumento de ahi não irem designados 



1) Vid. Innoc. da Silva (Diee. Bibl., Vol. IX p. 243) que notifica apenas 
a mudança de opinião de Varnhagen. 

2) D' ora em deante designarei também o Cahcioneiro da Bibliotheca 
do Vaticano pela sigla CV. 

3) A lição de Varnliagen apresenta variantes tão profundas que alguns 
criticos tiveram melindre de as attribuir a erros de leitura, preferindo acre- 
ditar em divergências fundamentaes entre o códice de Roma e o do Grande 
hespanhol. V. Zeitschrift I, 185 — 188. Não partilho esta opinião. Vid. 
Cap. V. 



— 29 — 

pelos seus nomes os trovadores. Continua jurando no desconjun- 
ctamento experimentado por vários cadernos do cancioneiro lisbonense, 
assim como na eliminação voluntariosa dos nomes dos poetas pelo 
compilador Conde de Barcellos, que, segundo elle, desejava passar 
por auctor de todas I 

Falia agora de 53 Cantigas repetidas no CA, sem manifestar 
quaes as três a accrescentar á lista impressa nas Novas Paginas. 
Pensa também que o principesco rhapsodista d' El -Rei D. Denis 
excluiu propositadamente da sua miscellanea todas as cantigas de 
maldizer e as que não eram portuguesas pelo assumpto. Transcreve 
o catalogo dos trovadores do CV, por elle composto segundo os seus 
próprios extractos, sobre as rubricas do códice, e indica o numero 
de poesias que competem a cada um. Neste pormenor, e em outros, 
affasta-se da resenha que fora publicada por F. Wolf. *) Reduz p. ex. 
os poetas a 116.^) 

§ 40. No mesmo anno um moço português, que mal deixara 

os bancos da Universidade, iniciava com Ímpeto juvenil os seus 

estudos sobre a litteratura gallaico- portuguesa, lançando no mercado, 

com pequenos intervallos, nada menos de quatro escriptos em que 

expunha theorias geraes e lucubrações engenhosas sobre pontos 

especiaes. O primeiro é intitulado: 

27°. Theophilo Braga, Introducção á historia da litteratura portu- 
gtiexa. — Porto, Imprensa portugueza, 1870. 

A pag. 110 — 136 encontramos no cap. III, dedicado íxs Epopeas 
da Edade Media em Portugal, uma 2'" parte sobre a influencia da 
lingua d'oc, em que se trata: a) Da Escola galleziana (1X12 — 1279), 
b) Da Escola jogralesea (1279 — 1357). 

§ 41. O segundo é muito mais explicito. 
28°. Cancioneiros provençaes : Trovadores galeeio -portuguexes. — Porto, 
Impr. port. 1871. 345 pag. 

Eis o elenco dos capitules: I. Origem e diffusão da poesia 
provençal na Europa moderna. — II. Cyclo italo- provençal ou gale- 
xiano. — III. A eschola portugueza e o Cancioneiro da Ajuda. — 



1) Um poeta Pereda nSo existe. É en-o. Leia -se: Pêro da [Ponte]. 
Os auctores, aos quaes nas tenções cabe o segundo logar, não foram citados. 
São uns 8 ou 9. 

2) Cf. na Romania I, 119 o artigo de Paul Meyer com observações 
importantes sobre as poesias de caracter popular; e no Dicc. Bibl. o Vol. IX 
pag. 15. 



— 30 — 

IV. O cyclo dionisio e o Cancioneiro da Vaticana. — V. Os bastardos 
de D. Diniz. — Fwmação dos Cancioneiros provençaes. — VI. A eschola 
jogralesca e o Cancioneirinho de trovas antigas. — VII. A eschola 
histórica e a batalha do Solado. — VIII. Decadência da poesia pro- 
vençal 6 introducção das ficções bretãs. — IX. Origem da Eschola 
hespanhola em Portugal. — X. Extincção e descoberta da tradição 
provençal portugueza. Catalogo dos trovadores portuguexes do sec. 
XII a XIV. 

§ 42. Em seguida publicou: 
29". Theoria da historia da litteratura portuguexa. Ibi. 1872. 

A Secção II trata das formas lyricas. O § 1° é dedicado á 
escola provençal, que divide em quatro períodos: 1. Cyclo italo- 
pyrovençal; 2. Cyclo galeziano; 3. Cyclo jogralesco ou dionisio; 
4. Segundo periodo da escola galeziana (sec. XV). i) 

§ 43. Ha 2'"" edição, um tanto modificada, da Theoria: 

30°. Ensaio sobre a litteratura portuguexa, servindo de introducção 
ao Diceionario portuguex de Frei Domingos Vieira. Vol. I 
p. CCIX-CCXLVIII. — Porto, 1873.^) 

§ 44. Todos os que se occupam de Portugal conhecem as 
qualidades e os defeitos do incansável historiador da litteratura 
pátria: a rapidez com que Theophilo Braga trabalha, como ver- 
dadeiro repentista, combinando com facilidade extrema noções de 
historia, philosophia, litteratura, ethnographia e linguistica, sem as 
joeirar; o modo como transforma pallidos indícios em provas incon- 
cussas; o seu patriótico empenho de revelar manifestações charac- 
teristicas do génio nacional; o quid divinatorium de poeta, que o 
inspira e torna ás vezes singularmente perspicaz nesta empresa; a 
sua anciã impulsiva de af firmar, mesmo á falta completa de dados 
seguros; o costume de synthetisar e tirar corollarios de proposições 
não demonstradas; a sua desordenada exposição, cheia de repetições 
e contradições, mal dissimulada sob um simulacro de plano; a sua 
indifferença contra a arte de compor e limar; o costume de entremear 
observações justas e plausíveis com hypotheses surprehendeutes 
pela sua ousadia; a desharmonia curíosa que lavra, não raro, entre 



1) V. Bibliographia Critica^ p. 129 — 148 e especialmente p. 140 — 143. 

2) No Manual da Historia da Litteratura portuguesa, (Porto, 1875) 
o cap. II (Os trovadores portugueses) é um resumo dos trabalhos supra- 
citados, augmentado com algumas noticias novas, hauridas na obra No. 32 
da lista que aqui vou apresentando. 



— 31 — 

a these geral e os exemplos elucidativos; e ainda a franqueza com 
que regeita opiniões menos justificadas, substituindo -as por outras, 
logo que reconhece o erro. 

De tudo isto ha nos escriptos citados, difficillimos de analysar 
e criticar sem injustiça, porque nestes primeiros trabalhos predo- 
minam as conjecturas e generalizações prematuras. O tentamen de 
historiar a primeira época da lyrica peninsular, quando mal se 
dispunha da quarta parte dos restos conservados (i. é. perto de 
500 poesias), partindo de mais a mais de quem conhecia imper- 
feitamente a época trovadoresca das litteraturas estrangeiras, devia 
forçosamente falhar, se ainda hoje, depois de vinte annos de tra- 
balho árduo da parte de alguns sábios estrangeiros, tantos problemas 
principaes aguardam solução definitiva. 

A divisão dos poetas em escola gallexiana e escola jogralesca 
é quasi tão arbitraria como a collocação da primeira no reinado 
de Affonso III e da segunda nos dias de D. Denis. Arbitraria é 
também a tentativa de procurar os representantes de uma no CA, 
e os da outra no CV, sem mais motivo que não seja a confusão 
da antiguidade relativa do manuscripto vaticano e do cancioneiro de 
Lisboa com a antiguidade das composições que encerram. Igualmente 
gratuita era a invenção de um primeiro periodo italo -provençal den- 
tro dos limites da Galliza, com cíinções artísticas do tempo de 
Sancho I, quando nada de positivo confirmava esta hypothese em 
1870, servindo -lhe de imica base a vinda de uma princesa italiana 
(leia -se de Sabóia) para primeira rainha de Portugal e o nome 
Podesiade, descoberto nos Nobiliários i) e aceite como prova de que 
o espirito municipal da Itália se communicára a Portugal. Injusti- 
ficada é a affirmação que a poesia da Provença, se entrou na 
península pela Galliza, não veio pelo caminho directo, mas por via 
da Itália, provando -se a asserção unicamente pela viagem, de resto 
problemática a Portugal de alguns dos primeiros trovadores provençaes, 
que haviam passado o melhor da sua vida na Itália, como Marca- 
brun, Gavaudan, Peire Vidal. 

Outras affirmações são suggestivas, embora arriscadas. Sabendo 
que o dialecto de Peitou, de onde irradiou a lyrica medieval, era 
intermediário entre o francos e o provençal, Th. Braga designou a 
Galliza como região intermediaria entre as proAdncias hespanholas, 



1) P. M. H., Scrtpt. 145 e 260. 



— 32 — 

chamando -a a Provença da península^ e o galliziano como iniciador 
da arte aulica, a nossa lingua-d' oc. No dia em que primeiro co- 
nheceu as canções de Thibaut de Champagne e Navarra estabelece 
que devem ser ellas o molde sobre que se acham vasadas as 
canções de amor dos trovadores portugueses. Ao ler na obra de 
Herculano o quadro dos graves distúrbios que inquietaram o rei- 
nado de Sancho II, persuadiu- se que o desenvolvimento da poesia' 
em Portugal fora impossível até 1245. O casamento de Affonso III 
com D. Brites do Castella foi sufficiente para concluir que só a 
datar de 1253 a lingua portuguesa se tornou commum á poesia das 
duas cortes. Da fixação dos annos 1264 — 1278 para as Cantigas 
de Santa Maria de Alfonso X, proposta em Castella, resultava, a 
seu ver, que só d'ahi em deante os castelhanos começaram a metri- 
ficar em português, desligando - se então os trovadores de cá da 
escola poética da Galliza. 

Etymologias impossíveis i) e uma interpretação phantasiosa de 
certas palavras 2) e poesias servem de ponto de partida para construcções 
complicadas. A cantiga (de Alfonso X) com o refram non ven ai 
Maio! é datada de 1212 porque os aprestes para a batalha das 
Navas se fizeram em Maio ! — Toda uma escola histórica e marítima 
foi ideada, unicamente porque Yarnhagen, pensando no rio onde 
se dera em 1340 a gloriosa batalha de Tarifa, imprimira Eio Salado 
em logar de rio salido.^) 

Da importância das cantigas de caracter popular Th. Braga 
ainda então não formava ideia clara. Também não distinguia entre 



1) Vid. p. ex. a explicação do vocábulo sc^^reZ {Trovad. 152); gttarvaya 
{Iheoria 57); solao {Trovad. 249); liria (ib. 256); mediada (Theor. 59). 

2) P. ex. a discussão dos nomes de logar Santarém (Trovad. 06 — 69 
e 147); Segóvia (Ib. 105); Espana (Ib. 129); Gaga (Ib. 226). 

3) Ainda hoje Th. Braga sustenta a mesma these (fundada num erro 
de leitura de Varnhagen) posto que o emendasse na edição restituida. — 
Vid. Cancioneirinho ., Cant. XII = CV 760 de Joan Zorro: Pela ribeira do 
rio salado. Em consonância com amigo! — Riosalido é um dos hispanismos 
gallegos por rio sahido.i e não nome de logar. Ha uma povoação assim 
chamada, situada num ribeiro do mesmo nome, afíluente do Henares, na 
provincia de Guadalajara (bisp. de Siguenza). Vid. D. Juan Manual, PI 
Libro dela Caza ed. Baist, p. 88, 4, õ, 16. — Mas a primeira opinião é 
a verdadeira, conforme resultado verso parallelo Pela ribeira do rio levado. 
Ambos os termos, repetidos varias vezes no Cancioneiro, p. ex. €V 886, 
indicSm volume de agua fora do commum, na foz do Tejo ou do Douro. 
Provavelmente qualquer das chamadas marés riras, de agosto e setembro, 
tempo dos banhos, ou alguma inundação primaveril. 



^ 33 — 

a valia verdadeira dos poetas e o brilho nobiliarchieo de certos nomes. 
Censurava p. ex. Varnhagen por nos ter dado uma só poesia de 
D. Affonso Sanches , bastardo de D. Denis , e muitos versos de jograes 
ignotos! Aos géneros cultivados por estes populares allude vaga- 
mente [Trovadores p. 159 e 186), acolhendo da carta do Marquês de 
Santilhana as designações serrana (ou menos exactamente serranilha) 
e dizer ^ e das obras de alguns quinhentistas o titulo obscuro de 
solao. 

Aceiiada e fecunda era a tentativa de procurar nos nobiliários 
nacionaes e em documentos históricos os nomes, em grande parte 
aristocráticos, do catalogo de trovadores impresso por Wolf e Varn- 
hagen, alguns dos quaes já haviam sido, de resto, identificados 
por Lopes de Moura, i) Está claro que também nesta parte do 
seu trabalho Th. Braga nem sempre podia escolher bem entre 
diíferentes homonymos, por ainda não conhecer as obras dos poetas 
e as allusões históricas que nellas se escondem. 

Com relação ao CÁ relevarei um único, aliás muito pequeno 
erro de facto, e esse somente porque o auctor o repete ainda hoje 
com singular teimosia, 2) illudindo sempre de novo os cri ticos que 
se inspiram nas suas obras.^) Falia consequentemente de vinte e 
quatro folhas soltas, encontradas em Évora, sendo ellas onze. Vinte 
e quatro eram as poesias, d' ellas extrahidas, e collocadas á frente 
das trovas f) na edição madrilena. 

§ 45. Varnhagen ficou descontente com algumas censuras que 
o novel e impetuoso escriptor lhe dirigira redonda e resolutamente, 
a pesar de este se ter visto obrigado a citá-lo continuamente e a 
construir sobre as bases por elle lançadas. Desafogou num folheto 
em forma de libello, predizendo a Th. Braga que também elle ver- se 
hia obrigado a rectificar muito erro no decurso da sua carreira 
litteraria. 

3P. Th. Braga e os antigos Romanceiros de Trovadores: Provarás para 
se juntarem ao processo. 24 pag. — Vienna, Gerold, 1872. 



1) É meritório o que apurou a respeito de Barroso, Charinho, Aboim, 
Bayão, Lobeira. 

2) Trovadores p. 86, 93 e 225; Theoria 3» ed. p. 198; Era Nova I 613; 
Zeitschrift I 45 e 188; Canc. Vat. Rest. p. XCV e LXXXI; Rev. de Estudos 
Livres II 608; Curso 87. 

3) Menendez Pelayo, Antologia 111 'il\ Marques de Yalmar, Cantigas 
de Maria I 9. 

4) Trovas e Cantares p. 15; Diez, Kunst- und Hofpoesie 19. 

3 



— 34 — 

Vamhagen condemna a façanha de querer formar as biographias 
dos principaes trovadores sem conhecer as suas obras. Sustenta 
que sendo de maior antiguidade a escriptura do códice de Lisboa, 
ainda assim devia ser de data anterior o original do da Vaticana, 
ou pelo menos partes d' elle , visto trazer nomes de trovadores ; e 
crê quo este ultimo foi formado da reunião de vários cancioneiros 
menores. Acha malaventurada a pretenção de datar de 1212 a 
cantiga non ven ai Maio. Censura Braga por citar somente a lista 
de trovadores de Wolf, uma vez que tirou da sua a indicação 
das cantigas de cada auctor. E amesquinha de novo a parte que 
coube ao erudito allemão na descoberta do cod. 4803, reivindicando a 
gloria toda para Lopes de Moura. 

§ 46. Os volumes de Th. Braga, ricos em boa doutrina histórica, 
apreciações iugenhosas e affirmações estimulantes , fructificaram. Tem- 
se dito que foi a leitura dos Trovadores galecio -portugueses que 
interessou um philologo italiano a ponto de se erigir em protector 
generoso dos estudos luso- proveu çaes, ofFertando a esta nação os 
seus primeiros e mais importantes monumentos poéticos em um 
magnifico volume. E a affirmação não tem nada de estranho. 

Fallo de Ernesto Monaci, um dos fundadores da Rivista di 
filologia romanza (1872), chamado nos últimos dias de 1870 para 
iniciar a cadeira de litteraturas românicas na Universidade de Eoma. 
A 11 de Março de 1872 teve pela primeira vez entre mãos o 
Cancioneiro português da Bibliotheca do Vaticano^ tomando a reso- 
lução de lhe dar publicidade. Em principies do anno seguinte o 
ms. já estava no prelo. 

§ 47. Durante a execução apresentou dois pequenos ensaios, 

como precursores da impressão integral do códice 4803, esperada 

desde 1843 no mundo scientifico.^) 

32°. ErnestoMonaci, Canti antichi portoghesi tratti dal códice Vati- 
cano 4803 con traduxione e note, a cura di E. M. XI — 32 pp. — 
Imola, Galeti 1873. 

Estes cantos antigos são uma d' aquellas lindas plaquettes que os 
lettrados d' Itália costumam offerecer aos amigos no dia do noivado. 
Abrange apenas doze florões extrahidos do CV, sendo inéditos uns 



1) Não foi, por tanto, o applauso com que foram acolhidas pelos 
doutos de todos os países essas primícias do seu trabalho que levou Monaci 
a realizar a árdua tarefa de reproduzir em impressão paleographica o Can- 
cioneiro todo. 



— 35 — 

oito. Qnasi todas (I — IX, e mais duas, intercaladas nas notas) são 
de feição popidar, colhidas entre os cantares de amigo, já reconhe- 
cidos com intuição segura como verdadeiros typos da poesia nacional 
primitiva por Diez que os approximara de algumas canções , intro- 
duzidas por Gil Vicente nos seus autos. ^) Na Introducção, Monaci 
quebra lanças pela origem puramente indígena d' estes veisos, 
differentes das canções palacianas pelo espirito que os anima, pelo 
metro e rhythmo, as consonancias , a linguagem ingénua, vocábulos 
archaícos e pelo notável característico de sempre sahirem da bocca 
de mulheres -donzellas e namoradas. O italiano insurge- se contra 
o romanista parisiense Paul Meyer porque, ao dar conta do 
Cancioneirinho de Varnhagen'^) havia assentado que esses cantos, 
feitos sobre typos populares, eram, ainda assim, obra de lettrados, 
cujos nomes trazem, sendo talvez mais tarde aprendidos e cantados 
pelo vulgo, pelo motivo de andarem impregnados de verdadeiros 
sentimentos populares, como aconteceu na Provença ás poesias de 
Gruiraldo de Bornelh. Monaci, por não concordar com esta hj^po- 
these, adopta e sublinha a opinião de Braga que os próprios cantos 
que possuímos, foram colhidos, em forma mais rude e agreste, da 
bocca do povo e retocados pelos trovadores dionysios com tanta 
fidelidade que até conservaram intactas as assonancias. ^) 

§ 48. A ligeira divergência entre os dois eruditos, resultado 
da vaga interpretação que então ainda se dava ao termo poesia 
popular^ resolveu -se em harmonia, quando P. Meyer, dando a boa 
vinda aos Cantos, detalhou novamente o seu modo de ver, susten- 
tando ao mesmo tempo o caracter e a origem popular do género, 
e a forma litteraria da espécie. 

Como no primeiro artigo, affirma a semelhança que existe entre 
as poesias portuguesas de género popular e as hallettes francesas e 
bailadas provençaes. Não conclue todavia que haja imitação, mas 
unicamente que umas e outras são concebidas segundo um typo 



1) Diez apontara apenas duas nas obras do Planto português II, 481 
e III, 270. 

2) Romania I, 119 — 123 e II, 265. Duvidando mesmo da existência 
de uma poesia popular no Occidente da península, o critico francês dissera: 
»supposé niême qu'il en existãt en Oalice ou en Portugal, il est peu 
probable qn,'on se fiit donné la peine de les éerire.<í 

3) Trovadores, 159 e 186. 

3* 



^ 36 - 

tradicional, commum a diversas populações românicas, sem que se 
possa fixar a região onde nasceram, i) 

33". Paul Meyer, Romaniall p. 265. Paris, 1873. 

§ 49. Nestes principies de debate sobre ura dos problemas 
mais importantes, ligados á lyrica medieval, tomaram parte Th. Braga 
e F. Ad. Coelho. O primeiro, nacionalista convicto, continuou firme 
no seu posto. Partindo da dança Bailemos já todas, todas ay 
amigas, que nos foi conservada em duas redacções muito parecidas, 
mas com attribuição a dois poetas diversos, ambos gallegos, sendo 
clérigo um e o outro jogral (CV 462 e 761), contesta o direito de 
classificarmos qualquer dos dois como plagiário e defende a these 
que ambos se serviram de uma velha lettra popular, a qual limaram 
e ensoaram apenas. Aponta mais algumas serranas^ de caracter 
archaico nas obras de Gil Vicente, notando a persistência do typo, 
e opina que sendo plebeus os trovadores que assignam as mais 
ingénuas serranilhas^ está provada a communhão directa com o povo. 
Segundo elle esses jograes cantaram no tempo da flor, sendo por 
isso aggredidos por D. Denis (CV 127) , o que é evidentemente erró- 
neo, visto o rei dirigir as suas aliás injustificadas censuras contra 
08 provençaes que celebraram com doce jubilo a primavera e os 
seus encantos: 

Proençaes soen mui ben trobar 

e dixen elles que é con amor.'') 

No mesmo artigo Th. Braga adopta para as cantigas archaicas, 
começando com um Ay doloroso, o termo cantar guayado, colhido 
nos autos de Gil Vicente.^) 

34". Bibliographia critica de historia e litteratura. Vol. I p. 248. Porto 
1873 — 1875. 

§ 50. O termo canto de ledino foi logo depois proposto por 

F. Ad. Coelho para os cânticos de romaria. Funda- se, como é 

sabido, na decantada estrophe do Chrisfal em que o poeta ouve a 
sua pastora ou serrana entoar os versos: 



1) Paliando dos poetas que cultivaram o género popular, dizia: »Ils 
tiennent une plaee tout-à-fait indépendante dans la poésie du moyen- 
dge.i. 

2) A mesma interpretação arbitraria foi posteriormente repetida no 
Manual de litter. port. 43. — Canello emendou -a nos Saggi p. 220 n. 1. 

3) Vid. Gil Vicente III, 143 (e naÕ 243, conforme se diz nas obras 
de Braga). 



— 37 — 

Yo me iba, la mi madre, 
a Santa Maria dei Pino. 

E entrou em lugar de delledino, na então nova edição de Braga, 

onde os versos citados apparecem depois do trecho: 

tendo parecer divino, 

para que melhor lhe quadre, 

cantou canto de ledino 

restauração feliz, segundo uns, ou interpretação arbitraria, segundo 
outros.^) 

Além d' isto, o circumspecto erudito observa judiciosamente 
que os cantares de amigo de D. Denis e seus cortesãos podiam 
muito bem ter passado para a bocca do povo, mesmo se fossem 
feitos sobre typos franceses e provençaes, logo que no espirito e 
na forma correspondessem, como effectivamente correspondem, ao 
ingénuo pensar e sentir das massas; e lembra o exemplo quasi ho- 
dierno de Goethe e Heine. Entendia por isso que se tornava 
necessária a comparação minuciosa entre as composições de caracter 
popular do CV e de Gil Vicente, e as lyricas medievaes francesas. 
35". Bibliographia critica p. 318 — 320. 

§ 51. Achando digno de louvor o modo de ver do benemérito 
introductor da philologia comparada em Portugal, que lhe ia re- 
vendo as provas do Cancioneiro, e fazendo propostas de restitui- 
ções, Ernesto Monaci consagrou publicamente o termo carito de 
ledino'^) ao publicar um segundo ramilhete de trovas de amigo, com- 
posto de 17 cânticos de romaria (CV 734 — 748, 750 e em nota o 
No. 749). 

36°. E. Monaci, Cantos de ledino tratti dal grande canxoniere porto- 
ghese delia Biblioteca Vaticana. Halle a. S., Typ. Karras, 1875.^) 

Nada posso dizer a respeito da restituição do texto nestas 

poesias, porque, apesar de esforços reiterados, não consegui ver 

nenhum exemplar d' esta raridade bibliographica. Nos Cânticos 



1) Ro mania II, 152; Revue critique II, 136 e 137. 

2) Vid. Revista lusitana, III, 353 e V, 55. — Groeber's Grundriss II b 
149 e 152 e Kritischer Jahresbericht IV, 2, 218. O termo propagado por 
Braga no Manual p. 45 e nas Questões p. 30 foi adoptado por Canello, 
Saggi 217, e por Menendez y Pelayo nos Prólogos á Antologia Lirtca. 

3) Desconheço o artigo que Th. Braga dedicou em 1875 aos Cantos 
de ledino no diário portuense a Actualidade; julgo todavia que o possuímos 
reimpresso na iniscellanea intitulada Questões de litteratura e arte portu- 
gue%a p. 29 — 39. 



— 38 — 

Antigos é geralmente bo? , muito superior á que o dij)lomata bra- 
sileiro havia apresentado, i) Ficou assim dada a prova incontestável 
de que Monaci estava preparado a dotar este pais com a edição 
critica do cancioneiro todo. 

§ 52. Pouco depois elle sahiu á luz. 

37°. // Canxoniere Portoghese delia Biblioteca Vaticano, messo a stampa 
da E. Monaci con una prefazione, con fac-sim. e con altre lUustra- 
zioni. Halle a. S., Max Niemeyer Editore, 1875.-) 

Se Monaci preferiu todavia dar edição rigorosamente diplo- 
mática, reproduzindo o códice pagina a pagina, linha a linha, com 
representação de todas as siglas, escripturas diversas, numeração 
e paginação antiga, foi porque este, único e insubstituível, como 
então se pensava, está escripto em papel inferior e com tinta cor- 
rosiva, exposto por tanto a rápida destruição. Em vista da copia, 
escripta em fins do sec. XV ou j)rincipio do sec. XVI (quando o 
original já estava incompleto) por mão de um italiano, cuidadoso 
sim, mas pouco atilado, que o deturpou a ponto de resistir fre- 
qiientes vezes a toda a tentativa de restauração e interpretação, Mo- 
naci pensou também que uma edição critica, definitiva, era empresa 
para o futuro. Empresa de tal ordem que somente se poderia 
realizar ao cabo de longos e variadíssimos estudos, tendo os doutos 
deante de si o edifício em ruinas, sem que o trabalho critico 
tivesse apagado vestígio algum das vicissitudas por que o códice 
passou. A meu ver procedeu bem, uma vez que a reproducção 
heliotypica ultrapassa as posses de um particular. Não se con- 
tentou, porém, com a reimpressão paleographica. Prestou aos 
deturpados textos os primeiros soccoitos de que careciam. Escreveu 



1) Hoje é fácil restabelecer algumas leituras, então duvidosas, dando 
aos vocábulos a boa orthographia e orthoepia, e ás estroplies a sua verdadeira 
forma: I, 8 leia-se comigo — Entre 12 e 13 introduza-se: Vos pregun- 
tades polo voss' amigo \ E eu bem vos digo que é san' e vivo — 11, 1 
Amad' e meu amigo — 5 Amigo' e m,eu amado — 11 e 17 baiosinho. 
Depois de 20 Selad' o bel cavalo, Valha Deus! Treide vos, ay amado E 
guisade d' andar — III 3, 9 e 15 quen ■ — 9 louçana. louçanas — V 11 
endõado — VI 11 dona virgo — VII 7 e mãer (nianere) — IX 6, 12 e 
18 este cantar. — XI 9 per — 15 dig' — XII 4 falasse — 7 poncela — 
23 temi — 34 do Sar. Algumas rectificações como XI, 2 pelo caminho 
francês já têem sido propostas por Monaci nas Notas á ed. integral. 

2) É o vol. I da collecção : Communicazioni dalle Biblioteche di Roma 
e da altre biblioteche per lo studio delle lingue e delle letterature romanxe, 
a cura di Ernesto Monaci, 



— 39 — 

notas que contêem numerosas propostas de restituição, um catalogo 
dos principaes erros do copista, uma tabeliã das abbreviatui-as , e 
um Índice onomástico,^) não só dos trovadores, mas também dos 
nomes próprios de pessoas e logares que occorrem nas cantigas. 2) 
Numa concisa introducção esboça a historia da litteratura proveu- 
çalesca em Portugal, fallando da voga que a poesia teve nos paços 
régios; o rápido declinar logo que lhe faltou o favor dos grandes; 
o esquecimento em que caliiu durante a época hespanhola e a da 
Renascença italiana, restando apenas a vaga tradição do talento de 
D. Denis, fixada pelo Marquês de Santilhana no "sec. XV, e reno- 
vada no XYII por Duarte Nunes de Leão. Faz a resenha dos 
auctores que o precederam na publicação de alguns textos do CV ; 
descreve o códice e expõe os resultados das importantes investi- 
gações sobre as fontes e sua historia, a que procedeu. 

Notando que outra mão, diversa da dos amanuenses, escrevera 
algumas rubricas, introduzindo uma paginação remissiva a outro 
códice, assim como notas marginaes, que são testemunho de conhe- 
cimentos pouco vulgares de linguas e litteraturas neo- latinas, exa- 
minou os caracteres e reconheceu a lettra do grande humanista 
Angelo Colocci. Á procura de raanuscriptos seus teve a boa for- 
tuna de encontrar no Cod. Vat. 3217 um autographo precioso que, 
representando um catalogo de auctores portugueses, incluia todos 
os nomes do CV, accompanhados de algarismos de 1 — 1675, e era 
evidentemente o indice de outro cancioneiro mais completo, muito 
semelhante, embora apparentemente diverso em algumas attribuições. 

Concluiu então que também o CV fora copiado (com destino ás 
suas coUecções) por ordem do erudito italiano (f 1549), o qual havia 
reunido autes de 1527 uma magnifica livraria, e sempre documentou 
vivo interesse pela poesia italiana e as suas relações com a da 
Provença, Catalunha e Hespanha.^) Embora vandalizadas no saque 
de Roma, as suas collecções abrangiam ainda mais de 500 códices 
quando Fiilvio Orsini as comprou aos herdeiros do humanista (em 



1) Note p. 427 — 440; Abbreviature 441 — 448; índice onomástico 
449 — 456. 

2) É evidente que, derivado de textos ainda não passados pela craveira 
da critica, este Onomástico, devia encerrar muitos nomes phantasticos: Sogar, 
Teleuco, Lelia- Doura, Dona Ugo, Vella, Macoli, Morax, Novel, Oonis etc. 

3) Existe p. ex. uma carta de Colocci que manifesta com quanta 
diligencia procurava um manuscripto das rimas de Folquet de Marselha. 



— 40 — 

1555 ou 1558), conforme consta do inventario então elaborado 
(Cod. Vat. 3958), e também quando, depois da morte d' este pos- 
suidor (-|- 1600), passaram, como legado, para a Bibliotheca do 
Vaticano. Indagando neste inventario quaes títulos se podiam 
referir aos cancioneiros portugueses, Monaci achou duas vezes in- 
dicado um libro spagnuolo di romanze (Caixa 6 No. 18 e 41). O 
titulo é assaz vago, na verdade; spagnuolo pôde porém entender- 
se como português^ segundo um uso muito vulgarizado no sec. XVI ;i) 
e romanze podia designar poesias em vulgar.^) Mas ainda que 
um dos dois fosse realmente o cod. 4803, o segundo não appa- 
recia. Por isso Monaci opinava então que um dos códices não 
escapou á soldadesca infrene do condestavel de Bourbon, sendo 
queimado ou, mais provavelmente, levado como presa por algiun 
amigo de antigualhas pátrias. 

Quanto á identidade do CV com o volume visto por Santi- 
Ihana perto de 1400 em casa de sua avó; sobre a hypothese aven- 
turadissima, ideada por Braga, segundo a qual o Cardeal de Al- 
bornoz teria doado um livro gallaico- português ao collegio hispânico, 
por elle fundado em Bolonha; e sobre a identidade de ambos os 
volumes com o Cancioneiro de D. Denis, achado em Roma em vida 
de D. João III, o sábio professor italiano não se pronunciou. — 
Apenas reflexiona: »que maravilha seria, se Duarte Nunes de Leão 
visse depois do saque, em Portugal, o códice achado em Roma!« — 
conjectura de que terei de tratar em capitules posteriores. 

Na falta do segundo códice, Mpnaci dá -nos, como appenso 
valioso, o índice, marcando por meio da apposição de números se- 
guidos, todas as partes que se acham no CV.^) 

Com relação ás cantigas em commum ao CA e CV não vae 
além do que já fora estabelecido por Varnhagen. Remettendo 48 



1) É verdade que em outro autogiapho de Colocci (Vaticana 4817) 
ha um apontamento em que se emprega a designação portoghesi. E diz: 
Messer Octaviano di Messer Barberino ha il libro di portoghesi, quel 
da Eibera V ha lassato — allusão escura, cuja significação ainda nenhum 
achado feliz nos tem revelado. 

2) O cod. 3793, que primeiro fora do Cardeal Bembo e depois de Colocci, 
é um cancioneiro italiano, intitulado simplesmente: De varie romanze 
volgare. 

3) Catalogo di aiitori portoghesi compilato da Angelo Colocci sopra 
un aiiiieo canxoniere hoggi ignoto, e riprodotto secando V autografo esistente 
nell cod. vat. 3217. 



— 4:1 — 

vezes ás Trovas d' este editor extracta as variantes das cantigas 
seguintes : 

CV == CA Tr 

2— 3 222—223 231—232 de Pêro Barroso (2) 

5— 6 224—225 233—234 1). Affonso Lopes de Bayão (2) 

11—12 226-227 235—236 Mem Rodrigues Tenoiro (2) 

29 e 38 228 j\ j ~ a n lu a 

30-36 229-234 230-242/ Jo^o de Guilhade (7) 

(os Nos 31 e 32 são uma só composição) 

40 240 248 de [Estévam Froyam] (1) 

42—45 242—245 272-275 João Vasques (4) 

46—53 257-264 92—99 Fernam Velho (8) 

279 184 271 D. João de Aboim (1) 

395 246 276 \ 

400 248 278 \ Pay Gomes Charinho (3) 

428 255 285 j 

485-487 308—310 m. n. o. Roy Fernandes de Santiago (3) 

566—570 288-292 112—116 Pêro da Ponte (5) 

579 300 a 



580 298 265 

582-586 293-297 117-118 ^ Vasco Rodrigues de Calvelo (8) 



L7— 118 í 
52—264 j 



262- 
824—825 282—283 123—124 ' Pedr' Annes Solaz (2) 



(48)^) 

§ 53. A obra foi acolhida com os devidos louvores. Mas 
naturalmente o estudo aprofundado de um livro que fazia resurgir 
uma litteratura inteira, deturpadissima, não podia fructificar sem 
grandes delongas. Os que fallaram d' ella sem tardança restrin- 
giram -se a annunciá-la. Gabando o methodo, lastimando o mau 
estado do texto, não deixaram de acentuar o diminuto valor 
poético da parte provençalesca , parando, pelo contrario, com certo 
prazer, em face das composições de caracter popular. 

§ 54. Neste sentido não faz excepção um compatriota de Monaci 
que dedicou ao Cancioneiro uma dissertação um pouco mais extensa, 



1) Por descuido, Monaci ommittiu a referencia á Trova CV 55 = CA 213 
= Tr 187 de Ayras Veaz (1). Nem descobriu que ha a mais as seguintes 
concordâncias, além das que Varnhagen distrinçára: 

CV 480 = CA 307 Tr f Martim Moxa (1) 

563—565 285—287 126—127 Fernão Padrom (3) 

1061 68 253 João de Gaya (1) 

Todas ellas, menos a deMoxa, que descobri ultimamente, foram um pouco 
mais tarde apontadas por Th. Braga, nas obras No. 40 e 41. São por junto 
54 poesias de 16 (respectivamente 17) trovadores. A poesia CV 677 de 
Pêro d'Armea não é variante da 48 do CA de Martim Soares, con- 
forme entendia Th. Braga [Zeitschrift I 183). Trata-se, pelo contrario, de 
duas elaborações differentes sobre o mesmo thema, 



_ 42 — 

dando espécimens dos três géneros principaes, cantigas de amor, de 
amigo e de escarníio,^) em lição regularizada, e tentou i-esolver o 
problema linguistico, já ventilado por Milá j Fontanals. 

38". U. A. Canello, II Canxoniere portughese delia Vatieana , publicnto 
da E. Monaci. — Pag. 213 — 244 do vol. Saggi di Critica Litte- 
raria. — Bologna, 1880. 

Segundo Canello a razão ijorque á Galliza (ou a Portugal) 
coube na creação de uma lyrica hispânica o papel representado na 
Itália pela Sicilia foi que ambos os paises (quero dizer a Galliza e 
a Sicilia) se achavam muito affastados da Provença, íallando uma 
lingua diversa em demasia para que os seus habitantes podessem 
aprender a poetar em provençal, como aconteceu na Catalunha e 
Itália do Norte. Não duvida que antes de um impulso partir 
da corte, i. é. (a seu ver) antes que Alfonso X de Castella e Boni- 
fácio Calvo de Génova se lembrassem de metrificar em gallego, uma 
florescente poesia popular e mesmo uma escola de dexidwes nacionaes 
já preexistia no Occidente, em dias de Affonso III, ideia justa e digna 
de louvor. No propósito de assignalar os precursores aponta para um 
velho segrelBernaldo de Bonaval, mencionado pelo Rei de Castella 
eLeon, como objecto de censuras(CV70) e que, segundo elle, fora tratado 
por Colocci, no índice, áe primeiro trovador.'^) Em busca de traços 
camcteristicos nos versos d' este poeta releva alguns de medida 
grande (7 + 5 syl.), que lhe parecem rhythmicamente diversos dos 
da lyrica provençal e da gallaico- portuguesa do tempo de D. Denis, 
notando que elles se assemelham ao antigo verso épico francês, 
com accento na 6*'"^, e cesura depois da 7"% supra -numeraria. Tal 
anomalia leva -o a crer que temos ahi ensaios primitivos de um 



1) Nas palavras que dedica aos géneros principaes esconde -se uoi 
equivoco, que não deixa de ter a sua graça. Na rubrica das cantigas CV 908 
e 1041 acha -se empregada a formula: esta cantiga de cima, o que quer 
dizer: supradicta. O critico italiano, porém, explica cima por monte, 
comparando taes versos de maldizer, que attribue a rústicos serranos de 
Portugal, com as satgras primitivas do mundo latino, reconhecendo nellas 
invenções de satyros = rústicos boçaes (rozxi abitatori dei boschi)\ — 
Escuso dizer que a expressão cantiga de cima é empregada a miúdo, com 
relação a géneros variados, embora todos façam parte do Cancioneiro de 
burlas. 

2) Para a respectiva rubrica: en esta folha adeante se começan as 
cantigas de amor p^ myta trobador Bernal de Bonaval Canello propõe 
a leitura ;)or o muyto antigo trobador. Cf. Parte III, Biogr. XXXV, onde 
exponho as minhas ideias. 



— 43 — 

jogral gallego que procurava crear alguraa cousa nova como os 
sapphicos dos hymnos latinos, pela juxtaposição de versos curtos 
populares. Em seu tempo voltarei a fallar d' esta hypothese. ^) 

§ 55. O único escriptor que se apossou em breve prazo da 
vasta matéria e teve a soberba coragem de expor á publicidade os 
resultados colhidos, como quem tem pressa de cumprir um dever de 
honra nacional, foi o auctor dos Trovadores gallizianos. Preparou- 
se para a empresa com rápidas incursões no campo da poesia 
popular gallega'^) e no da ethnographia comparada, onde os estudos 
de Opport e Lenormant o encantaram, a ponto de o transformar 
em defensor enthusiasta do génio lyrico da raça turaniana. D' ahi 
em deante procurou e encontrou ecos dos hymnos accadicos da 
Assyria na poesia da Aquitania e na província hespanhola onde ful- 
guraram as primeiras scintillações da poesia peninsular. Logo em 
1876 começou a publicar amostras da sua reconstrucção, accom- 
panhadas de noções rudimentares de métrica e poética. 

39". Th. Braga, Antologia portuguesa: Trechos selectos coordenados 
sob a classificação dos géneros litterarios e precedidos de urna 
Poética histórica portuguexa. Porto, Magalhães & Moniz, 1876.'') 

Neste livro Theophilo Braga emprega arbitrariamente uma termino- 
logia em parte boa, em parte muitíssimo discutível, colhida nos 
cancioneiros, em Gil Vicente, no Chrisfal, nas poéticas provençaes, 
ou na litteratura castelhana, sem definição segura e clara dos 
géneros e das espécies.*) 

§ 56. Logo depois, offereceu ao professor Gustav Grober, que 
sollicitara um parecer sobre a obra de Monaci para a nova revista 
Zeitschrift fúr romanische Philologie^ outro estudo, intitulado: 



1) Vid. Parte IV. 

2) Sobre a poesia popular da Oallixa em Riv. fã. rom. II, 129 — 143 
(1876). Este artigo teve segunda edição ampliada como cap. Ill de um 
tradado da Poesia moderna portuguexa, que serve de introdução ao Parnaso 
portuguex, Lisboa, 1877-, e terceira edição nas Questões de litteratura e 
arte port.., Lisboa, 1881, sob o titulo: Fontes poéticas gallegas. 

3) No. 3, 5 — 40 e 42 — 64. Cf. W. Storck em Zeitschrift I, 453. 

4) Canto de ledino, alvorada, cantar guayado ., dixer, praga., sirvente, 
salutx, barcarola, pastoreia, seguidilha, devinalh, noellaire, planh, jocs 
partitx, jocs enamoratx, bailada, bailata, descorts, canção á francexa, 
donaire, lira, solao, cobla monorinia, refren., tenção, fado, chacota dç 
terreiro f chaeoula., ar avia, areyto. 



— U — 

40". O Cancioneiro da Vaticana e suas relações eom outros cancio- 
neiros dos sec. XIII e XIV. Em Zeitschrift Vol. I p.41 — 57 e 
179 — 190. Datado: 23 de Septembro de 1876. 

É apenas um capitulo de um trabalho mais extenso, destinado 
a substituir o primeiro livro sobre os Trovadores e a accompanhar 
o texto completo do cancioneiro restaurado, já então prompto em 
manuscripto. 

§ 57. No anno seguinte o incansável publicista dava á luz 
a obra inteira. 

41°. Cancioneiro porhiguex da Vaticana. Edição critica restituida sobre 
o texto diplomático de Halle, accompanhada de um Glossário e de 
uma Introducção sobre os trovadores e Cancioneiros portuguexes. 
Por Th. Braga, Prof. etc. Lisboa, Imprensa Nacional, 1878. 

, Impellia-o o duplo desejo, desinteressado, de ser o primeiro 

a desvendar a riqueza dos filões entreabertos da nova mina, 
assim como a fertilidade das theorias turanianas, e de se mostrar 
grato aos desejos de Monaci, expressos nas palavras: Voglia il cielo 
che, tornato il libro in Portogallo., diventi presto oggetto di studj 
novelli! Não se recordava que uma 2* edição popularizada ou »de 
texto legivel«, seguindo tão de perto a impressão diplomática^), devia 
necessariamente prejudicar a sua venda. Esquecia que Monaci 
dissera também: una edizione critica definitiva di questo monumento 
é impresa di tal natura, che, a mio credere, soltanto i dotti dei paese 
potranno dopo lunghi e molteplici stuâj portare a compimento!'^) Esquecia 



1) Possuo as provas de que este receio incommodou não pouco o illustre 
italiano e também o editor allemão, o qual não se poupara a sacrificios 
importantes. Sem razão! porque apesar dos serviços que a redacção » resta- 
belecida « de Th. Braga prestou, o texto diplomático continua sendo a base 
indispensável dos estudos scieutificos e da futura edição definitiva. 

2) Como não posso deixar de fazer opposição a miúdo ás doutrinas e 
ao methodo do sábio professor, que me honra com a sua amizade e con- 
fiança, seja -me licito fazer uma vez a sua apologia, applicando-lhe as 
palavras que Scherer dedicou um dia a Jakob Grimm: fQucm não ousou 
não ganhoti nem perdeu. — É preciso que tenha a coragem de errar quem 
cultiva terrenos virgens. Trabalhos esmerados e circumspectos, acabados 
em todas as minúcias, até aos últimos pontinhos sobre os m, tão perfeitos 
que seja preciso medi-los pela bitola mais alta, mostram as culminancias a 
que se pode e deve elevar o trabalho do investigador. Mas ao mesmo 
tempo, obras assim feitas teem um caracter severo de intangibilidade que 
repelle. descorçôa, humilha e abate. Outras ha, pelo contrario, e das mais 
bellas que existem, cheias de imperfeições, lacunas e temeridades, porque 
deixam livre a escolha entre vários pareceres sobi-e o mesmo assumpto, 
jnas (jue irradiam um fluido suggestivo e estimulante, provocando -nos a 



_ 45 — 

que ao clamar por esta collaboração , estava persuadido que muitos 
annos se gastariam no apparelhar de materiaes, a elaboração da 
grammatica archaíca, o glossário, estudos biographicos , a revisão 
parcial da obra dos melhores trovadores, como D. Denis, João de 
Gruilhade, João Ayres de Santiago, Pêro da Ponte, Martim Soares, 
tudo isso depois que fosse impressa a edição critica do pergaminho 
do sec. XIV, cuja linguagem e orthographia havia de dar ideia 
exacta do que fora o manuscripto-pae dos apographos italianos, e 
servir de padrão aos restituidorefe. 

O plano ideal de Th. Braga, que se abalançara ao commetti- 
mento sem delongas, as quaes na sua mente sempre prejudicam a 
sciencia, era, de resto, excellente — abstracção feita da preparação 
philologicamente insufficiente a que já me referi. No Prologo»^ 
que é um libello vehemente contra a inércia da Academia e ao 
mesmo tempo documenta o seu próprio enthusiasmo, o auctor expõe 
o que a sua edição havia de conter. 

1*. Uma longa introducção sobre a historia da poesia pro- 
vençal portuguesa, deduzida do texto do cancioneiro; e um. estudo 
da historia externa sobre a filiação dos differentes cancioneiros dos 
sec. XIII e XIV, com os quaes o CV tem intima relação. 

2°. O texto das 1205 Canções, restituído, emquanto á lingua, 
á da época em que foi escripto o cancioneiro, pelos processos 
críticos mais rigorosos; emquanto á poética, fixando -lhe a sua 
justa metrificação e a forma estrophica segundo os dados compara- 
tivos da poética provençal. 

3°. Um glossário de todas as palavras archaícas , empregadas 
no Cancioneiro; e noticias biographicas dos trovadores portugueses. 

Seria bello, se a excecução correspondesse ao plano promettido. 
A Introducção (á qual pertencem, como é natural, as biographias, 
nomeadas no elencho em ultimo logar; ou antes algumas simples 
notas biographicas) compõe -se de seis capitules: I. Origem e diffu- 
são da poesia provençal na Europa moderna. — II. Periodo italo- 
provençal (1114:(!) — 1245). — III. A poesia p-ovençal na corte de 
D. Affonso III: Periodo limosino (1246 — 1279). — IV. A poesia 



continuar na exploração, convencidos que a abundância dos veios nem de 
longe ficou exhaurida.« — Os trabalhos de Th. Braga (embora não attinjam 
o vasto alcance dos de Jakob Grimm) são d'estes »germinaes« fecundos que 
evocam o poder critico e creador de outros, diversamente dotados. 



— 46 -- 

provençal na corte de Diniz: período limosino'^) (1279 — 1325). — 
Y. O CV e suas relações com outros cancioneiros dos sec. XIII e XIV. 
— YI. O elemento tradicional no CV. 

As linhas geraes constructivas são, bem se vê, as mesmas 
do estudo anterior. Apenas ha accrescentos numerosos, trechos 
extrahidos das poesias do CV, e notas históricas que servem 
de subsidio útil para a illustração de differentes allusões e re- 
ferencias. A identificação dos poetas falha muitas vezes. Os 
reis Affonso III e lY são aprensentados como poetas. Os versos 
do Sábio de Castella são attribuidos, metade ao Leonês Affonso IX, 
e metade a Alfonso XI. 2) Nos estudos comparativos, os modelos 
directos, franceses e provençaes, e as concordâncias de forma e fundo 
teem parte muito diminuta, emquanto analogias não só com hymnos 
accadicos, mas ainda com disticos chineses (realmente notáveis 
e de indubitável interesse) alargam o horizonte e dão prova da 
fina intuição com que Th. Braga anticipa factos que carecem ainda 
de demonstração scientiíica. Hypotheses e affirmações arriscadas 
alternam com observações excellentes.^) 

Na critica do texto a genialidade do seu espirito serviu não 
sei se direi de auxilio, se de estorvo, uma vez que lhe produziu 
a illusão de que nem uma só cantiga, por mais deturpada que 
fosse, resistiu aos processos a que a sugeitou, sendo positivo, que 
difficilmente se encontrará uma dúzia que satisfaça em absoluto. 
Basta apontar os números 19, 63, 74, 208, 215, 261, 387, 410, 
460, 461 e 770 para indicar quão longe ficou do desideratumA) 



1) Julgo que ha aqui um erro e que o auctor queria dizer período 
gallego. A p. LXIV lê -se: »E por isso que á primeira influencia por via 
da Galliza sobre o gosto poético, chamamos escola limosina e á influencia 
communicada pela corte de D. Diniz chamamos escola gallega.<ii No Curso 
de litteratura , que é de 1885, a tri- partição do período provençal em três 
escolas permanece, sendo a primeira italo - provençal. A segunda todavia, 
denomina- se ahi afrancexada, e a terceira limosina. Esta fluctuação 
constante mostra quão pouco solida era a base sobre a qual a dieta periodização 
foi construída. 

2) Digo: do Sábio., mas não estou certa, se todos são obra sua, ou se 
a parte cynegetica foi composta pelo avô — Affonso IX. O que é evi- 
dentemente falso nas affirmações de Theophilo é negar a parte de Alfonso X, 
e sustentar vi de Alfonso XI. 

3) Muitas das que dizôm respeito a poetas e poesias serão discutidas 
nos capítulos seguintes, assim como nas Notas finaes do vol. I. 

4) Encontram -se algumas emendas relativas aos textos impressos na 
Anthologia., na Zeitschrift 1, 453 em um artigo de "W. Storck. ■ — Sobre 



— 47 — 

O glossário, muito incompleto, sem indicação das cantigas a 
que as explicações se referem, inçado de palavras que nunca 
existiram e de traduções phantasticas , é, de todo o ponto, insuf- 
fi ciente.^) 

Com relação ao CA ha alguma novidade nas paginas que lhe 
dedica 2), embora, fiado nos dizeres de Varnhagen e em uma copia 
da Academia, Braga nunca recorresse ao original! Aos poetas, 
anteriormente identificados, junta mais qua-tro, cujos nomes apurou. 
Todos os 17^) eram, segundo erradamente imagina, fidalgos e 
grandes privados de D. Denis, comquanto não possa negar que 
alguns figurem em doações de Affonso III. Assenta que dois, João 
de Gaia e Mem Rodrigues Tenoiro^^) (p. XLIV e LXXXIV), 
viviam ainda no tempo de AíTonso IV. 5) Na parte não assignada, 
que então constava de 244 composições, julga reconhecer um corpo 
de poesias nascidas na corte do Bolonhês. Com fundamento. So- 
mente a hypothetica attribuição de parte d' ellas ao próprio monarca, 
não tem o menor fundamento. 

Por causa das 16 vinhetas, a que alludiram Bellermann e 
Varnhagen, e que, por um mero acaso, correspondem (quasi) aos 
17 trovadores então descobertos, entende que o volume todo fora 
compilado de 16 ou 17 cancioneirinhos , sem neste calculo fazer 
caso das 244 manifestações anonymas! Confundindo o estado actual 
do pergaminho com o primitivo, conclua que não o acabaram, 
» porque o estylo limosino em que está escripto passou de moda, 
sendo substituído no reinado de D. Denis pelo gosto das serranilhas 
gallegas, e também porque a musica antiga foi abandonada, cedendo 



outras, propostas por Epiphanio Dias na mesma revista XI, 42 — 55 vid. o 
nosso No. 57. — Cf. Lang CD p. VII e VIU. 

1) As palavras: ábaco, aff amado, alvão, aval, avindador, não existem 
rio Cancioneiro. Vid. ainda lex (por ler) explicada como se fosse lado; 
mescla = maschalah = o que Deus quixer\ pediolo = peditório; alacrá 
= tecido antigo; coteife = capa de pesponto; garceiras = roupas 
de moça. 

2) Vid. p. LVII, LXXXI e LXXXIX e Zeitschrift I, 45 e 180. 

3) Vid. p. XCII. — Cf. p. 741'. 

4) No Capitulo VI hei -de provar que este Tenório não ó o justiçado 
por Pedro o Cruel, mas antes seu avô. 

5) A. p. XCVIII Joan de Oaia é designado como escudeiro de 
D. Denis; mas a. p. LXXXIX Th. Braga conclua que o CV deiiva de 
cancioneirinhos diversos, posteriores ao CA, exactamente por ter uma parte 
relativa a successos da corte ie Affonso IV. 



— 4.^ ^ 

o logar a toadilhas e instrumentos bretonicos.« Das variantes entre 
os textos communs ao CA e CV deduz, categoricamente (depois 
de analysax 28 entre 56), que os dois códices provêem de fontes 
distinctas, não tendo servido o CA para a collecção de Roma. 
Dois levissimos indícios persuadiram - no, pelo contrario, da identidade 
do Cancioneiro, cujo índice foi elaborado por Angelo Colocci, com 
o Livro do Conde de Barcellos. Ei-los aqui: 

1°. O cancioneiro desconhecido principia com lais de gosto 
bretão, e no Nobiliário do Conde ha também referencias a tradições 
bretonicas ! 

2". Extraviado em Castella em consequência da morte de 
Alfonso XI (opina elle), a compilação do filho de D. Denis veio 
parar, em copia, nas mãos dos Mendozas, da qual o CV é um 
dos apographos. As considerações sobre os mais cancioneiros, 
positivamente existentes ou puramente hypotheticos , e o quadro 
geral da sua filiação são cálculos sem base solida.^) 

§ 58. Ao passo que esta edição, posta ao alcance dos curiosos, 
se ia imprimindo em Portugal, uma feliz descoberta realizou -se 
na Itália. Surgiu o ignorado volume intimamente relacionado 
com o códice vaticano 4803, que pertencera também a Colocci, 
e servira apparentemente para a confecção d' aquelle catalogo de 
nomes, junto por Monaci ao CV como subsidio precioso. Pro- 
curado em vão em Roma, appareceu inesperadamente na Marca 
de Ancona, a pequena distancia de Jesi, isto é do berço do illustre 
humanista. Deve -se o achado ao professor de historia pátria 
Costantino Corvisieri, o qual, trabalhando em Cagli na livra- 
ria do Conde Paolo António Brancuti, reconheceu o texto portu- 
guês e chamou para elle a attenção de um seu conhecido. Enrico 
Molteni, novel estudante de philologia românica. Foi este discípulo 
de Monaci quem o explorou com ardente enthusiasmo. Logo em 
1878 publicava uma succinta noticia, preparando sem demoi'a a 
impressão das partes inéditas do volume a que, com justo motivo, 
se deu o titiilo de Cancioneiro Colocci- Brancuti. 

42°. II secondo Canxoniere Portoghese di Angelo Colocci, artigo impresso 
110 Giornale di filologia romanzaYol.l, p. 190 — 191. Roma, 1878.') 



1) Conheço algumas referencias ao Canc. Vat. Best. em revistas como 
BomaniaYll^ 479 e Zeitschrift 111, 113, mas nenhum eompíe-rendu extenso. 

2) Cf. Giornale I, 200; Romania VII, 478 e 628. 



— 49 — 

Ahi Molteni informa apenas sobre os factos prineipaes, e des- 
creve o volume cartaceo, comprado pelo pae do actual Conde, in- 
felizmente sem nada indagar das vicissitudes por que passara de 
1500 em deante. De formato um pouco mais pequeno que o de 
Roma, é muito mais copioso, tendo 355 folhas, contra as 210 ou 
220 do outro. Os materiaes importantes que fornece preenchem as 
lacunas prineipaes d'aquelle. Mas ainda assim, não está intacto. 
Só subsistem 1567 (segundo os primitivos cálculos), das 1675 
poesias, registadas na Tavola Colocciana. Por mutilação carece 
das restantes. As divergências do CY são menores do que a Tavola 
fazia suppôr. Das que dizem respeito ao numero de composições 
que competem a cada poeta e também aos nomes d'elles, varias 
são illusorias, — filhas de erros de Angelo Colocci. Subsistem 
ainda assim particularidades, notáveis, como p. ex. a falta no CB 
de quatro composições do CV em legares onde não ha mutilação, i) 
D' ahi concluía Molteni que ambos os cancioneiros são indepen- 
dentes, embora derivem da mesma fonte primordial, hoje perdida; 
e também, que esta não devia estar occulta a Colocci, visto que 
d' ella tirou matéria para alguns accrescentos (aggiunte). Á frente 
das poesias apparecem fragmentos de um tratado archaíco de poética 
portuguesa, muito deteriorados, mas valiosos, ainda assim. 2) 

§ 59. O joven italiano falleceu a 13 de Março de 1880 com 

apenas 24 annos quando, já impresso o texto todo, ia dar forma 

definitiva ás notas com que desejava accompanhar o volume segundo 

da collecção iniciada por seu mestre {Communicazioni): 

43". II Canxoniere Portoghese Colocci -Brancuti, pubblicato nelle parti 
che completano il códice vaticano 4803 da Enrico Molteni, con un 
fac- símile In eliotipia. Halle a. S. Max Niemeyer editore 1880. 

Para esta impressão paleographica das partes inéditas do CB 

Monaci escreveu a advertência preliminar, dedicando palavras de 

saudade ao seu mallogrado discípulo. Nella repete, ampliadas, as 

communicações sobre o ms., assentando que possuímos nelle se não 

o mesmo, pelo menos a copia fiel d'aquelle grande cancioneiro, do 

qual o humanista deixou o índice. Explica o que ha do punho de 



1) Vid. Giornale 1, 191.— CV364, 387, 410, 668. Emquanto ao primeiro 
entendo que ha engano : o que falta é apenas a terceira estrophe do No. 363. 
Com relação aos mais, também haveria que dizer. E' preciso reverificar 
estas asserções , e numerar as cantigas do CV em harmonia com o CB. 

2) Mais tarde se verá quQ não partilho essa opinião. 

4 



— 50 — 

Colocci. Além de numerar as poesias e de muitas vezes as encimar 
com o nome do auctor, o humanista juntou apostillas marginaes, 
ora para confrontar vocábulos portugueses com formas italianas, 
ora para fixar o schema métrico, e preencheu também algumas 
lacunas — tarefas, é preciso lembrá-lo, que não executara no CV, 
ligando portanto maior importância ao CB. 

Fundando -se principalmente nessas addições, Monaci adopta o 
parecer de Molteni, segundo o qual o antigo possuidor conheceu 
e explorou ainda um terceiro códice lusitanico. Prometteu também 
o exame critico das partes communs aos dois^ na convicção j^artilhada 
de todos os investigadores que somente sobre a base de tal estudo, 
incluindo a lista das variantes^ se poderia organizar a exploração 
séria e a edição definitiva das cantigas. 

Infelizmente, até hoje não pôde cumprir a promessa. Auctoriza- 
nos porém a alentar a esperança que brevemente a realizará, o 
facto de haver adquirido ha annos o precioso thesouro, e de não o 
facultar mais aos que desejariam vê-lo.i) 

Oxalá, a minha interpretação seja boa! E muito e muito 
para desejar que as variantes em globo appareçam, e que um novo 
índice completo, comparativo e critico, accompanhe esse trabalho, 
anciosamente esperado pelos verdadeiros philo- lusitanos, 

A questão das fontes e das mutuas relações dos dois cancio- 
neiros entre si, com a Tavola Colocciana [e também com o CA] 
só então poderá ser resolvida plena e satisfactoriamente, ficando 
demonstrado se é sustentável, ou não, a hypothese dos três ori- 
ginaes differentes, e de' qual d'elles o índice é synthese. 2) 



1) Litteraturblatt XVI, 273. Em 1894 Monaci ainda extrahiu manu 
própria as variantas do CD, em favor de um joven professor americano. 
Depois facultou -o a Cesare de Lollis. Vid. Studj Yo\. VIII, p. 52. 

2) Parece que a este respeito as opiniões estão divididas. Eis as palavras 
textuaes de Monaci, relativas ao CB: questo è se non V istesso, almeno 
una copia fedele di quel grande Canxoniere dei quale Ângelo Colocci 
lasciò il catalogo . . . egli dovette avere avuto per le mani un terzo códice 
dei quale si giovò per fare le sue addixioni in questo e nel códice Vati- 
cano. Molteni dissera apenas, com menos precisão: Queste poche notixie, 
tuttoché insufficienti a dare dei nuovo Canxoniere una compiuta idea, 
basteranno tuttavia a mostrare come malgrado le relaxioni sempre piú 
strette che si rivelano fra le due raccolte, esse restino pur sempre indi- 
pendenti fra loro, ma insieme accennando di derivar e da una única 
fonte alia quale amhedue convergono. E quella fonte non dovette essere 
sconosciuta pel Colocci., il qual non pote se non da essa avere attinto 
le aggiunte che di suo próprio pugno troviamo cosi nel cod. Vat. come 



— 51 — 

O pouco que por ora sabemos não basta para qualquer das 
convicções crear raízes. Ás vezes parece mais provável houvesse 
apenas dois códices, ambos maltratados, a ponto de qualquer bene- 
mérito, que quisesse salvá-los em 1500, se ver materialmente 
obrigado a mandar tirar treslados, havendo neste caso poucas pro- 
babilidades de os taes originaes se terem conservado até hoje. 
Os trechos que Angelo Colocci escreveu de seu próprio punho, 
considerados pelos críticos italianos como prova da existência de 
um terceiro ms., podem muito bem ser emendas de saltos e de 
erros dos escribas, cujo trabalho fiscalizava e, em parte, copia 
directa de paginas mais sensivelmente deterioradqs.^) Quem houver 
visto as folhas soltas do CA que lhe serviram de guardas comprehen- 
derá que também os originaes, existentes no sec. XVI em Itália, 
podessem offerecer paginas soltas tão rotas e de lettra tão apagada 
que só um apaixonado e experto entendedor, da raça, do grande 
humanista, seria capaz de decifrá-las. Com relação aos destroços 
que restam do tratado poético, esta supposição parece -me quasi 
segura. 

Está claro que se realmente se encontrasse nas bibliothecas 
italianas mais algum cancioneiro, que fosse o supposto terceiro 
códice, quer o original do CB do quer o doCTou outro divei*so, muito 
lucraríamos, em vista da infinidade de erros, commettidos pelos 
amanuenses do erudito de Jesi! — 

As poesias impressas por Molteni, e classificadas de inéditas 
com relação ao CV, estão numeradas de 1 — 442. Na verdade 



nel Brancuti. <s. — De Lollis, de parecer diverso, emprega as phrases se- 
guintes: y>il ms. padre cioè da cui il Cod. Vat. e CB furono esemplaii« 
(p. 62) — e »il Cod. Vat. è da ritenere como un apografo dallo stesso 
esemplare che servi pel CB« (p. 64) e ainda *il Catalogo degli Autori 
Portoghesi che il Colocci compilo sul ms. esemplare delle copie a noi 
pervetiute* (p. 69), como se acreditasse num só original. — Mário Pelaez 
aceita a theoria dos três códices, entendendo que o cancioneiro hoje per- 
dido foi o texto sobre o qual Colocci compilou o seu índice, e ao mesmo 
tempo lhe ajudou a completar o CB. — Vid. Oiornale Storico, vol. XIV, 
p. 43 e 44, e o meu extracto sob No. 77 d' esta Resenha. — Pelo texto se 
conhece que eu propendo até hoje a ver no índice antes a synthese do CB, 
feita com algum desleixo, do que copia de um índice mais antigo que 
accompanhava o ms. pae. 

1) O que falia a favor do terceiro códice, são certas divergências entre 
o CB e o índice., principalmente quanto ás rubricas das primeiras poesias. 
Confira -se o Capitulo IV d' este livro. 

4* 



— 52 — 

dispomos comtudo, de quantia mais reduzida.^) Não são apenas 
42.0, (avaliação primeira de Molteni), nem tão pouco chegam a 
470, como haviam calculado os críticos, antes da descoberta, con- 
ferindo a somma das impressas no CV cora as registadas no índice. 
E obvio que o processo não podia dar resultado seguro, em vista 
dos frequentes erros de numeração que se notam, tanto nos dois 
Cancioneiros, como na Tavola.^) A razão principal porque temos 
versos a menos dos que figuram na Tavola está todavia na mutilação do 
códice.^) Faltam -lhe folhas em vários si tios: entre 12 e 13; 69 e 
70; 326 e 330 e também no fim do volume^), o que nos priva 
de 150 poesias, sendo 50 em commum aos dois cancioneiros^') e 
perto de 100 privativas do CB. 

Com relação ao códice de Lisboa, os inéditos, publicados por 
Molteni, merecem este qualificativo só em pequena parte. Os 
encontros são muito frequentes. Dos 442 apenas 245 faltam no 
CA;^) 189 estavam portanto divulgados desde 1823 ou, respecti- 



1) Os Nos. 344, 345 do CB são ignaes a CV 58 — 60; o 391 completa 
apenas CV 1. O 117 não devia ter numeração, por ser um fragmento des- 
locado e cancellado de CV 79. Os Nos. 331 e 335 são o mesmo texto; 195 
e 196 formam uma só poesia; e igualmente 200 e 200''. Dos Nos. 259, 
435, 478 existe um único verso. A duas cantigas do Códice faltava a 
numeração (238'' e 471'' = CB 224 e 364). Em 17 cantigas encontramos 
os algarismos repetidos. — A numeração original ia de 1 — 391 (com lacunas 
de 9 — 36; 138 e 139; 273 — 316); de 446— 478; 1500—1561 e 1572-1578. 
Quanto á nova, omittiu-se o algarismo 139; 209 e 210 são uma só poesia; 
e igualmente 214 e 215. 

2) No cancioneirinho individual de D. Denis, o índice regista p. ex. 
os Nos. 497 — 606, ou seja 110 composições, sendo ellas na realidade 129. 
Deve haver portanto algarismos repetidos em 19 casos, ou em 18, se real- 
mente faltar uma das cantigas do CV (188). Na ed. critica, que devemos 
a Lang, não se demonstra, quaes os erros. Talvez o amanuense, em logar 
de principiar com No 497, escrevesse erradamente 479? 

3) As margens estão um pouco aparadas, o que prejudica o texto de 
longe em longe. 

4) São esses os cortes de folhas, mencionados por Molteni, visto di- 
zerem respeito aos fragmentos por elle publicados. Mas devem existir mais 
dois, na parte ainda inexplorada, conforme resulta da nota seguinte. 

5) As privativas do CB são: Nos. 9—36 (foi. 12—13); 273—316 
(foi. 69 -70); 1562 — 1571 (foi. 327 — 329) e 1665 — 1675, no fim do volume, 
i. é. 28 4- 44 -f 11 + 11 = 94. Faltam os Nos. 138 e 139, como já se 
disse. Em compensação havia números repetidos nos seguintes casos: 8'', 
39", 167^ 181^ 181 — 189", 317^ 368" e 474". — Molteni falia de 1567 
composições, como da totalidade de que hoje consta o CB. 

6) São 190, a contarmos um numero repetido que a critica já havia 
reconhecido CB 181i>is = CV 1061 ou CA 68. 



— 53 — 

vãmente, desde 1849. Receberam todavia nova luz com o feliz 
achado. É facto que o subsidio de variantes não é abundante e 
que essas ajudam pouco a melhorar e esclarecer textos tão bem 
conservados como os do antigo pergaminho da Ajuda. Mas de 
valia superior foi a fixação dos nomes de quasi todos os auctores, 
até então anonymos. Aos 16 (respectivamente 17) já apurados 
juntaram -se outros tantos. A theoria de Yarnhagen, abalada desde 
as primeiras investidas ao CV, cahiu por terra. 

Como num capitulo especial exponho as relações entre o CÃ 
e os apographos italianos, omitto aqui pormenores, dando apenas 
um elenco dos nomes que fixei em 1880 pelo confronto dos textos, 
tendo a vantagem de ser elucidada sobre alguns pontos duvidosos 
por informação directa do professor Monaci: 

CB igual a CA ou Tr. 

65— 77 1— 13 65—79 e j Vaasco Praga, de Sandim (13) 

81—97 14—30 255-258 e 80-91, eq João Soares, Somesso (17) 

119—123 31— 35 V e 151—154 Paay Soares, de Taveiroos (5) 

124—146 40— 61 t, 49—64, k p Martim Soares (22) 

148—149 62— 63 h e 148 Desconhecido I (2) 

151—154 64— 67 249—252 Ayras Corpancho (4) 

157—158 68— 69 253—254 Nuno Rodrigues, Candarey (?) (2) 

159—170 70—81 149— 150 e 102— 111 Nuno Fernandes Torneol (13) 

172-184 82- 94 190-2021 p ^ . j^ ,. (13) 

186-204 95-110 202-217/ ^^^^ ^^^^^^ Burgaies ^^^^ 

209—211 111—113 259—261 João Nunes, Camanês (3) 

215—229 114—128 u 129—142 D.FernamGarcia,Esgaravunha(15) 

236—250 129—143 170—172 218—224; Eoy Queimado (15) 

e 143—147 

253—258 144—149 157—162 Vaasco Gil (6) 

259—274 163—179 8—24 João Coelho (17) 

281—293 186—198 37—48 e i Eoy Paes, de Ribela (13) 

294-304 199-209 173-183 João Lopes, de Ulhoa (11 ou 10) 

341—342 265—266 100—101 Bonifácio, de Génova (2) 

189 

§59''. A' uma grammatica scientifica da lingua portuguesa de 

Fr. d'Ovidio, para uso dos estudantes italianos, accorapanhada de 

um summario gallego, o illustre editor do CV e CB juntou uma 

pequena chrestomathia. 

43''. Manualetti d' Introduxione agli Studj neolatini per uso degli alunni 
delle f acoita di lettere — II Portoghese e Oallego: Qrammatica di 
F.d'Ovidio. — Crestomaxia di E. Monaci — Imola 1881. 

Nella avultam 22 poesias archaicas, em lição apurada, embora 
propositadamente não a expurgassem de todos os erros a fim de 
acostumar o principiante a mover -se com precaução. Entre as 19 
cujo texto, tirado do CV, foi coUacionado com a parte inédita do 



— 54 — 

CB, ha uma notável divergência entre os dois apographos. No CV 
falta o principio ou thema da cantiga de maldizer contra os que 
deron os castellos como non devian ai rey D. Affonso: 

A lealdade de Bezerra pela Beira muito anda 
ben é que a nostra vendamos pois que no - lo papa manda. ') 

Essa amostra aviva o nosso desejo de breve recebermos da mão de 
Monaci a lista das variantes todas e o indice comparado dos dois 
códices. 2) 

Um só dos textos copiados pertence ao nosso cancioneiro: o 
No. 26Õ, de Bonifácio Calvo. 

§ 60. Como deixei transparecer, foi neste estádio que princi- 
piei a tomar parte na exploração dos códices. Favorecida tanto 
por Ernesto Monaci como por Max Niemeyer, o desinteressado 
editor dos cancioneiros, recebi as folhas de impressão do CB, á 
medida que iam sahindo do prelo, explorando -as sem tardar a bem 
do CA, cuja preparação estava em andamento. Na persuasão 
illusoria de estar habilitada para o encargo, combinei com os dois bene- 
méritos a sua publicação nas Communieaztoni, para que assim ficassem 
juntos, num só corpo três obras intimamente relacionadas e que 
se completam mutuamente. Na advertência preliminar ao CB an- 
nunciava-se o nosso plano e num Prospecto, distribuido por occasião 
do Centenário de Camões, em nome do editor de Halle, divulguei -o, 
chamando a attenção dos portugueses para aquella collecção de 
monumentos provençalescos , e advertindo em poucas palavras das 
importantes revelações sobre os auctores do CA que emanavam 
do CB. 

44°. Tributo ao Centenário de Luiz de Camões — 11.^) Cancioneiros 
Portugueses: I. 11 Canxoniere Portoghese delia Bibl. Vatic. II. 11 
Canxotiiere Portoghese Colocci-Brancuti. 111. O Cancioneiro da 
Ajuda, ed. critica por Carolina Michaêlis de Vasconcellos, 



1) Na impressão de Monaci lê -se denhamus e zcolo; vendamos e 7iolo 
são conjecturas minhas. 

2) Dos algarismos no índice de Colocci não resalta como p. ex. possa 
ter a numeração 749 a cantiga Amigas que deus vus valha (751?); 879 
Bailemos (876?); 872 Que muyto m' eu pago (870?) e 1477 a sátira contra 
os traidores (1476?) 

3) O primeiro tributo eram as Poesias de Francisco de Sá de Mi- 
randa, cujo texto se achava impresso, posto que sahisse á luz somente 
annos depois. 



— 55 — 

accompanhada de variantes, uma introducção, notas, glossário, indicas 
e um fac-sim. Porto, 1880. 

Calculava- se que daria um vol. in foi. de 200 p.^) 

§ 61. Entliusiasmada também com a nova luz que a des- 
coberta da canção Leonoreta fin roseta, conhecida pela novella de 
cavallaria de Montalvo (Liv. I c. 40) e que surgia agora no CB 244, 
com assignação ao trovador Joan Loheira, me parecia derramar 
sobre a questão do Amadis, publiquei -a em liçaõ reconstituída, 
dizendo duas palavrus sobre o problema e sobre o auctor, que 
floresceu de 1258 a 1278.2) 

45". Ettvas Neues xur Amadis - Frage ; em Zeitsehrift IV, 347 — 351. 
(18 de Maio de 1880). 

§ 62. Fui seguida de perto, ou talvez precedida por Monaci, 
o qual ventilou o mesmo assumpto num artigo da Bassegna setti- 
manale que não cheguei a ver, e por Th. Braga, que a desenvolveu 
numa Revista do movimento contemporâneo, por elle dirigida. 

46°. A canção de Amadis de Oaula era Era Nova I, 184 — 187. 
(1880 — 1881). 

§ 63. Pouco depois o mesmo letrado occupou-se de varias 
outras novidades, colhidas no Cancioneiro, como p. ex. da única 
ou quasi única canção religiosa que encerra: a Salve- Rainlia (CB359 
= Ind. 467) de Alfonso de Castella. 

47°. Uma salva no sec. XIV em Era Nova I, 187. 

Já então não era difficil reconhê-la como obra de Alfonso X, 
em vista de citações em livros tão manuseados como a Hisloria 
da litteralura hespanJiola de Amador de los Rios. 3) Th. Braga 
todavia não a identificou, como prova o titulo. Continuando a 
acreditar na redacção de poesias gallaícas não só da parte de 
Alfonso IX de Leon e Alfonso XI de Castella, mas ainda de dois 
homonymos de Portugal (Affonso III e lY) nega, não sei por que 
razão, que o poeta das 400 Cantigas de Santa Maria figure nos 
cancioneiros profanos. 



1) Na sua Theoria da Historia da Litteratura portuguesa (3°- ed.) 
pag. 200 — 201 Th. Braga allude ao Prospecto. 

2) Vid. Cap. VI, § 39. 

8) Vol. ni, 513. — É a 30""^ do Códice Toletano e a 40'°'' do Cod. 
Escur. j-b-2, faltando no Escur. T-j-1. 



— 56 — 

§ 64. Eestaurou também engenhosamente, embora nem de 

longe acertasse em tudo, as 5 composições sobre assumpto bretão 

com que principia o CB, juntando consideraçõas geraes sobre a 

rápida diffusão da matière de Bretagne em Portugal.^) 

48°. A influencia bretã na litteratura portuguesa: I. Os lays bretãos; 
II. As novellas d' aventuras. ^) 

§ 65. Intemerato empolgou igualmente o tratado doutrinal 

acephalo em que um escolar de sec. XIII ou XIV havia catalogado 

e definido os géneros poéticos, de origem erudita e semi -popular. 

Elucidou muitas passagens; mas não querendo restringir -se ás 

partes legiveis, interpretou outras arbitrariamente, conservando 

palavras adulteradas, como: cantigas a tehudas em vez de c. de 

atafiinda; e lendo joguete certeiro, em vez de joguete d' arteiro. 

49°. Monumentos da litteratttra portuguexa : fragmentos de uma poética 
provençal do sec. XIV. Em Era Nova I, 414 — 422. — 1881.^) 

§ 66. A tentativa passou quasi desapercebida, sendo renovada 
alguns annos mais tarde por Ernesto Monaci, que procedeu com 
critério mais atilado. Pondo de parte fragmentos demasiadamente 
deturpados, commenta algumas das theses que transcreve com 
exemplos colhidos nos cancioneiros. Mas não nos demonstra como 
a theoria está muitas vezes em contradição aberta com a practica, o 
que não é indiíferente para a formação de um juizo critico acerca da 
data; nem compara a terminologia com a dos outros paises ro- 
mânicos. 

50°. II trattato di poética portoghese esistente nel Canxoniere Colocci- 
Brajicuti, publicado na Miscellanea di Filologia e Linguistica 
Caix-Canello, p. 417 — 423. — Firenze, 1885 — 1886. 

§ 67. Voltando ás contribuições de Th. Braga, tenho de citar 
um estudo em que trata mais uma vez do caracter e das formas 
da poesia popular gallega. 

Ao comparar as muinheiras, as ruadas ou cantares de pan- 
deiro- d'aquella província com os archaifcos cantares de amigo ^ pôde 



1) CV 930, 1007 e 1140. Na cantiga CV 1170, que cita também, 
o adjectivo francês lay (= laid feio) nada tem com o género poético do lais. 
Cf. Curso de litter. p. 77. 

2) Sabiram na Era Nova 1 p. 320 e 467. Conheço apenas a reim- 
pressão na miscellanea: Questões de litteratura e arte portuguexa^ Lisb. 1881, 
onde se acham os artigos 44—47 e outros , mais antigos. 

3) Cf. Curso, p. 77. 




— 57 — 

agora introduzir na discussão um elemento novo, de importância 
superior: versos vulgares, ainda hoje cantados em Portugal pelos 
agricultores de Trás -os- Montes, i) nas segadas e mondas do trigo, 
e alii mesmo colhidos da tradição oral pelo notável philologo e 
folklorista Dr. José Leite de Yasconcellos. 

Eis o thema resumido de cada um d' estes quatro cantares, 
acompanhados do refram: 

1°. Pela manhanina de o Abril . . . 
pela manhanina de o Natal 
R. : Pela manhanina manhã 
pela manhã (bis). 

2°. Anda lá um peixinho vivo . . . 
anda lá um, peixinho bravo 
E. : Na ribeirinha ribeira 
naquella ribeira (bis) 

3°. Ferrungando se vae pela vila . . . 
ferrungando se vae pela praça 
R. : ferrungando se vae a raposa 
ora vae ferrungando (bis) 

4°. Santo António aqui d' esta villa ... 
Santo António aqui d' esta praça 
R. : Santo António quero te eu adorar 

pois os meus amores querem- me deixar. 

Vasados, embora com algumas alterações que deterioram o typo 
puro, nos mesmos moldes dos cantares primevos de estylo mais 
genuinamente populai', que os cancioneiros encerram, estas quatro 
composições vulgares 2) são, mais pela forma do que pelo fundo, 
de importância capital, porque provam a continuidade de uma 
tradição secular e demonstram que houve positivamente relações 
entre os escriptores dos cancioneiros e o povo. 

A forma original, tal como o povo as canta hoje, acha -se 
registada num escripto de J. Leite de Vasconcellos: 

51°. Antiga poesia popular portuguexa no Annuario para o estudo das 
tradições populares portuguexas. Porto, 1882. 

A forma reconstituída, i. é. alterada por Th. Braga, segundo 
a doutrina abstrahida dos archaicos cantares, acha -se no Prologo 



1) Em Rebordainhos de Moncorvo. 

2) Na Parte IV veremos quaes são. A tradiçíLo popular do Norte 
de Portugal ainda conserva mais alguma, e vae continuamente creando 
imitações novas. 



— 58 — 

ao Cancioneiro popular gallego de José Perez Ballesteros cujo 
titulo registo apenas: 

52°. Sobre a poesia popular da Galltxa. Madrid , 1885. Na Biblioteca 
de las tradiciones popidares. Tomo VIL 

Abstrahindo aqui das theorias ethnographicas , definições inade- 
quadas ás quaes não corresponde a realidade que resalta dos exemplos 
allegados, afíirmações inexactas cerros de detalhe, a importante these, 
defendida nesse estudo, parece -me ser esta. 

Graças tanto á sua situação geographica como á sua con- 
stituição etlmica, de misturas relativamente poucas, e com prepon- 
derância dos elementos célticos e suevicos (sobre um fundo turaniano, 
bem se vê), sendo nos séculos da conquista e reconquista pouco 
perturbada por invasões árabes, a Galliza foi o foco da civilização 
peninsular e o berço da elaboração lyrica. Graças ao abandono e 
á atonia e passividade provincial em que cahiu posteriormente, 
submettida a Castella, depois da fatal desmembração da parte sul, 
não somente um fundo valioso de tradições e costumeiras mas também 
typos de poesias archaíca se conservaram no canto nordoeste da 
península em relativa pureza, embora em forma reduzida e bara- 
lhada e mal comprehendida até hoje. Com auxilio dos cantares 
trovadorescos que melhor representam o género popular, i. é. dos ver- 
sos que Braga chama serranilhas, é possível e é preciso comprehender 
e recompor a estructura primitiva não só das muinheiras mas também 
das trovas descobertas por Leite de Yasconcellos e tudo o mais 
que for apparecendo em dísticos asonantados, de parelhas perfeita 
ou imperfeitamente desdobradas, com ou sem estribilho, em mono- 
logo ou dialogo. Esses dísticos das serranilhas e muinheiras são 
o verdadeiro género nacional e tradicional que chegou a penetrar 
nas litteraturas palacianas de Portugal e Hespanha: no cancioneiro 
individual de D. Denis e seus próceres, nas poesias do Arcipreste 
de Hita e Marquês de Santilhana, nos dramas de Gil Vicente, na 
lyrica de quinhentistas como Castillejo e S. Juan de la Cruz; e como 
motes de voltas e glosas ou como centões nas obras de Camões e 
de Camonistas. 

§ 68. Confrontando os textos do CB com os da coUecção 
lisbonense a fim de saber quaes eram as 189 ou 190 Cantigas, 
em commum a ambos, e quaes as variantes de que eu fallára no 
prospecto, Th. Braga, impaciente de concluir e de divulgar, como 
de costume, ainda agora não recorreu ao texto prineeps, contentan- 



— 59 — 

do -se com o treslado que tinha á mão. Quer fosse o que se 

conserva na livraria da Academia, ou outro que adquirira, o ms. 

que utilizou como base de operações deve ter sido mera cópia da 

edição Stuart com todas as imperfeições que a desdouram. B pelo 

menos o que indicam os defeitos do artigo intitulado: 

53". O Cancioneiro da Ajuda em Revista de Estudos livres, Vol. II, 
607 — 611. — Fevereiro de 1885. 

A descripção do códice continua inexacta, insistindo o auctor 
em dissertar sobre a falta de 41 folhas no principio, de paginas 
interpoladas, de vinte e quatro laudas, descobertas em Évora, da 
proveniência do códice da Bibliotheca de D. Denis, etc. A numeração 
das folhas sahiu-lhe necessariamente incorrecta, por não serem 
mettidas em conta as paginas em branco do original, desprezadas 
por Stuart. Ha lacunas no confronto, que é feito por folhas, com 
indicação dos nomes de auctor e da numeração do CB, pelo modello 
seguinte: foi. 41 do CA, Vasco Praga de Sandim == CB 65, 66, 67, 68. 

Indicam -se 227 Trovas de 28 auctores (com inclusão dos 16 
ou 17 do CV) na ordem em que realmente se succedem, de Vaasco 
PragaateRoy Fernandes. Dois apparecem sem direito, faltando 
quatro^), por se haver saltado folhas inteiras, e omittido os frag- 
mentos todos. A somma das canções inéditas, ou com mais exacção 
privativas do CA, avalia -se em 86, sendo ellas na realidade 64. 
Na lista que Braga organizou, o leitor encontra porém apenas 35. 

A affirmação que o CB é o começo e o CV o fim de um 
grande Cancioneiro, de que o CA é a parte média, é justa até 
certo ponto, mas não espelha fielmente a realidade. 2) 

§ 69. Indicarei ainda uma remodelação do Mantial, em que 
Braga condensou os factos, apurados desde 1875, não sem os 

1) E são: Ayras Corpancho, Nuno Rodrigues de Candarey, Joan 
Nunes Gamanès e Bonifácio de Oenova. 

2) Considerando os três como troços de um Cancioneiro Geral , a ordem 
é a seguinte, abstrahindo-se aqui de todas as lacunas e pequenas diver- 
gências. CB 1 — 90 

CA e CB 91 — 391 
CA e CV o CB 392-442 
CA e CB 443 — 450 
[CA 267— 284] 
CB 454 — 478 

CB e CV 479 — 1500, apparecendo no CA apenas 
os Nos 811, 812, 816, 991 — 997. 

CB 1501 — 1578 

CB 6 CV 1579 — 1670. Confira -se o Cap. Hl. 



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bordar de copiosas hypotheses arrojadas. No paragraplio sobre o 
CA figurara d' esta vez 27 auctores, entrando de contrabando o 
clérigo Ayras Nunes, e deturpando-se o nome a Fernara 
Gonçalves de Seabra, que ahi é chamado de Sousa. 
54°. Ourso de Historia da litteratura poríuguexa. Porto, 1886. 

§ 70. Do estrangeiro vieram de 1880 em deante vários trabalhos 
críticos e artisticos. 

"Wilhelm Storck, de Miinster na Westphalia, o distincto 

camonista, escolheu nos cancioneiros uma centena de cantigas, que 

verteu para aliem ão, magistralmente, juntando em notas finaes 

propostas de emendas para os textos deturpados quanto á lingua 

e ao schema estrophico. Naturalmente favoreceu os poéticos cantares 

de amigo. Entre os de amor do CA colheu apenas dois: o nosso 

No. 295: Por vos veer viu eu, senhor (de Cal velo) e 229: Amigos 

non poss' eu negar (de Guilhade), numerados por Storck 3 e 30. 

55°. Hundei-t altportugiesische Lieder. Zum ersten Male deutsch von 
"W". Storck. — Paderborn und Miinster, 1885. 

§ 71, Estes ecos ingénuos da alma popular inspiraram um 

compositor acreditado P. E. Wagner, o qual ideou melodias muito 

cantáveis para uma mão-cheia de versos, dei rei D. Denis (CV 141 

Pois ante vós estou aqui); do aristocrata Joan Meendes de 

Beesteiros (CV 450 Amigo, ben sei que nona); dos jograes Joan 

Zorro (CV 755 El Bei de Portugalé); Lourenço (CV 867 Três moças 

cantavan d'amor); Pêro Meogo (CV 793 Levou -se mui cedo); 

Juião Bolseiro (CV 774 Nas barcas novas foi-sé); e do clérigo 

Ayras Nunes (CV 761 Bailemos já todas, todas ay amigas).'^) 

56°. Altportugiesische Lieder xum ersten Male deutsch von Professor 
Dr. W. Storck fúr vier Solo-Stimmen mit Klavierbegleitung, com- 
ponirt von P. E. "Wagner. Paderborn, 1885. 

§ 72. De Portugal sahiu, para ser publicada na Allemanha, 
uma serie de correcções, na maioria acertadas, aos textos do CV. 

Apontarei um só erro de interpretação porque é capital e 
passou para o CD, na edição Lang. O emprego de h^ seguindo 
consoante, mas antes de vogal atona, não foi bem explicado. Genera- 
lizando a graphia provençalesca nh. Ih, explicada por Diez,^) 



1) Num concerto musical de 27 de Dezembro de 1886 , oito d' estas 
cantigas foram executadas em Paderborn, com muito applauso. — Em Por- 
tugal ainda não foram cantadas nem em publico, nem nos paços régios! 

2) Kunst- und Hofpoesie, p. 35 — 36 e 111. 



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é que os portugueses escreviam hh, vh, nih etc, servindo a ultima 

letra de representante de i atono. Sejam exemplos o pronome poss. 

f. fnha = mia > mea, empregado como prefixo monosyllabico, e também 

palavras conjiigadas como mha= mi-a > mihi illmn, ouvha = oúvi-a 

> Imbui illam ad (CV 17, 16 etc); os nomes próprios Simhon = 

Simion^ hoje Simaõ; Nevha = Nevia (hoje Neiva); LimJia = Limta, 

hoje Lima, Pavlm = Pavia {hoie Paiva); e o verbo dormho == dormio, 

hoje dunno. De modo algum este h faz as vezes de apostrophe, 

como indicam Epiphanio Diaz e Henry R. Lang.i) 

57°. Beitrãge xur einer kritischen Ausgabe des vaticanif.ehen portu- 
giesischen Liederbuehes. Von Epiphanio Diaz. — Zeitschrift XI, 
p. 42 — 55. 1887. 

§ 73. Em Roma, no gabinete de estudo de um adepto deMonaci 
elaborou- se a primeira dissertação critica pormenorizada sobre um 
grupo de cantigas, pertencentes a um só poeta, mas intimamente ligadas 
por via directa e indirecta aos versos de outros muitos, sobre os quaes 
também derrama luz. Era de suppôr começassem com as figuras mais 
proeminentes na gerarquia social. A escolher o Rei de Castella 
e de Leon levava uma these errónea de Braga que, por muito 
repetida, corria risco de se propagar. Em opposição a Wolf , Milá e 
Diez, o historiador da litteratura portuguesa, assentara apodictica- 
mente, conforme indiquei, que nenhuma canção de Alfonso o Sábio 
apparece como excerpto nos Cancioneiros, sustentando -a ainda depois 
de haver lido no CB o cantar sacro: Deus te salve, reynfia Maria. 

Cesare de Lollis analysa cuidadosamente as poesias princi- 
paes, assignadas pelo Rei de Castella e de Leon, interpretando 
as allusões históricas. E apura o facto que nas cantigas CB 359—478 
(-= índice 467 — 478) eCV61-79 (índice 479 — 496), que juntas 
constituem uma serie não interrupta, possuimos restos da activi- 
dade poética profana do Rei Sábio. Além d' isso estabelece que ao 
cyclo de homens de corte e de jograes que o secundaram nas suas 
empresas satíricas, pertencem Pêro Gomes Barroso, Pêro da 
Ponte, Bernaldo de Bonaval, Affons' Eaunes do Cotom, 



1) O primeiro diz na Zeitschrift XI, 44: „Das handschriftliche ouuha 
letiar (d. h. houv'a levar) ist fehlerfrei. Das h steht fur den heutigen 
Apostroph."- — Lang (CD, p. CXLVII) fallando da orthographia que 
adoptou, explica: „h ist gefallen, tvo es bios etymologischen wert hat , bei- 
behalten nur im tonlosen pronomen, ■mh=^me vor vokalen, ivo es offenbar 
die stelle des apostrophes vertritt."- 



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Joam Baveca, Pêro d'Ambroa e Pedr' Amigo. De passagem 

toca também nos versos de outros auctores ^) cuja chronologia tenta 

fixar, e fixa em muitos casos satisfactoriamente.^) 

58°. Cantigas de Amor e de Maldizer di Alfonso el Sábio Ré di Castiglia 
em Stvdj di Filologia Romanxa. Vol. I, 31 — 66. 1887. 

§ 74. Pouco mais tarde as noções dos estudiosos sobre o 
espirito poético e a admirável actividade litteraria do egrégio 
monarca foram efficaz mente integradas por uma publicação de vasto 
alcance: o quarto cancioneiro gallaíco- português, longamente esperado 
e com impaciência. Fallo do Livro dos cânticos sacros de Alfonso X. 
Annunciado ao mundo pelo monarca em pessoa no seu testamento e 
ainda por um seu coevo, o minorita Fray Juan Gil de Zamora, o 
qual escrevera: more queque Davidico etiam ad praeconium Virginis 
gloriosae multas et perpulchras composuit cantinelas sonis conveni- 
entibus et proportionibus modulatas , o livro nunca mais fora inteira- 
mente esquecido desde então. 

Quem promoveu a magnifica edição, digna de um rei, 

foi a Academia hespanhola, a instancias do Marquês de Molins, 

custeando -a o governo, e coUaborando vários sábios nacionaes e 

estrangeiros nos commentarios scientificos que accompanham o texto. 

59°. Cantigas de Santa Maria de Don Alfonso el Sábio. Las publica 
la Real Academia Espanola. 2 Vol. in foi. Madrid 1889. 

Durante três séculos, desde que Argote de Molina publicara 
na Nobleza de Andaluzia a historia do milagre de Chincoya (CM 185)^) 



1) João Soares de Paiva, Ruy Gomes de Briteiros, Ayras 
Peres Vuiturom, João Soares Coelho, João d' Aboim, Rodrigu' 
Eannes Redondo. 

2) Os erros de alguma impoiiancia que noto nas explicações históricas 
são os seguintos. O rei Fernando , cuja favorita fora Maria Annes Batisella 
(p. 35), não é o de Portugal, mas sim o conquistador da Andaluzia. — 
Pag. 36: a lide de Moron teve lugar no anno de 1259, e não em 1289. — 
Pag. 37: o Monçon, mencionado na cantiga CV 1158, não pode ser o de 
Aragão; o jantar não é nenhum bovage; nem o rei, a que allude Paay 
Gomes Charinho é D. Jayme de Aragão. — Pag. 39 e 41, não ha prova de 
que Ayras Peres Vuiturom ainda vivesse no reinado de D. Denis. — Pag. 47, 
na cantiga CV 74 o Guadalquevir não designa a região onde se desenrolara 
a campanha descripta. — Lollis copia numerosos trechos illustrativos, mas 
não nos dá textos completos, restaurados; nem recorreu, para este fim, ás 
variantes do CB; sobre as difficillimas poesias que precedem no CB as 
d' El -rei Sábio (assignadas por el-rei D. Affonso de Leon) não se pro- 
nuncia. 

3) Livro II, e a p. 16. 



— 63 — 

apenas haviam sido divulgados magríssimos excerptos do Cancioneiro 
real, patente agora na integra. Nas 1150 paginas de primorosa 
impressão temos 40 a 50 lyricas sacras: hymnos para as prin- 
cipaes festas religiosas do anno; orações, e louvores da Virgem que 
D. Alfonso, transformado em trovador ou galan de Santa Maria (seu 
entendedor, como se expressa candidamente, na cantiga 130)^) desti- 
nava a serem cantados por jograes nas igrejas de Hespanha, em 
substituição das sequencias, ladainhas e prosas latinas; e 360 pias 
narrações épico -lyricas sobre casos milagrosos que ora redigia 
pessoalmente, ora mandava redigir, 2) seguindo o impulso hagio- 
graphico do sec. XIII a que já cedera em França Gautier de 
Coincy (1177 — 1236), e na própria península aquelle Gonçalo 
de Berceo (c. 1180 — 1246) que se apellidou mais modestamente 
jogral da Virgem e dos Santos. 

Contados os prólogos, que abrem a vasta collecção, e também 
o epilogo e a petição que a fecham, e descontados os textos re- 
petidos, temos por junto umas 420 composições em metros varia- 
dissimos, de valor mui desigual, mas todas preciosas, comquanto 
o interesse material, de historia, linguagem, métrica, pintura e 
musica exceda (e de muito) o valor puramente ideal das cantigas, 
como obras de arte. 

Todos os quatro códices membranaceos , que ainda subsistem, 
foram explorados cuidadosamente. O Escurialense (j-b-2), como 
mais completo e correcto, serviu de te:íio -princeps. Forneceram 
accrescentos e variantes, outro da mesma bibliotheca (T-j-1), in- 



1) No Prologo das Cantigas, D. Alfonso, alludindo aos seus versos de 
amor profanos, expressa -se do modo seguinte: 

Rogolle que me queira por seu 
trobador e que queira meu trobar 
receber; ea per el quer' eu mostrar 
dos miragres que ela fex, e ar 
querrei-me leixar de trobar des i 
por outra dona . . . 

2) Na maioria dos casos é El-Eei quem falia. Em algumas faliam 
d' elle e não de muito peiio; p. ex. logo a principio, na Cant. 18, onde se 
diz, com relação a umas toucas de seda. milagrosamente fabricadas em 
Segóvia pelo sirgo (as babous): 

Porem Don Affons' el Rei 
Trage, — per quant' apres' ei — 
Na sa capela 
End' a mais bela! 



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completo, mas riquíssimo; i) e o de Toledo, sendo este o mais 
antigo, redigido entre 1257 e 1275, quando Alfonso ia usando o 
titulo: Rey dos Romãos. Este contém apenas 100 cantares e soes, 
aos quaes foi juntado mais tarde um appenso de 27 poesias. Dois 
cantares de supplemento provêem de um códice descoberto lia pouco 
na Universidade de Florença, por acabar, como o segundo 2) 
escurialense e o CA, e mutilado, como este. As collecções do 
Escui-ial encerram versos com referencias aos acontecimentos de 
1279 e 1280 (a rebellião dos ricos -homens 3) devendo, portanto, 
datar- se dos últimos e bem tristes annos do seu reinado. Escriptos 
e illuminados com luxo surprehendente , é todavia verosímil fossem, 
como o de Toledo, executados por ordem e em vida do monarca^) 
e por elle legados á igreja em que sua filha, a Eainha de Portugal 
D. Brites e os mais testamenteiros houvessem por bem sepultá-lo.^) 
As 212 estampas do códice incompleto, com 1200 e tantas 
miniaturas, obra de pintores pátrios, embora o seu estylo atteste 
a influencia da arte francesa, encerram abundantes revelações sobre 
a civilização, os costumes, as artes, os trages e as alfaias do 
sec. XIII.'^) Dez chromo-lithographias, introduzidas na edição acadé- 
mica , dão ideia aproximada d' essas illustrações , assim como da 
calligraphia e da musica. 



1) É o que foi utilizado em 1588 por Argote de Molina. Parece que 
falta o 2^° vol. 

2) Fundo Magliabeeehiano. Vid. p. 52 — 56 da Introducção e na Zeit- 
schrift XI, 301 — 304 um artigo de E. Teza, o erudito Pisano. 

3) CM 235. 

4) Ha quem pense que os successores de Alfonso X (até Alfonso XI) 
continuaram a obra por elle iniciada. 

5) »Otrosi mandamos que todos los libros de los Cantares de loor 
de Santa Maria sean todos en aqiiella iglesia do nuestro euerpo se 
enterrare e que los fagan cantar en las fiestas de Santa Maria. « Vid. 
Memorial histórico espanol, Tomo II. — Surge a ideia se haveria copias, 
contendo unicamente os hymnos e louvores? — Estraviaram - se vários 
códices, authenticados por assentos fidedignos. Houve p. ex. um códice 
ricamente guarnecido de miniaturas, aproveitado por Zuniga, Nicolas António 
e ainda por Mondejar, o qual fora propriedade, primeiro de Alfonso Siliceo 
e, em fins do sec. XVII, do sevilhano D. Lucas Cortês. Houve outro, que 
se regista no inventario da livraria da rainha D. Isabel a Catholica. E 
talvez mais um se guardava em 1438 entre os livros Rei D. Duarte de 
Portugal, idêntico, por ventura, a um que foi visto no sec. XVII na 
Torre do Tombo. — Cf. Cap. II e IV. — O problemático Cancioneiro Marialva, 
que incluia, dizem, uma das Cantigas de Alfonso X, era, apparentemente, 
se existiu, uma Miscellanea de versos authenticos e apocryphos. 

6) Na Cant. CM377 o trovador coroado nomeia um dos seus illuminadores. 



— 65 — 

A lição dos textos, transcriptos com critério atilado, satisfaz 
em geral, ainda que naturalmente se possam levantar pequenas 
objecções, tanto contra o lavor critico, como contra a fidelidade, 
nimia umas vezes, e outras deficiente. No. 1° volume a redacção 
parece mais cuidada, havendo no 2**° não poucos desvios e erros 
evidentes de copistas antigos que não mereciam ser conservados 
no texto. As variantes introduzidas, segundo o principal redactor, 
com prolixo esmero, são na maioria dos casos meras graphias 
diversas. Creio que algumas derivam do processo, segundo o 
qual eram organizados os borrões para ulterior execução caUigraphica. 
Uma miniatura, mostrando o trovador coroado no acto de dictar 
e ensaiar os seus cânticos ,, rodeado de jograes que empunham a 
viola, e de juglaresas a dançar i), assistindo os amanuenses, de penna 
na mão, com os rolos de pergaminho estendidos sobre os joelhos, 
bem pode ser representação veridica do que se passara na realidade. 

O glossário é incompleto, cheio de apreciações e traducções 
erradas, e não satisfaz. 

§ 75, Numa extensa e substanciosa Introducção (226 pag.) o 
Marquês de Valmar D. Leopoldo Cueto dá amplas e seguras 
informações sobre os códices; historia a civilização hispânica e o 
seu contacto, tanto com a França meridional e a do Norte, como 
com esta praia occidental; discursa com respeito á arte métrica; trata 
a lingua de y>gallego erudito « sobre o qual actuaram os dois dia- 
lectos franceses; e occupa-se de um modo exhaustivo dos assumptos, 
em parte universaes, em parte locaes, e em parte familiaes, assim 
como das fontes, em latim e romance, de que emanaram as lendas 
de Índole cosmopolita. 2) 

Para a comparação das redacções gallaíco- portuguesas com 
estes originaes e com outras adaptações contribuíram sábios de 



1) Um inédito do Cod. Flor. principia: 

Cantando et con dança 
seia por nos toada 
a virgem coroada 
que é nossa asperança. 

2) Entre ellas avulta o Speculum historiale de Yincentius Bellova- 
censis que mandou fazer el Eei Luís de França, e o Liber Mariae de Frei 
Juan Gil de Zamora, biographo de Alfonso e preceptor de Sancho IV. — 
Vid. Gincoenta teyendas por OU de Zamora., ed. P". Fidel Fita, no Boletin 
de la Academia de la Historia. 

5 



— 66 — 

renome europeo, como Adolpho Mussafia, de Yienna d' Áustria, 
Paulo Meyer de Paris, e outros. 

Ao tratar do espirito poético do dynasta castelhano, o Marquês, 
livre de preconceitos, accentúa que Alfonso não inventou cousa 
alguma. Os themas recolhidos de manuscriptos ou da tradição 
oral são poucas vezes phantasticos ou delicados; frequentemente 
triviaes e mesmo anti -poéticos, não faltando alguns de uma irre- 
verência escabrosa e lascívia singular, triste documento da excessiva 
indulgência moral d'aquelle tempo. O «desnudo naturalismo* da 
narração (isenta de resto de palavras baixas) ainda é, segundo elle, 
realçado pela linguagem procaz de algumas pinturas. Embora 
avalie muito mais alto o mérito litterario do rei castelhano do que 
o de seu neto D. Denis, não deixa de notar o muito maior recato 
e pudor do português, i) Sem arranques lyricos, nem rasgos in- 
sólitos, as Cantigas de Santa Maria agradam pela sinceridade 
primitiva e a devoção ingénua do sentir, encantando o especialista 
pelo admirável desembaraço com que Alfonso X narra, discursa 
e versifica em gallego. Mal se pode duvidar que manejasse este 
idioma familiarmente desde a sua infância. 

Com relação a Portugal e á Galliza é notável a intimidade 
das suas relações com Castella e Leon que as cantigas manifestam. 
Grande numero dos milagres foram colhidos num grosso volume 
guardado em Évora (CM 338) ; muitos são localizados em terra lusitana, 2) 
avultando os que a tradição liga ao sanctuario antiquíssimo de 
Terena, celebre pelo culto do Deus Endovellico. s) Outros referem - 
se a Santiago de Compostella.^) A trágica sorte de Sancho II 
arranca gritos de revolta a Alfonso X. No fim da vida, abandonado 
pelo povo e destronado pelo próprio filho, exclama, sem considerações 
por D. Affonso III, seu genro que recolheu o premio da traição: 

nunca assi foi vendudo 

rey Don Sancho en Portugal! (CM 235). 



1) Cf. p. 152: El monarca de Portugal Don Dionísio entro en la 
corriente refo7~madora y no dejô en sus trovas, como su ilustre abuelo, 
ejemplo alguno de impiedad moral y de luhrica audácia que pudiese des- 
dorar el decoro dei escritor e la majestad de la realeza. 

2) Vid. por. ex. as CM 55, 222, 237, 238, 245, 267, 271, 275, 277, 
291, 322, 338, 369, 373. 

3) Vid. Leite de Vasconcellos, Religiões dos Lusitanos^ Lisboa 1898. 

4) Vid. CM 218. 



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Aos dizeres de escarnho de um clérigo de Alemquer, Marti m 
Alvites, e á sua conversão dedica um cantar. i) Um dos poetas 
do CV e CB, Ayras Nunes, (yriundo de Santiago, talvez lhe prestasse 
serviços na elaboração das Cantigas. Seu nome, pelo menos, apparece 
lançado á margem exactamente d' essa Cantiga 235! 

No que o Marquês de Valmar relata sobre o CÁ e sobre os 
Cancioneiros profanos em geral, cinge -se, como devia ser, ás in- 
formações de Th. Braga, seu collaborador nas Notas, não lhe 
cabendo por isso a responsabilidade de algumas inexactidões em 
que incorre. 2) 

§ 76. O mesmo devo dizer com relação ao fecundo cathedratico 
de Madrid, cujos prólogos ao bello florilégio que vae publicando 
constituem uma ameníssima historia documentada de toda a lyrica 
castelhana. 

GO". Marcelino Menendez y Pelayo, Antologia de poetas liricos 
castellanos. Tomo III, vol. CLX da Biblioteca clasica, 1892. 

Para caracterizar o periodo gallaíco escolheu, com tacto seguro 
e critério superior, no fundo importante de ideias variegadas, dis- 
persas nas differentes publicações do seu collega lisbonense, o que 
encontrou mais comprovado e digno de ser divulgado, condensando 
a matéria num rápido resumo, illustrado pelas mais vistosas e 
aromáticas flores silvestres que se podem colher nos cancioneiros 
profanos, ^) 

Três considerações suas, próprias, significam um novo e im- 
portante passo avante, na justa avaliação da lyrica gallaíco -portu- 
guesa. 

1°. A perfeição da linguagem e do rhytmo que se observa 
nas Cantigas de Maria é indicio certo de uma evolução anterior, 
talvez muito longa, cujos monumentos pereceram. 



1) CM 316. A valentia do ricohomem Alfonso Telles também lhe 
mereceu louvores : CM 205. É muito natural que entre os seus ajudantes 
e também entre os copistas houvesse clérigos o músicos de origem gallega. 

2) Esta Introducção appareceu também em ed. separada: Don Leopoldo 
Augusto de Gueto, Marques deVabnar, Estúdio histórico, critico y filoló- 
gico sobre las Cantigas d' El Rey Don Alfonso el Sábio, Madiid 1897. — 
Cf. Rev. Crit. de Hist. y Lit. II, 294. 

3) Do CA falia a pag. XVII e XLVI — L. Em vista da larga circulação 
que todos os volumes de Menendez y Pelayo alcançam felizmente, é para 
sentir que os textos — colhidos naturalmente na ed. restaurada de Th. Braga — 
não estejam tão correctos, como seria para desejar. 

5* 



— 68 — 

2°. O despertar poético da Galliza houve de coincidir com 
aquelle breve período de esplendor que desde os fins do sec. XI 
até ao meado do XII parecia dar ao Noroeste o predomínio e a 
hegemonia sobre as demais gentes da peninsilla. 

3°. Foram as incessantes ondas de peregrinos transpyrenaicos 
que levaram a Santiago, ao som do canto de Vlireia^ os germens 
da nova poesia que ia desabrochando viçosamente no meio -dia da 
França. — 

Outras theses apresenta que não são igualmente persuasivas. 
Eu também me inclino a ter em conta de genuinamente populares 
algumas poesias do cancioneiro, como p. ex. a dança duplamente 
representada, começando uma vez: 

Bailemos agora por Deus, ay validas / (CV 761) 
e a outra: 

Bailemos Jâ todas, todas, ay irmanas! (CV 462) 

mas ha quem nos contradiga. — Considerar o idioma gallaíco- 
português de Alfonso X como um dialecto convencional, sem oíferecer 
explicações ulteriores sobre a maneira de entender essa doutrina, é 
abrir a porta a apreciações falsas. Aceitar para os cânticos de 
romaria o nome cantos de ledino, distrinçar no Romance de D, Fer- 
nando (CV455) um fragmento de cantar de gesta, transumpto do 
castelhano,^) são maneiras de ver muito controvertiveis e já com- 
batidas por mim em outro logar. 

§ 77. Num elegante artigo, o mesmo Menendez Pelayo delineou 
para o grande publico o que é de interesse geral no Cancioneiro 
sacro do monarca castelhano. 

61". Las cantigas dei Rey Sábio na revista La Ilustracion de 28 
de Fevereiro de 1895.^) 

§ 78. Emquanto assim se ia erguendo a complexa construcção, 
para a poesia sacra, palaciana e popular — castello feudal, egreja annexa 
e o burgo em volta — um sábio francês tentou cimentar os alicerces 
não só do edifício peninsular mas da totalidade das creaçOes trova- 
dorescas. As origens da lyrica moderna, eis o assumpto da obra 



1) A este respeito vid. C. M. de Yasconcellos, Randglosse XII. 

2) De um artigo de E. Monaci, relativo ao mesmo assumpto, sei apenas 
que appareceu nos Rendiconti delia R. Accad. dei Lincei, serie V, vol. I, 
fase. I. 



— 69 — 

deAlfredJeanroy que fez época, dando novo impulso á actividade 

de muitos obreiros da philologia neo- latina. 

62°. Alfred. Jeanroy, Les origines de la poésie lyrique en France 
au moyen-âge. Paris 1889, 523 pag. 

Principio copiando a definição do que é poesia popular, em 
contradicta de uma concepção mystica e supersticiosa, ainda em 
voga neste pais e alhures, e que, vindicando para o vulgo inculto 
as creações mais bellas da litteratura, levou a apreciações injustas. 
Frisando que até ao fim do sec. XII todos os géneros poéticos se 
dirigiam á nação inteira, sem distincção alguma de classe, o auctor 
explica que a poesia popular abrangia producções de poetas deter- 
minados, de certa educação e cultura, os quaes reflectidamente iam 
compondo obras litterarias, sustentando embora com o povo um 
contacto intimo a ponto de poder traduzir fielmente o seu pensar 
e fazer pulsar o seu coração . . . poesias compostas não pelo povo 
mas para o 2^ovo, i. é para a fiação inteira: »des prodimtions 
émanant de poetes determines, pourvus d'une certaine culture, faisant 
ceuvre réfléchie et litiéf-aire, mais qui sont restes avec le peuple dans 
une union asseie intime pour iraduire fidèlemsnt sa pensée et faire 
battre son cceur . . . des pièces composées non par le peuple, mais 
pour le peuple et pour le peuple tout entier.« 

O empenho de apurar entre os géneros aristocráticos, cultivados 
por troveiros e trovadores, os de origem popular, levou Jeanroy a recolher 
com paciência e a coordenar systematicamente os destroços d' essa 
lyrica perdida, assim como todos os indicies que para ella apontam. 
Sem isso, o intento de mostrar o que nas imitações palacianas 
podia ser eco e reflexo, mais ou menos vago da archaica forma 
primitiva, não teria tido base segura. O processo foi fértil em 
resultados, também para Portugal^ cujos archaicos cantares de amigo, 
de forma e fundo apparentemente indígena, haviam suscitado desde 
1835 o interesse de Diez e Milá, e depois o de Monaci, Paul 
Meyer, Coelho, Leite de Vasconcellos, Menendez y Pelayo e prin- 
cipalmente o de Th. Braga. 

Examinando em uma Primeira Parte os géneros que a critica 
designara até então na lyrica da França do Norte como mais ou 
menos genuinamente populares — as pastoreias, os debates de amor, 
as albas, as canções dramáticas com personagens fallantes, e também 
os rondeis — demonstra a inanidade d' esta ai firmação , assignalando 
os traços salientes que lhes imprimiu o ambiente cortesão. Prova 



— To- 
que todas elles Vieram do Sul e foram usados no Norte pelos 
mesmos auctores a que se devem as canções de amor plenamente 
palacianas. Na Parte II, dedicada á poesia francesa no estrangeiro, 
expõe que, ainda assim, esses géneros artísticos derivam de antigos 
themas populares. Numerosissimos fragmentos de cantigas de dança 
(chansons de carole) acham -se conservados sem alteração em alguns 
romances em prosa e verso, sobresahindo em numero e valia os que 
se encontram no de Guillaume de Dole (escripto de 1210 a 1215) 
e transpostos ao divino em sermões e tratados religiosos {motetes). 
São os refrains, espécie de passe -partout poético, quer constem 
de um único verso solto, quer de disticos, ou de pequenas coplas 
(roondets) e apparecem intercalados a capricho. Nessas pequenas 
maravilhas de poesia primaveril, de um vago mysticismo que in- 
quieta, adjudicadas em geral a pastores e pastoras, julga que 
possuimos, não a verdadeira poesia popular medieva, mas os seus 
primeiros e mais genuínos reflexos, tanto nos themas, como na 
forma. Na lyrica trecentista e quatrocentista dos países estrangeiros 
que imitavam a poesia trovadoresca — Itália, AUemanha e Portugal — 
procura em seguida canções inteiras, narrativas ou dramáticas, cujos 
themas se parecem com aquelles restos e com as poesias que na 
França desabrocharam nos sec. XV e XVI (como p. ex o da 3íal- 
Maridada, da Freira namorada, do VeUio mau) concluindo que 
esses géneros e outros, considerados pela critica como creações 
espontâneas e privativas do génio nacional (italiano, allemão e por- 
tuguês), existiram na França, não só coevas, mas anteriormente, 
no sec. XII, e que de França os haviam pedido de empréstimo, 
sendo eUa mãe e iniciadora senão de toda, pelo menos de uma 
parte considerável da lyrica moderna. 2) 

Na Terceira Parte em que trata das formas poéticas, uma 
analyse minuciosa dos rhytmos, das rimas e das estrophes conduz 
ao mesmo resultado. 

Quanto a Portugal, o inteUigente professor de Toulouse, que 
ajudado por A. Morei- Fatio explorou cuidadosamente os cancioneiros 



1) Cf. Gaston Paris, La littérature française au Moyen-Âge, §§51, 
67, e 133. Ha-os também no romance do Châtelain de Coucy, Méliacin, 
Violette, Poire, Panthère etc. e no famoso auto deEobin et Marion 
de Adam de la Hale. 

2) Parte II, c. 1, p. 130 — 170 e cap. V. p. 308 — 338 : La poésie française 
en Portugal. 



— 71 — 

palacianos, alguns cancioneiros e romanceiros populares e as obras 
de Gil Yicente, elucida muitos pontos escuros. Mas não chega a 
conclusões que se possam adoptar sem discussão, i) Reconhecendo 
que a poesia d' esta terra se presta difficilmente á tentativa de 
derivá-la dos mananciaes franceses, por ser quasi exempta de in- 
filtrações palacianas, e que a ultima impressão não é bem definida, 
resume -a ainda assim na phrase seguinte: a maior parte dos themas 
populares do Cancioneiro do Vaticano passou de França a Portugal. 
A poesia portuguesa nada mais fez do que modificar alguns por- 
menores. A imitação é evidente. 

Aceitando naturalmente como verdadeiro o parecer dos que 
datam a nossa lyrica trovadoresca da 2^^ metade (respectivamente 
do 2''° terço) do sec. XIII, mas não desconhecendo o feitio peculiar- 
mente archaíco e os traços divergentes de uma parte dos cantares de 
amigo, imagina que os seus cultores se affeiçoaram a certas formas 
já então antiquadas em França. 2) Esta these não se pode sustentar, 
como resultará da continuação d'este estudo. A lyrica trovadoresca 
de Portugal e da Galliza já contava cultores no ultimo quartel do 
sec. XII. E a supposição que os cantares de amigo tenham origens 
nacionaes deverá continuar valida emquanto não fôr documentada 
na antiga lyrica francesa ou provençal a existência de poesias com 
os característicos dos cantares gallaíco- portugueses, i. é sendo a 
protagonista a nina em càbello, dona- vir go ou mullier-donzella e ser- 
vindo de scenario ás suas entrevistas e aos seus desabafos a capellinha 
á beira -mar ou o adro da egreja, por occasião de romarias prima- 



1) Eis algumas das theses priacipaes: »La poésie populaire actuelle 
en Portugal ne doit pas être sensiblement diffórente de ce qu'elle était au 
moyen - age . . . Comme le fond de la population galicienne est celtique, on 
pourrait admettre qu'il y a là uu antique héritage de la race celtique: c'est 
une hypothèse que nous ne nous chargeons ni d'attaquer, ni de défendre . . . 
Mais ce qui nous parait certain c'est que cetto poésie galicienne (a moderna) 
est trop pauvre, trop sèche pour avoir pu servir de modele aux a3uvres si 
variées et si vivantes de la qour du Roi Denis. . . Les poetes de la cour 
du Roi Denis ont pu retrouver avec plaisir dans la poésie populaire de leur 
pays certains thèmes qu'ils avaient pris à la France; ils lui ont fait quel- 
ques emprunts de détail, mais ce n'est pas elle qui a été la source première 
et unique de leur inspiration.« 

2) »I1 nous semble donc que les traits archaíques que Ton trouve 
en grand nombre dans la poésie portugaise sont dus non à la persistance 
d'une poésie três ancieunement importée en Portugal mais à une imitation 
réfléchie et assez tardive de thèmes qui avaient continue jusque là à vivre 
en France. « 



— 72 — 

veris, para onde as mães levam as filhas a implorar ora os santos 
casamenteiros, ora a Virgem, ora santas que haviam tomado o logar da 
Vénus pagan — poesias populares numa palavra, cujo distiuctivo de 
factura seja a repetição systematica de palavras e ideias, sendo o 
espirito que as anima um vago e casto sentimentalismo virginal que 
se contenta platonicamente de vêr e fallar ao namorado. 

§ 79. Um estudo complementar de Graston Paris, cuja im- 
portância superior o nome do auctor affiança, desenvolve algumas 
ideias férteis, apenas levemente esboçadas por Jeanroy, tirando illaçoes 
surprehendentes e empolgantes sobre a Índole verdadeira e as cir- 
cumstancias do nascimento das antigas canções de dança, de que 
os refrains são fragmentos, assim como do logar onde a trans- 
formação dos géneros populares em poesia aristocrática se effectuou. 

63°. Les origines de la Poésie lyrique en Franee au moyen-âge par 
M. Gaston Paris, Membre de Tlnstitut. — Extrait du Journal des 
Savants. Nov. et Déc. 1891 ; Mars et Juillet 1892. 

De um modo muito engenhoso deriva todas essas canções das 

tradicionaes festas de Maio {Maieroles, Kalendas Maias) e das suas 

danças dramáticas ao ar livre, em que vão foliando ranchos de 

mulheres namoradas, capitaneadas pela regina avrillosa, com exclusão 

das que não amam e principalmente do marido, o ciumento (jelos), 

o vilão (vilain). Felizmente, possuímos um exemplar genuino^) dos 

cantos com que as dançantes acompanhavam as evoluções do pequeno 

drama. E diz: 

Na entrada do tempo claro — eya! — 
A l' entrada dei tems ciar -eya! 

para recomeçar o jubilo 
per jóia recomençar- eya! 

e para irritar o ciumento 
e per Jelos- irritar 

quer a rainha mostrar 
vol la regina mostrar 

que é tão amorosa. 
qu'er est si amorosa. 

A rua, á rua ciumento! 
A la vi', a la via, Jelos! 

deixa- nos, deixa -nos, 
leissaz nos, leissax nos, 

bailar entre nos, entre nos. 
halar entre nos, entre nós! 

1) Esta bailada provençal, conservada num cancioneiro francês e re- 
impressa innumeras vezes, é quasi desconhecida em Portugal, o que me 
leva a transcrevê-la no texto. 



— 73 — 

Outra, composta em lingua d'oc por nm francês, tem o teor seguinte: 

Todos os que estão namorados 
Tout cil qui sont enamourat 

venham dançar; os outros não! 
viegnent dançar^ li autre non! 

a rainha o deixou recommendado. 
la regine le comendat. 

Todos os que estão namorados! 
■ Totd cil qui sont enamourat. 

Os ciumentos sejam espancados 
Que li jalous soient fustat 

para fora da dança, com um bastão! 
fors de la dance d'un bastou f 

Todos os que estão namorados 
Tout cil qui sont enamourat 

venham dançar; os outros não! 
viegnent dançar, li autre non!^) 

E estas maias pela sua vez, considera -as como derivações dos 
jogos floi-aes (floralia) da antiguidade, dedicados a Yenus. Tal 
origem explica por quê as bailatas (raverdies, reverdies, renverdies) 
e os refrains e rondeis em que se celebra a juventude, a belleza, 
o amor e a primavera, são tantas vezes picarescas e até lúbricas, 
de modo a terem provocado providencias dos ecclesiasticos , muito 
antes do desabrochar da poesia palaciana. Passageira e carnavales- 
camente emancipadas da tutela da mãe ou do marido, casadas e 
solteiras bravateavam nesses dias com impudência e impudor, numa 
espécie de saturnaes feminis. A liberdade extreme d' essas re- 
verduras é convencional, ou antes ritual. 

As mesmas costumeiras existiam em toda a França. Mas em 
um só ponto central, collocado pelo illustre académico entre a Loire 
e a Dordogne, no Poitou e Limousin, berço também da lingua lit- 
teraria do Sul e pátria da Rainha D. Elionor, que liga o Norte ao 
Sul, é que começou a transformação das cantigas populares em 
poesia trovadoresca. 

Estabelecendo que as maias se celebravam também nos outros 
paises neo -latinos e especialmente na Galliza e em Portugal, mas 
de modo variado, em harmonia com a cultura e o meio peninsular, 
parece achada a razão porque, sahindo do mesmo ponto de partida, 
o cantar da dona- vir go evolucionou no occidente de um modo muito 



1) Vid. Raynaud, Motets I, 151. O afamado Pervigilium Veneris: 
Cras amet qui nunquam a^navit quique amavit eras amet! passa por ser 
uma imitação artística do mesmo thema. 



— 74 — 

diverso e perfeitamente nacional. Mas isso será assumpto de um 
capitulo independente. Aqui accrescentarei unicamente que, segundo 
Graston Paris, uma das modificações primeiras da chanson de carole, 
nas mãos dos palacianos, foi a incorporação do refram (com que o 
coro dançante respondia ao pre- cantor), nas estroplies originariamente 
compostas de poucas linhas, que assim avultavam e complicavam 
•o seu singelo rimario. 

§ 80. As sollicitações de sábios estrangeiros que me foram 
dirigidas deve -se o primeiro resumo methodicamente ordenado dos 
factos historicamente mais importantes da litteratura portuguesa, 
apurados até 1892. Escripto em allemão, forma parte da grande 
Encyclopedia de philologia românica, organizada com destino aos 
estudantes d'aquella especialidade, em Strassburg pelo Professor 
Gustavo Groeber. 

64°. Oeschich te der portugiesischen Litteratur von CaroIinaMichaèlis 
de Yasconcellos und Th. Braga im Orundriss der romanischen 
Philologie tmter Mitwirkung von Fachgetiosse?i herausgegeben voa 
G. Groeber; Strassburg, 1892 — 1893. Vol. 11" pag. 129 — 382. 

Doente e não me considerando ainda sufficientemente preparada, 
instei primeiro com Th. Braga, como auctor da maioria dos trabalhos 
aqui resumidos, 1) para redigir, em meu logar, um escorço intitulado: 
Traços geraes de litteratura portuguesa, sendo attendida. Mas achando -o 
impropriamente curto, vago e escasso para o fim e destino da obra 
allemã, e não podendo cingir -me a muitas das opiniões nella 
expendidas, refundi -o completamente quando vi que a impressão pro- 
gredia com vagar. Os dados que condensei em alguns paragraphos sobre 
a poesia popular (§ 19 e 20) e no capitulo sobre a primeira época 
da litteratura portuguesa (§ 26 — 48) eram o fructo de investigações 
já longas e conscienciosas, mas que não estavam, nem estão hoje 
terminadas. Eectificando tacitamente muita asseveração errónea e 
muita data inexacta do meu predecessor e amigo, com o fim de 
consolidar as bases da construcção, fui levada, de vez em quando, 
a repetir algumas affirmações suas que não sujeitara ainda a ana- 
lyse especial. Dando solução aceitável a vários problemas, relativos 
ás origens e aos principies da poesia trovadoresca , embora sem 
demonstração explicita por falta de espaço, tive de apresentar outras, 
ainda duvidosas ou provisórias. Acertei, datando as poesias mais 



1) No. 26 — 30, 35, 39 — 41, 46 — 49 e 52 — 54. 



— 75 — 

antigas que hoje possuímos de cerca de 1200. Foi útil o agru- 
pamento chronologico dos poetas em quatro series principaes: trova- 
dores pre-alfonsinos 1200 — 1245; trovadores ai fonsinos 1245 — 1284, 
distribuídos em duas ordens, as da corte portuguesa e as de Castella; 
trovadores dionysios 1284 — 1325; e post-dionysios 1325 — 1354. 
A ideia de fazer da corte de Leon o Peitou da Peninsula, isto é 
o primeiro centro da poesia palaciana^ de onde ella teria irradiado 
sobre a peninsula toda, tem um fundo de verdade, sem talvez ser 
completa, nem textualmente exacta. — As noticias sobre os can- 
cioneiros são fidedignas, sendo o CA descripto de visu e avaliado 
com justiça. 1) 

§ 81. WilhelmStorck publicou mais um florilégio de traducções 

do português. Entre as doze poesias archaicas, que nelle se acham, 

três das quaes não eram inéditas 2) ha apenas um par que reproduz 

textos, contidos no CA. E são a nossa cantiga 124, de D. Fernam 

Garcia Esgaravunha, sem indicação d'este nome (=No. 37);3) e 

a nossa 280*, que continua anonyma (= No. 35). 

65°. WúhelmStoTck^ Aus Portugal tmdBrasilien (1250 — 1890). Âus- 
gewãhlte Gedichte verdeutscht. — Múnster i. W. 1892. 

§ 82. Logo depois um philologo germano -americano, desde 

1894 professor da Harvard-University de New-Haven, excellente- 

mente preparado, deu -nos em restituição critica, muito apurada, as 

poesias de D. Denis, trovador que, sendo de categoria tão elevada 

como Alfonso X, foi ao mesmo tempo o que contribiu com o pecúlio 

mais rico para a construcção do Cancioneiro geral profano. Ha 

duas edições. 

66°. Cancioneiro d' El Rei Dom Denis. Z/utn ersten Mal vollstandig 
herausgegeben. — Dissertation zur Erlangung der Doctorwiirde, ein- 
gereicht bei der philosopliischen Fakultãt der Kaiserlichen "Wilhelms- 
Universitât Strassburg, von Henry R. Laug. Halle a. S. 1892. 
e 

67°. Das Liederbueh des Konigs Denis von Portugal. Zum ersten Mal 
vollstandig herausgegeben und mit Einleitung , Anmerkungen und 
Glossar versehen von Henry R. Lang. Halle a. S., Niemeyer, 1894. 



1) Calculei a primeira época de 1200 — 1385, posto que a lyrica não 
produzisse quasi nada depois de 1350, tendo em mira também a prosa que 
se desenvolveu mais tarde e mais devagar, e também para ir de accôrdo 
com a primeira época da historia nacional. 

2) Os No. 80, 81 e 84 foram tirados do livrinho que registei sob o 
No. 55. 

3) Por descuido escapou indicação errónea a p. 253 do Vol. 1 d' esta obra- 



— 76 — 

Na primeira impressão Henry R. Lang offerecia apenas o 
texto restam-ado do CV, seguido das variantes do CB, proporcionadas 
por E. Monaci, e de Notas compactas. Nellas trata de interpretar 
passagens difficeis. Aponta concordâncias de pensamento e de plira- 
seologia entre D. Denis, os mais poetas gallaíco- portugueses e a 
lyrica dos troveiros do Norte da França, e a dos trovadores pro- 
vençaes. E resolve muitos problemas de syntaxe, estylo e lin- 
guistica. 

Na segunda impressão, Lang addicionou um glossário conciso, 
mas completo; e como Introducção um estudo precioso sobre a lyrica 
gallaíco -portuguesa. Animado por uma viva sympathia pelo seu 
assumpto, e compenetrado do melhor methodo scientifico, conserva 
sempre o sangue frio e a lucidez objectiva do verdadeiro critico. 
Mesmo ao discutir a questão das origens, ventilada por Jeanroy, 
cuja doutrina não aceita integralmente, pondera repetidas vezes 
os prós e contras com escrúpulo tal que chega a desconcertar o 
leitor leigo, deixando -o a principio em duvida sobre a sua verda- 
deira opinião. 

Quanto á chronologia assenta, como eu, a data cerca de 1200 
para as poesias mais antigas que possuimos; e para as pre- históricas 
que se perderam, o ultimo quartel do sec. XII, visto que nenhuma 
litteratura principia com os documentos que d' ella persistem, e 
também porque a perfeição do trabalho poético e de linguagem 
que as distingue obriga a postular um longo tempo de iniciação, 
conforme já fora observado por Menendez y Pelayo. No agru- 
pamento dos poetas notam -se vestígios do antigo preconceito que 
considera a época de D. Denis, como a da principal florescência. 
Lang designa p. ex., tal qual Th. Braga, como poetas dionysios alguns 
dos principaes vates alfonsinos, unicamente porque ainda apparecem 
vivos nos primeiros annos do novo reinado, sexagenários ou septua- 
genários, creio que litterariamente eméritos.^) Quanto á filiação 
mostra que nem as rubricas originaes que accompanham os textos, 
nem o fragmento de poética que os precede, nem os parcos dizeres 
do Marquês de Santilhana, na Carta ao Condestavel, nos esclarecem 
sobre as relações dos poetas peninsulares com a poesia francesa. 



1) E são: D. João de Aboim, João Soares Coelho; Gonçal' Eannes do 
Vinhal, Pedr' Amigo de Sevilha, Ruy Queimado, Ayras Peres Vuiturom, 
Rodrigu' Eannes Redondo, Juião, que eu considero poetas alfonsinos, como 
mais tarde ficará demonstrado (Cap. VI). 



— 77 — 

Apura o que a historia de Portugal e a litteratura da Provença 
ensinam sobre o contacto directo e indirecto entre representantes 
dos dois pai ses, para em seguida consultar como fonte principal 
as próprias obras dos trovadores. Aproveitando os dizeres de 
D. Denis sobre a maneira provençal, por elle escolhida para modelo, 
aponta as concordâncias reconhecidas como imitação por Diez e 
Jeanroy, e coUecciona pacientemente, em um confronto laborioso, 
outras muitas, estabelecendo sobre esta base segura a these que as 
cantigas palacianas, de amor, de caracter subjectivo (incluindo a 
pastoreia, o pranto, a tenção, o lais, o sirventês moral e o des- 
cordo) são na essência e na forma um eco, mas somente pallido, 
da litteratura dos troveiros e trovadores, da qual se eliminou em 
Portugal tudo quanto era technicamente difíicil e complicado, e 
na esphera ideal, o alto sentido de honra cavalheiresca, a alacridade 
jubilosa do servidor de ricas -donas formosas, e mais alguns dos 
traços tradicionaes , característicos. 

Quanto aos cantares objectivos, em que o poeta não falia em 
seu próprio nome, mas no de um personagem alheio (monologo), 
ou de vários personagens alheios (dialogo), Lang segue o mesmo 
systema. Separa e analysa as três espécies principaes: cantares 
de mestria; halletas de refram] serranas (em dísticos de refram)\ 
approxima todas as três dos géneros parecidos (cíiansons de femmes) 
cultivados em França, na Provença, Itália e Allemanha, e assignala 
os traços que marcam influencia estrangeira e palaciana. Assim 
chega á conclusão que ainda aqui a maioria não se differenceia 
essencialmente das cantigas de amor quanto ao espirito poético, 
muito convencional, nem quanto á arte métrica (rhytmos, estrophes, 
systemas de rimar etc). 

Só depois de, como Jeanroy, haver provado d' este modo que 
halletas e serranas^ compostas em gi-ande parte pelos mesmos poetas 
aulicos que assignam cantigas de amor, são poesia culta, e não 
genuina poesia popular [Kunstgedichte im vollsten Sinne des 
Wortes)^ embora relativamente livres de elementos cortesãos, passa 
a inventariar os distinctivos que apesar de todas essas apparencias 
em contrario, provam a independência original e o indigenismo da 
lyrica portuguesa. 

A questão se a balleta, evidentemente aparentada com a francesa, 
e os typos archaicos do cantar de amigo já vieram para a península 
com os condes borgonheses é discutida, para ser logo abandonada 



— 78 — 

como incongruente. Entre os característicos privativos, nacionaes 
e populares, avultam os três que já deixei indicados: quanto ao 
assumpto, o predomínio da solteirinha (que chamo dona-virgó) e das 
romarias, com as suas superstições pagãs e as suas pias costumeiras 
sacras e profanas; quanto á forma, a typica repetição da mesma 
ideia; e quanto ao espirito, o caracter vagamente ideal, sem objecto 
definido [gegenstandslos) ^ apesar do determinismo positivo de algumas 
situações. Nesta apreciação está de accordo com Jeanroy, como se 
vê.i) Passando á minoria, escolhe e junta analogias tanto nas obras 
de Gil Vicente como na moderna poesia popular de Portugal, copiando 
também os versos recolhidos por Leite de Vasconcellos. E per- 
suadido de que houve continuidade, procura vestigios e indícios 
históricos que tornem provável a existência do uma archaica poesia 
popular, anterior á lyrica palaciana. Com este fim explora as 
Constituições dos Bispados , os Cânones das Concilios, as Ordenações 
do Reino e os historiadores primitivos. A trechos que já haviam 
sido colhidos, embora para efeito diverso, por Adolfo Frederico von 
Schack na Historia do drama hespanhol,^) e por Leite de Vasconcellos 
nas suas Tradições populares^ junta vários, dos séculos VI a XII 
(563 — 1116), relativos uns a espectáculos nupciaes e fúnebres 
com prantos, psalmos, hymnos e cânticos sacros em vulgar, 3) 
outros ao gosto dos Compostellanos pela musica e o canto. Entre 
elles ha alguns que se referem a coros de mulheres, cantantes e 
dançantes — »choreas psallentium mulierum« — e combinam 
com testemunhos posteriores sobre a parte preponderante da mullier 
gallega e minhota no cultivo das artes da dança, da poesia e do 
bel- canto. 

Accentua então, como Menendez y Pelayo, a importância superior 
de Santiago, a influencia incisiva que as festas de egreja teem para 
as povoações ruraes; a necessidade de presuppôrmos a existência 
de uma poesia sacra, typica, em vulgar, irradiando de Santiago, 
anteriormente a Alfonso X, e a probabilidade de que d'ella se 
desaggregasse , cedo, uma poesia popular profana, também de forma 
typica. Quanto aos cânticos lyrico- narrativos do castelliano lembra 
que não derivam da poesia artistica provençal. 



1) Lang, p. LXXXVII e Jeanroy, p. 282. 

2) Oeschiehte der dramatisehen Litteratur und Kunst in Spanien^ 
l, 74. 

3) Volksmãssige Kirchenlieder. 



— 79 — 

Em opposição a uma das theses de Gaston Paris ainda sublinha 
que o cantar de amigo gallaico- português, muito menos alegre, 
primaveril, folgazão e picaresco do que o da França, não tem 
signaes de derivar das festas de Maio , ^) e explica o seu caracter vago 
e convencional, como reminiscência litúrgica. 

Finalmente, as causas, quer vantajosas quer não, porque a 
influencia da lyrica francesa e da Provença foi superficial, con- 
servando -se a portuguesa relativamente independente, são três, como 
Lang expõe claramente: o contacto entre portugueses e provençaes, 
passageiro e pouco intimo por causa das circumstancias precárias 
do novo reino; 2) o nivel baixo da cultura dos peninsulares que os 
constrangeu a pôr de parte o que era culto, difficil e complicado; 
e lasi, not least, a existência de uma poesia popular indígena, muito 
desenvolvida, sacra e profana, que actuou sobre a lyrica cortesan, 
impondo p. ex. , em opposição directa á poesia da Provença, o culto 
da dona -vir go] o espirito ritualmente idealista das cantigas de amor; 
e ainda a excepcional economia ou parcimonia, que preside á elaboração 
poética, contentando -se o trovador, em geral, em cada peça, com 
uma única situação ou ideia. 

§ 83. O mesmo erudito tratou posteriormente com ainda maior 

exacção das relações de portugueses com provençaes e franceses, 

num artigo de revista americana, desejoso de apurar até que ponto 

chegam as concordâncias de pensamento, dicção e construcções 

meti'icas e se realmente a arte provençal não sazonou nenhuma 

reproducção exacta, nem imitações fieis de poesias inteiras. 

68°. H. R. Lang. Relations of the earliest portuguese lyrie school 
with the trouhadours and trouvères. Em Modem Language Notes. 
Vol. X, 207—231. Abril de 1895. 

Cingindo -se em certos pormenores á minha exposição (§ 84), 
oppõe réplica a varias affirmações que, com effeito, não se podem 
manter, 3) para em seguida alinhar as principaes passagens por- 



1) Pag. LXXXIII. 

2) Cf. Jahresbericht III, 121. 

3) Martim de Moxa, por Martim Moxa (Orundriss 190) é erro. DÍ7.e- 
dor tanto significava maldizente, como homem fértil em dictos engraçados. 
— V-i certo que Aimeric de Fegulhan não assistiu na corte de Alfonso YII, 
nem tão pouco na de Alfonso IX. Confira -se todavia, para comprehensão 
da minha errónea hypothese, o que Milá expõe a pag. 287 e 289 dos seus 
Trovadores. — Sordello não falia directamente do Eei de Leon, mas Peire 
Bremon e Johanet de Albusson, seus adversários, alludem á sua estada na- 



— 80 — 

tuguêsas que jiúga espelharem modelos estrangeiros. São 22, 
colhidas em 1633 composições. Numero diminutíssimo que, na ver- 
dade, confirma a regra. ^) 

§ 84. Ao dar conta d'estes trabalhos destaquei os resultados 
mais notáveis (com maior clareza, segundo me parece) adiantando 
a resolução dos problemas, tanto com relação a chronologia, como 
na restituição dos textos. 2) Mas o meu principal empenho foi 
também esclarecer as origens, extrahindo do folklore gallego e 
português factos que tornassem cada vez mais verosímil a pre- 
existência de uma poesia popular indígena, servindo aos trovadores 
palacianos de norma e de fonte de inspiração. Além d' isso tentei 
fixar que esta lyrica indígena encontrou o seu principal fautor 
palaciano no rei D. Denis, o rei -lavrador , chefe d' um pais então 
como hoje essencialmente agrícola: 

Das nossas musas rústicas amparo. 

Quanto ao caracter, aos motivos e começos da lyrica rústica,^) 
julguei poder combinar a opinião de Gaston Paris sobre as anti- 
quíssimas Festas -ilfazas como foco de onde irradiou a moderna 
poesia, com a opinião de Lang e Pelayo sobre Santiago de Com- 



quelle reino; quanto á data, veja -se a Biogr. XV do Cap. VI. — Com relação 
a Bonifácio Calvo e ás lendas propagadas por Nostradamus , veja o leitor a 
Biogr. XXIX do mesmo Cap. Da lista dos poetas que tiveram relações mais ou 
menos intimas com Alfonso X, visitando -o, dedicando -lhe versos, ou 
citando -o simplesmente, é preciso riscar Bertrand de Born (filho). Feire 
Vidal, Uc de Escaura. — Citei Paulet de Marselha por causa da Canção: 
Ab marrimen (Bartsch, Orundriss , 319, 1) e Bartolomeo Zorgi por causa 
da canção: Sil mons fondes a maravilha gran (Ib 74, 16). Com razão, visto 
ambos se referirem a Alfonso, como irmão de Don Arrigo, o Senador de 
Eoma e poeta italiano. 

1) Os provençaes imitados que nos revela, são: Uc de S. Circ, Feire 
Cardinal, Albertet, Gauoelm Faidit, Guilherme de Montagnagout, Guiraut 
de Bornelh, Arnaut de Maruel, Uc de Bmnet, Richard de Berbezill, Perdigon. 
Os troveiros: Mathieu de Gand, Thibaut de Champagne, Quenes de Bethune, 
Baudoin de Conde, Gauthier d'Espinaus. Além d' isso, alguns motetes ano- 
nymos, recolhidos por Bartsch, Jeanroy, Eaynaud etc. 

2) Nas notas de Lang sobre trovadores portugueses ha naturalmente 
algumas inexactidões. Não ha prova de que D. Gil Sanches vivesse em 
Leon de 1211 — 1219. D. Joam Garcia e Fernam Garcia são filhos de 
D. Garcia Mendes, e não irmãos. O companheiro de Affonso III, chamado 
Estevam Annes não pertenceu á familia dos Valladares, nem era poeta. 

3) As analogias com a poesia popular da França e mais territórios 
neo- latinos constituem um capitulo á parte, de interesse mais palpitante 
ainda que a imitação dos productos palacianos. 



— 81 — 

postella como alfobre onde germinaram os cantares sacro -profanos 

de romaria. Uma das principaes festas annuaes do antigo Portugal 

e da GaUiza era e é a de Santiago (Minor) e S. Felipe, celebrada no 

primeiro de Maio, coincidindo, por tanto, com as Maias. ^) 

Prematura era, segundo me parece agora, a tentativa de responder 

ao quesito, qual das duas correntes foi cultivada primeiramente na 

corte por vates aulicos: se as cantigas de amor em moldes de 

mestria, vindos de fora -parte, ou se os archaícos rhytmos de dança, 

usados pelas mulheres do povo, na rua, na praça e na igreja, 

por occasião das peregrinações aos sanctuarios, ou bailando diante 

do altar, em honra primeiro de Santiago, e depois de outros santos 

e santas, oragos e padroeiras locaes. 2) 

69°. Carolina Michaèlis de Vasconcellos, Zum Liederbuch des 
Kbnigs Denis von Portugal; em Zeitschrift XIX, 513 — 541 e 
578 — 615. — Anno de 1894—1895.^) 

§ 85, Quatro cânticos de amigo, da lavra do rei -trovador,^) 
evidentemente defeituosos nos apographos italianos e insuffi ciente- 
mente corrigidos por Th. Braga, haviam entretanto sido aproximados 
da forma primitiva pelo descubridor dos modernos cantares trans- 
montanos em disticos encadeados. 

70". J. Leite de Vasconcellos, Notas ao Cancioneiro de El- Rei 
D. Diniz. Barcellos 1894; e em 2^^ edição melhorada: Novas Notas 
ao Cancioneiro de El- Rei D. Dinix. Ib. (extractos do jornal Aurora 
do Cávado No. 1378 e 1379). 

O expediente de escrever loitçãa^ pinho e são, em logar de 

lonçana, pino e sano, substituindo por til ou, depois de i, por nh, 

cada n intervocal, parece -me muito duvidoso, em vista dos frequentes 

castelhanismos irrefragaveis dos cancioneiros, e porque na GaUiza (e 

também em Portugal) houve e ha muitas palavras que conservaram 

ou reintegraram muito cedo n entre vogaes, p. ex. pena, menina, 

pino, e em geral os diminutivos em ino.^) Considero egualmente 

controvertivel o remodelar da versificação dos antigos, tornando a 

introduzir certas vogaes supprimidas por elisão, como se devêssemos 



1) A festa de Santiago - Maior é veranil e celebra -se a 25 de Julho. 

2) Varias das correcções de texto, que proponho, haviam sido lem- 
bradas também por Ad. Tobler num artigo critico, publicado em Hcrrig's 
Archiv , Vol. XCIV, pag. 470, o que lhes serve de valiosa confirmação. 

3) JSTo Litteraturblatt XVI, 271 — 276 (anno de 1895) ha outro artigo 
meu sobre o CD. 

4) CV 168, 171, 173, 186. 

5) Cf. Zeitschrift XIX, 515 — 517. E vide Qrundriss I, § 125. 

6 



— 82 — 

ler: mandado hey por mandad' ei^ rogo en por rogu' en, migo hey por 
migu' ei; ou mesmo amigo meu amadú por am,igu'e meu amado. — Bom 
seria marcar, mesmo em textos destinados á maioria, o accrescenta- 
mento de estrophes, palavras e letras, incluindo -as entre [], em har- 
monia com a praxe scientiíica. Aliás succederá tomarmos em conta de 
legitimes originaes o que é conjectura nossa, conforme aconteceu 
ao próprio Leite na 2*** edição do seu opúsculo (No. 168 estr. 6). 
Para essa, o auctor recorreu ás emendas criticas de Storck e a 
algumas observações minhas. Ainda assim deixou subsistir varias 
incorrecções da espécie a que me referi, e outras como hayoninho 
por haiosinho; mha nmdre é velida por m,ia m,adre velidaA) 

Ao Dr. H. Lang offertava Leite de Vasconcellos estas contri- 
buições, tarde de mais para que elle as podesse utilizar, o que de 
resto não se teria dado, visto não haver no seu folheto rectificação 
alguma a mais das que Lang já havia apurado. 

§ 86. Ha ainda um estudo meu, o primeiro de uma longa 
serie que deve encher um volume, sobre um dos assumptos Íntimos 
e caseiros que originaram cantigas de amor e dizeres de escarnho, 
e ao mesmo tempo sobre as mutuas relações dos trovadores entre 
si, das quaes Diez não encontrara vestígios nos fragmentos publi- 
cados em sua vida. Intitulei -o „Der Arninensireif , o Processo da 
Ama. Formam sen conteúdo encómios dirigidos por um veterano a uma 
mãe, criadeira de filhos e dona de casa, contra o costume palaciano 
que mandava celebrar somente meninas -donzellas, encómios que 
motivaram varias manifestações de agrado e desagrado. As cantigas 
coordenadas, restituídas e commentadas, são duas do CA (166 e 170), 
duas do CB (1501 e 1511) e seis do CV (1186, 1022—1025 e 1092). 

71°. Carolina Michaèlis de Vasconcellos, Zum alt - portugiesisehen 
Liederbuch: 1. Der Amnienstreit. — Separata de Zeitsehrift XX, 
Halle 1896. 

§ 87. De uma lei de accentuação métrica, decretada no velho 
doutrinal poético, que accompanha o CB, mas violada apparente- 
mente, de longe em longe, pelos trovadores gallaico- portugueses, 
tratou proficuamente o venerando académico viennense AdolphoMus- 
safia, baseando -se na edição critica do CD, e nas Cantigas de Maria. 



1) Como Epiphanio Dias, não reconheceu que h entre vogaes equivale 
a i atono, tendo nós de ler mi-án, com uma só emissão de voz, e não 
m' an, onde os originaes escrevem mhan. 



- 83 — 

72°. Ad. Mussafia, SuW antiea métrica portoghese, osservaxioni. — 
Sitxungsberichte der Kaiserlichen Academie der Wissenschaften^ 
Band CXXXHI. Wien, 1895. 

E a dupla lei da isometria das estrophes , fundada nas exigências 
da melodia, e a da mistura de versos graves e agudos, arithmeti- 
camente eguaes, mas rhytmicamente differentes, dentro da mesma 
estancia (i. é de versos contados e acentuados, 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8 
e dos que se contam 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8) que forma o assumpto 
do subtil estudo. 

Promoveu outra manifestação complementar da minha parte. 

73°. Carolina Michaèlis de Vasconcelios, em Litteraturblatt fiir 
germanisehe und romanische Philologie, Bd. XVII, 308 — 318. 
Heidelberg, 1896. i) 

§ 88. Dois romanistas italianos tiveram que referir -se á lyrica 

peninsular, ao tratar dos poetas italo-provençaes: Sordello de Mantova 

e Bomfazio Calvo de Génova, porque ambos haviam emprehendido o 

tour d' Espagne do artista, tão usual no século de Alfonso o Sábio. 

74°. César e de Lollis, Vita e Poesie di Sordello di Qoito. Halle, 
1896. 

No § 15 do Cap. VI, i. é na biographia do poeta Joan Coelho, 

terei occasião de mostrar que não desattendi este importante 

trabalho. 2) ( 

I 
75°. Mário Pelaez, Bonifaxio Calvo, trovatore dei sec. XIII. Em / 

Oiornale storico delia litteratura italiana. Vol. XXVIII e XXIX ; / 
e em separata. Torino, H. Loescher, 1896 e 1897. i 

No ensaio consagrado ao trovador genovês (§ 29 do Cap. VI) 

faço a de\ãda justiça a esta obra. — Não querendo omittir os versos 

portugueses do biographado, Mário Pelaez sollicitou de Th. Braga 

copia paleographica , e juntamente a lição critica de duas poesias 

conservadas no CA (265 e 266). 

§ 89. Finalmente, um sábio português, dos paleographos mais 
activos que exploram o Archivo Nacional, na sua qualidade de sócio 
da Academia Real das sciencias de Lisboa e continuador dos Por- 
tugalicB Monumenta histórica, incluiu num opulento estudo histórico 
sobre Frei Gonçalo Velho, as obras poéticas de três personagens, 
em que distrinçara antepassados do descubridor da Terra Alta 



1) Cf. Kritischer Jahresherieht TV, 380 — 381; e Fede rico Hanssen, 
Miscellanea de versificaeion castellana, Santiago de Chile 1897. 

2) A elle me refiro repetidas vezes nas Eandglossen II e XV. 

6* 



- 84 — 

e dos Açores: Pêro Yelho de Taveirós, João Velho de 
Pedragaes e Fernam Velho, o qual tenta identificar com o pae 
do descnbridor. Mais tarde ^) o leitor verá que não me conformo 
com esta interpretação, e o que penso dos outros dois. 2) 

76°. Ayres de Sá, Frey Gonçalo Velho. — Quarto Centenário do 
Descobrimento da índia. — Contribuição da Sociedade de Geographia 
de Lisboa. Vol. I. Lisboa, 1899.») 

Quanto aos textos, Ayres de Sá reproduz as poesias do primeiro 
dos Velhos, imprimindo (a pag. 51) a lição diplomática de E. Monaci 
(CY 1141 e 1142), mas não sem desenvolver as abreviaturas prin- 
cipaes e juntar as letras dispersas. No fim da pagina accrescenta 
as modificações de Th. Braga, sem observação alguma, critica, apesar 
de nem todas merecerem o titulo de emendas. Haja vista na Can- 
tiga 1141, 14 a formula: a jus i maao (cujo sentido não sou capaz 
de adivinhar) em substituição do bello e transparente modismo 
archaíco avizimao (= avice mala, de avix por avis) o qual designa o 
infeliz, a que um pássaro de mau agouro significou acontecimentos 
desastrosos. 

Quanto ás poesias do segundo dos Velhos (p. 53) aproveita a 
impressão de Molteni, rectificando- a ^) e dando a leitura original 
em Nota (CB 112 e 114). Nem todas as correcções são boas : d' eito 
p. ex. não é de esto, mas inquestionavelmente dereito; depenistes 
devia ser departistes; ta está por ca; e syso por vyso. Confiram - 
se os nossos No. 392 — 394. 

De Fernam Velho imprime primeiro as trovas, segundo o 
CV (46 — 54 e 403—404) e CB (377), dando no fim da pagina as 
variantes do CA, para depois imprimir novamente as cantigas CV 46—53, 
na lição do CA (257—264 e 458); e no fim CV 1176 e CB 419. É 
digno de louvor o esmero com que dá conta de todas as minúcias 
graphicas que occorrem no trabalho do antigo escriba: caracteres 



1) Cf. Cap. VI, Biogr. XXVIIL 

2) Ib. Biogr. III, XXVIII e LI. 

3) Durante a impressão d' estas folhas sahiu o vol. II que completa 
a obra. 

4) Acceutua vogaes p. ex. em é, dê etc; e colloca o til »onde devia 
estar, segundo a graphia moderna». Com esta intenção briga, porém, a 
sua maneira de escrever uã, em logar de ua (= urna). Também colloca 
indevidamente o til sobre y em palavras, como ya, ey , rnayor, reçeey, 
unicamente porque os antigos costumavam guarnecer de pontos essa lettra, 
a fim de a diíferenciar dos ii, que nunca tinham ponto. 



— 85 — 

pontuados e riscados, ou escriptos sobre pergaminho respançado, 
inioiaes omissas (ou melhor, não executadas a cores, estando apenas 
indicadas com uma minúscula microscópica para uso do illuminador), 
assim como notas marginaes. O que não satisfaz é o systema 
de reintroduzir as vogaes suppiimidas por elisão, á maneira de 
Leite de Vasconcellos. Não estragando o verso, dão ideia in- 
adequada dos antigos processos de metrificação. De resto, Ayres 
de Sá engana -se differentes vezes nas suas modificações; p. ex. 
1141, 10, onde imprime sanhud{e) e braue cuid[e) eii a la fé] 
ib. 12 deJ{e)] ib. 13 e/(e); 1176, 4 tenn{h)o. 

§ 90. Nas paginas que dedica aos três poetas ha algumas 
notas criticas, dirigidas contra Monaci, que devemos considerar como 
um eco do que se diz e se pensa no seio das duas doutas cor- 
porações a que Ayres de Sá pertence. A ellas devemos voltar. 
Keconhecendo sinceramente o altíssimo serviço que Monaci prestou 
á nossa litteratura, opina ainda assim que o texto da edição de 
Halle não é precisamente o que se encontra na Bihliotheca do Vati- 
cano (pag. 133 nota 6), e que por estar eivado de erros, não dis- 
pensa nova copia do manuscripto. ^) 

A deturpação é positiva. E positivo também que hoje, quem 
depois de estudar a fundo a lingua e litteratura archaica, graças 
ás publicações de Monaci e Molteni, investigasse os manuscriptos 
guardados na Itália, havia de ler melhor algumas palavras, ou 



1) É especialmente com relação a dois vocábulos que Ayres de Sá 
affirma a necessidade de se consultar de novo os apographos italianos: auidar 
(p. õ3, 1); atuda 130, 4; e "Quguer (p. 126, 7, 127, 2 e 128, 3). As observações 
dedicadas a elles surprehendem - me. Basta oDiar para os vários exemplos de 
ajudar e prouguer no CA e para os fac- símiles que accompanham as Cantigas 
de Maria, para comprehender os erros dos copistas italianos e as duvidas de 
Varnhagen. Os ii nunca teem ponto, como já disse na Nota anterior; as 
lettras u q n semelham -se muito, apesar do illustre paleographo af firmar 
que nunca se confundem; e o tracinho obliquo que ás vezes carrega o *' 
para o destacar do u seguinte, está de longe em longe um tanto deslocado, 
recahindo sobre o u. Em vez de aiudar surge então auídar, lido aiãdar e tran- 
scripto avindar, palavra que não existia no sec. XIII. Quanto a prouguer, o p 
traçado por linha curva (p), que equivale a j9ro, foi confundido comp, traçado 
por linha horizontal (p) que significarei. A p. 126 No. 51, verso 5 e nota 7, 
Ayres de Sá resolveu pitar em privar^ o que é, de toda a maneira, in- 
admissível. Pelo seu systema, era peruar; mas na realidade p está por p, 
de sorte que a palavra significa provar. Assim se lê no CA, reproduzido 
a p. 136. — Privar escrevia- se jo'Mar. Vid. na Parte II, Cap. III, os para- 
graphos relativos a Abreviaturas e Notas Marginaes. 



— 86 — 

mesmo muitas. Mas o prestantissimo paleographo, que talvez mudasse 
de opinião em face dos códices, esqueceu varias circumstancias ao 
proferir as suas querelas. 

Primeiro: os fac-similes provam que os deturpadores foram os 
copistas italianos de 1500, e não E. Monaci. 

Segimdo: não é o perito, incumbido de tirar copia diplomática, 
quem deve emendar os erros, mas unicamente o editor critico. 

Terceiro: Monaci reconheceu e rectificou nas suas listas nume- 
rosissimos enganos de escripta. 

Quarto: Fosse quem fosse o sábio que tirasse nova copia, 
teríamos de contar também com novos erros de leitura e inter- 
pretação. O próprio Herculano não tresladou bem todos os archaís- 
mos dos documentos que compulsou, i) E mesmo as leituras do 
auctor de Frei Gonçalo Yelho não satisfazem sempre em absoluto. 
Os preciosos monumentos em prosa do seu volume brilham pela 
pureza da reproducção; mas nos versos extrahidos do CA ha, con- 
forme já disse, alguns (pequenos) descuidos. 

§ 91. Ignoro, se com a critica de Ayres de Sá está ligada a 

proposta de que passo a fallar, antes de pôr ponto a esta longa 

resenha bibliographica (15 de Junho de 1899) — proposta que, de 

resto, representa uma ideia bem antiga de alguns Académicos, advogada 

desde longos annos por Th. Braga,-) sem que da sua parte houvesse 

o mais leve prurido de menoscabar o seu collega de Eoma, cujos 

serviços constantemente glorificou, 3) ou de invejosa irritação por 

vêr o estrangeiro cumprir o que era um dever da nação: 

77". Proposta para a impressão dos Cancioneiros trobadorescos portu- 
guezes, apresentada na sessão da 2*^" Classe da Academia Real das 
Sciencias em 24 de Fevereiro de 1898. 

Pugnando pela ideia que os Cancioneiros são o complemento 
orgânico dos Nobiliários, porque na litteratura poética se encontram 
reflexos directos de capitalissimos successos históricos, e na littera- 
tura histórica allusões a poetas; ajudando -se mesmo com o facto de 
alguém ter por intuição reunido num só volume o Nobiliário do 
Conde D. Pedro de Barcellos e o supposto livro das Cantigas do 
mesmo; persuadido de mais o mais de que a copia, com visos de 



1) Seve (seduit) apparece constantemente escripto se vê. 

2) Zeitschrift I, 41; Can%. Vat. Rest. III; Bibliographia critica IdS. 

3) Questies de Litteratura e arte port. pag. 35 — 39. 



— 87 — 

ser diplomática, existente no archivo da Academia, era destinada por 
Herculano a entrar no Corpo dos Scriptores (como signalizei), Th. Braga 
requer que se execute agora esse plano. Do modo como deseja 
ver realizada a empresa, nada diz. Apenas indica que, nomeando - 
se um director especial, se anteponha a impressão dos Cancioneiros 
á de todas as fontes de historia pátria, e que os incorporem na 
collecção dos Monumentos históricos. 

§ 92. O parecer com que, em nome da Academia, três sócios i) 
responderam semanas depois, não é favoravel á proposta. Rebate 
pelo menos a urgência da medida, allegando as impressões de Varn- 
hagen, Monaci, Molteni, Lang, e esta minha como em preparação, 
e o estarem, pelo contrario, inéditas, na máxima parte, as fontes 
da nossa historia. Expõe que a secção Scriptores., para não vir a 
ser transformada em miscellanea litteraria, deve comprehendor uni- 
camente narrativas históricas (em prosa ou em verso) e que para 
determinar a inclusão de uma obra não basta que nella se encontre 
uma ou outra allusão ou referencia accidental a factos, personagens 
ou costumes dos sec. XIII e XIY. Só esta é — dizem — a razão 
que os determinou a regeitar a proposta, e não as investigações 
laboriosas a que tal trabalho obrigaria. Nem tampouco a ideia de 
o considerar extemporâneo. Pois convidam a secção de litteratura 
a apresentar um plano para a . publicação dos Cancioneiros : 

78". Parecer da Secção de Historia e Archeologia sobre Proposta do 
Sr. Theophilo Braga, apresentada na Sessão da 2'''' classe da Aca- 
demia Real das Sciencias em 24 de Fevereiro de 1898. Datado 11 de 
Abril do mesmo anno. 

§ 93. Ignoro se a Secção de Litteratura já disse da necessi- 
dade ou opportunidade da nova edição dos Cancioneiros. 

Se me chamassem a enunciar a minha opinião, iria propor que 
a douta corporação, para remir peccados antigos e sem ferir justas 
susceptibilidades dos que trabalharam e trabalham em pró da poesia 
gallaíco- portuguesa, cuidasse de dar -nos, independente dos Monu- 
mentos Históricos., a reproducção inteira heliotypica, se não dos 
três Cancioneiros, pelo menos do códice membranaceo da Ajuda, 
como base inattacavel de todo o trabalho futuro; e que em seguida 
posesse a concurso a edição critica definitiva e completa dos três 



1) I. F. Silveira da Motta, A. C. Teixeira de Aragão e H. da 
Gama Barros. 



— 88 — 

livros de trovas archaícas, destinando um premio condigno a quem 
a realizasse dentro de um prazo determinado. 

§ 94. Post-Scriptum. 

79". H. R. Lang, The Descort in old portuguesc and Spanish Poetry. 
Halle a. S., Max Niemeyer, 1899, 23 pp.^) 

Completando um trabalho do provençalista Appel sobre o 
Deseordo na Provença, Lang trata dos únicos exemplos d' este género 
artistico que se encontram nos archaícos Cancioneiros peninsulares'^): 
o nosso No. 389 (= CB135), de Nun' Eannes Cerzeo, designado 
pelo próprio auctor com aquelle termo estrangeiro; CB470 del-rey 
D. Alfonso X, reconhecido como espécimen característico por Colocci; 
e CV163 de D. Lopo Diaz, composto, segundo a rubrica explicativa, 
en son d'un descor.^) Todos os três constam de estancas mais ou 
menos desiguaes, quanto á estructura métrica, á ordem e classe 
das rimas. Os primeiros dois são de amor; só o ultimo é de es- 
carnho. Entre os de amor, o do monarca castelhano é uma la- 
mentação sobre aífectos não correspondidos. Em vista d'isso Lang 
assenta que, em accordo substancial com a practica e os preceitos 
da Provença, os trovadores de cá consideravam o deseordo como um 
cântico triste e apaixonado em que se dá expressão formal á dis- 
cordância de sentimentos por meio da desigualdade, maior ou menor, 
das suas partes constructivas : a lo'0e-poe7n singing of unrequited 
affection and giving formal expression to this descord of sentiment 
hy the more or less unequal structure of its eomposing parts. E 
considera o deseordo satyrico como uma das excepções á regra em 
que o génio niisologo dos Portugueses se expandeu. Esta feição em 
si, o facto de os schemas métricos divergirem de todos quantos 
descordos provençaes se conservaram, e em terceiro logar o refram 
com que o Sábio remata o seu canto, são outros tantos testemunhos 



1) Separata de uma Miscellanea offerecida ao Cathedralico de Strass- 
burg, Gustav Groeber por alguns seus discípulos, sob o titulo Beitrãge 
zur romanischen Philologie, Festgabe fúr Qustav Oróber. 

2) Zeitschrift XIX, 212. 

3) O erudito investigador não tentou ou não alcançou descobrir, qual 
o poema imitado. Quanto á interpretação a dar á formula en son de creio 
que levanta inutilmente questão onde não ha motivo para dúvidas. En 
son {de) significa segundo a melodia {de) em todos os casos que conheço. 
E a adaptação da musica implicava a do metro e da estructura estrophica, 
e talvez das rimas. Cf. § 367. 



— 89 — 

da liberdade ou arbitrariedade com que na peninsula imitaram os 
modelos estrangeiros. 

Lang examina ainda outra poesia: um sirventês moral de 
Martim Moxa (CV481), que fora por mim apontado como quarto 
descordo gallaico- português. Elimina -o todavia da classe, porque 
a symmetria das quatro estrophes que a compõem é quasi completa, 
e também por ser idêntica na forma a uma cantiga d' escarnho de 
Coelho^), a qual não fora até hoje reconhecida como descordo. Mas 
esta ultima razão não é decisiva. Ignoramos qual das duasé original i) 
e qual apenas um seguir. E que fosse! por ser mera imitação, 
um descordo não deixa de ser descordo. 

§ 95. Sahiu também um ensaio meu sobre as cinco poesias 
iniciaes do CB: um grupo de composições que occupa logar á parte, 
por. serem objectivas, e traduções livres, derivando directamente de 
novellas francesas em prosa, do cyclo bretonico de Tristan, 
Lançarote e do Santo Grraal. Publiquei-o, emquanto dava a 
ultima demão a esta obra, com o propósito de provocar o juizo 
dos mestres sobre matérias de que só de passagem me occupei. 
Mas como o leitor o encontra mais abaixo (Cap. VI, § 38), em 
redacção um pouco condensada, e rectificado em vários pormenores, 
baste registar aqui o titulo: 

80". Carolina Michaêlis de Vasconcellos, Lais de Bretanha , Capi- 
tulo Inédito do Cancioneiro da Ajuda — Separata da Revista 
Lusitana vol. VI, Porto 1900.') 

§ 96. Da America do Sul veio uma contribuição, intimamente 
ligada ás duas que rubriquei sob No. 72 e 7 3 3), de grande interesse, 
embora trate apenas de alguns pontos de métrica. 

81°. Prof . Dr.FriedriohHanssen,i^ím Spanischen und Portugiesischen. 
Separatabzug aus den Verhandlungen des deutschen wissenschaft- 
lichen Vereins in Santiago, Bd. IV; Valparaiso 1900, 64 pp. 

O auctor, um germano - chileno , erudito em philologia clássica, 
mas que uns seis annos para cá, se dedica com enérgica laboriosi- 
dade, methodo bem cimentado e independência rara á ventilação 



1) Quanto a Moxa e suas relações com D. João Soares Coelho 
veja -se o Cap. VI, Biogr. XXXV. 

2) Cf. Romania fase. 116, p. 633. 

3) Veja -se a Nota 152. 



— 90 — 

de problemas de archeologia linguistica e prosodica^), disserta nella 
sobre o verso de arte maior, ultimamente tão discutido. 2) 

Os seus materiaes foram colhidos nos mais antigos textos lyricos 
castelhanos,^) ainda não aproveitados para este fim nos cancioneiros 
trovadorescos , incluindo o sacro de Alfonso X, e na poesia popular 
gallega.*) O exame dos exemplos palacianos (Rimado de Palácio^) 
e Canc. Baena) leva -o a aceitar a definição dada antigamente, ainda 
que com pouca clareza , por Juan dei Encina. ^) Em harmonia com 
esse mais prospicuo entre os prosodistas do sec. XV, e contra 
Morei -Fatio (que encarando -a do ponto de vista francês, a regeitara 
como inaceitável) formula uma lei que chamarei da pro-catalexe^ 
empregando essa palavra grega, por ora desusada na terminologia 
portuguesa, para designar a eliminação facultativa de uma syllaba 
atona em principio de verso: o inverso portanto e, segundo Hanssen, 
derivação directa da paragoge rhytmica, ou seja da faculdade antiga 
dos poetas italos e hispânicos de fazerem alternar, no fim de versos 
e hemistichios , vocábulos graves com agudos e esdrúxulos. Graças 
a esta lei, combinada com outra, não menos desusada nos terri- 
tórios românicos, a qual admitte (mas não manda) compensar tal 
falha de syllaba pelo accrescento de outra a principio do segundo 
hemistichio, e ainda com a liberdade de substituir o hiato entre os 
dois (que é regra) pela suppressão de vogaes por synalephe, graças a 
esta lei, digo, o verso de arte maior — na praxe de poetas rigoristas e 
por isso no dictame de muitos críticos, de uma monotonia fatigante — ''), 



1) Nos numerosos opúsculos que publicou nos Annaes da Universidade 
de Santiago e nas Memorias da Sociedade Alleman Scientifica, ha muita 
coisa útil para os estudos portugueses. 

2) Vid. OrundrissW-^\)&g.2Ç)\ RomaniaXXIlI; Jahresbericht III, 11. 

3) Até hoje fora costume recorrer principalmente á época áurea do 
verso (i. é ás Trecientas de Mena). 

4) Milá y Fontanals na Romania, vol. VI. 

5) Uma poesia lyrica do Arcipreste de Fita na qual Menendez y 
Pelayo quis reconhecer os primeiros versos de arte maior, e Baist versos 
de redondilha menor, consta, como Hanssen expõe, de versos de 6 syllabas 
grammaticaes , com acento ora na 5", ora na 6" {ababah xG). 

6) Arte de Trobar, Cap. V: Mas porque en el arte mayor los pies 
son intercisos que se pueden partir por niedio no solamente puede passar 
una silaba por dos quando la prostrera es luenga. Mas tambiem si la 
primera . . . fuere lusnga, assi dei un mediopie como dei otro, que cada 
una valdrâ por dos. 

7) Houve quem o designasse com o nome: verso de taratantara por 
causa do rhytmo pronunciado que recorda o rústico toque de caixa. Eu 



— 91 — 

apparece nos textos explorados estranhamente variável. Ao lado 
de versos de medida normal com 12 syllabas e pausa no meio, 
ha outros que constam de 9 a 13. Entre versos pelo typo regular: 
temi ta tormenta, dei mar alterado (6 + 6), encontra- se uma longa 
serie de excepções que não ficam sufficientemente caracterizadas 
pelos algarismos 5 + 6,6 + 5, 7 + 5,5 + 7 e mesmo 5 + 5 , 4+7, 
4 + 5, 4 + 6.^) Temos não só o l'' hemistichio com desinência 
aguda (doled vos de mi)^ ou esdrúxula {no curen los prineipes); mas 
também com pro-catalexe, sendo grave a desinência {rei excellente), 
ou aguda {euesta sufrír), ou esdrúxula {todos los prineipes). E temos 
o segundo igualmente com rima, ora aguda {rogando a dios)^ ora 
esdrúxula, 2) ou com syllaba de compensação, havendo pro-catalexe 
na l"' metade. Neste caso a rima é aguda {por su santa pasion), 
sendo grave o 1° hemistichio; ou viceversa {que me deu ealentura). 
Quanto ao andamento, naturalmente variado em versos tão 
desiguaes (e por isso mesmo avaliado de modos muito differentes,^) 
os resultados são de somenos novidade e precisão. Sem dizer, se 
acredita num rhytmo descendente ou ascendente, e evitando fallar 
de jambos, trocheos, dactylos, anapestos e amphibrachios , Hanssen 
estabelece mais uma vez que os versos correctos tem quatro altas 
{ictoSj ou arses) nas syllabas 2. 5. 8. 11, ou pelo menos em 5 e 11; 
emquanto que nos hemistichios reduzidos por pro-catalexe a cadencia 
fundamental ^_wv^_^ na beira do rio — tembrando de frio — nos 

danen letrados — fuese fenecida] (respectivamente ^ ^—^ cantádmúsa 

mia; v^_w_v^v-y muy alto príncipe wv^_v^_w, ^^v^^^^—^; _s^_«^_w 
ou _v^s^v_/_^), se transforma em _^w_w {anos perdidos — aya sosiego 
— cando te vexo) ou ^_^_w {en poços dias — a grandes voxes); 
mas no 1° hemistichio também em v^^_w {cavaleiro)., _w_w {delia 

fize) w w {aqui luego)., e no 2° em wv_._wv^_ {pw su santa pasión) 

e ww_v^w_v^ {en questión declarada — que me déu calentúra) — 



pronuncio tarátantará. Mas quem o applicou ao seu equivalente francês 
pronunciava certamente tarátantará. 

1) Morel-Fatio considera os bipartidos em 4 + 5, 4 + 6 como errados, 
e tenta emendá-los. 

2) Hanssen não regista nenhum exemplo de rima esdrúxula, o que é 
signal certo de que nem os primeiros cultores palacianos, nem os poetas 
populares a conheceram. 

3) Houve quem o chamasse decasyllabo anapestico; outros chamam -no 
anfibraquio dodecasyllabo ; outros faliam de quinarias duplos \ ou versos 
duplos de redondilha menor. E nem mesmo falta quem o considere como 
alexandrino ! 



— 92 — 

hemistichios que outros críticos consideram como radicalmente falsos, 
monstruosos, e a negação de todo o rhytmo. 

Do exame das poesias gallego- portuguesas que constam de 12 
(respectivamente de 1 1 syllabas) e de algumas , em que versos de 6 e 5 
syllabas apparecem combinados de modo artistico,^) apura o seguinte. 
1". Não ha razão para distinguir entre dodecasyllabos á maneira 
limosina e dodecasyllabos á maneira gallega. 2°. Sem os identi- 
ficar com os de arte maior, nota em todos elles a tendência de 
acentuarem a syllaba quinta. 3°. Os trovadores desconheceram a lei 
da pro-catalexe, ou antes desprezaram -na, por influencia da métrica 
provençalesca. Ha todavia cantigas, em que versos de dimensões 
diversas, mas com differença de só uma syllaba (de 5 e 6 até 11 
e 12), constituem um caso análogo. 4°. As cantigas em versos de 
doze syllabas são na maioria de feitio popular: cantares de amigo e 
cânticos sacros. 

Quanto á muinheira^ Hanssen estabelece a identidade theorica 
dos seus versos com os de arte maior. E sendo improvável que o verso 
favorito de dança dos aldeãos da província gallega seja de origem 
erudita e relativamente tardia, o contrario, isto é a introducção 
do metro popular na poesia artística, parece -lhe verosímil. 

Apontando alguns versos de hymnos mozarabes (em que des- 
cobre casos de pro-catalexe) e versos saphicos, ainda assim não 
acredita na continuidade de uma tradição. Nem tão pouco crê que 
o verso de arte maior seja uma creação peninsular. Inclina pelo 
contrario, em conformidade com Stengel, Morei -Fatio e Baist, a 
derivá-lo do dodecasyllabo francês com pausa depois da 5" syllaba, 
transformado por causa da antipathia dos peninsulares contra versos 
e hemistichios agudos, e também por causa da pouca aceitação de 
uma medida de onze avos. 

Agora algumas nótulas criticas. Em geral sou de opinião que 
é prematuro decidirmos sobre qualquer problema de métrica penin- 
sular, antes de o cânon tanto das poesias archaícas de factura 
palaciana como das de caracter popular estar elaborado. Para este 
fim, em cujo alcance Henry R. Lang está a trabalhar assiduamente, 
contribuo no Cap. IX d' este volume com os materiaes fornecidos 
pelo CA. Aqui direi apenas o seguinte. Embora não seja uso, ou 
uso malvisto, o falJar de rhytmos jambicos ou trochaicos, com 



1) Hanssen caracteriza-os como hypermetrisehe Weiterbildungen. 



— 93 — 

respeito a composições românicas, creio que, collocando-nos immoveis 
no ponto de vista francês da simples contagem das syllabas, nunca 
conseguiremos resultados satisfactorios a respeito da parte popular 
da poesia hispânica, e peculiarmente do verso de arte maior. 
Quanto mais vejo e ouço das danças e da musica peninsular — 
em que o rhytmo .é tudo, — tanto mais me persuado que os 
gallaicos, astures, cantabros e lusitanos de hontem e de lioje, não 
contavam as syllabas, contentando -se com um numero fixo de altas 
ou levas (4 no verso de arte maior). — Neste ponto estou de ac- 
cordo com G. Baist. O trástalastrás das castanhetas, o trintrilintrín 
dos ferrinhos, o cháscarraschás das » conchegas «, o dóngolodrón dos 
pandeiros, o répinicár das guitarras, o bírhirinchín da gaita, ruidos 
que pelo rhytmo e som se afastam completamente do li ailí ali 
aili da flauta, recordam a miúdo o verso de arte maior, lembrando a 
necessidade de estudarmos as cantigas choreographicas do povo. Se 
nem mesmo dos compassos e das evoluções da muinheira formamos 
ideia cabal! — No folklore de Portugal ha entre as rimas e os 
jogos infantis numerosos disticos, a começar com o 

Arre burrinho, a São Martinho 
carregado de pão e vinho 

que recitamos ou cantamos com variantes a capricho, balouçando 
ou fazendo cavalgar em saltos cadenciados nos nossos joelhos pe- 
queninos cavalleiros. Esses talvez contenham preciosas revelações. A 
predilecção dos portugueses pelas estrophes sapphicas também mere- 
ce attenção. 

Mesmo nos Cancioneiros ha composições ainda não utilizadas, 
como p. ex. o fragmento deturpado de serrana que principia' 

Na serra de Sintra a par d' esta terra 

vi úa serrana^ que braadava guerra (CV 410) 

Em vista de decasyllabos e dodecasyllabos de rhytmo perfeitamente 

pronunciado, e outros in-egularmente construídos que mal podem 

ser escandidos, creio devermos distinguir entre duas qualidades 

differentes de versos de 12 syllabas graramaticaes. — Não creio que 

as poesias de Alfonso X. e outros trovadores, em que versos de 

dois metros de quasi egual extensão, mas prosódia differente, alternam 

com regularidade e propósito, caiam sob a lei da pro- catai exe, nem 

tão pouco sob a lei Mussafia. Considero -os como francamente 

heterometricos. — Algumas outras theses precisavam pelo menos de 

mais ampla demonstração , p. ex. as que se referem ás cantigas lyricas 



— 94 — 

do Cancioneiro Musical. — E ao contrario de Hanssen espero 
que na hymnologia latina encontraremos os modelos para as 
estroplies e para os rhytmos da poesia popular, isto é para cânticos 
litúrgicos em romanço, bailadas sacras e profanas, cantos de romaria, 
serranas, chacotas. 

§ 97. Kegistarei ainda um primeiro esboço de grammatica 

archaica, se bem que o auctor não se refira aos cancioneiros profanos, 

mas apenas aos cânticos de Alfonso X., e a alguns documentos em 

prosa (de 1295 a 1374). Assim procede com justo motivo, visto que 

o seu trabalho illustra uma edição critica das poesias attribuidas ao 

trovador mais nomeado da época de transição. Macias o Namorado. 

82°. Hugo Albert Rennert, Macias, O Namorado, a OalicianTrobador. 
Philadelphia 1900. — Privately printed. 

Quanto á introducção litteraria, não entra no plano d' esta obra. 
Por isso relatarei apenas que o auctor, em harmonia com Gr. Baist,^) 
ampliando as indicações do Marquês de Santilhana, colloca o poeta 
entre 1340 e 70, no reinado do Justiceiro çle Castella; e não em 
principies do sec. XV, como fora costume desde Argote de Molina. ^) 
E procede assim, não tanto por achar digna de credito a epigraphe do 
Cancioneiro deBaena, segundo a qual alguns coevos do colleccionador 
imaginaram lançadas suò rosa contra o rei D. Pedro certas suas queixas 
amargas, dirigidas »paladinamente« contra o Amor, 3) mas por causa da 
ordem em que o Marquês cita o Namorado, juntamente com Vasco 
Pires de Camões (c. 1361 — 86), Casquicio (c. 1354), D. Juan 
de Lacerda (-f* 1357), e Pêro Gonzalez de Mendoza (-j- 1385), 
continuando com a proposição: Despues destos ^ en tienipo dei rey 
Don Johan (i. é 1379 — 1390) /ke el Arçediano de Toro. 

Podia responder que a chronologia do Marquês nem sempre e 
inattacavel — como mostrarei mais tarde — ; que exactamente o 
único paragrapho dedicado aos poetas gallizianos (XV) é muito vago, 
abrangendo dois séculos; que despues destos (XVII) se refere em 
rigor só aos luso - castelhanos Alfonso X, La -Cerda (?), Mendoza, 
e Alfonso Gonçalez de Castro (?) mencionados no § XVI; que a 
rubrica alludida nem mesmo a Baena mereceu fé^) e foi desatten- 

1) Orundriss Ilb, 426 ss. 

2) Ib. Ilb, 239 s. 

3) Baena No. 308: Amor cruel e brioso. 

4) EUe declara terminantemente: esta cantiga fiso Macias contra el 
amor, accrescentando empero algunos trobadores disen que la fiso contra 
el rrey don Pedro. 



— 95 — 

dida por Santilhana; que não se deviam basear nella os que regeitam 
como pura ficção todos os dizeres do Condestavel D. Pedro de Por- 
tugal e do Commendador Griego sobre os amores de Macias e sobre 
a estrophe Aquesta lança sem falha, i) 

Mas como reconheço que as linhas geraes da Carta- Proemio 
são acertadas, e estando perdidas as suas canções, menos quatro ou 
cinco, já em 1449, inclino -me também de ha muito a adoptar para o 
lendário poeta uma data bastante afastada de Baena e Santilhana, a 
qual deverá recahir na segunda metade io sec. XIV, O espirito 
das cantigas, as formas estrophicas, a metrificação, o rimario, a 
linguagem não se oppoem de modo algum. Distanciando -o dos 
poetas dionysios e post-dionysios^), todos os indicios de fundo e de 
forma aproximam -no de Alfonso XI, o Arcipreste de Fita e Pêro 
Lopes de Ayala, chanceler e chronista do Justiceiro, dando -lhe 
uma posição intermédia entre estes e o Arcediano de Toro e Villa- 
sandino. ^) 

Quanto á restituição dos textos, hybridamente gallego- castelha- 
nos e em parte deturpados e fragmentários, attribuidos com mais 
ou menos fundamento ao Namorado ^ Rennert que separa conscienciosa 
e correctamente os que são gallegos dos castelhanos, ainda assim 
deixou subsistir inalteradas e introduziu até de novo formas espúrias. 
Ponctuando ás vezes pouco satisfactoriamente, não dá a perceber, 
qual o sentido que liga ás ideias dos auctores. *) 

§ 97b. Num relatório dedicado á obra supracitada de Jeam-oy, 
Eduardo "Wechssler, que se occupa de uma edição do Graal portu- 
guês, reconhece o serviço que o erudito francês prestou á sciencia, 
combatendo e desarçoando a usual concepção romanticamente mystica 
da poesia popular. Não se conforma todavia com a nova inter- 
pretação, por elle proposta. A seu vêr, poesia popular, se não é 
poesia ideada pelo povo, tão pouco é poesia composta para a nação 



1) A meu vêr, foi apenas a allocução ao Amor: Bey eres sobre los 
Reyes, coronado emperador, assim como a repetição da palavra cruel e 
crueza na cantiga indigitada que originou essa parte da lenda. 

2) Só de longe em longe Rennert remette, com relação a uma ou 
outra phrase feita, ás cantigas dos coevos e antecessores. — Também este pro- 
blema será brevemente resolvido por Henry R. Lang num Cancioneirinho 
gallego- castelhano que está elaborando. 

3) Alguns versos tem sido attribuidos a Macias e a Villasandino (vid. 
No. VII, X e XVII). 

4) Conto occupar-me do assumpto em outro logar. 



— 96 — 

inteira. Assentando a these suprehendente que poesia popular é 
uma concepção phantasmagorica, sem realidade nem corpo, explica 
que toda a poesia é originariamente e na sua essência poesia de 
classe (Standes-poesie)^ porque desde o momento em que ha separação 
de classes sociaes, não pode haver creações litterarias, destinadas 
para todos e a todos comprehensiveis. Artistas de profissão, 
superiormente dotados, escrevem para um determinado circulo culto, 
homogéneo, mais ou menos restricto, em que nasceram, se criaram 
e vivem. Ha poesia sacra, i. é da classe ecclesiastica ; poesia 
aristocrática i é. de nobres; poesia cavalheiresca, para cavalleiros; 
poesia burguesa. Progredindo sem cessar na sua cultura mental, as 
camadas superiores requerem sempre, e sempre produzem novidades, 
abandonando então os géneros antiquados ás camadas inferiores. 
Jeanroy teria por isso feito melhor se fallasse apenas de géneros 
archaícos, omittindo completamente o ambiguo termo popular. 

A poesia das camadas inferiores e intimas, o pecúlio que até 
hoje foi costume designar como poesia popular compõe -se portanto 
em primeiro logar e principalmente de obras archaícas, abandonadas 
e em decomposição, porque o povo as modifica, segundo o seu 
espirito e limitado saber. Em segundo logar abrange imitações d' essas 
mesmas obras, feitas por individues de talento, sabidos do vulgo, 
os quaes se servem dos moldes promptos e da technica, vinda de 
cima. Em terceiro logar acontece que algumas obras bem feitas 
d' esses taes poetas populares são acolhidas por gente da alta socie- 
dade, que as aperfeiçoa. — Ao primeiro e principal grupo pertencem, 
de entre os géneros da lyrica provençal e francesa, a pastoreia, 
o debate de amor, a alba, a canção dramática. 

Mas Wechssler pára, chegado á burguesia, e evita descer aos 
rústicos villões — lavradores, mesteiraes, pastores, peões etc, — 
como se a these que tenciona demonstrar, de a falta de illustração 
intellectual d' esses humildes servos glebae adscriptos ser equivalente 
a uma absoluta incapacidade poética, estivesse provada. Nem diz, 
qual a classe social que considera creadora primordial dos géneros 
indicados e dos refrains ; ^) nem tão pouco á qual das três espécies 
de poesia popular ou popularizada pertencem os exemplos que sub- 
sistem. E referindo -se apenas á França e aos trovadores germânicos 



1) É provável que a respeito dos primeiros pense na ordem dos ca- 
valleiros e com relação aos refrains, na burguesia. 



I 



— 97 — 

deixa de expor como pensa applicar as suas theses á poesia gaJaíco- 

portuguesa, isto é ás singelissimas producções em disticos de refram, 

com ou sem parallelismo parcial ou completo de duas variações 

diversamente rimadas, que constituem bailadas, cantos de romaria, 

cantigas de villão e mais espécies de poesias com personagens femininos, 

cultivadas nas cortes de Portugal, Castella e Leon. 

83°. Eduard Wechssler, Einfliísse der altfranxosischen Litteratur 
auf die altdeictsche (1S91 — 1896) em Kritischer Jahresbericht uber 
die Fortschritte der romanischen Philologie, IV, 4, pag. 408 — 411. 

§ 97. O professor Hanssen que já ouvimos ventilar questões 
de métrica portuguesa, dedicou um ligeiro esboço — talvez uma 
conferencia — á arte dos trovadores em geral, e em especial aos 
da peninsula, resumindo e combinando engenhosamente ideias ex- 
pendidas por Diez, Storck, Lang, Jeanroy, Gr. Paris e Carolina 
M. de Vasconcellos. 

84°. Dr, Tr. Hanssen, Ueber die portugiesischen Minnesanger. Val- 
paraiso 1899 , 8 pag. 

Fiel ás ideias sustentadas pelos precessores explica como a 
lyrica amorosa da idade media se manifestou no mundo românico 
em três formações . diversas : como poesia popular; como arte pala- 
ciana ou cavalheiresca; e como género erudito em linguagem latina, 
dos escolares goliardos {Carmina Burana). Os últimos dois ramos 
derivam do primeiro, e este da poesia sacra da christandade, que 
se tornara verdadeiramente vulgar e internacional. O culto da 
Virgem influiu evidente e poderosamente no culto profano da mulher. 

O que dá interesse e importância á arte palaciana dos gallego- 
portugueses — imitação da arte provençalesca, aguada a ponto de 
não enthusiasmar nenhum leitor moderno — ô o curiosíssimo influxo, 
exercido quanto á forma e ao espirito, pela preexistente lyrica 
popular, mesmo sobre as composições artisticas. Entre as duas cate- 
gorias que é preciso distinguir (canções de homens e cantigas de 
mulheres) a primeira tem cunho artistico. O auctor acredita no con- 
tacto d'ella com a poesia de amor dos árabes. Da segunda, uma parte 
considerável tem feitio popular, e é transformação litteraria de géneros 
populares — litterarisch weitergebildete Volkspoesie — excepção feita 
de alguns cantares que talvez sejam verdadeiras poesias do povo — 
so weit sie nicht wirldich aus deni Volke stammen. Mas naquellas 
mesmo que foram construídas sobre modelos e em harmonia com 
a technica estrangeira, notam- se numerosos traços que são distinc- 

7 



— 98 — 

tivos da musa popular. Os enxertos exóticos, inoculados em typos 
indígenas da flora nacional, murcharam rapidamente, emquanto que 
a planta -mãe continuou viçosa e vive ainda hoje. Caracterizando -a, 
apresenta cinco amostras, colhidas no cancioneiro, em versão alleman. 
Ehytmicamente reflexos exactos, essas traducções ainda assim não 
reproduzem, como as adaptações de Storck, o parallelismo das rimas. 
O traductor não designou os originaes. Keconheci comtudo os Nos 884, 
902, 797 e 81 do CV. 



PARTE 11. 

INVESTIGAÇÕES A RESPEITO DO CÓDICE 
DA AJUDA. 



Historia do Códice. 



I. De 1800 a 1900. 

§ 98. Syntetizando noticias dispersas no capitulo anterior, 
fixarei em primeiro logar os motivos porque o livro velho de trovas 
gallaíco- portuguesas que publico, foi denominado a principio Can- 
cioneiro do Collegio dos Nobres^ passando em seguida a ser uni- 
versalmente conhecido pelo nome de Candonsiro da Ajuda] e também, 
qual a ideia que levou um dos seus editores a dar -lhe o titulo 
divergente Trovas e Cantares . . . do Conde de BarcellosA) 

§ 99. Quando, no primeiro quartel do século que vae findar, 
vários académicos portugueses e alguns forasteiros illustres o exa- 
minaram, o truncadissimo códice encontrava -se na capital, num 
edificio que ia servindo de collegio aos moços nobres do reino, na 
Rua do Monte Olivete. Ahi teria provavelmente permanecido até 
essa escola, Real e privilegiada, ser abolida em 1837 (visto o 
governo constitucional a achar em desharmonia com a nova orga- 
nização politica), se Lord Stuart não tivesse chamado a attenção 
do mundo culto para tão precioso monumento litterario, patenteando 
pelo mesmo acto o vergonhoso estado de ruina a que havia chegado. 

§ 100. Posto ao facto da existência e valia superior do códice, 
e dos perigos que o ameaçavam, entregue como estava aos maus 
tratos de rapazes, e, no melhor caso, accessivel só com difficul- 
dade aos externos estudiosos, o governo resolveu transferi-lo para 
a Bibliotheca Real, installada a curta distancia de Lisboa, numa 
casa contigua ao paço da Ajuda. 

Costuma -se dizer que o volume entrou naquelle deposito pelos 
annos de 1825. O próprio Herculano assim o af firmou, 2) e as pala- 



1) Passageiramente o códice foi também chamado Cancioneiro de 
Lisboa, por alguns informadores. 

2) P. M. H.: Script. I, 140. — Cf. Th. Braga, Trovadores 86; Theoria, 
3* ed. p. 196. 

7* 



— 100 — 

vras do mestre foram naturalmente acatadas e repetidas. Do recibo 
original que vi, passado por quem então regia a bibliotheca , resulta 
comtudo que a entrega se realizou muito mais tarde, no dia 5 de 
Maio de 1832.1) Teremos de presumir que a execução de ordens, 
dadas em 1825, soffreu demora . . . como acontece ás vezes neste 
país ... e em outros? 

Decorrido um decennio, soube -se que em Évora se guardavam, 
na Bibliotheca Publica, onze folhas desmembradas do Cancioneiro. 2) 
Requisitadas, foram, por imposição superior, entregues na livraria, 
a 27 de Junho de 1843, intervindo o Yèdor da casa real, D. Manoel 
de Portugal e Castro. O officio do bibliothecario-mór de Évora 
que accompanhava a remessa, era dirigido a Herculano 3), o qual, 
encarregado desde 1839 das collecções particulares dei rei D. Fer- 
nando, e juntamente dos livros da Ajuda, começara a interessar - 
se vivamente tanto pelo Nobiliário como pelo Cancioneiro, conforme 
já contei.*) 

§ 101. Sentir viver os séculos XI a XIV, ouvir a anecdota 
cortesan de amor, de vingança ou de dissolução, como a contavam 
escudeiros e pagens por salas d' armas , e as lendas que corriam 
de boca em boca, narradas pela velha cuvilheira, junto ao lar no 
inverno; assistir ás façanhas dos cavalleiros em desagravo da pró- 
pria honra, aos feitos de lealdade, ás covardias dos fracos, ás in- 
solências dos fortes, e emfim a grande parte da vida intima do 
solar do infanção, do ricohomem e do paço real, que as chronicas 
vetustas raro nos revelam e que a historia (como o século XYI a 
reformou e puliu) achou indigna de occupar os seus períodos clássicos, 
moldados pelos de Sallustio e de Tito Livio, tal foi, explicado 



1) Foi o director da bibliotheca, Padre José Manuel Abreu de Lima, 
quem accusou a recepção do volume ao Reitor do CoUegio dos Nobres, 
José Freire de Andrade. 

2) Outro boato, relativo a folhas avulsas do códice, as quaes diziam 
andar em Coimbra entre mãos de um particular, apaixonado coUeccionador 
de antigualhas, não se condensou até agora em factos que fossem do dominio 
publico. 

3) Entre os documentos que publico no fim d' este capitulo o leitor 
achará a carta de Eivara. O original conserva- se na Bibl. da Ajuda. Parece 
que primeiramente houve o plano de depositar as folhas na Torre do Tombo; 
e também que o illustre eborense mostrou pouca vontade de se desprender 
d' aquellas reliquias. — Cf. Actas das Sessões da Academia, 1849. No. 2, 
p. 53; e Panorama de 1842, p. 406. 

4) Vid. Cap. I, § 14. 



— 101 — 

com as suas próprias palavras, o empenho de Herculano ao ler e reler 
as prosas e os versos medievaes do in- folio carcomido, vindo do 
Collegio dos Nobres. Alguns troços e duas cantigas inteiras do 
CA, engastadas no Monge de Cister '^)^ dão prova da curiosidade com 
que manuseou a parte lyrica. Quanto ás prosas, embora natural- 
mente não as podesse aceitar como pura fonte histórica, hauriu 
nellas uma infinidade de espécies preciosas, conforme se pode verificar 
tanto na sua obra principal, como nos Opúsculos, nas Narrativas e 
nos Romances. ^) Pena foi que os apographos italianos não se publi- 
cassem a tempo para os sirventeses moraes e históricos e os can- 
tares de escarnho e maldizer lhe ministrarem quadros burlescos e 
trágicos, e illustrações incomparáveis da civilização peninsular. 3) 

Além d' isso, Herculano entrou na comihissão encarregada de 
preparar criticamente a edição do CA. Depois, quando Varnhagen 
resolveu tomar sobre si este trabalho, tirou manu p-opria o tres- 
lado das folhas inéditas eborenses, e discutiu com elle e outros, 
em cartas e verbalmente, na livraria e no seu gabinete particular, 
(centro do movimento litterario de então) a questão da lingua e das 
origens. 

Foi ainda Herculano quem, no ultimo anno da sua vida, desde 
o seu eremitério em Valle de Lobos, me facilitou o trabalho a que 
procedi.^) Na sua própria morada, junto á bibliotheca da Ajuda, 
que me cedeu gentilmente para todo o verão de 1877, é que, mal 
chegada da Allemanha e ainda pouco acclimada nesta viçosa terra 
gensor,^) estudei as trovas contidas no pergaminho, juntamente com 



1) Vid. CA 283, 292 e 295. 

2) Não será iuutil lembrar que o Panorama onde appareceram os 
primeiros romances históricos do fundador, começou a sahir em 1837. A 
edição primeira do Eurico é de 1844 — 48. Um volumei da Historia de 
Portugal appareceu em 1846; o 4" e ultimo é de 1853. O corpo dos Monu- 
mentos históricos, principiando pelos Scriptores^ foi dado ao prelo em 1855. 

3) Convém allegar aqui a passagem em que chama o Livro das Linhagens 
muito mais histórico que boa meia dúzia d' escriptos dos nossos historiadores. 
Opúsculos V, 123. 

4) Apraz - me deixar consignada aqui a expressão do meu vivo reconhe- 
cimento e de verdadeira admiração pelo grande historiador, exactamente 
porque terei de regeitar e combater no decurso d' estes estudos, algumas 
das suas opiniões sobre a lingua, a época, os auctores, e a importância dos 
Cancioneiros. 

5) Nos mais antigos poemas castelhanos encontram -se formulas, cheias 
de admiração pelas bellezas naturaes de Portugal. A que empreguei, en- 
contra -se na Crónica rimada v. 762. — Oensor ó comparativo provençal 



— 102 — 

as do cancioneiro da Vaticana, construindo os alicerces d' este lavor 
(maio a setembro). 

§ 102. Quando em 1890 lá voltei, a fim de cotejar novamente 
a minha restituição da copia diplomática que tirara, — esta vez no 
próprio paço Eeal, para cujo rez de chão a livraria fora mudada 
havia um decennio — achei o volumoso códice no mesmo estado 
como em 1877. Notei porém, que a inscripção Rey DõDenis,i) 
traçada com tinta no corte inferior das folhas, se havia tornado 
illegivel para quem não a conhecesse de antigo. 

§ 103. Posteriormente, o novo director da bibliotheca lembrou- 
se de melhorar no que fosse possível o tesouro por cuja conservação 
está obrigado a velar. Tomei nesse ensejo (1895) a liberdade de 
instar para que o deixassem intacto no triste statu quo liistorico 
em que nos foi legado, mandando apromptar apenas um invólucro 
conveniente em que o custodiassem, porque, juntando as parcellas, 
substituindo a encadernação antiga por outra moderna, e cerceando 
as margens deterioradas, com suas notas manuscriptas apagavam 
os ténues mas ainda assim valiosos vestígios da historia externa 
do códice que hoje servem de guia ao investigador. Desfiz também 
a lenda das folhas baralhadas, creada por Varnhagen a bem do seu 
systema de interpretação, e dei explicações minuciosas sobre a 
ordem original das folhas, incluindo as de Évora. 2) 

Pelo que sei, o diligente official Eodrigo Vicente de Almeida 
tomou a peito vigiar pela escrupulosa execução de algumas das 
lembranças de quem entre os vivos, certamente, havia estudado com 
mais afinco e fervor esses singelos e desbotados cantares de amor 
dos trovadores portugueses. Ao recoser das folhas utilizaram p. ex. 
os furos antigos, conservaram as capas antigas, deixando a lombada 
descoberta. Mas, como julgaram necessário juntar as parcellas, 
tiveram de substituir os cordões primitivos, retalhados pelos saque- 
adores, por outros novos, de sorte que já não é possível reconhecer 
hoje os troços em que o volume andara dividido!^) 



de gents <; genitus , no sentido de gentil. — No Livro do Abbade D. João^ 
que provalmente deriva de um cantar de gesta antigo, chamam também a 
Portugal em linguagem modernizada: tierra muy viçosa. 

1) Vid. Cap. I, § 31 e 68. 

2) Vid. Cap. I, § 28. 

3) Vid. Cap. III. — Na primavera do anno corrente (1901) verifiquei 
ser exacta esta descripção. 



— 103 — 

§ 104. De 1819 a 1849 e posteriormente tiraram -se algumas 
copias do códice. Já fallei das que me são conhecidas: uma, destinada 
a Robert Southey, a qual hoje se guarda na bibliotheca regia de 
Berlim; a de Lord Stuart Rothesay, annunciada no Catalogo dos 
seus Livros e vendida em leilão, mas cuja paragem actual ignoro; 
outra, executada para o Morgado Matheus que é actualmente pro- 
priedade de Th. Braga (segundo informação pessoal); mais uma que 
pertenceu á casa de Villareal;i) e ainda outra, em papel de linho 
filigrana, tirada pelo paleographo J. P. da Costa Bastos, a instancias 
da Academia das Sciencias, quando planeavam editar as Trovas, 
perto de 1870.2) 

II. Antes de 1800. 

Do que me é dado expor com relação á historia do códice 
antes de 1800 entra em larga dose o clemente conjectural, sendo 
naturalmente mais vagas e controvertiveis as hypotheses que se 
referem a tempos mais remotos. Caminhando lentamente, do conhecido 
ao desconhecido, ^^ que tentíirei não me desnortear em absoluto. 

§ 105. O edifício onde o governo installara o Eeal Collegio 
dos Nobres, logo no acto da sua creação, em 1761, era o mesmo 
que durante longos annos havia servido de Seminário aos noviços 
da Companhia de Jesus. A bibliotheca com que dotaram o novo 
estabelecimento, 5) compunha -se também de livros, encontrados no 
espolio dos Jesuítas na sua recente expulsão pelo ministro de 
D. José, e servira até, durante algum tempo, de deposito geral para 
todos os impressos e papeis sequestrados. Ignora -se todavia — 
ignoro eu pelo menos — se foi no próprio seminário lisbonense, 
ou em qual outro dos numerosos institutos da Ordem, que o códice 
estivera arrecadado antes de 1759. 

Só depois de adiadas, na antiga e gloriosa cidade alemtejana, 
as onze folhas avulsas, é que foi aventada a sospeita de o Cancio- 
neiro todo ter vindo de ahi, ficando retidos como lembrança aquelles 



1) Th. Braga, Theoria 3" ed. p. 196. 

2) Ha quem lhe assigna a data de 1850. 

3) Silvestre Ribeiro esboçou a historia d' esse instituto. Segundo elle, 
a carta de lei, pela qual foi creado, é datada de 7 de Março de 1761. A 
abertura solemne, porém, só teve logar ao cabo de cinco annos (aaaio de 
1766). — Vid. Historia dos Estabelecimentos Scientifieos I, 282; II, 97; 
III, 120; Y, 242; VI, 25, 320 e 530. 



— 104 — 

ominosos destroços.^) Vejamos se lia indícios que indirectamente 
a tornem verosimil. 

Todos sabem que a residência favorita do Cardeal -Infante 
D. Henrique, que regeu Évora duas vezes como Arcebispo (primeiro 
em 1540, e depois em 1575); fora no século XVI um centro 
notável de estudos arclieologicos e litterarios. ^) Sábios estrangeiros 
e nacionaes de alto conceito, como o humanista flamengo Nicolau 
Clenardo, Mestre André de Resende, João Vaseu, Aires Barbosa, 
JeanPetit { = Parvus) e muitos outros, ensinaram ahi linguas clássicas, 
de 1533 em deante, no paço e em aulas propriamente suas, tendo 
por discípulos, juntamente com fidalgos e titulares, os filhos mais 
novos dei rei D. Manoel. Alguns entre elles como o Infante 
D. Fernando (f 1534)3), esposo da riquíssima herdeira da casa 
Marialva,^) e o Duque de Aveiro, neto de D. João II, documen- 
taram predilecção pronunciada por sciencias, artes e assumptos de 
archeologia pátria, mandando escrever tratados genealógicos, livros 
illuminados, e coUeccionando moedas, inscripções, antigualhas etc. ^) 
Esta actividade precedeu a anti -reforma jesuítica e trídentina. 
Depois de o Cardeal -Infante ter creado o CoUegio do Espirito 
Sancto (1551), que a breve prazo se transformou em Universidade, 
Évora, pátria de três eruditos cujos nomes veremos intimamente 
ligados á historia dos cancioneiros gallaico- portugueses — Mestre 
André de Eesende, Severim de Faria, e o licenciado Duarte 
Nunes de Leão — ficou sendo o arraial mais activo dos discí- 
pulos de Loyola. Juntaram- se então no cartório da nova Univer- 



1) Th. Braga defendeu esta opinião na Theoria, 3^ ed. p. 193. Ahi 
afíirma positivamente que o Cancioneiro se guardara esquecido no fundo da 
bibliotheca dos Jesuítas d' aquella cidade. 

2) Continuou a sê -lo nos séculos posteriores. Bastará lembrar aqui 
os nomes de Cenáculo, Cónego Mira, Eivara, e Gabriel Pereira. 

3) A actividade htteraria e artística do Infante D. Fernando (protector 
de Damião de Góes) e do Cardeal - Infante D. Affonso (fautor de Francisco 
de Hollanda) merece attenção. Yeja-se a este respeito a nova edição ger- 
mano -lusitana dos Diálogos da Pintura, por Joaquim de Vasconcellos, 
Wien, 1899. 

4) Mais tarde terei de referir -me a um Cancioneiro Marialva, pro- 
priedade do 4°. Conde, D. Francisco Coutinho, í. é do sogro do Infante 
D. Fernando, o qual herdou os seus bens. — Já o deixei mencionado na 
nota relativa ao § 74. 

5) Vae apparecer brevemente a reproducção hehographica de preciosas 
Genealogias portuguesas, illuminadas por mandado do Infante pelo artis- 
ta flamengo Simão Beninc. 



— 105 — 

sidade verdadeiras preciosidades litterarias (como o Esmeraldo de 
Duarte Pacheco, o Roteiro de D. João de Castro, a Cosmografia 
do mesmo) algumas das quaes haviam sido outr'ora propriedade dos 
Infantes manoelinos , D. Affonso, D. Fernando , D. Henrique e D. Luis ^) 
e foram pelos ultimes doados á Ordem que protegiam. Não ad- 
miraria portanto se também o Caticioneiro, sahindo das mãos de 
um príncipe meticuloso, fosse açambarcado pelos zeladores da fé, 2) 
espontaneamente ou porque a mesa censória o tivesse declarado 
perigoso e digno de severa reclusão, por causa de certas heresias 
de amor dos velhos trovadores.^) Neste caso só resta estranhar 
que os mais manuscriptos da mesma e de proveniência diversa 
permanecessem em 1759 e ainda permaneçam hoje em Évora, onde 
figuram na bibliotheca publica, sendo posteriormente requisitados 
por portaria especial a bem da Academia, quando um ou outro 
sócio os desejava consultar, e que aparecesse em Lisboa unicamente 
o nosso Cancioneiro. Mas emfim, é possivel que, sem previa 
reclamação, para ahi fosse, de mistura com os papeis da Com- 
panhia. 

Faço votos que se consiga documentar a veracidade da dupla 
supposição. Para tornar plausível a sua primeira parte, bastaria a 



1) Vid. Catalogo da Bibliotheca Eborense, passim. 

2) Eecordarei a grande e escrupulosa orthodoxia, documentada por 
escriptores portugueses, de 1560 em deante. Cingindo -se á decima regra 
do catalogo tridentiuo, elles iam depor na mesa censória manuscriptos que 
desejavam mostrar aos amigos, requerendo a nota: pode -se communiear; 
pode- se divulgar; pode correr. Pedro de Andrade Caminha, o correcto 
camareiro-mór do mais pio e devoto entre os netos de D. Manoel, apresentou 
os fascículos soltos do seu Cancioneiro de mão, á medida que os ia compondo, 
a Frei Bartholomeu Ferreira. O doutor Francisco Lopes, medico da rainha 
D. Catharína , requereu o attestado de fó e bons costumes para os seus Versos 
devotos en loor de la Virgen (1573); D. Manoel de Portugal, o servidor de 
D. Francisca de Aragão, para um seu Tratado breve da oração; Francisco 
de Hollanda (1576) quando ia mandar a Madrid treslados dos escriptos sobre 
a Fabrica que fallece a cidade de Lisboa e Da sciencia do desenho (1576). 
Mesmo a Infanta D. Catharína de Bragança não quis mostrar um seu Livro 
de Evangelhos a ninguém , sem elle ir fornecido da chancella da Inquisição. 
— Vid. Sousa Viterbo, Frei Bartholomeu Ferreira, o primeiro censor 
dos Lusiadas, Lisboa 1891, p. 16, 55, 201; J. Priebsch, Poesias de 
P. Andrade Caminha, Halle, 1898, e um artigo meu na Revue HispaniqueYll. 

3) Conforme resulta dos capítulos seguintes, a ideia de attríbuír os 
cortes de paginas no volume da Ajuda, á tesoura do censor, que teria 
aniquilado grosseiros cantos de escarnho e maldizer, não é viável. — Da 
hypothese, se essas satyras encheriam outro volume que foi destmdo, não 
tenho de tratar por ora. 



— 106 — 

prova que o Cancioneiro fora positivamente até 1550 propriedade 
de um dos Infantes da casa real. Pela minha parte, também não 
estou habilitada a fornece' -la. Posso assignalar todavia indicies de 
bastante peso, ignorados dos estudiosos, e que demonstram j)elo menos 
que houve realrâente no sec. XVI, na cidade de Sertório, não o 
próprio CA, mas um Cancioneiro ou partes de um Cancioneiro do 
tempo de D. Denis. 

§ 106. Eis o caso. Entre os papeis de um dos três acreditados 
e eruditos quinhentistas que nomeei, mestre principal dos dictos 
Infantes e mais próceres do reino que desejavam humanizar- se, e 
collector indefesso de raridades, achou -se uma poesia trovadoresca, 
de cuja authenticidade é impossivel duvidar, (quer fosse em folha 
original membranacea, quer em copia). E de outro seu patrício, 
seiscentista, de igual nomeada, tanto por causa da sua sciencia 
e applicação como pela sua opulenta livraria de manuscriptos e 
incunabulos, se tem asseverado que teve em seu poder não uma 
única poesia, mas nada menos que o liwo inteiro e original das 
Cantigas do Conde D. Pedro de Barcellos, o bastardo de D. Denis. 

Refiro -me aos já citados André de Resende, e ao cónego e chantre 
Manoel Severim de Faria, homens ambos de saber realmente aba- 
lizado, escriptores scientificos dos melhores que o Portugal Antigo 
produziu, relacionados de mais a mais com eruditos nacionaes e 
estrangeiros e — é importante salienta' -lo — nada hostis á com- 
panhia de Jesus. ^) De Duarte Nunes fallarei depois. 

§ 107. Severim, 2) o Argote de Molina ou o Colocci de Portugal 
(1583 — 1655), a cuja doutrina recorriam todos os coevos quando 
precisavam de informações históricas ■q litterarias , ^) era possuidor de 



1) Resende deixou os seus livros de theologia aos Dominicanos de 
Évora, a cuja ordem pertencia, legando todavia vários volumes ao collegio 
de Jesus e mandando que o resto se vendesse em pró dos herdeiros. 

2) Severim que nascera em Lisboa, onde seu pae era executor -mór 
e escrivão da fazenda real, passou ainda na meninice a Évora, para casa 
de seu tio Baltasar de Faria. 

3) Vid. p. ex. Brandão, Mon. Iais., vol. II, SOS""; vol. III, Prologo; 
vol. IV Prologo e Livro X c.7 ; XI c. 10 e 35 etc; Brito, Mon. Lus. VI c. 27; 
Faria e Sousa tanto nos Comrnentarios aos Lusiadas e ás Rimas de Camões, 
como no Nobiliário ed. Lavanha; Rodr. da Cunha, Catalogo dos Bispos de 
Lisboa e Cat. Bisp. do Porto; C. de Sousa, Hist. Oen. I, p. Cl, No. 102; 
Barbosa Machado vol. III p. 369; Cardoso Agiologio passim. 



— 107 — 

centenas de obras raras , espalhadas depois da sua morte. Boas partes 
foram transferidas á capital, onde entraram, por compra, na biblio- 
theca dos Condes de Vimieiro, sendo reduzidas a cinzas no incêndio 
subsequente ao terremoto de 1755.^) Felizmente não sem que o 
Conde de Ericeira tivesse elaborado (em 1724) um catalogo selecto, 2) 
nem tão pouco sem que outros auctores amigos como Brandão, 
Faria e Sousa e Brito tivessem incidentalmente dado conta de uma 
e outra das preciosidades, explorando algumas. Nomearei apenas 
entre as obras por elles descriptas, uma Ghronica Gothorum, 
reimpressa por Brandão^), outra Ghronica de D. Affonso Henriques ^^) 
e um exemplar do Nobiliário do Conde, antigo e authentico, por- 
que mostrava provir do espolio de um primo -coirmão do filho de 
D. Denis , o D. Pi^ior de Alcobaça Garcia Mendes. ^) Ambas tinham, 
de resto, sido propriedade e eram copias autographas de André 
de Resende.^) Possuindo assim a prova de como algumas rari- 
dades da livraria d' este foram adquiridas, indirectamente embora,^) 
pelo seu digno successor, teríamos jus a suppôr que tanto o No- 
biliário como o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos — que 
é o que mais nos importa — fossem da mesma proveniência, se 
estivesse provado que estes existiram positivamente no museu de 
Severim. 



1) Cf. Inéditos de Hist. Port. III. 389. — Subsistem todavia vários 
mss. autographos de Severim de Faria. Na Torre do Tombo e na Bibl. 
Nac. ha alguus com apontamentos genealógicos. Na Bibl. da Academia 
conserva -se uma Ghronica Oeral de Alfonso o Sábio que foi sua (vid. 
Bibliographia Critica p. 144). Caetano de Sousa possuia mais de um livro 
de notas de Manoel de Severim e seu sobrinho Gaspar. {Hist. Gen. I, 383; 
Provas II, 352). Outros estão hoje na Bibliotheca de Évora. 

2) Ácad. Hist., Coll. Doe. e Mem.., Anno 1724, Nos XIII — XXXI. — 
Ao dar conta das investigações feitas na livraria do 3° Conde de Vimieiro, 
U. Diogo de Faro (1705 — 1741), o illustre académico dizia: » compõem -se 
de 400 manuscritos e livros raros, a maior parte do erudito e illustre 
chantre de Évora Manoel de Severim de Faria.^ — Vejam -se especial- 
mente os Nos 58, 76, 85, 90, 93, 94, 102, 154, 160. 

3) Barbosa Machado III, 369. 

4) Mon. Lus. XVII cap. 5 (p. 162 e 184). 

5) Appenso ao Livro XI da Mon. Lus. — 

6) Mon. Lus., vol. III, p.271, onde Brandão diz: o [exemplar daChr o n. 
Ooth.J que aqui vay impresso foy do Mestre André de Resende & o tem 
em seu poder o Chantre de Évora, Manoel Severim de Faria. 

7) Resende morreu em 1573. Severim nasceu em 1583. Mas seu 
tio Baltasar de Faria, em cuja casa foi criado, era coUeccionador curioso, 
que pode ter adquirido volumes do humanista, quando o herdeiro vendeu 
as coUecções históricas e archeologicas. 



— 108 — 

Ha todavia um só auctor que assim o assevera. E este, 
muito tardio e muitas vezes incorrecto, dá a noticia de forma tão 
vaga que ó impossivel conceder -lhe credito, apesar da boa fama 
de que goza, e muito embora elle se tenha servido de vários auto- 
graphos provenientes do espolio de Severim e dos seus descendentes 
e agnatos. Ao esboçar a vida do bastardo de D. Denis (em 1735), 
o laborioso auctor da Historia Genealógica da casa real menciona 
o Cancioneiro como uma das jóias conservadas da bibliotheca do 
primeiro e prestimoso biographo de Camões.^) Para o provar remette- 
nos a »uma memoria de cousas raras que Severim possuia«, sem 
declaração ulterior. Mas não será essa memoria o relatório acadé- 
mico do Conde de Ericeira? Penso assim por não conhecer mais 
nenhuma. E sou de opinião que Sousa confundiu as obras poéticas 
do trecentista Conde D. Pedro de Barcellos com as do quatrocentista 
Infante D. Pedro, '^) a quem o relator académico attribuia o Poema 
do Menosprezo do Mundo, ideado, como hoje se sabe, por seu filho, 
o Condestavel. ^) Pelo menos, é exactamente este cancioneiro que 
o chantre guardava, com effeito, no seu estudo como cousa sum- 
mamente rara.*) Illudido, Caetano de Sousa illudiu-nos, sem querer. 

§ 108. Desvanecida esta esperança, viremo-nos para Mestre 
André. No seu bem fornecido gabinete resguardava -se a Chronica 
do Mouro Basis,^) um exemplar fidedigno do Livro de Linhagens 
que b5m pode ser o mesmo de Severim, e além dos dois volu- 
mes já citados, que este douto adquiriu^), uma folha, contendo 
uma poesia trovadoresca authentica. E a tenção entre D. Affonso 
Sanches, filho predilecto do Rei Trovador, e um seu vassallo, 
chamado D, Vasco Martins na própria poesia indigitada, — poesia 
em que este com suave ingenuidade na expressão dos seus afectos 



1) Hist. Qen. I, 265. Depois de fallar do testamento do Conde e do 
Cancioneiro accrescenta: o Chantre M. S. de F. em huvia memoria de 
cousas raras, que tinha, fa% menção de ter o dito livro. 

2) Esta confusão é de resto vulgar, como a do Condestavel com seu pae, 
o Regente. 

3) Vid. CM. de Vasconcellos, Uma Obra Inédita do Condestavel 
de Portugal, Madrid 1899. 

4) Vid. a Conferencia de 23 de Ag. de 1724, onde o Conde de Ericeira 
communica pormenores (No. XXIII, p. 7) sobre a primeira e rarissima edição 
do Poema, attribuido erroneamente ao Infante D. Pedro, sendo elle obra de 
seu filho. 

5) Vid. Atitiguidades de Évora, cap. XI e XIII. 

6) Cf. p. 106 Nota 1. 



— 109 — 

e com depurado idealismo, análogo ao de Petrarca, trova por uma 
morta, prototypo de perfeições, i) Digo que é authentica por ser a 
própria que conhecemos pelo CV, onde occupa o 27° logar, e figura 
ainda no CB.^) 

Tiro a importante noticia, nunca divulgada,^) de uma mis- 
cellanea manuscripta do sec. XVII. Hoje em posse da bibliotheca 
municipal d' esta cidade,^) procede das collecções de um desem- 
bargador e bibliophilo portuense, Christóvam Alão de Moraes (-{- 1693). 
O treslado — único de uma trova do sec. XIV que descobri^) — 
é muito razoável. Encimado do titulo: 

Trovas de D. A° Sanches filho dei Rei D. Dionix a Vasco 
Mr%. de, Resende e resposta do mesmo, vae accompanhado da nota: 
Achárãose entre os papeis do grande Mestre André de Resende e estavão 
postas em solfa. Quatro factos importantes são nos ahi revelados: 
1°) a existência de um cancioneiro, (respectivamente de partes de 
um cancioneiro, ou mesmo de uma folha de um cancioneiro) na 
posse de Eesende; 2°) andar esta parte accompanhada de notação 
musical, o que a differença dos cancioneiros conhecidos; 3°) haver 
nella indicações assaz exactas sobre os auctores; 4°) a identidade 
do camarada do bastardo régio com um ascendente do prestante 
antiquário eborense. Mesmo se por acaso esta identidade de D. Vasco 
Martins como bisdono de Mestre André fosse illusoria — o que 
não creio — ficava estabelecido que um quinhentista nacional 
conheceu versos authenticos de trovadores pátrios, em bom estado 
de conservação. 

Curioso, e decisivo, não é verdade? Mas de onde obteve 
Mestre André esse papel? Teria realmente ao seu dispor um can- 
cioneiro inteiro, pertencente aos Infantes seus discípulos? Ou tratar - 
se-hia apenas de uma folha, avulsa de ab-initio? Um dos rótulos 



1) D' estes termos se serviu Menendez y Pelayo. — Antologia III, 
p. XIV. 

2) No. 416 do ms-pae. 

3) Sobre ella versa a minha Randglosse XV, redigida ha bastante tempo, 
mas que não virá á luz, na Zeitschrift e em Separata, supponho eu, anterior- 
mente a este estudo. 

4) Signada: MS. 419 (No. 72 do fundo Azevedo). 

5) Ouvi dizer que o meu amigo Dr. José Leite de Vasconcellos 
descobriu , recentemente , em uma sua viagem a Madrid , o treslado de uma 
poesia gallaíco - portuguesa. Não o querendo privar do gosto de publicar a 
sua talvez valiosa descobeiia, deixei de o interrogar, ignorando por isso, 
se se trata da mesma tenção^ ou de outra composição diíferente. 



— 110 — 

originaes de pergaminho que foram evidentemente as fontes das 
compilações? Talvez uma reliquia de familia (familia em que a 
paixão das antigualhas era hereditária) passada de pae a íilho, desde 
que, antes de 1329, o quarto -avô de Mestre André a compôs? i) 
Esta explicação parece plausível, se considerarmos de um lado que 
nenhum dos cancioneiros subsistintes tem notação musical, nem tão 
pouco indicação do nome completo D. Yasco Martins de Kesende;^) 
e do outro lado que nem Eesende, nem Severim, nem amigo algum 
dos que exploraram os livros dos dois eruditos, chegou a conhecer, 
de facto ou de fama, mais obras ou mais nomes de trovadores antigos 
que não sejam D. Denis, o Conde de Barcellos, D, Affonso 
Sanches e exactamente este D. Yasco Martins de Resende. 

Ao tratar das relações entre o pergaminho e os apographos 
italianos e os mais cancioneiros de que temos noticia, terei de voltar 
ao assumpto, examinando então novamente a que Cancioneiro a 
folha de Resende pode ter pertencido. Aqui baste estabelecer que 
em caso algum esse cancioneiro era o da Ajuda. O valioso indicio 
que á primeira vista parecia fallar, de modo irrespondivel , a favor 
da existência do nosso códice membranaceo em Évora, annuUa-a 
afinal. Mesmo nas partes que hoje lhe faltam e podemos recon- 
stituir com alguma segurança, a tenção de Affonso Sanches e Yasco 
Martins não tinha cabimento — e se coubesse, . . . era sem nomes, 
sem rubrica e sem musica! 

§ 109. Resta portanto em pé, além das considerações geraes, 
apenas a descoberta das onze folhas avulsas. E quanto a estas, 
o acto vandalico de as cortarem com muitas outras que ainda não 
tornaram a apparecer, tanto pode ter sido praticado entre 1759 e 
1819 no Collegio dos Nobres — indo as folhas, em seguida, da capital 
para Évora — como antes de 1759, num qualquer seminário da com- 
panhia de Jesus. A mocidade é sempre a mesma, cá e lá. 

O resultado negativo a que chegamos até aqui é: não constar 
onde o CA se guardou antes de 1759, sendo provável estivesse em 
qualquer casa de educação da Ordem. 

1) O leitor encontra a genealogia dos Resendes, e mais pormenores 
sobre o caso, no estudo a que me referi na nota 3 da pagina anterior. — 
Aqui baste assentar que numa Carta a Jorge Coelho, o antiquário falia dos 
seus ascendentes, e menciona Vasco Martins, mas sem nada dizer da sua 
veia poética. 

2) Está claro que não nego a existência de um Cancioneiro completo, 
com notação musical e nomes de auctor. 



— 111 — 

in. De 1500 a 1600. 

§ 110. Passo a ventilar a questão da existência do CA em 
Roma em tempo de D. João III. A ideia de uma transferencia 
directa e violenta do códice, da Itália para Portugal, foi lançada 
pelo iUustre Monaci, e repetida por seus discípulos. Tendendo a 
crer que o volume de trovas, avistado por Duarte Nunes de Leão, 
não é o que lioje subsiste na bibliotheca do Vaticano, nem o do 
Conde Brancuti, nem tão pouco o ms. pae de que Angelo Colocci 
extrahiu o índice e que por ventura ainda se occulte em qualquer 
livraria italiana, Monaci, LoUis e Mário Pelaez opinam, pelo con- 
trario, que elle foi roubado [rubato) por occasião do saque de Roma, 
e levado (levato) á j)eninsula por qualquer antiquário! É verdade 
que não apontam claramente para o CA. Mas como na península 
não se conhece outro códice , forçoso é ^) interpretar d' esse modo 
a proposição : Che meraviglia se qualche tempo dopo queW anno (1527) 
Nunes de Leão avesse veduto propicio in Portogallo il canzoniere 
»que em Ro7na se achou «? Ben poteva averlo portato cola un anti- 
quário di Madrid.^) De Resende nada dizem, por ignorar a noticia 
que revelei. Alias, teria sm-gido talvez a hypothese que este anti- 
quário, relacionado com Italianos como António Pucci, Cardeal de 
Santiquattro e com Portugueses que haviam residido longamente em 
Roma, como D. Miguel da Silva e Pêro de Mascarenhas, fora re- 
mettedor, portador, ou ladrão do presumido texto. Hypothese que 
considero inadmissível. Resende, embora passasse por Bologna em 
1533, não consta estivesse nas margens do Tibre. E a sua vida, 
escripta por um seu coevo e conterrâneo,^) é bem conhecida. Além 
d' isso, se Resende, Mascarenhas, o cardeal D. Miguel da Silva, 
Gaspar Barreiros, Góes, Hollanda, ou algum outro ignoto português 
que esteve na Itália, tivesse documentado a sua paixão por essas 
antigualhas de poesia pátria, adquirindo -as, fosse de que modo fosse, 
tal acontecimento, exactamente no tempo da reforma de Sá de 



1) Se tal nao for a ideia dos três italianos, então pensaram em um 
Cancioneiro só de D. Denis que, surgindo em Roma e de ahi levado para 
ã península, se sumiu sem deixar rasto, depois de ter sido avistado por 
Duarte Nunes. 

2) De Madrid, porque o saque não foi obra de portugueses. 

3) O cónego de Évora, e continuador das Antiguidades^ Diogo Mendes 
de Vasconcellos (15ii3 — 1599). Nas cartas e obras de Resende que encerram 
frequentes allusões a acontecimentos pessoaes, não ha referencia alguma a 
Roma. 



— 112 — 

Miranda, que iniciou a idade áurea da litteratura, teria naturalmente 
levantado brado, perdurando o seu eco até hoje, como perdura o 
de outros acontecimentos parecidos. 

§ 110. Partindo d' esta supposição estenderei a vista, á pro- 
cura de vestígios dos cancioneiros — avançando desde a data da 
decantada noticia de Duarte Nunes de Leão até 1759, para em 
seguida recuar em direcção inversa. Dando por ordem chronologica 
a lista dos nacionaes que fallaram de qualquer forma de vates da 
primeira época da lyrica peninsular, e tresladando os seus dictos, 
creio agradar ao leitor, que estimará conhecer cedo este material 
comprovativo, complemento necessário da resenha bibliographica do 
Capitulo I. 

Duarte Nunes de Leão^) fallou do cancioneiro do monarca 
não só no trecho (3°) que é costume allegar, mas em quattro obras 
diversas. 

Primeiro: num pamphleto de critica histórica, publicado no 
anuo 1585, juntamente com uma segunda parte pragmática, que 
é a que nos interessa: 

Duardi Nonii Leonis jurisconsulti lusitani CensurcB in libellum 
de regum Portugalice origine qui fratres Josephi Teixerce nomine circum- 
fetur,'') et De vera Regum PortugalicB Genealogia, a d serenissimum 
principem Albertum archiducem Austrice S. B. E. Cardinalem. 

A f. 14 3) (f, 163 da impressão de 1791; ou f. 1260, 39 do 

vol. II da Hispânia Illustratd) lemos o seguinte: 

Fiiit Dionysius rex humanissimus, amoenissimi ingenii, et a litteranun 
studiis non abhorrens eo rudi saeculo. Poéticos autem studium maxinie 
dilexit et fere primus in Portugália carmina lingua vulgari scripsit, nata 
non ita pridom huiusmodi poesi versuum similiter cadentium apud Siculos 
e quibus ad Lemovices Arvernos et Provinciales et inde ad ítalos et His- 
panos eriíanavit.'') Extant hodie eius carmina varia mensura tam de pro- 



1) Cf. § 20, 52. 

2) Cf. Orundriss Ilb, 168, nota 3 e 186, nota 4. — Sousa Viterbo 
deu, no ja citado estudo sobre a actividade inquisitorial de Frei Bar th o lom eu 
Ferreira (Lisboa 1891), pormenores curiosos a respeito do opúsculo, em 
que o futuro chronista combateu como defensor dos direitos de Felipe II 
de Portugal, as doutrinas do petulante e atrabiliário frade português, o qual, 
como partidário do Prior do Crato, havia publicado em Paris um escripto 
tendencioso e inexacto sobre os dynastas portugueses. 

3) A l"" parte tem 64 folhas, numeradas sobre si; a 2*, 49. — Um 
exemplar, existente na Torre do Tombo, pertenceu outrora á Casa de 
S. Vicente. 

4) Ao designar a antiga poesia provençalesca da Itaha como escola 
sieiliana, Duarte Nunes lembrava -se ])rovavelmente das opiniões dantescas, 



— 113 — 

fanis amoribus quam de laudibus beatissimae Virginis Deiparae ex qui- 
bus apparet imitatum fuisse Lemoviees et Arvernos poetas. 

2°. Idem , Genealogia verdadera de los Reyes de Portugal con sus elogios 
y summario de sus vidas, Lisboa 1590. 

A. f. 24^^ d' esta rara vulgarização do tratado latino, cujo auctor, 

já então do Desembargo de sua Magestade, a dedicava ao sereníssimo 

Príncipe delias Espanas don Philippe Nueslro Senw., lemos: 

Fue el Rey Don Dionis humaníssimo, y de ingenio ledo y ameno, y 
muy afíicionado ai estúdio de las letras. Sobre todo se dio mucho a la 
poesia, y quasi fue de los prinieros que eu lengua vulgar escrivieron metros, 
haviendo poço que se usava aquella manera de componer por consonantes 
acerca de los Sicilianos, donde vino a los Lemosines , Alvernos y Provençales, 
y de alii a los Italianos y Hespanoles. Y aun oy se hallan muchos so- 
nettos^) suyos de varia medida., assi de amores y cosas profanas, como 
de loores dela Virgen Nuestra Senora: en que se vee luego que imito a 
los Poetas Lemosines y Alvernos. 

Z". Idem, Chronica dos Reys de Portugal, 1600, vol. II, 76; ou f. IIS'^ 
da edição de 1677: 

Sobre estas grandes vertudes tinha el rey D. Diniz outra, pela qual 
era dos seus muy amado, que foi ser muy humano e conversavel sem perder 
nada da sua majestade, e grande poeta, e quasi o primeiro que na lingna 
portugueza sabemos escreveo versos , o que elle e os d' aquelle tempo 
começaram a fazer á imitação dos Arvernos et Provençaes, segundo vimos 
per hum Cancioneiro seu que em Roma se achou em tempo dei rey 
D. Joam III. et per outro questá na Toi're do Tombo, de louvores da 
Virgem, Maria Nossa Senhora. 

4°. Idem, Origem e Orthographia da Lingua Portuguesa , 1606. — Vid. 
cap. 6; p. 21 da ed. de 1866 1^) 7^ 

As lingoas de Galliza e Portugal ambas eram antigamente quasi híia 
mesma nas palavras e nos diphtongos e pronunciação que as outras partes 
de Hespanha não tem. Da qual lingoa Gallega a Portuguesa se aventajou 
tanto quanto na copia e na elegância delia vemos. O que se causou por 
em Portugal haver Reis e corte que he a officina onde os vocábulos se 
foijão e pulem e donde manão pêra os outros homens, o que nunqua houve 
em Galliza. Era a lingoa Portugueza na saida daqueUe captiveiro dos Mouros 
mui rude e mui curta e falta de palavras e cousas por o misero estado em 



e petrarquescas, sustentadas por Colocci, Bembo e seus successores. Escuso 
expor aqui, quão vagas e inexactas eram essas noções de uma irradiação 
da poesia lyrica, da Sicilia para a Provença, e d' ahi para a Itália continental 
e para a peninsula ibérica. Mas devo frisar o facto que o sábio legista 
enalteceu mais de uma vez o elegante secretario de Leão X, p. ex. na sua 
Orthographia, p. 100. 

1) Sonetos, no sentido provençal e francês de son = melodia, Weise; 
e não no posterior sentido derivado, universaHzado pelos Italianos. Vid. 
Orundriss 11", p. 76 e 88. 

2) Copio o trecho inteiro para o leitor formar ideia da san e sensata 
doutrina de Duarte Nunes de Leão. 

8 



— 114 — 

que a terra estivera: o que lho conveo tomar de outras gentes como fez. 
Polo que sua meninice foi no tempo dei Rei dom Afonso VI de Castella e 
no do Conde dom Henrique até o dei Rei dom Dinis de Portugal que teve 
algua policia e foi o primeiro que pos as leis em ordem e mandou fazer 
copilação delias e compôs muitas cousas em metro aa imitação dos Poetas 
Provençaes ^ como se melhorou a lingoa castelhana em tempo dei Rei dom 
Affonso o sábio seu avó que mandou screver a Ghronica Oeral de Hespanha 
e copilar as Sete Partidas das leis de Castella, obra grave e mui honrada 
postoque rude nas palavras etc. 

5°. Pedro de Mariz, Diálogos de Varia Historia, 1594. — Vid. p. 128 
da edição 1672: 

E para que em tudo fosse perfeito não lhe faltou um ameníssimo in- 
genho muito affeiçoado a letras e sciencias, das quaes, exercitando - se muito 
na poesia, foy havido naquelle tempo por excellente poeta e o primeiro 
que em Hespanha e na vulgar lingoa portuguex compox versos e rhimas, 
como se vê em alguns poemas que etn louvor de Nossa Senhora ainda 
hoje permanecem. 

6°. Frei Bernardo de Brido, Elogios dos Reys, 1603.- — Vid. p. 33: 

Teve muito conhecimento de lingoas e lia com muita consideração os 
poetas latinos como aquelle que tinha inclinação á poesia, em que fez grandes 
obras pello tempo adiante. 

7°. Padre António de Vasconcellos, Anacephalaeoses , 1621. — Vid. 
vol. I, § 7; p. 127 da edição 1793: i) 

Peregrinum sermonem ita avide arripuit ut externos libros summa cum 
voluptate lectitaret; Latinas poeseos (!) adeo studiosus ut propensionem a 
natura ipsa congenitam facile inspiceres quam mira arte et industria cum 
excoluerit, nihil ex iis, quse poetam omnibus numeris absolvunt, in summo 
Rege desideratum est. Lusitanas porro Musas illo tempore rudes et incultas 
ab agresti inconcinnitate ad floridos ac lépidos rythmos vendicare tentabit,-) 
neque coeptis ingenium abfuit, aut eventus: plura edidit limatiori stylo 
perpolita, quse tum Regiam eruditionem attestarentur, tum posteris ad 
semulandum forent incitamento; hcec tamen nobis obliviosa proiripuit 
vetustas. ^) 

8°. Manoel de Faria e Sousa, Epitome de las Historias Portuguesas., 
1628. — Livro IV, cap. 18, § III; isto é: Vol.I, p. 69 e 109 da ed. 1674: 



1) Nesta altura podiam entrar os castelhanos com algumas repetições. 
Citarei apenas o Phenix dos ingenios que affirmou no Guante de D. Blanca, 
Jornada II, „que es el rey Dionis — el primero que en Espana — en 
lengua própria hixo versos" e o extravagante auctor do Panegírico de la 
Poesia, 1627. Depois de fallar do Sábio de Castella, apresenta o seguinte 
amalgama: D. Alonso Enriquex, Conde de Coimbra., y primero Rey de 
Portugal, eleto por un Crucifixo, fue muy gran poeta dei uso de aquel 
tiempo., (!) y el Rey D. Dionis de la mdsma suerte, y eran las coplas 
como las de Egas Munix que se hallaran en el archivo dei Duque de 
Bergança. (!) 

2) Cf. p. 125, Nota 1. 

3) Parece que em 1621 já não se encontravam accessiveis na Torre 
do Tombo, nem os cancioneiros alfonsinos nem o cancioneiro de D. Denis, 



— 115 — 

Era inclinado a la Poesia. En Espana i aun en Itália por ventura 
fueron primeros sus versos a imitacion de los Provençales i Alvemos. Per- 
manecen stis obras. . . 

Na lista dos Poetas surge: El Bei D. Dionis , {Poesia) e D. Pedro 

Infante, hijo dei Bei Don Dionis (Genealogias). 

9°. Idem, Europa Portuguesa, impressa decennios depois da morte da 
auctor (fali. 1649); o tomo I em 1667 e novamente 1678; tomo U em 
1679; tomo III em 1680. — Vid. vol. II, p. 145 e vol. III, p. 354 e 360r 

Como tomava ora la espada, ora la pluma, assi docto en esta como 
valeroso en aquella, hizo de la ciudad de Coimbra una nueva Atenas con 
florente academia, ilustrada de varones claríssimos en todas faculdades, con- 
duzidas a su corte de varias partes. A imitacion desta tuvieron principio 
algunas. Bien se dexa ver que no tenia poço conocimiento de las letras 
quien assi las favorecia. Fue versado en differentes lenguas y era inclinado 
a la poesia. En Espana y aun en Itália por ventura fueron primeros sus 
versos a imitacion de los Provençales y Alvemos. Permanecen obras suyas. 
Un libro delias se hallô en Roma reynando Juan III; otro permanece en 
la Torre dei Tombo o Arehivo Real de Lisboa. 

E novamente na lista dos poetas: Afonso Sanchez (Poesia); Bey^ 

D. Dioniz^ (Poesia);'^) D. Pedro Infante, hijo dei Rei Dom DioniZy 

(Genealogias) ; Vasco Martins de Resende; El Rey D. Pedro , (Poesias); 

D. Pedro Infante., (Poesias). 

10°. Dr. João Soares de Brito, Theatrum Lusitanice. — Ms. de 1635 
s. V. Dionysius: 

Scripsit aliquot poemata et in suo sevo venustissima et elegantíssima 
quseque e primis apud Hispanos editis enumerantur. 

11°. Rodrigo Mendes da Silva, Catalogo Real de Espana., 1637, 
s. V. D. Diniz : 
Este rey compuso los primeros versos en lengua portuguesa. 

12°. Frei Francisco BrandSo, Monarchia Lusitana, Parte Y, 1650. 
— Vid. Livro XVI, cap. 3: 
Do que elle aproveitou nos estudos não se alcanção outros vestígios 
mais que algíãas poesias a que se inclinou com maior affecto; e alem de 
outras he de maior estima hum cancioneiro que escreveo em, louvor de 
Nossa Senhora, melhorando neste assumpto o talento que em outros em- 
pregos tinha divertido. Pode sem falta ter competência com o cancioneiro 
de Nossa Senhora, composto por el rey D. Affonso o Sábio, o qual se 
guurda na livraria do Escurial. O Conde D. Pedro de Barcellos que es- 
creveo o livro das linhagens, no testamento que fez, enterrando - se no nosso 
mosteiro de S. João de Tarouca, entre outras mandas deixa o seu livro 
das cantigas a el rey de Castella que então era D. Affonso XI seu sobrinho 
pelos annos 1350. Estas canções presumem alguns que devião ser delrey 



apesar das affirmações, naturalmente derivadas, de Faria e Sousa e Fran- 
cisco da Fonseca. Note -se que Pedro de Mariz não os menciona. 

1) No Commentario ao Canto III 97 dos Lusiadas (1639) encontro 
uma phrase, relativa aD. Denis: fuesciente, elegante e poeta. Nada mais. 

8* 



— 116 — 

D. Denis seu pay, mas tenho por mais certo serem do mesmo conde. Por 
respeito do nosso Eey D. Dinis se presume que introduzirão em Castella 
■escrever os versos em lingoa portugueza; o discreto proceder que os 
Castelhanos virão neste Príncipe nas occurrentes em que tocou aquelle reyno, 
soccorrendo-o, guerreando-o e pacificando -o, e a generosa liberalidade com 
•que soube grangear as vontades de todos, acompanhada da chanesa e cortesia 
■com que encobria toda a sagacidade, serião a causa de se lhe sogeitarem a 
•esta imitação. (!) O ceito he que durou o uso das coplas portuguezas em 
■Castella até o tempo de Henrique III, segundo escreve Argote de Molina.*) 

13") D. Francisco Manoel de Mello, Obras Métricas , 1665. — Vid. 
vol. I, Dedicatória: 

Del senor D. Dinis se lee que fue poeta celebre en sus tiempos. 
14". Francisco da Fonseca, Évora Gloriosa, 1728. — Vid. p. 43: 
Ás musas e as lettras que andavão como fugitivas e desterradas da 
Lusitânia levantou régio domicilio e sumptuoso palácio nas frescas margens 
do Mondego, fundando a universidade de Coimbra e foy o primeiro que em 
aquellas reaes mãos com que empunhava o cetro, tomou a penna para 
a,uthorizar as musas. 

15°. Caetano de Sousa, Historia Genealógica da Casa Real, 1735. — 
Vid. vol. I, p. 196: 
Foy digníssimo da coroa, ditoso, valoroso, entendido, de animo grande, 
liheral, amigo da verdade e da justiça, favorecedor das sciencias e das boas 
lettras, a que teve natural propensão, o que lhe facilitava o sublime do seu 
engenho, especialmente na poesia em que compôs com primor, sendo naquelle 
tempo excellente poeta; e foy o primeiro que em Hespanha e na lingua 
poiiugueza compoz versos em rimas, e nella fez traduzir alguns livros. No 
reynado dei Rey D. João III appareceo em Roma hum livro de obras 
suas; no Arehivo Real da Torre do Tombo se conservava outro em que 
com singular estylo e methodo tratou dos offieios principaes da m,ilicia 
e de outras muitas cousas pertencentes a ella.^) 

16°. Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, 1731 — 1759. — Vid. 
vol.l, p. 627: 
Cultivou desde os primeiros annos com tanta afluência a poesia vulgar 
que nelle foy natureza e não a arte os versos que compoz, sendo o pri- 
meiro que em Hespanha á imitação dos poetas proveu çaes metrificou em 
rimas, deixando para immortal documento do familiar commercio que sempre 
conservara com as musas, assim sagradas como profanas, [1° um] Cancioneiro 
de N. S. de cuja obra fazem memoria Duarte Nunes de Leão . . . e Brandão 
[2° um] Cancioneiro de varias obras o qual appareceo em Roma quando 
reynava em Portugal D. João III, como affirmão os dous referidos authores 
nos lugares allegados. 

17°. Francisco de Pina e Mello, Triumpho da Religião, Coimbra 
17Õ6. — Vid. Prologo p. Hl: 



1) Vid. Nobl. And. II, cap. 145. 

2) Sousa allega Mariz e Brandão; e menciona com relação ao ignoto 
iratado de milicia, a um certo Dr. Pedro Barbosa que escrevera em 1626; 
ajunta todavia que não achou noticia do opúsculo no Arehivo Nacional. 



— 117 — 

Em toda a Hespanha o primeiro que conheceu a Poesia foi o nosso- 
Eei D. Diniz. Hoje existe na livraria do Escurial hum livro de versos 
seus que elle mandou a seu avô D. Affonso X de Castella a quem chamarão 
o Sábio. ^) Seu filho o Infante D. Pedro, Conde de Barcellos, a quem deve 
tanto a Nobreza de Portugal pelas suas genealogias, deixou era testamento 
outro livro também de versos a seu sobrinho D. Aifonso XI. Seu neto o 
Rei D. Pedro I foi também Poeta. Do Infante D. Pedro, filho do Rei 
D. João I. se achão alguns versos em louvor da cidade de Lisboa. 

111. Dezasete trechos de uma boa dúzia de escriptores afa- 
mados! 2) Mas no fundo um só. Todos formulam os seus dizeres 
categoricamente como que fossem resultantes de investigações pes- 
soaes. Mas todos repetem apenas, na parte relativa a D. Denis, 
textualmente, ou condensando -as, ou paraphraseando-as com alguma 
liberdade, as affirmações do que primeiramente enalteceu, em prosa 
chan e com conhecimento de causa, os méritos do rei trovador. 

Verdade é que Pina e Mello propagou uma novidade: a 
existência do cancioneiro dionysio no Escoriai, em meados do sec. XVIII; 
respectivamente: a sua transferencia de Portugal para Hespanha. 3) 
Mas nós estamos no nosso direito se posermos de remissa a ob- 
servação do gongorico poeta, ^) presumindo que baralhou inconsci- 
entemente as noticias de Duarte Nunes sobre o cancioneiro sacro 
do português com as de Brandão, relativas ás Cantigas de S.Maria 
de Aifonso X — uma vez que entre os eruditos que catalogaram 
os tesouros guardados na livraria de S. Lourenço^) não ha quem 
mencione obra alguma de D. Denis. ^) 

Faria e Sousa, Brito, Brandão e Barbosa Machado, esses, jun- 
taram de facto aos dizeres de Duarte Nunes certas informações sobre 
dois ou três poetas da época trovadoresca. Todavia não as hauriram 
em cancioneiros. Suas fontes eram evidentemente o testamento do 



1) Quando o avô morreu, o neto contava vinte e três annos. 

2) No Cap. V seguem mais algumas passagens relativas ao Conde de 
Barcellos. 

3) Th. Braga acha plausível a hypothese da transferencia de volumes 
dionysios ao Escoriai , em tempo e por ordem de Felipe II. — Vid. Historia 
da Universidade I, 208. 

4) Do seu problemático saber em assumptos litterarios dá ideia a sen- 
tença que segue immediata ás que copiei. E diz: Os poetas mais antigos 
de Castella são Fernando dei Pidgar e João de Mena. 

5) Nem Bayer, nem o investigador moderno Hermann Knust; nem 
tão pouco o português Monsenhor Ferreira Gordo, o qual procurava syste- 
maticamente e ex officio manuscriptos em lingua pátria. 

6) Pelo que sei, Pina e Mello vivia quasi enclausurado, ora em 
Coimbra, ora em Montemor, e nunca foi a Madrid. 



— 118 — 

Conde de Barcellos com a manda do seu Livro das Cantigas, des- 
coberto pelos auctores da Monarchia Lusitana ;, e a Tenção de 
D. Affonso Sanches e Vasco Martins , achada no espolio de Eesende, 
■e com muni cada por ventura por Severim ao seu laboriosíssimo 
amigo Faria e Sousa, i) 

Esses dois accrescentos, com mais outro postiço, 2) longe de in- 
validarem, confirmam portanto a these que afora Duarte Nunes, 
nenhum dos historiadores citados viu o cancioneiro profano, nem 
tão pouco o sacro com louvores á Yirgem. 3) 

Se, sciente da actividade poética do rei de Portugal, de seus 
bastardos e do senhor de Resende, nem mesmo um curioso e incansável 
manuseador e excerptador de manuscriptos poéticos e genealógicos 
como Faria e Sousa — um dos primeiros que planearam uma historia 
da litteratura portuguesa*) e a quem de mais a mais nem falta a 
circumstancia de ter visitado Roma ^) — chegou a conhecer os volumes 
mencionados pelo seu coevo ^), esses tesouros estavam realmente bem 
escondidos, totalmente inaccessiveis , talqual o CV, desde que entrara 
perto de 1600 na bibliotheca do Vaticano, e o CA, desde que a 
nimia escrupulosidade de alguns crentes o havia entregue aos cen- 
sores de Lisboa ou de Évora, como nos convém postular. 



1) Duarte Nunes, que não se occupava de litteraturas, podia ignorar 
essas noticias. 

2) Barbosa Machado I, 52 considera Affonso IV de Portugal como 
trovador, estribando -se em dictos de Frei Bernardo de Brito que não me 
foi dado apurar. Mas a asserção, parta de quem partir, não tem funda- 
mento solido. Creio até que ella deriva exclusivamente dos Sonetos de 
Amadis em linguagem antiga, dos quaes logo terei de dizer alguma cousa. 

3) Verdade, verdade: também nenhum d' elles affirma tê-los visto. 

4) Além das magras listas de auctores, insertas no Epitome e na 
Europa^ o polygrapho deixou inédito um Catalogo de los Escritores Portu- 
gueses, muito copioso, pois constava de 823 verbetes, segundo Barbosa 
Machado, por cujas mãos passou o original. 

5) De 1632 a 34. 

6) O grande e legitimo enthusiasmo, manifestado por Faria e Sousa 
ao descobrir no Livro de Linhagens (c. 1646) os nomes descarnados de meia- 
duzia de antigos trovadores, prova á evidencia que nunca vira, nem fallou 
com quem tivera entre mãos demoradamente qualquer exemplar de um 
cancioneiro geral gallaico- português. — Apesar de muito lido e iristruido, 
o editor das Rimas de Camões sabia, de resto, pouco ou nada, dos cimelios 
da lyrica moderna. Ao fallar dos Frovençaes cita alguns nomes, deturpando - 
os, e de modo tão vago que bem se conhece foram colhidos em fontes deri- 
vadas e pouco puras. — Vid. p. ex. Rimas de Camões I, c. 139. 



— 119 — 

112. Duarte Nunes de Leão é pois o único referente cujos 
informes merecem exame. E exame attento. visto que, sendo não 
só contemporâneo de Resende e Severim (um pouco mais novo que 
o primeiro, e um pouco mais velho que o segundo) mas também 
conterrâneo d'elles, e douto e honesto como ambos, tanto a hypo- 
these de este Eborense ter visto depois de 1557, em Portugal na 
bibliotheca de qualquer dos dois mestres, o códice roubado, como a outra 
de elle o ter levado de Roma a Évora, não seria aventurada em 
demasia, com tanto que constasse a sua viagem, ou sendo provada 
pelo menos a possibilidade de tal viagem. Note- se o modo como falia 
do cancioneiro que em Roma se achou, pondo em contraste esse que 
surgira ao longe, no estrangeiro, e fora avistado decennios antes 
(entre 1527 e 57), talvez de relance, com o outro sacro que stá 
na Torre do Tombo (1600). Isso e a referencia, embora vaga, a outros 
poetas d' aquelle tempo, representados no mesmo volume, e ao caracter 
dos versos de D. Denis que encerrava : carmina de profanis amoribus, 
exactamente como as canções e os cantares de D. Denis no can- 
cioneiro do Vaticano e no do Conde Brancuti, torna possível que 
elle se referisse a um dos dois apographos utilizados por Angelo 
Colocci, vindos positivamente a lume emquanto reinava D. João Hl, 
quer fosse em vida do grande humanista que os salvara (entre 
1509 e 1549), quer depois do seu fallecimento (entre 1549 e 1557); 
ou então aos occultos originaes. Quanto ao resto, Duarte Nunes 
assegura formalmente na alludida proposição que tivera ensejo de 
olhar para as laudas do notável monumento — hum cancioneiro 
seu qus vimos ^) — mas não affirma que isso se deu em Roma, 
no prazo indicado, como entenderam alguns críticos, suscitando 
assim, da parte de outros, duvidas na veracidade do auctor e na 
possibilidade de tal viagem sua. 

A este respeito tenho a dizer que tal scepticismo é segura- 
mente injustificado.2) Duarte Nunes de Leão morreu tarde, em 
1608. Temos porém a prova de que alcançara idade muito provecta. 



1) Aos meticulosos dou parte que Duarte Nunes falia geralmente no 
plural majestático. Eis um exemplo, tirado do Prologo das Chronicas: 
E para que nos não attribuam a arrogância contarmos o nosso por 
verdadeiro, deixando o antigo esquecido, referiremos primeiro o que re- 
provam,os . . . despois contaremos o que damos por verdadeiro. 

2) Seria fácil organizar uma lista de homens notáveis do tempo de 
D. João III cuja vida se prolongou até 1600 e tantos. Baste o nome do 
poeta-fidalgo D. Manoel de Portugal, nascido cerca de lõ25 e fallecido em 1G06. 



— 120 — 

Gil Nunes de Leão, seu sobrmho, a cujas diligencias se deve a 
publicação posthuma (1610) de uma das melhores obras do activo 
jurisconsulto, falia da sua longa senilidade, cheia de achaques.^) 
Dando á luz em 1606 a sua Ch-igem da lingua portuguesa , o auctor 
narra como alguns seus invidos antagonistas haviam, interesseiros, 
propagado o boato da sua morte, 2) illudindo o monarca que o pro- 
tegia. 2) Ha mais porém: o próprio Duarte que, de resto, por con- 
veniência ou graças ao stoicismo judaico, nunca se queixava das 
suas doenças, trabalhando indefesso até aos altimos arrancos, já se 
havia chamado velho ^ trinta e dois annos antes. ^) Desde 1560, a 
mais tardar, o licenciado^) occupava em Lisboa, no supremo tribunal, 



1) Vid. Descripção do Reino de Portugal, com Dedicatória a D. Diogo 
da Sylva e Prologo ao Lector. — Nest' ultimo lê -se que as obras que 
deixou seriam „sem duvida em, tudo mais perfectas, se as occupações 
quotidianas que teve alguns annos com o desembargo da casa da Suppli- 
cação lhe não tomaram muito tempo ^ e a senilidade que passou toda 
quasi chea de infirniidades lhe ncío impedira poer nellas a ultima mão ". 

2) Vid. a Dedicatória ao Invictissimo e Gatholieo Rei Dom Philippe II 
de Portugal que accompanha o trabalho indicado, e especialmente a 
phrase: e porque homens invidos e contrários ao bem commum me fixerão 
morto ante V. M. com maa tenção^ procurando goxar de meus suores e 
aproveitarem- se de meu silencio, eu o romperei, com novas obras que 
cedo sahirão a lux etc. — Ao compor a Descripção^ o auctor acliava-se 
recolhido na villa de Alverca por causa do mal de que nos Deos livre, que 
então houve neste reino. Pode ser que essa villeggiatura, prolongada, 
(até 1606?) provocasse os boatos. — 

3) Acérrimo defensor do direito dos Felipes, Duarte Nunes fora pro- 
tegido e occupado pelo primeiro do nome, desdo tempo qtie a este reino veo 
até que Deos o levou ao ceo. No tempo do segundo, a mingua d' esse favor 
fez diminuir a sua alacridade. 

4) Na Orthographia da Lingoa Portuguesa, offerecida em 1576 ao 
Eegedor das Justiças Lourenço da Silva, o auctor, contando que a obra fora 
composta na sua mocidade, diz textualmente: 

„Polo que vendo eu em minha mocidade o descuido e falta dos homens 
de Hespanha em seu escrever, e a diligencia que alguns estrangeiros nisto 
mostrarão em suas lingoas, com o desejo que sempre tive de illustrar as 
cousas da nação portuguesa tentei ensinar a meus naturaes o que eu de 
outrem não pude apprender. E em alguns dias feriados e ócio . . . reduzi 
a regras e preceptos a Orthographia de nossa linguagem. Mas porque nestes 
tempos a mais certa paga destas empresas é ingratidão e murmurações, e a 
novidade d' esta invenção necessariamente havia de ter muitos contradictores, 
receei na mocidade o que me agora V. S. obriga fazer na minha velhice etc. — 

De passagem direi que segundo el rei D. Duarte, a velhice se con- 
tava dos 50 a 70 ; a senectude até 80 ; e d' alli até o fim da vida só havia 
decrepitude. 

5) Como Resende, Duarte Nunes usou sempre do titulo de Licenciado. 
Seu sobrinho trata -o repetidas vezes de Dr. , cingindo -se ao uso vulgar, 
que não gosta dos meios -termos. 



— 121 — 

logar conspícuo , ^) gozando da confiança do supremo Eegedor das 
Justiças, 2) que o encarregou de importantes trabalhos officiaes. Mas 
já então guardava do seu tempo de estudante outi'as tentativas que 
não manifestava, com receio que os zoilos dirigissem ao legista, 
hostilmente, o proloquio ne sutor ultra crepidam.^) Á sua estreia 
de 1560 fez seguir outras obras de jurisprudência em 1564, 1566, 
1568 — 1569, e, só depois de ver solidamente fundado o seu credito, 
lançou em 1576, 1585, 1590, 1600 e 1606 (e 1610) memorias 
e estudos linguisticos e históricos.^) 

Como ín illo tempore se estudava devagar, começando -se por 
via de regra aos vinte, e acabando -se pouco antes dos trinta 5) — 
é licito collocar o nascimento de Duarte Nunes perto de 1530 e 
não perto de 1540, como é costume®), mesmo dando por averiguado 
o facto muito pouco provável que o hábil licenciado encontrasse 
logo protecção sufficiente para ser aggregado em Lisboa á Casa da 
Supplicação. '' ) 

1) Procurador na corte e na casa da supplicação. Em 1590 era 
do Desembargo dei Rei, ignoro desde quando. 

2) Francisco Coutinho, Conde de Redondo, de 1557 a 1561 (cf. Inn. 
da Silva, Dicc. Bibl. II, 210 e Couto, Década VII, 10, 1), e posteriormente 
Lourenço da Silva. Cf. Reflexões Históricas II, 124 — 130; Zeitschrift VIII, 
12, e Revista de Ouimarães XIV, p. 69. 

3) Vid. o trecho copiado mais acima a pag. 120, Nota 4. Em 1G06 
chamava minha verde idade o tempo em que composera a Orthographia. 

4) 1560. Repertório dos cinco livros das Ordenações (cf. Barb. Mach. 
e Innocencio II, 210). 

1 564. Artigos das Sisas. Cf. Deslandes, Documentos para a Historia 
da Typographia II, 27 s. 

1566. Livro das Estravagantes , 1"^ collecção nunca impressa. Cf. 
J. P. Ribeiro, Reflexões Históricas II, 124 ss. 

1568 — 69. Leis Estravagantes , 2"- collecção (cf. Deslandes II, 27 s.). 

1576. Orthographia. 

1585. Gensurae e Genealogia (cf. Sousa Viterbo I. c). 

1590. Genealogia (trad.) 

1600. Chronicas. 

1606. Origem da lingua. 

1610. Deseripçam de Portugal, 

5) António Ferreira, nascido em 1528, acabou os seus estudos em 1555. 
Tendo -se conseguido fixar datas seguras a respeito do auctor dos Poemas 
Lusitanos e áe Bernardim Ribeiro, não será imposivel apurá-las também para o 
nosso desembargador. Sá deMira.nda nascido cerca de 1485, era doutor em 1516. 

6) No Grundriss 11 b, 168, Nota 3 ainda segui a opinião commum. 

7) Ferreira que tinha a protecção dos Duques de Aveiro, foi chamado 
a Lisboa cm 1567, aos 39. Os dez annos de estudante, mencionados com 
respeito ao supposto auctor da Celestina, não são tão anormaes como os 
modernos julgam. 



— 122 — 

Da circumstancia de elle fallar da sua Orthographia como de 
nm tratado sem precedentes, ignorando ou fingindo ignorar com- 
pletamente as grammaticas de Fernão d' Oliveira (1536) e João de 
Barros (1539 e 40), não devemos tirar a illação de o suppôr lit- 
terariamente activo em 1535. Nem merecem registadas, visto 
andarem faltas de documentação, as minhas suspeitas sobre se Nunes 
de Leão, ortu judceo, de uma familia que teve de soffrer crudelis- 
simas perseguições ^) , seria um dos Duartes , encarregados pelos seus 
antigos correligionários de missões secretas a favor da » gente da 
nação « junto á cúria romana, e que apparecem envoltos em mysterios 
nas cartas do Corpo Diplomático.^) Contento -me com o resultado 
que a ida á Itália antes de 1557, da parte de quem em 1560 era 
um homem feito — talvez depois de ter concluido os actos em 
Coimbra e antes de se estabelecer na capital — não é materialmente 
impossivel.^) Era mesmo vulgar entre os quinhentistas*) portugueses 
que aos estudos de direito canónico e civil juntavam pretensões a 
humanistas de elegante estylo clássico. °) 

§ 113. Da vinda de preciosidades de Roma a Portugal em 
tempo de Hespanhoes e de Franceses não duvido. Pelo contrario, 



1) Quem apupou o douto desembargador por causa da sua origem 
foi o frade dominicano José Teixeira, cujas doutrinas politicas e históricas 
combatera. Na replica Confutatio nugarum Duarti Nonii Leonis (1594), 
dirigida ao censor da inquisição Frei Bartholomeu Ferreira, ha vilissimas 
e violentíssimas objurgatorias: 

Seitis quceso, Dom. Inq. — lhe diz — quali histórico tanta provinda 
commissa sit? homini iterum, iterum, iterumque dico infanii, ortu 
Judcao; ea propter ad omnes gradus., honores, dignitates, et prcerogativas 
in Beip. Portugallensi, per pátrias leges penitus inhabili: eujus mater 
ob fidei eatholiccB perfidiam si non igne combusta, igni dãnata fuit; 
ejusque avos, agnatos, patrueles, consobrinos et affines ob ipsiimmet errorem 
cremari perpetuoque carceri mancipari vidimus. Quorum effigies hodierna 
die extant Ulyssippone in templo monasterii nostri divi Dominiei, 
Ord. Prced., quasque nos scepe aspeximus. — Cf. Sousa Viterbo na obra 
acima citada p. 101. 

2) Entre esses Duartes ha um christão-novo, antesemita, ao serviço 
de D. João III, que é bem conhecido, e outros cuja identidade não está 
fixada. — (Duarte da Paz.) 

3) De pouco vale assentarmos que Duarte Nunes mostra conhecimentos 
razoáveis de língua italiana nos seus opúsculos grammatícaes. 

4) Francisco de HoUanda lá foi como artista, aos vinte annos (1587); 
Sá de Miranda, como poeta, bastante tarde, aos trinta e tantos (1521); 
Damião de Góes igualmente, como humanista. Cf. Cap. V. 

5) Todos os portugueses que foram a Roma depois de 1513 aproxi- 
maram - se de Sadoleto e Bembo , os mais elegantes latinistas d' aquelle tempo. 



— 123 — 

sei de uma, embora de caracter nada litterario: o braço de S. Se- 
bastião que um devoto se lembrou de roubar em Milão e de levar 
ao Emperador, o qual o deu de presente a D. João III, — desacato 
pio, cantado por Sá de Miranda e Luis de Camões, depois de o 
Papa o ter sanccionado.i) De manuscriptos portugueses, trazidos 
por antiquários, não ha memoria. Posso apontar apenas uma im- 
pressão, offertada pelo Cardeal Sadoleto a um embaixador português 
que a admirara, cheio de cobiça desculpável. E essa ficou registada, 
com gratidão pela gentileza do prelado. 2) Se Duarte Nunes soubesse 
algo de positivo sobre a deslocação do códice, por acquisição legi- 
tima ou illegitima, o consciensioso escriptor, cuja critica é em geral 
bastante esclarecida^), teria, penso, escolhido mais adequado modo 
de dizer. 

Eis os motivos porque até aqui não posso advogar a ideia que 
o muito problemático cancioneiro original, tão imperfeitamente ex- 
plorado por André de Resende, viesse de fora parte por intervenção 
de Duarte Nunes.*) Nem tão pouco dou seguimento á conjectura 
de Monaci, se bem que o estylo- renascença da encadernação do 
pergaminho da Ajuda e a inscripção Rey Dõ Denis, no corte das 
folhas, a apoia apparentemente. 

Entre as duas possibilidades: achado do CA em Roma por volta 
de 1527 e transferencia do mesmo para Portugal, onde Duarte 
Nunes o viu, julgando encarar um Cancioneiro de Dom Denis, ou 
assistência do historiador em Roma, onde teve opportunidade de 
folhear, no espolio de Colocci, o CV e CB, ou no de Bembo outro 



1) Cf. Sá de Miranda, Poesias 148, lOO ss. — Zeitsehrift VIII, 8 — 10 
e Francisco de HoUanda, Diálogos da Pintura, ed. 1899 p. LVIII. 

2) Gaspar Barreiros recebeu um exemplar do Discurso De Obedientia, 
de Garcia de Menezes, o qual foi reimpresso juntamente com a sua Choro- 
graphia. 

3) Isso não quer dizer que não haja muita inadvertência nas obras de 
Duarte Nunes. A este respeito vid. Mem. Litt. I, 294. — Mesmo na at- 
tribuição do Cancioneiro da Virgem a D. Denis é bem possível que se 
enganasse. 

4) A vida de Duarte Nunes está por escrever. Nicolas António e 
Barbosa Machado sabiam apenas que, oriundo de Évora, e filho do medico 
João Nunez, elle vivera e morrera era Lisboa como desembargador. Nem 
mesmo está apurado, se aquelle Fernão Nunes de Leon, que deu ou mostrou 
em Évora perto de 1540 a João Vaseu uma velha Ghroniea dos Reis de 
Castella, era seu parente (irmão? e pae de Gil Nunes?). — Cf. Vaseo, 
Chronicas, ed. Salamanca 1552 cap. IV, No. 25, ou Hispânia Blustrata I, 
580. — ^0 Instituto XI, p. 165 ss. ha materiaes para a vidado historiador. 



— 124 — 

terceiro manuscripto com versos do rei e os d' aquelle tempo, só a 
segunda parece -me viável. 

§ 114. Consultemos agora os auctores que antes de 1585 
souberam do talento poético de D. Denis ou da época provençalesca 
em geral. E costume apontar três allusões nos versos lyricos dos 
quinhentistas Miranda, Camões e Ferreira. D' esta parquissima lista 
talvez convenha riscar o primeiro nome. O grande homem e intro- 
ductor do dolce stil nuovo enalteceu varias vezes o rei -lavrador e a 
sua politica,!) e conhecia os provençaes^) como modelos e inspira- 
dores de Dante e Petrarca e toda a lyrica moderna; mas nunca se 
refere expressamente a trovas dionysias.^) Também o cantor dos 
Lusíadas é citado com bem pouca razão. Sem mencionar cantares 
da lavra regia, falia da protecção dispensada pelo monarca ás sciencias, 
mas também ás artes, nos conhecidos versos da sua epopeia: 

fex primeiro em Coimbra exercitar -se 

o valer oso officio de Minerva, 

e de Helicona as musas fex passar -se 

a pisar do Mondego a fértil herva. (Lus. Ill, 17.) 

Portanto teve alguma noção das poesias dionysias, embora não 
saibamos até onde chegou. 

Com o Dr. António Ferreira o caso é outro. Este grande patriota 
e cultor desvelado da lingua materna, quasi o único que a empregou 
propositadamente, com exclusão inteira da falia castelhana, o primeiro 
também que dramatizou um dos mais românticos episódios da historia 



1) Yid. Poesias, 104, 181; 108, 249. 

2) A fabula da Chuva de Maio (103, 261) pode ser fosse imitada 
directamente de ■ Peire Cardinal. 

3) Miranda diz, depois de se referir áquella gente, de que o Petrarca 
fe% tão rico ordume: 

Eu digo os Provençaes , de que ao presente 
inda rythmos ouvimos, que entoaram 
as musas delicadas brandamente (109, 161 ss). 
Em tempos referi estas palavras a versos de um cancioneiro gallaíco- 
português, cujo estylo provençalesco o reformador teria reconhecido. Aban- 
dono agora, hesitando, esta interpretação ; mas não sei se será melhor a que 
ponho no seu logar. Porque, se entendeu caracterizar toda a lyrica artística 
dos povos românicos como eco da arte dos trovadores, só pode ter colhido esta 
justa comprehensão na Itália, em trato com humanistas como Bemho e 
Colocci. Cf. mais acima p. 112 Notai. E neste caso, difíicil é admittir que 
os dois não conferissem com o douto parente de Vittoria Colonna acerca 
das relíquias portuguesas que possuíam — nota-bene, se já as possuíam 
no 3° decennio do sec. XVI, como a lettra parece indicar. 



— 125 — 

nacional, sabia positivamente da obra poética de D. Denis. E tentou 

caracterizá-lo não só como trovador mas talvez até como protector 

da poesia popular. Temos na Carta X os proloquios: 

da pátria pae, da sua lingua amigo, 
das nossas musas rústicas amparo.^) 

Temos palavras inequívocas na inscripção em estylo lapidar: 
honrou as musas, poetou e leo. 

E se ainda assim, para não incorrer na fama de leviana e 
phantasiosa, quero taxar mesmo esses assertos de extremamente 
vagos, concedendo que podiam muito bem ser colhidos em tradições 
registadas pelos primeiros chronistas do reino — p. ex. naquella 
historia hoje perdida de Fernam Lopes, a qual conhecemos pelas 
refundiçSes de Ruy de Pina e Duarte Nunes de Leão 2) — lá estão 
os dois Sonetos de Ferreira na antiga lingoa portuguesa, ou a 
fallarmos com Miguel Leite Ferreira seu filho, que os publicou em 
1598, „na linguagem que se costumava neste reino no tempo dei 
rei Dom Deniz."^) 

Esses sonetos, mal lidos, mal impressos, mal interpretados, 
censurados por uns com azedume como contrafacções fraudulentas 
á la Chatierton, forjadas com o intuito de reclamar ou usurpar 
injustamente em nome de Portugal, o direito de posse ao romance 
de Amadis, attribuidos por alguns a Affonso IV de Portugal e por 
outros ao vencido de Alfarrobeira, são, a meu ver, innocentes 
devaneios ou exercícios úteis de quem estudava com afinco e in- 
telligencia tanto a lingua como a arte métrica dos velhos portu- 
gueses. 

Todos os vocábulos dos Sonetos são authenticos e bem esco- 
lhidos, como o leitor poderá verificar, procurando no Glossário 



1) É possível que rústicas não tenha outro sentido que rudes et in- 
cultas no trecho do Padre António de Vasconcellos. 

2) Se não os derivo da Carta -Proemio do Marquês de Santilhana é 
porque não encontrei signal de que alguém em Poi-tugal ou Hespanba a 
conhecesse antes de Argote de Mofina. Da bibfiotheca do Condestavel , onde 
certamente figurava, como introducção do Cancioneiro que recebera a pedido 
do Regente, nada voltou a Portugal. Cf. mais abaixo algumas Notas do Cap. V. 

3) Vid. liandglosse XXXI. — Neste logar recordarei unicamente que 
o primeiro Soneto (Livro 1 No. 34), ideado em nome do Infante D. Aífonso, 
8 dirigido a Vasco de Lobeira, supposto auctor do Amadis, se refere ao 
episodio de Briolanja (Montalvo I, c. 40). O segundo (11, 35) é um joguete 
anacreontico entre Amor e a mesma Briolanja, com reminiscências do 
Trionfo delia Castitd de Petrarca (146). 



— 126 — 

atan —ca— des —i — ende — endõado —er — falir — filhar — fremoso — ledice 
—madre— mente— pran— quedar— ren— vendita etc. São legitimas as 
formas grammaticaes avedes — seredes — cambhade — sa. Abstrahindo da 
forma estrophica e métrica (14 hendeeasyllabos á maneira italiana, 
i. é com acento nas syllabas 2. 6. 10/) descontando a falta graphica 
de til na palavra endõado, e o anachronismo de o poeta empregar 
formas contraliidas como rindo sestra sia vendo por riindo sêestra siia 
veendo^) mais vezes do que era uso nos sec. XIII e XIY, um 
philologo moderno não faria melhor. 3) 

Algumas particularidades na metrificação geral de Ferreira, a 
qual merece um estudo especial, — o contraste entre um abuso 
excessivo do hiato e o extremo opposto, i. é a mistura de hende- 
easyllabos pobríssimos, repletos de hiatos no estylo de D. Denis, 
como p. ex. 

moveste me a alma e os olhos 
OU 

gloriosos [ejspritos coroados 

com outros, atuchados á moda latina, como 

quem me desse assi a tal magoa iguaes prantos, 

talvez se expliquem pela occupação temporária de Ferreira com os 
textos archaicos de algum cancioneiro de D. Denis. 



1) Mesmo em Portugal sabe -se hoje que não foram os provençaes 
quem fixou a forma do soneto, mas os toscanos Dante da Majano (c. 1290) 
e Paulo Lanfrauc de Pistoja. 

2) Essas formas abreviadas ja existiam em tempo de D. Denis, e 
anteriormente, mas ainda occorriam raras vezes. 

3) Muito menos bem sucedidos são os dois sonetos, insertos nas obras 
de Camões, em que se pretende imitar o gallego vulgar de 1550. Dos 
apocryphos fabricados entre 1580 e 1640 não failo senão para emittir a 
opinião que, se historiadores artistas tão malleaveis como Brito, auctor do 
Segundo Gris f ai (e do Romance dos Figueiredos?) e Faria e Sousa, refun- 
didor das Rimas de Camões, tivessem tido á vista poesias legitimas portu- 
guesas, sempre teriam composto contrafacções superiores ás inqualificáveis 
Cartas de Egas Moniz, nas quaes ha de linguisticamente authentico pouco 
mais do que a palavra moiro e (talvez !) o corpo d' oiro. Rythmicamente, 
cousa alguma. Encontrando na Torre do Tombo, ou alhures, os cancioneiros 
archaicos, não os publicariam, de certo, numa época em que tanta obra 
clássica se conservava inédita, e em que a posse de um cancioneiro de mão 
era considerado como titulo de nobreza; mas cedendo á sua expansibili- 
dade innata teriam apregoado aos quatro ventos a gloriosa descoberta, 
intercalando qualquer amostra nas suas publicações — em logar ou ao lado 
das relíquias apocryphas. 



— 127 — 

§ 115. Mas qual? Temos de perguntá-lo novamente. O 
occulto e problemático original, patente a Resende, o qual, absorvido 
pelos seus estudos de historia e archeologia e empregando o romanço 
pátrio só por excepção, desprezava no fundo a poesia vulgar e 
utilizou o peregrino manuscripto apenas para dar vasão a sua vaida- 
dezinha pessoal , mostrando um seu ascendente em relações intimas 
com um infante? O códice achado em Boma antes de 1557 e 
avistado algures por Duarte Nunes? Ou, porventura entre mãos do 
Duque de Aveiro, os fragmentos do CA que ainda hoje subsistem? 

Voto d' esta vez decididamente por este ultimo, bem se vê, 
sem com isso negar que Ferreira soubesse também do talento poético 
do rei -trovador pelas novas vindas de longe. ^) Eis em que me 
estribo, infelizmente com pouca firmeza. Entre as numerosas notas 
marginaes do CA, não ha uma única italiana. Todas estão em 
português. Uma, que acompanha o nosso No. 130 é uma curiosa 
tentativa, de resto mal sucedida, de transpor em decasyllabos a 
maneira provençal, ou seja em hendecasyllabos segundo a maneira 
italiana, alguns dos archaicos, ásperos e rebeldes versos de nove 
syllabas. E a letra, de meados do sec. XVI, apresenta se- 
melhanças que á cautela chamarei ligeiras com a do Dr. Ferreira. 
Esta observação, casualmente feita, foi -me communicada, com as 
reservas que todas as comparações graphicas exigem, por um illustre 
paleographo lisbonense, o qual nada sabia das minhas combinações, 
nem as podia adivinhar. Em seguida verifiquei a semelhança, á 
vista de uma carta photographada de Ferreira que o mesmo amigo 
das lettras, o Exm^o Snr general Brito Rebello, me franqueou. 

§ 116. Mas vamos avante. Essa nota manuscripta, mesmo se 
não fosse de Ferreira, documentava algum trato de pelo menos um 
quinhentista português com o Cancioneiro da Ajuda e portanto a 
assistência do volume neste reino no sec. XVI, que é o que urgia 
estabelecer. 

E não só no sec. XVI. A sua permanência em Portugal também 
nos séculos XV e XIV é attestada de modo idêntico por uma longa 
serie de notas, lançadas á margem, umas no século manoelino, 



1) Ferreira não esteve em Roma e morreu antes de Duarte Nunes 
ter publicado a sua Genealogia. Mas de 1567 a 69, durante a sua curta 
actividade em Lisboa como desembargador da Casa do Cível, deve ter estado 
em relações com seu collega da Casa da Supplicação. 



— 128 — 

outras no joannino, e algumas ainda durante os derradeiros reinados 
da primeira dynastia, sendo chronologicamente a ultima aquella que 
eu desejaria attribuir ao auctor dos Sonetos de Amadis e da Castro. 
Tendo de occupar-me das notas raarginaes no capitulo seguinte, 
chamarei aqui a attenção apenas para uma do sec. XV que diz com 
referencia á nossa cantiga 232, do trovador João de Guilhade: deste 
aprendeo Joani de Mena. 

Quem entre os portugueses reconheceu primeiramente a valia 
superior do poeta das Trezentas foi o vencido de Alfarrobeira. De 
regresso da sua excursão pelas quattro partidas do mundo, depois 
de estacionar em Paris, Oxford, Londres e Flandres, na corte do 
emperador Segismundo, no seu marquesado de Treviso, em Veneza, 
Pádua, Eoma, em Aragão e Castella, o Infante D. Pedro começou 
a viajar (de 1428 a 1438) pelas remotas paragens do pensamento 
(no dizer do seu mais artístico biographo), redigindo tratados de 
philosophia moral, traduzindo latinos, clássicos e medievaes, a pedido 
do irmão, e poetando de vez em quando. Chegou então, depois 
de 1428, a inteirar- se das reformas de Mena e a trocar versos 
com esse subtil poeta aulico de D. Juan II. 

Seria curioso, se o exame comparativo das notas alludidas e 
dos autographos do Regente, que devem subsistir tanto na Torre 
do Tombo como no Archivo de Coimbra, levasse a reconhecer 
aquellas como suas — obra portanto do príncipe português que, solli- 
citando do Marquês de SantQhana copia de seus versos, promoveu a 
Carta- Proeinio em que ficaram enunciadas as mais antigas noticias 
de um cancioneiro dionysio. ^) — Curioso, se o auctor fosse o próprio 
Condestavel, a quem o douto castelhano fallou com tanta insistência 
na lyrica gallaico- portuguesa, e em especial das invenções subtis 
e das graciosas e doces palavras de D. Denis, seu antepassado. 

Curioso e importante, como o achado da tenção de Resende. 
Mas, infelizmente, d' esta vez, não havendo eu tido opportunidade 
de realizar o confronto das lettras, trata -se de meras hypotheses, 
que nada obriga a aceitar, visto que a admiração pelos poemas de 
Juan de Mena perdurou durante todo o século XV, 2) e que a nota 
está redigida de forma tal que ainda hoje e sempre poderia ser 



1) Cf. Cap. V, § 3. 

2) Ou mesmo até 1550, como resulta das obras de Barros, Jorge 
Ferreira de Vasconcellos , Sá de Miranda e outros seus coevos. 



— 129 — 

lançada. Nada ... a não ser a consideração que obra tão rara e 
palaciana como o Cancioneiro devia forçosamente fazer parte de 
uma bibliotheca regia, ou principesca. 

§ 117. Na livraria do Condestavel, cujo catalogo possuímos e 
consultei, na esperança de ahi descobrir relíquias da primeira época, 
não havia cancioneiros antigos. Do Regente, seu pae, apenas sei 
que, além de alguns volumes com as suas armas, que passaram 
para a coUecção do filho, teve em seu poder e leu o poema épico 
de Aífonso Giraldes sobre a batalha do Salado, isto é uma obra 
do sec. XIV que faltava, parece, na livraria propriamente regia 
de D. Duarte.^) Nessa (augmentada mais tarde consideravelmente 
pelo successor, mas no sentido clássico), é que um e outro teriam 
tido ensejo de lêr trovas gallaico- portuguesas, e onde devemos 
procurar, entre os tesouros legados pela primeira dynastia, um can- 
cioneiro como o da Ajuda. 

O catalogo dos livros de uso do primogénito do Mestre de 
Avis e de D. Felipa de Lencastre subsiste felizmente. De passagem 
seja dicto que também essa preciosidade foi parar, na era dos 
Jesuítas, com muitos origínaes de D. Duarte, num estabelecimento 
religioso de Évora. 2) Por elle vemos que o prudente e douto monarca, 
apologista das boas e sadias leituras, 3) e não menos fervoroso 



1) Eis o remate de uma carta sua, de felicitações a seu irmão 
D. Duarte, escripta em 1433: E porém, Senhor, vós trabalhay quanto 
poderdes como as primicias de vosso reinado sejam praxiveis a Deus e 
proveitosas a vossos sogeitos, e [cotno] crecendo e^n melhor por muitos 
annos , acabeis em seu serviço e leixeis vossos reynos ao Ifante meu senhor 
e vosso filho em aquelle ponto que Affonso Oyraldes escreve que o deixou 
el Rey D. Denis ao seu. 

2) O catalogo fazia parte de uma compilação de obras miúdas do 
reinante, doada em 1598, com muitos outros volumes, ao hoje extincto mosteiro 
da Cartuxa pelo seu fundador, o arcebispo de Évora D. Theotonio de Bra- 
gança (1Õ30 — 1602), um dos primeiros que em Portugal haviam vestido a 
roupeta da Companhia. — Aproveitado primeiramente por João Franco 
Barreto, ao colligir memorias para a sua Bibliotheca Portuguesa, foi varias 
vezes copiado no sec. XVIII. O conde de Ericeira communicou um tras- 
lado a Caetano de Sousa. Este imprimiu -o na Hist. Oen., Provas I, 529 — 548. 
Cf. Silvestre Ribeiro, Estabelecimentos Scientificos I, 38; Panorama IV, 6 
e XI 315; Pinheiro Chagas, Historia de Portugal II, 161; Th. Braga, In- 
troducção^ 203 — 262 e Historia da Universidade I, 204 ss.; Gabriel Pereira, 
Documentos históricos Eborenses., No. 23, p. 30 — 40. — Além d' isso 
correm vários trausumptos antigos e modernos, um dos quaes possuo. 

3) Veja -se o prologo do Leal Conselheiro., esse ABC da lealdade, 
escripto a requerimento de sua mulher. Além de outras cousas sensatas, 

9 



— 130 — 

instigador de traducções do que o fora um século antes D. Denis, 
seu tresavô, juntou a par de só vinte obras em latim, sessenta 
e quatro em vernáculo, ou de lingoagem, como então se dezia. 

Entre ellas ha três cancioneiros portugueses, chamados livros 
das trovas, a maneira antiga: 

O Livro das Trovas dei Rey Dom Dinis (No. 38), 

O Livro das Trovas dei Rey Dom Affonso (No. 63), 
encadernado em couro, o qual compilou F. de Montemor o Novo. 

O Liwo das Trovas dei Rey (No. 78). 

É de crer que a casa reinante possuisse exemplares das obras 
escriptas por ascendentes seus. Seria de estranhar se não tivessem 
tido ao seu dispor pelo menos as de D. Denis e as gallego- portu- 
guesas de Affonso o Sábio. .Ainda assim, é arriscado querer adivinhar 
o que significam indicações tão vagas e incompletas. Mesmo o 
titulo Livro das Trovas delEey Dom Denis, que á primeira vista 
parece claro, pode suscitar duvidas. E muito provável fosse um can- 
cioneiro individual e avulso do monarca -trovador, independente das 
compilações em que foi incluído: isto é, o original sumptuoso que se 
guardara na corte desde o dia em que fora executado, herança por- 
tanto de D. João 1,^) que o achara na recamara regia de D. Fer- 
nando, não sendo provável que o bastardo o herdasse directamente 
do amante apaixonado de D. Inês de Castro. Mas também não é 
impossível fosse uma miscellanea (como o CA, CV, CD e o Can- 
cioneiro do marquês de Santilhana), a qual recebera o titulo, do poeta 
que nella mais se salientava, ou a mandara colligir. 

O segundo passa por ser o cancioneiro sagrado do Sábio de 
Castella. 2) Mas a omissão da alcunha distinctiva, já consagrada 



attesta que o leer dos bons livros . . . faz aerecentar o saber e virtudes . . .; 
do simprex fax sahedor , do que bem nom vive, temperado e virtuoso. 

1) Th. Braga, Hist. Universidade I, 208 (cf. 220) affirma que esse 
códice era com certeza proveniente da herança de seu pae: „deposito pre- 
cioso que andava na casa real". E pi-ovavel que assim seja. Devo observar 
todavia que não pertence ao numero dos códices que no catalogo de D. Duarte 
são designados como sahidos da livraria de D. João I. Notas sobre essa 
proveniência acompanham apenas um Livro de Cetraria que foi dei Rey 
D. João (No. õ8); outro de Agricultura que foi dei Rey D. João (No. 60); 
e indirectamente o Livro de Manteria que capitou o victorioso Rey D. João 
ao qual Deos dè eternal gloria (No. 32). 

2) Vid. Th. Braga, Introducção , p. 244; id. Kist. Universidade., p. 224, 
e Grundriss, p. 244, nota 7; assim como o Cap. IV d' este livro. 



— 131 — 

de havia muito ;^) o titulo Livro das trovas que não era muito 
adequado ao assumpto sacro, e mais ainda o facto singular 
de a compilação ser attribuida a um português de Montemor, 
sabendo nós que o próprio Alfonso X fizera escrever, em vários 
exemplares, as Cantigas de S. Maria, faz surgir duvidas graves. 
Quem nos diz que o volume, mandado antes de 1284, á Rainha de 
Portugal, 2) sua filha, ou a seu neto e admirador, não andava na 
capella, entre os objectos do culto? 3) Quem sabe ao certo que o 
Aífonso do titulo é realmente o Sábio, e não o Bolonhês que, á 
vista do Cancioneiro sacro, ou por outros impulsos se lembrou 
de mandar colligir os versos profanos dos seus cortesãos, núcleo 
de todas as collecções posteriores, como mais tarde demonstrarei?*) 
E o terceiro Livro, chamado das Trovai dei Rei, sem mais 
nada? Se o nome falta por lapso, como restituí-lo? E não faltando, 
tratando -se do que vivia e cujos códices se catalogavam, que espécie 
de livro era então esse cancioneiro de D. Duarte, perdido sem deixar 
mais vestigiosV O rei era, de facto, escriptor. D'elle existem 
mesmo uns versos. Mas esses versos^), emphaticamente proclamados 
uma poesia espiritual digna do irmão do Principe na fé constante,^) 
são mera traducção de uma reza latina, e foram redigidos com um 
fim practico, para exemplificação das theorias regias sobre a útil 
arte de tornar em lingoagem. Como toda a inclyta geração, D. Duarte 
tinha pendor pronunciado só para as prosas eruditas. Quasi todos 
os seus escriptos subsistem. Mas entre elles não ha mais nenhuma 



1) Vid. Crónica de Alfonso XZ", cap. LII. — D. Duarte no Leal 
Conselheiro (cap. XXVII) dá -lhe o sobrenome de Estrologo. 

2) Vid. Cap. Ill, p. 154, Nota 154. 

3) Na recamara do Condestavel, os objectos do culto andavam nas 
mesmas arcas onde se arrecadavam os livros de estudo. Mas na corte bem 
ordenada dos íilhos de D. Felipa é provável estivessem apartadas. Quanta 
attenção o governo da sua capella merecia a D. Duarte, reconhece -se em 
vários escriptos d'elle, por exemplo no cap. 96 e 97 do Leal Conselheiro, 
e em certa carta inédita ao Rei de Castella. 

4) Vid. Cap. V. 

5) A oração Juste Judex, nacionalizada a instancias da rainha, sua 
mulher — Leal Conselheiro cap. 91 — em 12 estrophes, de três Lang- 
xeilen ou seis septenarios, sendo os versos impares, sem rima — acha -se 
na obra citada, no cap. 99 — e reproduzido no Cancioneiro Popular de 
Th. Braga (No. 11). 

6) Vid. Milá y Fontanals, Trovadores p. 534. 

9* 



— 132 — 

composição metrificada. ^) Nem allusão alguma a seu talento poético. 2) 
No Catalogo temos, de mais a mais, a formula que el rei D. Duarte 
compilou ou que el rei D. Duarte fez, sempre que se trata real- 
mente de trabalhos d'elle, como o lÂvro de cavalgar (84) e os 
Capitulas que escreveu quando etn boa hora foi rei (67)^). A for- 
mula restricta dei rei, pelo contrario, significa simples posse. A não 
ser assim, o Livro de rezar dei rei (77) devia ser também obra 
d' elle? Mais acertado será suppôr no Livro das Trovas dei rei 
uma obra executada por sua ordem: Cancioneiro de D. Duarte só 
na accepção lata, em que o CV e CB são Cancioneiros de D. Denis, 
o Livro das cantigas é um Cancioneiro de Conde de Barcellos^), e o 
Cancioneiro Geral da segunda época um Cancioneiro de Resende. 
Um Álbum portanto, em que o reinante mandara colligir, com suas 
próprias producções e as do Eegente , os versos dos epigonos gallaícos, 
de 1350 em deante — como Juda Negro, Vasco Pires de Camões, 
Fernam Casquicio, Gomes Ayres da Silva, Macias, Yillasandino, 
Pêro Gronzalez de Mendoza.^) Uma miscellanea afinal que, preenchendo 
o enorme hiato entre o Cancioneiro gallaifco- português e o de Resende, 
irmanaria com o de Baena, apresentando - nos , se ainda existisse, 
aquellas trovas dos nossos passados, cuja perda Garcia de Resende 
lamentava em princípios do século XVI. ^) 

§ 118. Para, favorecendo a ideia da omissão de um nome 
depois de Rei, aventurar o de Affonso o Bravo, bisavô de D. Duarte, 



1) Entre os tratados perdidos ha um só que talvez fosse versificado: 
o Padre Nosso glosado. 

2) Cf. Grtmdriss IP, p. 244, Nota 6. 

3) Temos ainda No. 32 Livro cie Manteria que compilou o vitorioso 
liei D. João; No. 51 Marco Tullio o qual tirou em linguagem o Infante 
D. Pedro; No. 4 As Collações que escreveu (= copiou) João Rodrigues; 
No. 20 Os Cadernos da Confissão que escreveu João Calado. 

4) Th. Braga é de outra opinião Vid. Manual., p. 135; Hist. Univ., 
227; e Orundriss IP, 244. — Gama Barros, Hist. da Administração I, 
423, adopta o parecer de Braga, suppondo também o Livro das Trovas 
dei rei obra do próprio D. Duarte. 

5) A minha exphcação seria mais persuasiva (em todos os três casos), 
se os titules dizessem Livro de Trovas. Mas também a compilação do Conde 
se chama lÃvro das Cantigas e a do Infante D. Juan Manuel El Libro de 
los Cantares ou de las Cantigas. 

6) Ou serão meras phrases, sem relação com os cancioneiros, as palavras 
que sobre as cousas de folgar e gentilexas perdidas, Resende profei'e no 
preambulo do grande inventario lyrico de 1449 a 1516, por elle organizado. 
— Vid. Orundriss IP, p. 231. 



— 133 — 

a quem seu meio -irmão o Conde de Barcellos teria oíferecido, em 
meados dos sec. XIV, um exemplar do Livro das Cantigas; ou 
também para conjecturar que, sendo relativamente escassa a colheita 
de 1354 a 1438, e continuação natural da anterior, o monarca arranjara 
copia do Livro do Conde de Barcellos, juntando -lhe as producções 
dos epígonos,^) o único motivo que posso imaginar seria o desejo 
de descobrir na livraria dos reis de Portugal todas as coUecções 
de versos archaicos nacionaes cuja existência é indubitável. 

§ 119. Mas fosse um, fosse outro, haja ou não identidade 
entre o Cancioneiro da Ajuda e No. 38, 63 ou 78 do catalogo de 
D. Duarte, devo dizer aqui antecipadamente que em uma das laudas 
do pergaminho apparecem duas nótulas que se referem a D. Duarte. 
A primeira diz: Dom Edttarte pela graça de Deus rei de Portugal 
e dalgarueJ) O teor da segunda é: este liuro he do colaço do 
imfãt. 

Assim não fossem meros exercicios de qualquer novato em 
calligraphia archaíca!^) 

§ 120. Da recamara dos últimos reinantes da dynastia bor- 
gonhesa para a posse de D. João I, seu íilho D. Duarte, e o neto 
D. Affonso V,*) servindo perto de 1449 ao Regente e ao Condestavel; 
de lá para as mãos dossuccessores,^) até ser piamente depositado como 
suspeito de heresias, por algum dos filhos ou sobrinhos de D. Manoel, 
depois do concilio de Trento, na mesa censória da Inquisição^) que o 



1) Vid. Cap. V. 

2) D. Duarte usava d' essa assignatura — Dom Eduarte pella graça de 
deos Rey de portugal e do algariie — com o accrescento e senhor de Gepta. 
Vid. Leal Cons., Prologo e cap. 108; Ensynança de bem cavalgar, cap. 1. 

3) Mas como não é provável serem invenção do imitador, avento a 
pregunta se seriam calcados sobre dizeres de uma folha hoje estraviada? 
Pregunta sem solução. 

4) E sabido que foi este rei quem installou primeiramente a bibliotheca 
regia em salas apropriadas, augmentando - a consideravelmente. 

5) Dos volumes com que o Infante D. Pedro enriquecera a livraria 
regia, alguns ainda existiam no paço, em tempo de D. João III, sendo então 
manuseados pelo auctor das Décadas. — Vid. João de Barros, Panegyrico 
de D. Maria § 38. 

6) Entre os filhos deD. Manoel, os Infantes D. Luis, D.Henrique e D.Duarte, 
eram poetas. Se fosse provado ser do Dr. Ferreira a letra da nota, a que acima 
me referi, não deixaria de surgir a conjectura de o CA ter sido propriedade do 
Duque de Aveiro, (c. 1500 — 1571) a cuja casa pertencia o pae do poeta. Este 
neto de D. João II — em cuja livraria se achava um Amadis , segundo Miguel 
Leite — era grande coUector de antigualhas , discípulo de André de Resende 



— 134 — 

guardou, fechado a sete chaves, em Lisboa ou em Évora até 1759; 
depois da expulsão dos Jesuitas para o CoUegio dos Nobres, e final- 
mente de volta para a bibliotheca regia: eis o caminho mais directo, 
sempre dentro das fronteiras de Portugal, que me é dado imaginar. 
Mas quem se atreve a dá-lo por bem traçado? Habent sua 
faia . . .^) E para que renasçam duvidas, bastará olharmos para 
o misero estado do códice, não só truncadíssimo quando o enca- 
dernaram no sec. XVI, mas . . . nunca acabado, quer fosse porque 
o mandante falleceu antes de ver realizado o seu intento, quer por 
falta de um pintor que o illuminasse? Um exemplar estragado e 
engeitado? cedido por um dos reis ou pelo Conde a algum curioso 
da sua corte? (o ignoto collaço do infante?) como indigno de figurar 
nas estantes do paço, as quaes devemos suppôr povoadas de códices 
sumptuosos, ricamente illuminados, como as Cantigas de Maria, o 
Libro de los Juegos, o Leal Conselheiro? 

§ 121. Concluo com a summula seguinte. O fragmentário 
códice da Ajuda sempre permaneceu em Portugal. Se, contra todas 
as apparencias, foi achado em Roma entre 1521 e 1557, sendo 
ahi adquirido e encadernado por quem sabia (prematuramente), dos 
boatos sobre o Conde de Barcellos, a sua permanência na cidade 
eterna não havia durado muito tempo. Calculando largamente, só 
pode ter permanecido lá, de fins do sec. XV a 1527. E, notabene, 
sem que lhe imprimissem marca alguma. — Mas neste caso — que 
julgo inverosímil — a informação de Duarte Nunes sobre o achado 
de poesias de D. Denis, torno a repeti-lo, seria fundamentalmente 
falsa, visto que o CA não contém verso algum do rei -trovador. 



que legou ao filho d'elle uma sua JuUa e moedas ra]"as; poeta distincto, cujos 
versos andam nas obras de Camões; e protector de Miranda, Ferreira e 
Camões, dos quaes recebeu homenagens poéticas. Implicado no processo de 
Damião de Góes, sob pretexto de ser possuidor de livros heréticos, teve de 
entregar alguns ao tribunal ecclesiastico. Na falta e prova, e também 
porque no processo de Góes entre os livros entregues não se menciona 
nenhum de versos, será melhor não darmos seguimento a esta ideia. 

1) O Livro de Manteria de D. João I, que occupava um logar de 
honra no gabinete de D. Duarte, veio parar num collegio da Companhia, 
em Monforte de Lemos. Ahi se tirou um treslado que hoje se conserva 
na Bibliotheca Nacional de Lisboa. — Vid. Hist. Univ. p. 206 ; Gama Barros I, 
p. 425. 



Descripção do Códice. 



§ 122. É um grosso e pesado in- folio, no qual, conforme já 
se indicou, andam juntas duas obras, ou antes fragmentos de duas 
obras diversas, um Nobiliário em prosa e o Cancioneiro. 

O primeiro occupa 39 folhas, ^) o segundo 88. A affirmação, 
repetida até hoje em todas as descripçOes, que o Cancioneiro começa 
com a lauda 41, longe de estabelecer que lhe faltam as quarenta 
do principio, significa apenas que vae precedido de quarenta que 
lhe são alheias. 2) Mas nem mesmo isso é rigorosamente exacto. 
Das quarenta que lhe vemos antepostas, a folha do inicio pertence 
ao Cancioneiro. Achando -a desmembrada de um dos fascículos, o 
encadernador coUocou-a á testa do volume como ctistode^ por não 
saber qual logar assignar-lhe. Pelos mesmos motivos, a capricho, 
ou por ordem do mandatário, utilizou ou inutilizou outi"as duas 
folhas, collando-as contra as taboas da pasta. Só uma d'ellas, que 
andava avulsa, está coberta de escripta e foi por isso despegada 
pelo segundo editor das trovas, 3) continuando solta até 1894.^) 
Incluída na integra nesta edição, entrou naturalmente nas minhas 
contagens, como também a folha branca do fim e as onze addi- 
cionadas ao volume em 1835. 5) 



1) Reservo pjra as minhas Notas Marginaes — Randglosse XXIX — 
o estudo pormenorizado que elaborei sobre o Nobiliário. 

2) Como se dirá mais abaixo faltam -lhe, a meu ver, as primeiras 
32 folhas, ou quatro cadernos, com as 92 poesias que se acham inven- 
tariadas a principio da Tavola Colocciana. 

3) Lord Stuart imprimiu na ultima folha, innumerada, da sua edição 
o que soube descifrar das poesias inscriptas na face, muito deteriorada da 
dieta lauda. 

4) Não sendo avulsa, nem tendo nada escripto, a do fim permaneceu 
collada contra a taboa. 

5) Para comprehender a differença entre as 88 que registo e as 74 
ou 75 de que fallaram Lecussan Verdier, Bellermann e os que repetiram 



— 136 — 

A que de 1500 e tantos até 1849, forrava o interior da capa 
de cima, seguia provavelmente, na ordem primordial, depois da 
ultima, com a qual haviam revestido a taboa de baixo. Não querendo 
deslocar esta, collocaram-na modernamente, antes d'ella, como se 
deprehende da tabeliã que junto. ^) 

A immediata, isto é a folha de guarda, contada como primeira 
do volume por Lord Stuart, Yarnhagen e Herculano, vinha na 
primitiva após a 102", copio foi reconhecido por todos os editores. 
Hoje está reintegrada no seu logar. 2) 

As folhas 2 a 40 perfazem seis fasciculos incompletos do 
Nobiliário. 

De 41 a 108 seguem, sem interpolação de matérias alheias, 
74 folhas do Cancioneiro. 

A do fim (75), numerada 115, e unida á pasta, conforme já 
se disse, forma parte integrante do ultimo caderno. 

Ás 11 folhas descobertas na capital do Alemtejo, numeradas 
por Herculano de I a XI, dei eu, ao começar os meus estudos, a 
numeração 117 a 127, indevidamente. Dos sitios que realmente 
lhes competem, como reconheci pouco depois — IV entre f. 43 e 
44; I e II entre 54 e 55; XI entre 65 e 66; III entre 71 e 72; 
V — X entre 74 e 75(?) — dá ideia o quadro dos cadernos. 3) Nem 
o grande historiador nem Varnhagen trataram de verificar este ponto, 
porque na mente de ambos a ordem em que encontraram as cantigas, 
era, como o leitor sabe, completa desordem. Se este preconceito 
não os tivesse cegado, chegavam por força a resultados iguaes aos 
meus, pelo exame material do pergaminho. Para isso bastava, apro- 
ximarem as laudas, muito irregularmente cortadas, ás rebarbas das 
meias -folhas correspondentes que os saqueadores deixaram subsistir 
no volume.*) A ordem que por este simples processo apurei em 



os seus dizeres, basta que o leitor se recorde que, além de descurarem 
as paginas estragadas pelo encadernador, elles não conheceram as relíquias 
vindas de Évora. Na realidade temos 74 -j- 1 + 2 -f- H =88. 

1) Vid. p. 139, Nota 2. 

2) Por isso tem na tabeliã a marca 102 a (147 e 225). 

3) Aqui e sempre sirvo -me nas minhas citações dos algarismos da 
antiga paginação, tal como a deixei regularizada em 1877, isto é dos números 
que occupam a casa III da minha lista, e andam entre parentheses no 
quadro dos cadernos. 

4) Subsistem rebarbas, pestanas ou carcelas naturaes, á espera das 
partes roubadas, nas folhas 58, 75, 93, 98, 100, 105, 108, 109, 112, 113. 



— 137 — 

1877, foi três annos mais tarde plenamente confirmada pelo con- 
fronto com as partes análogas do apographo italiano CB. Só num 
caso, em que as folhas (V a X), cortadas direitinhas, exactamente 
pela dobra, formam um caderno coherente no fundo e na forma, 
o expediente não podia surtir efeito. 

§ 123. O códice foi paginado neste século por mãos diversas: 
primeiro por folhas, e depois por paginas. 

A primeira numeração do volume — IV na tabeliã — inscripta 
no centro da margem inferior, é de Lord Stuart. Saltando por 
cima das paginas brancas, marcou apenas 68 folhas do cancioneiro 
com algarismos de 41 a lOS"". Posteriormente, alguém accrescentou 
109 na que estivera coUada contra a capa de cima. 

A segunda,^) feita por mim a lápis, de 41 a 127 (102*0 a 
1* de Lord Stuart), no canto de fora da mesma margem, segue 
idêntico systema, incluindo todavia as folhas em branco, a de guarda, 
as que estiveram colladas contra a capa, e as de Évora. É a III* 
da tabeliã. 

Ultimamente, no acto de restauração do vetusto monumento, 
a que os empregados da bibliotheca procederam , 2) o digno e zeloso 
official Sr. Rodrigo Vicente de Almeida, coUocando as folhas soltas 
no logar competente, as paginou de novo, no centro da margem 
superior, de 1 a 174 — isto é excluindo o Nobiliário (I). — No 
canto de dentro accrescentou ainda outra numeração geral (V), cabendo 
ás genealogias os algarismos 1 a 78, e ás trovas, 79 a 250 (respec- 
tivamente 254). 

Eis a tabeliã comparada, completa, não só de todas essas quatro 
paginações, mas ainda da marcação romana das relíquias eborenses 
(VI) e da mais racional de 1 a 88 (II). Como foi essa a que in- 
troduzi no texto, e emprego no índice do Capitulo IV, juntamente com 
a III*, saliento ambas typographicamente para commodidade do leitor. 



1) Varnhagen, resolvido a modificar arbitrariamente a disposição das 
cantigas, não ligou importância á paginação, adoptando a do predecessor. 

2) Para poder introduzir novamente no seu logar as folhas cortadas, 
tiveram de lhes soprepôr umas tiras, a modo de carcellas ou pestatms. 
Ha-as nas folhas 120, 51, 56, 117, 118, 61, 127, 119, 121—126, 102a, 
104, 114. — Cf. Cap. II. 



— 138 



I 


II 


III 


IV 


V 


Vil) 


I 


II 


III 


IV 


V 


VI 


p.l 


f.l 


f.41 


141 


p.79 




p. 51 


f.26 


f.63 


f.62^ 


p.l29 




2 


V 


V 


V 


80 




52 


V 


V 


63 


130 




3 


2 


42 


42 


81 




53 


27 


64 


V 


131 




4 


V 


V 


V 


82 




54 


V 


V 


64 


132 




5 


3 


43 


43 


83 




55 


28 


65 


V 


133 




G 


V 


V 


V 


84 




56 


V 


V* 




134 




7 


4 


120 




85 


f. IV 


57 


29 


127 




135 


XI 


8 


V 


V 




86 




58 


V 


V 




136 




9 


5 


44 


44 


87 




59 


30 


66 


65 


137 




10 


V 


V 


V 


88 




60 


V 


V 


V 


138 




11 


6 


45 


45 


89 




61 


31 


67 


66 


139 




12 


V 


V 


V 


90 




62 


V 


V 


V ■ 


140 




13 


7 


46 


46 


91 




63 


32 


68 


67 


141 




14 


V 


V 


V 


92 




64 


V 


V 


V 


142 




15 


8 


47 


47 


93 




65 


33 


69 


68 


143 




16 


V 


V 


V 


94 




66 


V 


V 


V 


144 




17 


9 


48 


48 


95 




67 


34 


70 


69 


145 




18 


V 


V 


V 


96 




68 


V 


V 


V 


146 




19 


10 


49 


49 


97 




69 


35 


71 


70 


147 




20 


V 


V 


V 


98 




70 


V 


V 


V 


148 




21 


11 


50 


50 


99 




71 


36 


119 




149 


III 


22 


V 


V 


V 


100 




72 


V 


V 




150 




23 


12 


51 


51 


101 




73 


37 


72 


71 


151 




24 


V 


V 


V 


102 




74 


V 


V 


V 


152 




25 


13 


52 


52 


103 




75 


38 


73 


72 


153 




26 


V 


V 


V 


104 




76 


V 


V 


V 


154 




27 


14 


53 


53 


105 




77 


39 


74 


73 


155 




28 


V 


V 


V 


106 




78 


V 


V 


V 


156 




29 


16 


54 


54 


107 




79 


40 


121 




157 


V 


30 


V 


v*^) 




108 




80 


V 


V 




158 




31 


16 


117 




109 


I 


81 


41 


122 




159 


VI 


32 


V 


V 




110 




82 


V 


V 




160 




33 


17 


118 




111 


II 


83 


42 


123 




161 


VII 


34 


V 


V* 




112 




84 


V 


V 




162 




35 


18 


55 


54v 


113 




85 


43 


124 




163 


VIII 


36 


V 


V 


55 


114 




86 


V 


V 




164 




37 


19 


56 


V 


115 




87 


44 


125 




165 


IX 


38 


V 


V 


56 


116 




88 


V 


V 




166 




39 


20 


57 


V 


117 




89 


45 


126 




167 


X 


40 


V 


V 


57 


118 




90 


V 


V 




168 




41 


21 


58 


V 


119 




91 


46 


75 


74 


169 




42 


V 


V 


58 


120 




92 


V 


V 


V 


170 




43 


22 


59 


V 


121 




93 


47 


76 


75 


171 




44 


V 


V 


59 


122 




94 


V 


V* 




172 




45 


23 


60 


V 


123 




95 


48 


77 


V 


173 




46 


V 


V 


60 


124 




96 


V 


V 


76 


174 




47 


24 


61 


V 


125 




97 


49 


78 


V 


175 




48 


V 


V 


61 


126 




98 


V 


V 


77 


176 




49 


25 


62 


V 


127 




99 


50 


79 


V 


177 




50 


V 


V 


62 


128 




100 


V 


V 


78 


178 





1) Esta tabeliã pode servir de complemento á que vae impressa mais 
acima ua Parte I, a pag. 8 d' este volume. 

2) O asterisco indica que a pagina está em branco. 



— 139 



I 


II 


III 


IV 


V 


VI 


I 


II 


III 


VI 


V 


VI 


p.lOl 


f.51 


f.80* 


f. 


p.l79 




p.139 


f.70 


f.99 


f.94 


p.217 




102 


V 


V 


V 


180 




140 


V 


V* 




218 




103 


52 


81 


79 


181 




141 


71 


100 


V 


219 1) 




104 


V 


V 


V 


182 




142 


V 


V 


95 


220 




105 


53 


82 


80 


183 




143 


72 


101 


V 


221 




106 


V 


V 


V 


184 




144 


V 


V 


96 


222 




107 


54 


83 


81 


185 




145 


73 


102 


V 


223 




108 


V 


* 




186 




146 


V 


V 


97 


224 




109 


55 


84* 




187 




147 


74 


102'' 


V 


225 




110 


V 


V 


V 


188 




148 


V 


V 


98 


226 




111 


56 


85 


82 


189 




149 


75 


103 


V 


227 




112 


V 


V 


V 


190 




150 


V 


V 


99 


228 




113 


57 


86 


83 


191 




151 


76 


104 


V 


229 




114 


V 


V 


V 


192 




152 


V 


V 


100 


230 




115 


58 


87 


84 


193 




153 


77 


105* 




231 




116 


V 


V* 




194 




154 


V 


V 


V 


232 




117 


59 


88 


V 


195 




155 


T^ 


106 


101 


233 




118 


V 


V 


85 


196 




156 


V 


V 


V 


234 




119 


60 


89 


V 


197 




157 


79 


107 


102 


235 




120 


V 


V* 




198 




158 


V 


V 


V 


236 




121 


61 


90 


86 


199 




159 


80 


108 


103 


237 




122 


V 


V* 




200 




160 


V 


V 


V 


238 




123 


62 


91 


V 


201 




161 


81 


109* 




239 




124 


V 


V 


87 


202 




162 


V 


V 


104 


240 




125 


63 


92 


V 


203 




163 


82 


110 


V 


241 




126 


V 


V 


88 


204 




164 


V 


V 


105 


242 




127 


64 


93 


V 


205 




165 


83 


111 


V 


243 




128 


V 


V 


89 


206 




166 


V 


V 


106 


244 




129 


65 


94 


V 


207 




167 


84 


112 


V 


245 




130 


V 


V* 




208 




168 


V 


V 


107 


246 




131 


66 


95 


90 


209 




169 


85 


113 


V 


247 




132 


V 


V 


V 


210 




170 


V 


V 


108 


248 




133 


67 


96 


91 


211 




171 


86 


114 


V 


249 




134 


V 


V 


V 


212 




172 


V 


V* 




250 




135 


68 


97 


92 


213 




173 


87* 


115* 




251 




136 


V 


V 


V 


214 




174 


V 


V* 




252 




137 


69 


98 


93 


215 




175 


88 


116 


[109J 


253 




138 


V 


V 


V 


216 




176 


V 


V 




254 2) 





§ 124. A Encadernação. — As censuras dirigidas por Varn- 
hagen contra o encadernador são injustas e exageradas, E verdade 
que cerceou as margens de modo lamentável, aniquilando marcas 
de registo, a velha paginação (se existiu), e partes importantes das 
notas marginaes, chegando ás vezes a damnificar o texto. E facto 
também que mandou collar uma folha solta, com texto em ambos 
os lados, contra a taboa, occultando assim algumas cantigas. Facto 



1) Ayres de Sá (no Frei Gonçalo Velho, p. 132—139) serviu -se da 
paginação moderna. 

2) Como a folha 87 (= 115) não foi descollada, não podaram dar á 88* 
(== 116) o logar que lhe compete. Por isso deixaram de inscrever a paginação. 



— 140 — 

ainda (comquanto não fosse apontado por Yamhagen e imperfeita- 
mente sanado por Herculano) que não soube dar a devida dis- 
posição ás paginas do Nobiliário, que estão effecti vãmente baralhadas. 
Pode mesmo ser que a ordem dos cadernos que compõem o cancio- 
neiro, não seja a legitima em todos os casos. 

Mas o estado do pergaminho obrigaria provavelmente a amputar 
algo das margens. E se á falta de indícios externos e intrínsecos, 
não havia então (nem ha hoje) meio de estabelecer a verdadeira 
successão dos cadernos, não merece os epithetos de boçal e bárbaro 
quem não a realizou. Dentro de cada fascículo a successão das 
folhas é perfeita, apesar das af Armações em contrario do obcecado 
editor. Metade das culpas que por ventura haja, cabe de resto, no 
meu sentir, a quem, no muito louvável empenho de salvar da 
deterioração progressiva a que estavam expostas, duas preciosas 
relíquias, as entregou ao artista sem indicações precisas. 

O trabalho d' este não se aífasta do usual. As pontas do 
barbante fino com que cada um dos cadernos ficou cosido — e 
notabene cosido uma única vez, e não repetidamente — foram atadas, 
entrelaçadas e em seguida envolvidas em tiras de pellica branca, 
formando grossos e sólidos cordões. As extremidades d' estes cordões, 
que são quatro como os pontos de costura, e attravessam a lom- 
bada, foram entaladas á cunha nas taboas que formam a capa. Não 
conseguindo arrancá-los, tão sólidos estão, os saqueadores cortaram - 
nos a faca, soltando assim os barbantes finos, mesmo em alguns 
dos cadernos de que não se apossaram. Escuso assegurar que o 
couro que formava a lombada desappareceu. 

As solidas taboas de carvalho, revestidas de bezerro castanho - 
escuro lavrado, estiveram outr' ora guarnecidas de fechos. Na de 
cima ainda estão fixos os dois colchetes fêmeas, de bronze, faltando 
na de baixo os machos, o que obsta a que se possa calcular ao 
certo a grossura que o volume teve no acto de ser encadernado, i) 

A ornamentação da sola é de estylo renascença. Compõe- se 
de faixas, formando três tarjas rectangulares. A do centro é divi- 
dida por cinco faixas longitudinaes. Em todas, palmetas alternam 
com medalhões. Nestes, vê -se sempre a mesma cabeça, tosquissima, 
de guerreiro barbudo, microcephalo. O nariz e o queixo, pronun- 
ciadamente agudos, assemelham -na á de certos medalhões de pedra. 



1) Hoje elle tem 6 cm. de alto, cabendo 2 ás capas. 



— 141 — 

incrustados em edifícios de Coimbra, como o palácio de Sub- 
Ripas, e nos túmulos de S. Cruz. 

Não sou competente para decidir, se se trata de um trabalho 
feito lá fora, ou no paiz. Inclino todavia a crer que a execução 
é nacional. Como os typos para as imprensas e os clichés para os 
xylographos e gravadores, os ferros para os trabalhos em couro 
eram e são muitas vezes artigo de importação. Em abono d' esta 
hypothese posso citar a circumstancia de entre os volumes que 
compulsei na capital, haver, na própria Bibliotheca da Ajuda, um 
in- folio pequeno cuja encadernação é parecida á do Cancioneiro, 
pois apresenta a mesma faixa, em disposição diversa: duas tarjas, 
ligadas de canto a canto por outras obliquas de desenho igual, i) 

§ 125. Inscripção á moda de titulo. — Exteriormente, no corte 
transversal inferior liam -se, no tempo deVarnhagen, inscriptas a tinta 
preta as palavras: REY DÕ DENIS (com ligação entre o N e o I). 
Já deixei contado no capitulo anterior que, ao pegar a primeira vez, a 
28 de Maio de 1877, no velho in- folio _a encontrei mal legivel, e 
quasi totalmente apagada em 1890. Ignoro, se fazendo reentrar as 
folhas deslocadas na sua antiga posição, e mettendo em seguida o 
volume numa prensa, conseguiram agora fazer resurgir para olhos 
adestrados um claro rasto d' essas letras. O snr. Almeida não as de- 
strinçou quando o consultei, ha pouco. 2) Essa perda não seria grande. 
Escriptas por mão desconhecida, provavelmente depois de destroçado 
o volume, enunciam apenas a opinião individual de qualquer leitor 
moderno. No melhor caso, mas que é pouco verosímil, seriam re- 
petição dos dizeres estampados na lombada pelo encadernador; i. é no 
sec. XVI quando o fragmento andava sem frontispício original. 

§ 126. Dimensões. — As taboas da encadernação medem 460 
por 348 milUmetros. As folhas membranaceas tem de comprimento 
443 e de largura 334; e teriam originariamente pelo menos mais 
quatro cm. 3) ao alto e dois ao largo. Isto é, pouco menos do que o 



1) É um volume impresso em Veneza, no anno 1523: Âugustini 
Nyphi Medic. Suessani De Intellectu lihri sex. Eiusdem De Demonibus 
libri três. — Venetijs mandato & expensis heredum quõdam nobilis viri 
Octauiani Scoti. — Anuo 1523. — Signado B — 6 — 9. 

2) PS. Em Maio de 1901 verifiquei que não o conseguiram. 

3) Na folha 119, cuja margem inferior ainda assim não é estreita, 
permaneceu, revirado, um bocado de pergaminho que tem 1 cm de altura. 



— 142 — 

mais sumptuoso entre os códices escorialenses das Cantigas de 
S. MariaA) A medida do texto é de 380 x 240. Cada pagina compõe- 
se de duas columnas, separadas e limitadas por senhos dois traços 
longitudinaes. Ha nellas 48 (ás vezes só 47) linhas pautadas. 
As duas extremas estão em geral vazias. O numero de lettras 
varia naturalmente, conforme a medida dos versos. Termo -médio, 
avalio -as em 20 a 30. 

§ 127. Divisão dos textos. — De quando em quando se topa 
com uma folha, ou meia -folha, inteiramente ou parcialmente em 
branco. 2) A que segue, distingue- se neste caso por um caracte- 
rístico notável que é: principiar com letra capital de dimensões 
máximas, ricamente ornamentada e precedida por uma miniatura 
que occupa quatro vezes tanto espaço como a maiúscula , ou por espaço 
reservado para ellas. A ideia que um novo grupo de canções 
começa com taes ornatos, terminando onde o escriba deixou em 
branco uma pagina inteira, ou o resto de uma pagina, impõe -se 
com tal evidencia, essas figuras e esses claros destacam -se de 
modo tal, que admira não ter ella sido aventada pelos primeiros 
exploradores do volume. Mais abaixo tratarei das vinhetas. 

§ 128. Disposição das estrophes. — A primeira estrophe de cada 
poesia está escripta como prosa, apparecendo as palavras de longe 
em longe syllabadas, como para solfa: en ve ia por enveja; per der 
ei por perderei. E entre esses versos iniciaes, lançados pelo systema 
indicado, ficam sempre, sem excepção, espaços de três linhas em 
branco, reservadas evidentemente para notação musical.^) O mesmo 
caso dá -se a miúdo com curtas estrophes ou meias -estrophes finaes, 



1) Eis as proporções dos três pergaminhos alfonsinos: Toledo, 315 por 
217, com 225x151 de texto em 27 linhas; Escoriai, j-b-2, 402 por 274 
com 303 a 309 por 198 de texto, em 40 linhas; Escoriai. T-j-1, 485 por 
326 (texto em 44 linhas). — O formato dos códices cartaceos é naturalmente 
reduzido. O CV conta 300x220; o CB 284x315. 

2) Têem o verso em branco as folhas 54, 57, 65, 76, 83, 84, 87, 
89, 90, 94, 99, 127, conforme se vê na tabeliã supra; a face, apenas a 
f. 84; algum espaço, as folhas 105, 109, 114, 118, 119, 126. 

3) Nos códices alfonsinos temos o pentagramma; no de Florença o 
tetragamma. Mas em numerosos missaes e antiphonarios dos sec. XIII e 
XIV, os escribas serviam -se de menos linhas: três, duas, ou mesmo uma 
só. Em todo o caso, ha ahi uma divergência entre o cancioneiro português 
e os alfonsinos, hoje conhecidos. 



— 143 — 

designadas pelos críticos modernos como tornada, cabo., volta, (Geleit), 
mas que na terminologia dos trovadores portugueses se chamavam 
fiindas. 

§ 129. Os caracteres. — A letra, muito regularmente traçada 
por um único artista, é gothico- francesa. O grosso do texto está 
a preto, como de costume. O luxo de alternar o negro regular- 
mente com outra côr, escrevendo p. ex. o refram com tinta encar- 
nada, conforme se vê nos códices alfousinos, não entrava no plano 
mais modesto do empreiteiro português. 

Já deixei emendado o lapso de Ribeiro dos Santos, Lecussan 
Yerdier, Varnhagen e Bellermann que chamaram maiúscula a letra, 
mau grado os fac-similes que apresentavam e os desmentiam. 
Temos maiúsculas, de diversos tamanhos graduados, i) apenas no 
principio dos cyclos, das cantigas, das estrophes, do refram e da 
finda: e estas, pintadas alternadamente, mas sem regularidade, a 
vermelho com singelos ornatos azues, ou a azul com ornatos vermelhos. 

As capitães de primeira grandeza, com que abre cada cyclo 
novo, ostentam, sem serem litteralmente historiadas, no meio de 
arabescos, de vez em quando, uma figura grotesca, humana ou de 
animal. Occupando em geral oito linhas e tendo de largo outro- 
tanto, ou mais, conforme o debuxo da letra precisava, traços ca- 
prichosos espalham -se sobre a margem, descendo ás vezes até 
quasi ao fundo da pagina. A meu vêr, haviam de levar cores 
muito variegadas (como o S da Cantiga 69 de Alfonso X no Códice 
Escorialense T-j-1) e toques de ouro, como os mostra o bello e 
rico D da primeira cantiga do outro códice escorialense, reproduzida 
por Amador de los Rios. 2) 

§ 130. O cancioneiro não foi acabado. — Ha paginas em que 
todas ou quasi todas as maiúsculas apparecem pintadas.^) Outras 
em que nem uma só foi executada.^) Na maioria dos casos faltam 

1) De quasi todas as letras maiúsculas do alphabeto ha sete, oito 
ou nove tamanhos diversos, sendo as mais pequenas, de 5 millimetros, i. é 
da altura das minúsculas, para o principio das estrophes. Vem depois as do 
refram, da finda e da cantiga — mas sem rigor mathematico, com numerosas 
variantes a que a abundância ou falta de espaço e o capricho do escrevente 
convidavam. Veja -se o nosso fac- símile. 

2) Vol. m. 

3) EspeciaHzo as folhas 41, 44, 46, 48 a 53, e 90. 

4) P. ex. nas folhas 5õ, 63 a 67, 72 a 74, 76 a 83, 89, 94 a 96, 
105 a 116. — Todavia não faltam (nestes e nos mais casos) tão inteiramente 



— 144 — 

varias, 1) principalmente as de maiores dimensões, sendo de estranhar 
a arbitrariedade com que o pintor procedeu. 2) Das vinhetas e das 
capitães grandes que as accompanham, dezaseis estão esboçadas, 
mas apenas quatro teem principies de colorido. Em outros tantos 
casos, nem mesmo o esboço á penna foi delineado.^) A notação 
musical falta por completo. Nenhum nome de auctor, nem uma 
só apostilla, elucida as 38 series de canções de que está composto 
o livro das cantigas no seu estado actual. Numerosas correcções, 
lançadas á margem no acto da revisão, não chegaram a ser attendidas. 
Subsistem também lacunas, não poucas, no meio do texto, por 
falta de trechos- errados que alguém safou á raspadeira, mas não 
reintegrou em conformidade com emendas que se acham indicadas, 
ora entre linhas, ora na margem com abreviaturas, em cursivo 
microscópico. 

Não ha que duvidar, esse códice ficou por concluir. Só o 
escrevente, encarregado do treslado dos originaes, parece ter acabado 
o serviço de primeira mão, assim como o revisor o confronto dos 
textos. O pintor, a cujas mãos passaria logo depois, parou muito 
antes de chegar a meio da tarefa. O musico nem mesmo iniciou 
a sua. No paragrapho anterior e no Capitulo II já toquei de passagem 
na causa ignota d' essa interrupção, preguntando se seria motivada 
pela falta de um pintor habilitado? ou por ventura pelo fallecimento 
do rei, a cujas instancias se procedia á transcripção das canções 
trovadorescas? Ou por ordem do mesmo (quando não do successor), 
que não ficou satisfeito com a execução, encommendando outra mais 
completa e de maior luxo. Deixando a resposta — isto é a apre- 
sentação de hypotheses — para mais tarde, sem mesmo apontar 
novamente os nomes dos reis que tenho em mente, juntarei aqui 
uma só reflexão. Não é provável que uma mudança de gosto, 



que seja preciso subentendê-las, adivinhando, e omittí-las numa impressão 
paleographica, segundo parece á vista dos excerptos do Sr. Ayres de Sá 
(No. 76 da Bes. Bibl. retro). O escrevente traçou quasi sempre a respectiva letra 
em cursivo, é verdade que tão minúsculo e fino que o próprio illuminador 
se enganou com frequência, executando e por e, c por t, e viceversa. No 
nosso fac-simile ha quatro exemplos. 

1) Faltam poucas a f. 42, 43, 120, 44^, 47; muitas a f. 117, 118, 
119, 121 a 127; 54 a 62; 67^ a 71; 74-; 121 a 126; 75; 84 a 88. 

2) Ainda assim, posso constatar que nos primeiros cadernos o trabalho 
do illuminador ficou muito mais adiantado do que nos últimos. 

3) Também as vinhetas esboçadas pertencem á primeira metade do 
volume, como o leitor pode verificar, olhando para as tabeliãs. 



— 145 — 

invadindo repentinamente a corte, sustasse a conclusão (como acon- 
teceu com tantas e tantas empresas architectonicas) , uma vez que o 
minúsculo gotliico dominou sem divergências notáveis de 1279 (pelo 
menos) até 1379. 

§ 131. O Cancioneiro foi destroçado, duas vezes: antes de 
algum bem intencionado colleccionador do sec. XVI se ter lembrado 
de salvaguardar essa herança dos antepassados que já andara ex- 
posta, em qualquer livraria publica ou particular, aos caprichos irre- 
verentes dos leitores. E posteriormente, pelos reaccionários dos 
séculos XYII e XVIII que, tencionando fechá-la a sete chaves, 
a collocaram em sitio ainda assim accessivel a mãos profanas que 
a malbarataram. 

As folhas soltas, utilizadas pelo encadernador, conforme ja expus, 
as outras, cerceadas ás vezes até rente ao texto, e o facto de o texto 
começar no meio de uma cantiga, attestam claramente a mutilação 
primeira. ^) 

Das partes salvas no sec. XVI roubaram mais tarde vários 
cadernos, e vinte e tantas folhas soltas. Umas, segundo é licito 
imaginar, por incluirem muito pergaminho branco; 2) outras, como 
as que reappareceram na bibliotheca eborense, por causa das vinhetas 
e letras historiadas; outras por encerrarem um pequeno cyclo fechado 
de versos; outras . . . Mas quem sabe lá as ideias cerebrinas a que 
cedem colleccionadores maniacos? 

§ 132. Estado do códice de 1820 até 1894. — Passo a des- 
crever o estado em que vi o Cancioneiro em 1877 e 1890. O 
volume todo andava retalhado em seis parcellas. A 1' compunha - 
se apenas da taboa de cima. Consideremos como 2* as três meias 
folhas soltas que formavam o intróito: a que fora descollada (116), 
a folha de guarda (102*) e uma de prosa, A parcella seguinte 
abrangia dois fascículos do Nobiliário. A 4* os três restantes, e o 
primeiro do Livro das Cantigas (f. 41 a 46). A 5* constava de cinco 
cadernos com versos (f. 47 a 74). A 6* de seis (f. 75 a 110). 



1) Além da falha a principio do Cancioneiro, julgo reconhecer outras 
antigas entre f. 9õ e 96; 99 e 100; 106 e 107; 112 e 113; 114 e llõ e 
muito provavelmente no fim. — Talvez ainda entre 83 e 84; 89 e 90; 90 
e 91. — São as Lacunas 18, 19, 22, 26, 27, e 14, 15, 16. 

2) As folhas que faltam p. ex. depois da 43* e Õ3* deviam levar poucos 
versos. Vid. Capitulo IV Miscella 12, 24, 31. 

10 



- 146 — 

Entre esta e a seguinte arrancaram ura caderno completo que tentei 
reconstituir (parcialmente) com seis das folhas vindas de Évora (f. 121 
a 126).i) A 7* e derradeira apresentava um só caderno incompleto, 
ligado á capa de baixo (f. 111 a 115). 

Já sabemos que os catorze cadernos que hoje subsistem, não 
estão de modo algum integres, nem mesmo depois de completados 
com as cinco folhas soltas que cresciam das reconquistadas (11 7 — 120 
e 127). Como é praxe, quatro folhas inteiras — de duas laudas, quatro 
paginas ou oito columnas — constituem um caderno. Possuindo 
nós 88 meias-folhas, parece devera faltar-nos ainda umas 24. Julgo 
todavia que carecemos de mais cinco, porque dois cadernos se 
affastam da norma comraura. Um (X) constava de cinco folhas; 
outro do mesrao nuraero, ou, talvez de quatro e meia (XIV). Além 
d' isso duas laudas andam desgarradas, sem sabermos a razão (f. 75 
e 116). Por um lado , o exame material dos cadernos e pelo outro 
o estado fragmentário de varias canções indica em geral, se bem 
que nem sempre com a desejável clareza, onde é que nos faltam 
versos, e quantos, pouco mais ou menos. Além das lacunas no 
fim e no principio do Cancioneiro cheguei a apontar mais vinte e 
sete. Tudo isso antes de conhecer o CB que mais tarde confirmou 
08 meus cálculos. 

D' este exame deprehende-se tarabem com segurança a boa 
coordenação da matéria, havendo duvidas apenas a respeito da collocação 
do caderno arrancado (a que ja me referi), 2) e sobre a folha 75 
que o encadernador havia intercalado entre os cadernos VII e VIII. 3) 
O texto passa com frequência não só de folha a folha, mas de caderno 
a caderno, sendo portanto ura guia certeiro. São inseparáveis, porque 
a cantiga, começada num, continua no seguinte, o caderno que está 
á testa do cancioneiro e aquelle que o precedia; o 1° e o imraediato, 
que nos falta; esse mesmo e o 11° dos que possuímos; o 11° e o 
ni" cuja meia folha inicial foi roubada; o 111° e o IV"; o IV° e o 
V°; e ainda o IX° e o X°, embora esse careça da ultima folha. 

§ 133. Ordem dos cadernos. — Creio têr figurado adequada- 
mente, nos apontamentos marginaes que accompanham o texto, e 



1) Não ha duvida sobre se essas folhas perfazem um caderno (incom- 
pleto). O que resta incerto, é apenas a collocação. • 

2) Vid. a Nota antecedente. 

3) Vid. Capitulo IV, Miscella 51. 



— 147 



nas notas que rematam as 38 series, a estructura do códice. Por 
isso junto agora apenas um quadro dos cadernos^ como modo mais 
claro e expedito de expor deante da vista do leitor a seriação das 
folhas, o logar das lacunas^) e a reintegração das folhas arrancadas. 
A principio falta um caderno, pelo menos: Lacuna 1. 2) 



1(41) 2(42) 



Caderno I. 

Lacuna 

3(43) II 4(120) 



5(44) 6(45) 7(46) 



d 



Entre este e o que segue o cordão está partido. Falta um 

caderno. Lacuna II L 

Caderno II. 

Lacuna 

8(47) 9(48) IV 10(49) 11(50) 12(51) 13(52) 14(63) 



A folha 51 ainda ficou segura, porque da sua primeira metade, 
cortada ás tesouradas, deixaram subsistir as rebarbas. 



Caderno IH. 

Lacuna Lacuna Lacuna 

V 10(54) VI 16(117) 17(118) VII 18(55) 



19(56) 



í 



1) Repito que em ambas as partes emprego a dupla paginação de 1 a 
88 e (entre parenthese) a antiga de 41 a 127. Além d' isso, marquei no 
texto a segunda metade das folhas com « e /S grego, differenciando também 
as quatro columnas de cada lauda pelas letras abe d. — P. ex. 

Caderno I. 

1(41) 2(42) 3(43) 4(120) 5(44) 6(45) 7(46) 

la 2«| 3«| I 14/3 13/S 23 13 



2« 


3« L 


|4/S 


3/S 


2/3 













Alguns erros escaparam. A palavra Vinheta falta a p. 33, 369, 387, 411. 
A p. 33 leia-se: 4/$ em logar de l/S. A p. 41: 3/S, em logar de 2/3; A 
p. 361: 75c?, em logar de 45d. 

2) O signal ^ indica que a pagina principia com uma Vinheta; 'l, que 
ha espaço reservado para a mesma. 

10* 



148 



A folha 56 ainda se conserva presa, pelo mesmo motivo in- 
dicado com relação á f. 51. 

Caderno IV. 

Lacuna Lacuna 

20(57) YIII 21(58) 22(59) 23(60) IX 24(61) 25(62) 



1^ 1 1 





Da f. Gl tenho que observar o que já ficou dicto da 51' e 5G* 

Caderno V. 

Lacuna 

26(63) 27(64) 28(65) 29(127) X 30 (G6) 31(67) 32(68) 





1^ 1 













Caderno VI. 

Lacuna 

33(69) 34(70) 35(71) 36(119) XI 37(72) 38(73) 39(74) 



J 



Aqui os cordões estavam novamente cortados, Eoram roubados 
apparentemente dois cadernos, um dos quaes se acha reintegrado 
conjeeturalmente pela introducção de seis das folhas eborenses, as 
quaes constituem um conjuncto coherente. 

Caderno VII. 

Lacuna Lacuna 

XII 40(121)1)41(122) 42(123) 43(124) 44(125) 45(126) XIII 



^ 



Segue uma folha avulsa, 46(75), cosida pelo encadernador. A 
rebarba saliente foi bem aparada pelo próprio artista. A pesar 
d' isso propendo a crer que o seu logar não era aqui, sendo ella 
o único resto de um caderno perdido, collocado aqui á toa. 2) 



1) Neste caso, a Vinheta acha- se no verso da folha. O mesmo acontece 
a f. 51(80), 55(84), 77(105), 81(i09)). 

2) Vid. Capitulo IV, Miscella 51. 



149 



Caderno VIII. 

47(76) 48(77) 49(78) 50(79) 51(80) 52(81) 53(82) 54(83) 



^ 


K^ 1 ^ 













Caderno IX. 

Lacuna Lacuna 

XIV 55(84) 56(85) 57(86) 58(87) 59(88) 60(89) XV 

■^ I I I ^ ^ 



^ 



j 



Caderno X. 

Lacuna Lacuna Lacuna 

61(90) XVI 62(91) 63(92) 64(93) XVII 65(94) 66(95) XVIII 67(96) 



' ' 1 ' 1 





É o primeiro caderno, composto de cinco folhas inteiras. 

Caderno XI. 

Lacuna Lacuna 

68(97) 69(98) 70(99) XIX 71(100) 72(101) XX 73(102) 





1 1 


/ 











Caderno XII. 



74 (102 a) 75(103) 76(104) 77(105) 

I L_ 



Lacuna Lacuna 

XXI 78(106) XXII 



As folhas 104 e 105 conservaram -se presas pelas rebarbas 
das folhas cortadas. O leitor sabe que 102* é a que servira de 
custode do volume. 



79 (107) 



Caderno XIII. 

Lacuna Lacuna 
XXIII 80(108) XXIV 81(109) 82(110) 



v 


1 1 ^ 















o cordão está partido. Parece faltar um caderno. Lacuna XXY. 



— 150 — 

Caderno XIV. 

Lacuna 
83(111) 84(112) XXVI 85(113) 86(114) 



Lacuna 
XXVJI 



87(115) 



V 



Das folhas 112, 113, 114 ficaram as rebarbas. A 115* (segunda 
metade de 111), esteve e está collada contra a taboa do fim. 

A 88 "(116), que lhes seguia, originariamente, fora collada pelo 
encadernador, que a encontrou solta e deteriorada, contra a taboa 
de cima, conforme se assentou repetidas vezes. i) 

Além dos cadernos do principio e do fim, desappareceram portanto 
alguns no meio do volume: entre I e II; VI e YII e entre XIII 
e XIV. De quatorze fascículos só o VIU" está intacto. Do 
primeiro roubaram uma lauda; do segundo outra; três do caderno III; 
duas do IV; uma do V; uma do VI; duas do VII; duas do VIII; 
três do X; duas do XI; três do XII; quatro do XIII; e do ultimo 
outras tantas, ou mesmo cinco. Por juncto 29 meias -folhas, que 
talvez ainda se encontrem em cantos recônditos de alguma livraria. 

§ 134. Marcas de regisio. — Das marcas de registo só duas 
subsistem. Uma inteira a f. 69, repetida a. f. 74, i. é a principio 
e no fim do mesmo caderno; outra muito cerceada, no fundo da 
f. 96. A primeira diz XI; na segunda julgo reconhecer XIIII. 

Ambas deviam ser nossos guias na apreciação das lacunas e 
coordenação dos cadernos, mas infelizmente não são guias de ab- 
soluta confiança. 

Sendo o que tem a marca XIIII o decimo dos que permanecem, 
devemos concluir, parece, pela falta de quatro dos que o precediam. 
Mas sendo o sexto o que tem a marca XI, deprehende-se que 
faltavam cinco! E entre os cadernos registados com as marcas 
XI e XIIII haviam de, evidentemente, só existir dois. Hoje só 
estes existem, de facto (f. 7 6 — 83 = Cad. VIII e f. 84 — 89 = Cad. IX) ; 
mas as partes soltas dos cordões accusam neste sitio a falta de 
outros tantos, conforme já expliquei — o que me levou a introduzir ahi 
as folhas 121 — 126 achadas em Évora. — Contradicções em toda 
a parte! Só as lacunas do principio, entre I e 11, e VI e VII, 



1) Essa folha também tinha espaço reservado para a Vinheta. 



— 151 — 

combinam com o calculo que diz respeito á primeira marca. In- 
avaliavel por indicies externos, supponho por analogia com os apo- 
graphos italianos que a do principio abrange quatro cadernos, aos 
quaes juntaremos aquelle que falta entre I e 11 para inteirar a conta. 

Quanto á segunda difficuldade, não sei como sahir d' ella. Não 
nos podemos valer a serio do expediente barato de postular, houvesse 
engano na registação das folhas. Nem creio ter completado mal o 
algarismo truncado, devendo elle ser um XVII, em logar de XIV. 
Vejo claramente quatro traços perpendiculares depois do X. Como a 
analogia com o CB não é igualdade, havendo pelo contrario numerosas 
divergências, acertaremos melhor, suppondo que o encadernador 
collocou mal um ou outro caderno, cujo logar não estava íixado 
pela continuidade do texto e que as folhas 121 a 126 não devem 
entrar entre VI e VIII. 

Eis como tento resolver o problema, hypotheticamente : 
I II III IV Faltam. Lacuna I 
V do original == I actual 



^I « 


« 


= Falta. Lacuna IH 


VII „ 


11 


= II actual 


VIII „ 


V 


= III 


IX „ 


11 


= IV 


X „ 


r) 


= V 


XI „ 


« 


= VI. 



O que integrei como VII (f. 121 — 126) estava deslocado, assim 
como o outro também arrancado, mas que não tornou a apparecer. 

XII „ „ = vm 

XIII „ „ = IX 
XTV „ „ = X (f. 90 — 96). 
O logar dos dois cadernos deslocados e da f. 75 podia ser entre 
1 1 10 e 111 1) (Lacuna XXV), ou depois da 1 1 15 (Lacuna XXVIII). 
A razão por que avento esta hypothese, e não opto pela collocação 
das dietas laudas entre as f. 46 e 47, nem tão pouco julgo poder 
antepô-las á folha primeira, resultará, no capitulo subsequente, do 
confronto com os cancioneiros CV e CB. 

§ 135. Idade do Códice — O minúsculo gothico- francês indica 
a época da execução, mas não o decennio. Datas precisas sobre a 



1) Depois do Caderno XVII da disposição primitiva (ou XIII entre os 
actuaes). 



— 152 — 

introducção do novo gosto na arte dos calligraphos e illuminadores 
da península, não estão por ora fixadas.^) E' costume collocar 
vagamente o nosso cancioneiro no sec. XIV. Assim procederam 
Bellermann e Varnhagen, convencidos da sua identidade com o Livro 
dás Cantigas do Conde de Barcellos, o qual estava prompto em 
1350.2) Apenas Herculano, por cujas mãos passou a maioria e a 
melhoria do que os riquissimos archivos do reino possuem em foraes, 
inquirições, leis, chartas e diplomas, estabeleceu a possibilidade de 
elle pertencer ao sec. XIII. Confessando que os signaes 2^(^^o- 
graphicos não permittem assignar-llie época mais precisa do que o 
século de 1279 a 1379, assenta que tanto pode remontar aos 
princípios do reinado de D. Denis como descer até o tempo de 
D. Fernando. 3) 

Não tendo a accrescentar ou a oppôr a este importante dictame 
do grande mestre nada de materialmente positivo, farei ainda assim 
algumas observações, tendentes a mostrar que não será muito aven- 
turado recuar de um lustro, até 1275 o termo a quo.^) 

Do termo aã quem elimino em primeiro logar e resolutamente 
os últimos reinados da dynastía borgonhesa, porque Pedro o Crú^) 
e Fernando, o formoso -femieiro, não documentaram interesse algum 
pela arte apolliuea: nem ha motivo para suppôr que um d'elles se 
lembrasse de colleccionar ou de tirar copias das trovas dos ante- 
passados. Entre o Conde de Barcellos , coevo de Aífonso o Bravo, ^) 
e D. Denis foi com justa razão movido o pleito pelos que me pre- 
cederam. Se introduzo a Afíonso III na discussão, pelos motivos 
que resaltam d' estas investigações, creio não exorbitar, mesmo do 
ponto de vista estrictamente paleographico , pelo motivo seguinte. 



1) Vid. Qrundriss I, p. 168 — 180; especialmente p. 176. 

2) Cf. Parte I, Res. Bibl. No. 1, 8, 11, 12, 16. 

3) Vid. Memorias Acad. I, 1, p. 44. 

4) Ao fallar, em meado do século, dos Cancioneiros, Herculano pisava 
terreno pouco explorado, que atravessou como curioso muito intoUigente, 
mas de passagem, influido mesmo por alguns dos preconceitos de Varnhagen. 

5) Algumas cantigas, na maneira da 2* época, conservadas no Can- 
cioneiro Geral de Resende, e inconsideradamente attribuidas por muitos 
escriptores ao amante apaixonado de Inês de Castro, são, muito provavelmente, 
obra do Condestavel D. Pedro, que chegou a ser rei de Aragão (f 1466). — 
Vid. Grundriss II b, 231 e 259 ss. e C. M. de Vasconcellos, Uma obra 
inédita do Condestavel de Portugal em Homenagem a Menendez y Pelayo, 
Madr. 1899. 

6) A respeito da sua slipposta actividade litteraria vid. Cap. II. 



— 153 — 

Graças a Herculano sabemos que já em 1280, i. é no primeiro 
' anno do governo de D. Denis , pelo menos u m escrevente da chan- 
cellaria regia usava de caracteres inteiramente semelhantes em 
grandeza e forma aos do Nobiliário e do Cancioneiro. Ora, a pesar 
da sua immensa leitura, não é verosímil que o foral de Villa-Nova 
de Alvito^ descoberto pelo historiador, seja eífectivamente , entre 
doze mil diplomas conservados, o primeiro e único nessas condições. 
Nem tão pouco é de crer que o jovem monarca, cujo governo con- 
stitue pelos ulteriores actos e acontecimentos sociaes uma divisão 
natural e verdadeira época histórica , i) reformasse logo logo, como 
estreia, as instituições de seu pae, uma vez que os antigos ministros 
e servidores d'elle, como D.João de Aboim, se conservaram nos 
seus postos. Por isso julgo permittida a opinião de o minúsculo 
gothico, vulgarizado em França desde meados do século, 2) ter sido 
inaugurado em Portugal por influencia do Bolonhês; talvez sob a 
égide de Aimeric d' Ebrard ou outro dos mestres franceses que edu- 
caram seu filho; e exactamente por meio do Cancioneiro, como 
única obra belletristica e artística de vulto do sec. XIII.') 

§ 136. Seja, porém, como for — e como o CA provavelmente 
não é o primeiro exemplar, mas apenas um treslado, não é essencial 
para o meu fim fixar data anterior a 1280 para a execução material 
do códice — uma cousa é certa. O reinante ou filho de reinante que 
encommendou o códice da Ajuda escolheu para modelo do transumpto 
o único cancioneiro que, sendo peninsular, fora na própria península 
magistralmente executado em vida de Affonso III: i. é os cânticos 
sacros do Sábio de Castella. 

O tamanho e o preparo do pergaminho avitellado, a dis- 
posição dos versos em duas columnas, com espaços reservados para 
a notação musical, as siglas e a orthographia, mas principalmente 
o ductus e a proporção das lettras, o desenho das capitães orna- 
mentadas, o estylo das vinhetas, tudo quanto descrevi ou ainda hei 
de descrever, indica com sufficiente clareza que os artistas do CA 



1) Com Aífonso III acaba, pela influencia preponderante concedida ao 
direito romano, o estado medieval da sociedade portuguesa, que Alexandre 
Herculano chama visi- gothico -feudal. Vid. Opúsculos V, p. 139. 

2) Orundriss I, p. 173. 

3) Na sua excellente Historia da Administração publica em Portugal. 
Gama Barros, ao occupar-se das chancellarias, não derrama luz sobre estas 
minúcias. — Vid. Livro II, Titulo II, Cap. 2. 



— 154 — - 

se regularam, sem servilismo embora, sobre um dos formosíssimos 
códices alfonsinos, dos que conhecemos, ou mais provavelmente sobre 
outro exemplar semelhante, mandado a Portugal, onde se perdeu. 

Para ficar convencido da paridade, bastará confrontar o nosso 
fac-simile com os que accompanham a publicação da Academia de 
Madrid, muito embora ainda não se authenticasse, e talvez nunca se prove 
documentalmente o facto de Alfonso X ter presenteado a casa real 
portuguesa com copias das suas obras, quer fosse por amor a 
D. Brites, sua filha — essa boa alma que foi para Castella pouco depois 
de enviuvar e fez companhia ao atribulado monarca, quando todos 
o abandonavam 1) — quer por deferência ao rei seu genro, ou para 
honrar e estimular seu gentil neto, antes d' elle ser coroado. Duvidas 
a este respeito seriam porém, de um exagero pueril, mesmo se 
não soubéssemos da versão portuguesa das Sette Partidas, da 
Historia Geral, das Flores de las Leyes e da Chronica de Hesimnha, 
nem do volume com Louvores á Virgen, guardado na livraria ou 
na capella de D. Duarte, e posteriormente na Torre do Tombo. 2) 

Entre os dois reis de Portugal, D. Denis foi na verdade o que 
apparente mente seguiu no campo litterario mais de jjerto o exemplo 
do Castelhano, pois versejou como elle no campo profano e talvez 
no sacro, fundou e protegeu os Estudos Geraes, juntou livros e 
fez verter de linguas estrangeiras obras históricas, como do árabe a 
Chronica do Mouro Rasis^) e, se a fama não mentir, do hebraico 
alguns livros da Biblia.*) Mas Affonso III já lhe dera o exemplo, 
imitando o sogro, não só ao instituir o Regimento da Casa Real e 
ao publicar um coto das mercadorias, mas também na reforma da 
legislação e na versão de trabalhos castelhanos. Sejam embora 
devidas á iniciativa de D. Denis a nacionalização das Partidas^) 



1) O próprio monarca enaltece o seu grande e verdadeiro amor, e 
confessa que veio padecer aquillo que nós padecemos , para viver e morrer 
comnosco. 

2) Vid. § 117. 

3) Vid. Resende, Hist. Évora ^ cap. XI; id. Opera Histórica ed. Coimbra 
p. 47, 14, 50, 247; Mon. Lus. XVI, cap. 3; Aead. Hist. 1724, No. XVII, 
p. 9 e XIX, p. 6. 

4) E quasi certo que essa biblia não é senão o Livro I da Historia 
Oeral de Alfonso X. — Cf. Samuel Berger, Les Bibles eastiilanes avee un 
appendice sur les bibles portugaises par M'"'' C. M. de Vasconcellos et 
S. Berger. — Paris 1899. 

5) Bibl. de D. Duarte No. 80. Mon Lus. XVI, cap. 30; Mem. Litt. I, 
§20 — 29. — Sanchez Moguel, Eeparaciones Históricas, p. 196s. 



— 155 — 

e das Ghronieas^) que é costume attribuir-lhe, com tudo o mais 
que se encontra escrito em português archaíco,^) nem por isso os 
legistas deixaram de nomear o Bolonhês como instigador de uma 
obra de adaptação: o compendio pratico dos processos ou seja o 
livro das Flores do dereito^) composto por mestre Jacobe das Leis, 
a pedido de Alfonso Fernandez, em vida do Sábio, seu pae.^) 



1) D. Duarte possuía a Estaria Qeral (No. 21). Ha ura exemplar na 
Bibliotheca Eegia de Madrid (2-H-3 ou Á); outro na Bibl. Nac. do sec. XIV 
(x 61); outro no Escoriai, segundo Mem. Litt. VII, 19; e um treslado 
tardio e augmentado (até 1455) na Bibl. Nat. de Paris (Fonds. JEsp. No. 4), 
impresso em parte pelo Dr. Nunes de Carvalho (1863). Quanto ao valor 
da versão, seguramente feita sobre o texto original da obra, vid. Menendez 
Pidal, Crónicas, p. 8 ss. e Infantes de Lara, p. 387. Cf. Bibl. Critica, 
p. 143. 

2) D. Duarte possuía dois exemplares No. 26 e 55. 

Lembrarei o que Flávio Jacobo Eborense escreveu nas suas poesias 
latinas (impressas no anno 1596 em Veneza) a respeito de um livro, tra- 
duzido de arábigo em português por Pedro Galvão a instancias de D. Denis, 
o qual foi visto em Roma na livraria do Cardeal D. Miguel da Silva, embora 
essas noticias sejam pouco claras e não encontrassem confirmação. Vid. 
Mon. Lus. XVI, cap. IIL 

3) Vid. J. Anastácio de Figueiredo, em Mevi. Litt. I, p. 275 e 7m- 
editosY, 454. O velho pergaminho, guardado na Torre do Tombo {Foraes 
Antigos, Maço 6, No. 4) 6 dirigido pelo legista „uossa fiel cousa" ao muyto 
onrrado senhur don Alffonso fernandex filho do muy nobre e ben auen- 
turado senhur dou Alfonso pella graça de deus Rey de Castela e de leon, 
mas não contém obsei-vação alguma a respeito do tiaductor ou seu manda- 
tário. O original data inquestionavelmente do tempo do Bolonhês, visto 
Alfonso Fernandez, o Nino (casado com D. Blanca de Molina, neta do Leonês) 
ter fallecido muito novo em 1281. yiú.. Memorial histórico II e Rodriguez 
de Castro I, p. 258. Mas isso não é prova de que o texto português seja 
anterior a 1279! — A letra do códice, tão descuidadamente lançada que 
talvez o códice do Archivo Nacional seja apenas um apographo, é gothico 
francês; as maiúsculas parecem -se muito com as do Nobiliário; a linguagem 
e a orthographia são as do Cancioneiro da Ajuda, com ligeiras variantes 
(u por o atono e ô fechado). No mesmo volume, que é de foraes e leis 
antigas dos sec. XIII e XIV, ha o Fuero real de Alfonso X. 

4) Uma filha, um tanto desequilibrada, do Bolonhês e de D. Brites de 
Castella, parece ter recebido em prova de estima livros do avô castelhano. 
No seu testamento D. Branca de Portugal , que vivera recolhida nas Buelgas 
de Burgos de c. 1296 a 1321, legou á então Rainha de Hespanha, a portu- 
guesa D. Maria, os livros e as escrituras que possuia e haviam sido de seu 
avô castelhano. Além d' isso documentou certo amor ás letras, mandando 
redigir em hebraico pelo convertido burgalês Rabbi Abner e traduzir em 
seguida pelo próprio, ou por Mestre Affonso, um Livro das Batalhas de 
Deus., cujo original foi visto por Ambrósio de Morales. — Vid. J. P. Ribeiro, 
Diss. Chron. III, 128; Cardeal Saraiva III, 125 ss. e Sanchez Moguel, 
Reparaciones Históricas p. 145 ss. 



— 1Õ6 — 

Quanto á data em que as Cantigas de S. Maria poderiam ter 
servido de modelo a um colleccionador de versos profanos, apenas 
posso dizer que o códice toledano foi escrito entre 1257 e 1275.1) 
Os dois escorialenses são posteriores e ficaram concluidos nos últimos 
annos do monarca, ou mesmo depois da sua morte. 2) É porém 
quasi certo que outros exemplares, com mais ou menos cantares, 
entre 100 e 400, foram executados no decurso de quasi três de- 
cennios, por ordem de Alfonso X,^) que pagava liberalmente uma 
phalange de escrivães, pintores e músicos.*) E qual não devia ser 
o enthusiasmo dos parentes de Portugal, em vista dos bellos volumes, 
vindos de Castella, numa idade em que as artes de calligrapliia e 
miniatura, sempre tidas em alto apreço em Leon, na Galliza e em 
Portugal,^) ainda contavam naturalmente pouquíssimos cultores. O 
desejo, ou mais, o dever de os imitar, offertando em troca do 
Cancioneiro sacro ao monarca -trovador uma collecção dos versos 
lyricos dos seus cortesãos, quasi que se impunha ao Bolonhês. 

O esposo de Matilde de Boulogne havia admirado provavel- 
mente em Paris, antes de 1245, psalteiros, missaes, livros de horas 
e cancioneiros ou folhas soltas com trovas sacras ou profanas em 



1) Vid. § 74. Quanto aos caracteres, o snr Paz y Meha que forneceu 
a descripção dos códices, contentou -se com dizer de cada um d'elles: en 
hermosa letra francesa de códices dei siglo XIII. E este facto não era 
desconhecido a Herculano. Vid. Hist. Port. III, p. 401. 

2) O Johannes Gutidisalviis que assigna um dos códices não deixou 
assente a data em que findou a sua tarefa. 

3) Âdco nihilominus extitit liberalis quud ipsius liberalitas prodi- 
galitatis specie induebat. Palavras de Frei Gil de Zamora nas Biographias 
de S. Fernando e Alfonso X, publicadas pelo Padre Fidel Fita. 

4) Na Lamina I da impressão académica, o trovador coroado apparece 
no meio dos seus serventes, sentados nos degraus do throno aos seus pés, 
conforme a lei mandava. Confira -se ainda a descripção das folhas 4'^ e 5 
do cod. T-j-1 (p. 39), assim como Riano, Early Spanish Music, Fig. 27. 
— Na cantiga CM 377 Alfonso nomeia um seu pintor Pedro Lourenço que 
os seus livros pintava bem e aginha e CM 375 um seu escrivão chamado 
Bonamic, talqual um dos mimos franceses de Sancho I de Portugal. 

5) Os manuscriptos de origem leonesa são os mais bellamente illu- 
minados que as Hespanhas possuem, anteriores ao sec. XIII. Vid. A de los 
Rios, La pintura en pergamino cn Espana hasta fines dei siglo XIII em 
Museo Espaiiol de Ántiguedades , Tomo III, 1 — 41 (1874). A respeito de 
livros iUuminados dos sec. XIII e XIV, executados segundo a opinião corrente 
por ordem de D. Denis, vid. Visconde de Santarém: Notice sur quelques 
manuscrits remarquables par leurs caracteres et par les ornements dont 
ils sont cmbellis et qui se trouvent en Portugal; e F. Denis na Indroduction 
do Missal de Estevam Gonçalves. 



— 157 — 

francês e provençal, escritas e illiiminaclas naquelle gosto fino e 
novo que se ia desenvolvendo na corte de San Luis. ^) Pode mesmo 
ser trouxesse amostras para Portugal, e chamasse escrivães e pin- 
tores para a sua chancelaria, onde iniciariam a reforma necessária. 
Mas a parte pictórica do códice da Ajuda obriga a votar pela imi- 
tação directa de códices alfonsinos, os quaes de resto attestam pelo 
seu lado a influencia francesa, 2) como todos os da época, de 1275 
a 1376. 

Dos signaes intrínsecos e da idade por elles assignada, não 
já ao códice, mas ás obras ahi conservadas, só posso dissertar com 
proficiência depois de o leitor conhecer summariamente o conteúdo 
do volume no seu estado hodierno, e o modo como entendi dever 
completá-lo. Por ora baste dizer que também sob este ponto de 
vista nada obsta a que a obra fosse emprehendida nos últimos 
annos do Bolonhês. Emprehendida, mas não acabada. 

§ 136. O escrevente. — O amanuense encarregado da trans- 
cripção das trovas, clérigo ou leigo, era em todo o caso um perito, 
perfeitamente familiarizado com a linguagem e versificação dos 
trovadores e esmerou- se em reproduzir com toda a exacção os 
originaes. Pouco estragou, de onde concluo ter sido um peninsular, 
versado também em francês, como se conhece do treslado das imicas 
duas linhas que o CÁ apresenta naquelle idioma. Mais arriscado 
é decidir se era português, gallego, castelhano, ou V Aragão. 
Algumas formas occorrem nos textos que devemos considerar como 
hispanismos: de longe em longe o e e em vez dos diphthongos ou 
ei, ou vice versa ue e ie em logar de o e, um n entre vogaes como 
em amena, um pi por pr (placer pleito), um c por % {placer, facer). 
Como explicar taes desvios? Teria o rei de Castella cedido ao 



1) Ha provas do apreço dado pelo Sábio de Castella a uma obra illu- 
strada, vinda d' essa mesma corte. 

2) Não carece de interesse comparar com os códices indigitados o ms. 
de Adam de la Halle, datado de 1278 (Arras), ainda que seja só por meio 
do facsimile pouco exacto, publicado por Coussemaker. Veja -se ainda o Libro 
delosJuegos, acabado em 1283 (Escor. j - T - 6) ; fac. -sim. na Orande Enci- 
clopédia (s. V. Dados), assim como o Libro deis Feyts de En Jayme cujas 
miniaturas com fundo de azulejos, ainda em 1343 se encostavam aos modelos 
alfonsinos. Entre as Crónicas generales de Espana, conspicuaraente ana- 
lysadas por Menendez y Pidal {Crónicas Generales de Espana, Madrid 1893) 
e representadas em boas laminas, nenhuma tem letra igual á do códice. 
A mais parecida é a da lamina 5. 



— 158 — 

genro português um ou outro dos seus escreventes e pintores?^) Ou 
serão aquellas irregularidades, não lapsos do escrevente, mas antes 
idiotismos de trovadores oriundos da Galliza, onde por influencia 
de Castella houve, pelo menos de 1230 em deante, e ainda lia 
hoje, não poucas formas estranhas ao verdadeiro fundo gallaico- 
português? Creio que sim. 2) 

Outras singularidades ha, mas estas orthographicas, e muito 
raras, como estrãyo por estranho^ que são testemunho da familiari- 
dade do escrevente com textos limosinos da Catalunha.^) 

§ 137. As Vinhetas. — Já sabemos que cada um dos 38 Can- 
cioneirinhos de que o livro se compõe hoje, estava destinado a 
principiar com uma miniatura e letra historiada, mas que nem uma 
só das vinhetas foi acabada. Em algumas poucas das dezaseis que 
estão delineadas, (1 — 16) o pintor começou a colorir as roupagens e as 
molduras arquitectónicas, mas ainda sem as sombras, e de modo tão 
incerto como se marcasse ou ensaiasse as tintas.^) Em outras treze 
(17 — 29) temos o espaço reservado para a vinheta: uns lOOallõ milli- 
metros quadrados, ou seja 16 linhas da pauta, com mais 8 para 
a capital. 5) Nove vezes falta -nos a primeira folha dos cancioneirinlios 
individuaes que começam no meio de uma cantiga, precedidos, con- 
forme expliquei, de algum espaço em branco. 

Eis a lista das Vinhetas: 

1°* Secção II f. 4 (120) Joan Soaires Somesso. 
No. 14 Quero vus eu ora rogar. 

2° „ V 115 (54) D. Ruy Gomes de Briteiros (Desci). 
No. 62 Pois non ei de dona 'l/nra. 

3°* y, VI f. 16 (117) Airas Corpancho. 

No. 64 Quisera m'ir; tal conselho prendi. 



1) O costume era, serem diversos os dois, e isso muito antes do 
sec. XIII. O famoso livro de psalmos de Fernando 1 (1055), conservado na 
bibliotheca da Universidade de Santiago, tem no fim a nota: Ura millena 
novies I Dena quoque terna \ Petrus erat seriptor \ Frietosus deniq. pictor. 
— Vid. Riano p. 27. 

2) Da linguagem tornarei a fallar no Cap. IX. Das questões ortho- 
graphicas tratei ao prestar contas do meu procedimento como editora. 

3) Cf. ãy = any no fac-simile do Libro deis Feyts de En Jayme, 
cap. 47. 

4) 1 , 3 , 5 , 10 marcados de asteriscos na lista que segue. 

5) No Cod. Escor. j-b-1, no qual ha vinhetas de dez em dez cantigas, 
cada miniatura mede 92 por 80; no mais sumptuoso (T-j-1) 109 por 110, 
tendo as figuras 65. 



— 159 — 

4" Secção VII f. 17 (118) Nuno Rodrigues de Candarey. 

No. 68 En gran coita vivo, senhor. 

5°* „ VIII f. 18 (5õ) Nuno Fernandes Torneol. 

No. 70 Ir viis queredes , tnia senhor. 

6" „ IX f. 21 (58) Pêro Garcia Burgalês. 

No. 82 De quantos mui coitados son. 
70 „ X f. 29 (127) Joan Nunes Camanês. 

No. 111 De vos, senhor, querria eu saber. 

8" „ XII f. 33 (69) Roy Queimado. 

No. 129 Nostro Senhor Deus e porque neguei. 
9° „ XIII f. 37 (72) Vaasco Gil. 

No. 144 Muit' aguisad' ei de morrer. 
10°* „ XV f. 40^(121) Joan Coelho. 

No. 158 En grave dia senhor que vus vi. 

11» „ XVII f. 47 (76) Desconhecido II. 

No. 185 Pois ni' en tal coita ten Amor. 

12° „ XVIII f.48 (77) Ruy Paes, de Ribela. 

No. 186 Por Deus vus quero rogar, mia senhor. 

13° , XIX f. 51^ (80) Joau Lopes d'Ulhoa. 

No. 199 J. mia senhor que me foi a mostrar. 
14° „ XX f. 55^^ (84) Fernan Gonçalves de Seabra. 

No. 210 Oran coita soffr' e vou a nega?ido. 

15° „ XXI f. 59 (88) Pêro Barroso. 

No. 222 Quand' eu mia senhor convusco falei. 

16° „ XXII f. 60 (89) D. Affonso Lopes de Baian. 
No. 224 Senhor que grav' of a mi é. 

17° , XXIV f. 65 (94) Estevan Faian. 

No. 240 Vedes senhor quero vus eu tal ben. 

18° „ XXVI f. 66 (95) Joan Vaasques. 

No. 242 Muit' ando triste no meu coraçon. 

19° „ XXVU f. 67 (96) Pay Gomes Charinho. 

No. 246 A dona que ome senhor devia. 

20° , XXVIII f. 71 (100) Fernan Velho. 

No. 257 Pois Deus non quer qus eu ren poss' aver. 

21° „ XXIX f. 73 (102) Bonifácio de Génova. 

No. 265 Mui gran poder á sobre min Amor. 

22° „ XXX f.74(102a) Desconhecido IIL 

No. 267 Que mal Amor me guisou de viver. 

23° „ XXXI f.77^(105) Desconhecido IV. 

No. 277 Senhor fremosa pois me vej' aqui. 

24° , XXXII 178(1106) Desconhecido V. 

No. 278 A mais fremosa de quantas vejo. 

25° „ XXXIII 179(f.l07) Pedr' Annes Solaz. 
No. 281 Eu sei la dona velida. 

26° , XXXIV f.80(f.l08) Fernan Padron. 

No. 285 Se vos prouguess' Amor ben me devia. 



— 160 — 

27" Secção XXXV f.81^(f.l09) Pêro da Ponte. 

No. 288 Tan muito vus ani' eu , senhor. 
28° , XXXVI f.83(f.lll) Vaasco Rodrigues de Calvelo. 

No. 293 Vivo coitad' en tal coita d' amor. 

29° „ XXXVIII f.88(f. 116) Eoy Fernandes de Santiago. 
No. 308 Se oní' ouves se de morrer. 

Carecendo de principio as secções I, III, IV, XI, XIV, XVI, 
XXIII, XXIV, XXXVII faltam -nos as vinhetas com que abriam 
as cantigas de Vaasco Praga de Sandim, Pay Soares de 
Taveirós, Martim Soares, D. Fernam Garcia Esgaravunha, 
Joam d'Aboim, Eodrigu' Eannes Redondo, Mem Rodrigues 
Tenoiro, Joam de Guilhade e Martim Moxa. 

O nosso fac-simile heliot^^pico que reproduz a primeira miniatura 
dá ideia de todas. A moldura architectonica accusa, em harmonia com 
a letra, pelo estylo de transição, gothico (cheio de reminiscências 
românicas) os fins do sec. XIII ou a primeira metade de sec. XIV. 

EUa é de resto muito convencional e repete -se com ligeiras 
variantes em todas as vinhetas.^) Columnas muito esguias, de 
capiteis com folhagem ampla, sustentam invariavelmente um arco 
ogiva! , de três, cinco ou sette lóbulos. Dois torreões flanqueiam 
a construcção superior, arrematada por um ediculo que occupa dois 
terços da largura. O cume está encimado de uma flor, quasi sempre 
cortada, ou cerceada pelo encadernador. A luz entra por três 
frestas, sendo as do lado rectangulares e a do centro ora redonda, 
ora em trifolio, ou quadrifolio. A scena passa -se, por via de regra, 
entre as mesmas três pessoas, symmetricamente agrupadas sob a arcada. 
Só uma vez, na vinheta 2*, ha apenas duas, por vontade ou por 
lapso do desenhador, e não porque o harpista com o seu elegante 
instrumento não deixasse espaço sufficiente para a figura do meio. 

A esquerda vemos sentado num escabello, coberto de alcatifa, 
um personagem, de saia comprida, ou saia e manto, muita vez de 
perna cruzada, em attitude e com gestos de quem ensina, bate o 
compasso, ou escuta. Deve representar o mestre -trovador. 2) 

Em face d'elle, occupando o centro, está postado o jogral 
executante, de saio curto, tocando um instrumento de corda: lÃola, 



1) Vid. Lamina 1, 2, 6, 7, 9 e 10 do caucioneiro alfonsino, posto 
que em nenhuma a architectura seja igual á nossa. 

2) Um m^ inscripto no chapéu do trovador, na vinheta VI, talvez 
não seja da primitiva. 



— 161 — 

de arco, ou guitarra ãe pennula {dtara na linguagem dos trovadores). 

Em uma das scenas (6), movendo o arco com alegre paixão, esse 

menestrel esboça um passo de dança que faz recordar o verso do 

arcipreste: 

Ca vihuela de arco fax dulces bayladas. 

Geralmente (5 a 14, e 16), está em pé; sentado só quando o 
tamanho do instrumento assim o exige: no chão, com harpa (9 e 11), 
ou num escabello baixo e singelo, sustentando no regaço um psalte- 
rio (1 — 4). Nestes casos o jogral apparece mudado para a direita, 
tendo cedido o seu logar á terceira figura: a bailadeira ou cantadeira 
que na maioria dos casos está collocada á direita. 

Honestamente vestida, com roupagens roçagantes que lhe es- 
condem os pés, o corpo em gracioso movimento, a rapariguita, de 
braços mais ou menos levantados, faz vibrar as castanhetas (3, 4, 
7, 13 — 15), sacode o característico pandeiro de guisos (6. 16) ou 
está queda, de mãos vazias, a cantar com voz que devemos suppôr 
fresca e um tanto acre, como laranjas em março (5, 8). Numa 
occasião a pequena sentou-se de cansada (12). Em outra, é sub- 
stituída por um moço, espécie de meniao de coro ou monaguilho, 
ou então o fidalgo -aprendiz que canta (7). Também occorre um 
segundo jogral accompanhar o tocador de rabeca com os sons da 
sua harpa. ^) 

Os typos humanos, de uma esbeltez extraordinária que lembra 
o estylo francês, ostentam attitudes variadas, não isentas de graça 
nem de brio. Entre os rostos, sem barba, de cabello comprido, 
graciosamente encaracolado, ha alguns bem galantes e expressivos, 
a três quartos de face. Os de perfil pelo contrario sahiram todos 
algo grosseiros e pouco differenciados. 2) Os instrumentos são de 
notável elegância, principalmente as harpas e psalterios, mas também 
as violas de arco e as guitarras de pennula.^) As castanholas 
rectangulares e compridas, de um typo que parece perdido,^) o 



1) O leitor encontra um estudo sobre as vinhetas, de Joaquim de Yas- 
concellos, na Introducção de Ferdinand Denis ao bello Missal de Estevam 
Gonçalves (Paris 1877 — 1880). 

2) Confira -se o mestre, das vinhetas 8 e 15; o jogral, de 1 — 4, 9 e 11; 
a bailadeira de 5, 7, 8, e o rapaz de 10 com os perfis da Lamina I e 
Riano 40, i e 4; 43, 2; 45, 4. 

3) Como o debuxo é quasi sempre incompleto, só de contornos, não se 
reconhece, se a guitarra é mourisca ou latina, de três ou de quatro cordas. 

4) Cf. RiaEío, Fig. 40, 4. — Serão as tablas dos trovadores provençaes? 

11 



— 162 — 

rústico pandeiro circular, em mão feminina, que Alfonso X excluiu 
da musica sacra dos Louvores e Milagres, dão ás nossas scenas 
gallaíco- portuguesas ura feitio á parte, i) Pode ser comtudo que 
os modelos directos, de absoluta concordância, fossem achados por 
quem folheasse de vagar os códices escorialenses. Dispondo uni- 
camente das dez laminas chromolitographicas que adornam a edição 
madrilena, e das gravuras que illustram tanto o Ensaio Musical 
de Kiano'^) como a Indumentária de Aznar,^) só posso dizer que 
a imitação é evidente e que se nota pouquíssima originalidade nas 
construcções , nos trajes e nas caras, mas alguma nos instrumentos 
musicaes e nas attitudes. As miniaturas que serviram, a meu ver, 
de fonte de inspiração ao artista português são as que mostram 
o rei de Castella no meio dos seus jograes, músicos, escrivães 
e cantadeiras*), e também os quarenta quadrinhos do códice menos 
rico,^) em que são representados, invariavelmente, sobre um fundo 
de azulejos em moldura singela, dois jograes^) com os seus in- 
strumentos , ou ás vezes um só artista. Reduziu as primeiras e alargou 
os outros, pela introducção do mestre -trovador, substituto do rei. 
Um indiculo sem o debuxo vale pouco. Mas como o publico 
ainda carece d'elle, julgo de meu dever, não supprimí-lo. 

1°. Mestre; rapariga com castanhetas; jogral -com psalterio. 

2°. Id. jogral com harpa, sentado. 

3°. Id. bailadeira de braços erguidos, dançando ao som das 
castanholas; jogral com psalterio, sentado. 

4°. Id. id. id., mas com differença em todos os pormenores. 

5°r Id. jogral com guitarra; cantadeira. 

6°. Id. jogral com viola de arco; rapariga com pandeiro. 



1) O adufe, pandeiro quadrado, de origem mourisca, oomo indica o 
nome , citado na cantiga CV 838 , e os mais instrumentos de percussão e sopro, 
mencionados de passagem {trompas e atanibores) para os géneros mais 
vulgares, gratos á arraia miúda (CV965), entrai-iam porventura nas vinhetas 
arrancadas. 

2) F. Riano, Early Spanish Music, London 1887. — Veja -se as 
figuras 40, 4; 43, õ; 46, i; 47; 50, 2—3. 

3) P. Aznar, Indumentária Espanola, Madrid 1880. 

4) Vid. Lamina I; e Riano p. 48. 

5) Entre as 1257 miniaturas do sumptuoso códice T-j-27 predominam 
as scenas que são illustrações dos milagres de N. S. 

6) Vid. Lamina X que pode dar ideia do efeito das figuras no CA, 
depois de promptas. Já chamei a attenção pai'a o Libro de los Juegos e 
para o Libre deis feyts de En Jaime. 



8». 


Id. 


9". 


Id. 


10°. 


Id. 


11". 


Id. 



— 163 -^ 

Mestre; jogral com guitarra; rapariga (ou rapaz?) com castanho- 
las, escutando. 

jogral com viola; cantadeira. 

jogral com viola; segundo jogral, a tocar harpa, 

sentado no chão. 

jogral com guitarra; rapaz escutando ou cantando. 

jogral com guitarra; segundo jogral a tocar harpa, 

sentado no chão. 
12°. Id. jogral com guitarra; rapariga com pandeiro de guisos, 

sentada num escabeUo. 
13el4°. Id. jogral com guitarra; rapariga a tocar castanholas. 
15°. Id, rapariga dançando, com castanhetas nas mãos erguidas ; 

jogral com psalterio, sentado. 
16°. Id. jogral com guitarra, rapariga com pandeiro, i) 

§ 138. Abreviaturas. — Entre os signaes empregados pelo 
escrevente não ha um só desusado oii de significação duvidosa para 
quem estiver medianamente versado em paleographia. Nem encontrei 
um único que faltasse nos códices alfonsinos.^) Ainda assim, foram 
reproduzidos imperfeitamente na edição de Lord Stuart, onde os 
confundiram a miúdo. Também na de Varnhagen os desdobra- 
mentos erróneos não escasseiam. 5) Em vista d'isso e de certas 
observações recentes de um dos mais abalizados paleographos portu- 
gueses a respeito do CA e de siglas evidentemente trocadas de 
que os apographos italianos andam eivados, parece -me que terá 
alguma utilidade o quadro que organizei, unicamente com o fim 
de prestar contas do processo por mim empregado ao desenvolver 
as ligaduras do velho pergaminho.^) 

As siglas usadas — sobrepostas ás lettras na maioria dos 
casos — são um ponto quadrilátero : « ^ «. v accompanhado de traço 



1) Na maioria dos casos ha dois instrumentos, sendo um de percussão. 
Temos viola e pandeiro (6); guitarra e pandeiro (12 e 16); guitarra e castanhetas 
(7, 13, 14); psalterio e castanhetas (1, 3, 4, 15); viola e harpa (9); harpa 
e guitarra (11). Somente viola de arco (8); guitarra (5 e 10); harpa (2). 

2) O emprego de siglas é incomparavelmente menos freqiiente no CA 
do que nos códices alfonsinos e nos apographos italianos. 

3) Em vez de bõa, endòado^ perdoar, avèo, tees imprimiram bona, 
endonado, perdonar, aveno, tener; em vez de ua, algúa, uma e alguma, 

4) Por ellas se reconhece como é que nasceram certas graphias dos 
cancioneiros achados na Itália: tira, tiras por terra, terras; pãx t^ot prax; 
praza por prazerá etc. 

11* 



— 164 — 

obliquo; um til horizontal ~; til vertical j; ponto e til combina- 
dos -; i sem ponto (i), como sempre no nosso pergaminho; c in- 
vertido (o); a conhecida ligação 9; um ponto com traço obliquo 
que atravessa o f de aste comprida: i; um traço horizontal que 
atravessa a perna de p : p ; outro recurvado, em prolongamento da parte 
bojuda do p, e que por vezes torna a cortá-lo segunda vez: p, p. 

O emprego d' essas siglas é naturalmente systematico, mas 
o systema não foi seguido com rigor absoluto. O escrevente 
utilizou -as ou deixou de as utilizar a belprazer, regulando -se em 
geral pelo espaço disponível e olhando para que os versos de uma 
canção sahissem igualmente longos. A mesma palavra apparece 
por isso escrita de três ou mais modos; v. g. semirre, senpre, semp, 
sep, sêp'; desamparado, desanparado, desãparado, desãpado; quifer, 
c^fer, q^f, quip , 7iP. Vários signaes exercem a mesma função. 
Ás vezes, faltam por descuido;^) outras vezes estão um pouco 
deslocados, dando margem a soluções diversas, entre as quaes 
deve escolher- se a que o sentido reclama 2), ou que a evolução 
linguistica exige. 3) 

Quanto á sua função, ponto (ou til) sobre vogal, representa 
nasalização, quer esteja em fim de palavra (1), quer seguida de outra 
vogal (2) ou de consoante (3). Seguido de n, indica de longe 
em longe o som palatal (4), representado geralmente por nn, e só 
por excepção por meio de ^, a moda limosina (5). Sobreposto 
ao 2/, em palavras como, ay = há i e ya = i há, ey, receey, mayor, 
mays, morrey, direy etc. o ponto não pode ter outro destino se 
não o de distinguir essa vogal, idêntica a i, com o qual alterna 
ad lihitum , do ij bisyllabico [ij ou u) que é frequente em portu- 
guês antigo.^) Mas esse emprego é puramente facultativo, e nota -se 
apenas numa pequena percentagem dos casos. 



1) Principalmente til e eedilha. 

2) Ua p. ex. com o til inclinado para a direita, tanto pode ser úa < una 
como uã <ivadant, tendo nós de ler «a sempre que o sentido e a grammatica 
exigem o artigo indefinido, e ȋ, onde necessitamos do verbo. O expediente 
rigorista do Snr Ayres de Sá, que pÕe uã cada vez que se nota a mais ligeira 
declinação (conforme expliquei no Cap. I No. 76), não merece imitação num 
texto criticamente editado. 

3) Soo, com o til no meio das duas vogaes, ou inclinado para a ultima,, 
podia ler -se soon ou são. Est' ultima forma de son = sum (tornado bisyllabico 
pelo accrescento de um o analógico, para marcar a 1 ps. sg.) é a que se 
deve escolher. 

4) Em viinda, ijmigo, fiinda, triindade etc. 



— 165 — 



Estando em fim de palavra, sobre qualquer consoante, in- 
clusive w- consoante, o til horizontal ou vertical, substituido ás 
vezes pelo simples ponto, representa er, &r (6) e raras vezes ar. 
Excepcionalmente tem esse mesmo emprego no meio de palavras. 
Em vários casos, principalmente depois de ^;, h e t, significa re. 

No quadro que segue apresento juntas as abreviaturas de syllabas 
em que entra a consonante r (7) 

(1) 



è = en (2) 


algiia 


(3) cãtiga = cantiga 


cõ = con 


iia 


cõt' = contra 


nõ = non 


bõa 


mudo = mundo 


sõ ;= son 


gaar 


nuca = nunca 


bc = ben 


põer 


pgutar = preguntar 


ne = nen 


têer 


desãpado = desamparado 


níí = min 


soo 


sèp' = sempre 


quã = quan 


ueer 


uiygad = viyngad. 


deuiã = devian etc. 


uTir 

uêo 

endõado 

perdoasse 




(4) penor = penhor 




fez' = fezer 


sênor = senhor 




mest' = mester 


augonar = avergonhar 


moll' = molher; 






mostr' = mostrar 


(5) strayasse = stranhasse. ^) 






(7) 


u'dade = verdade 


(6) au' = aver 




au'gõnar = avergonhar 


diz* = dizer 




fez'a = fezera 


faz' = fazer 




t'ra = terra 


praz' = prazer; 




fras = terras. '^) 



Sobreposto a (7, o ponto e o til indicam suppressão de ue (8); 
a de ui é marcada por * (9); a de ua por ponto e til ligados (10) 



(8) aqfta = aquesta 




busqi = busquei 


aqfte = aqueste 




fi|i = fiquei 


daqn = d' aquen 


(9) 


aq' = aqui 


q = que 




aq'fto = aquisto 


qn = quen 




q's = quis 


qr = quer 




q'fer = quiser 


qqr = quequer 




q'tar == quitar 


qira = queira 






qixedes = queixedes 


(10) 


ql = qual 


qrri = querri(a) 




qn ou q. = quan 


qrrei = querrei 




qndo = quando 


qrer = querer 




qnto = quanto. 



1) No Nobiliário encontro araya = aranha; nas Cantigas de S. Maria 
agya = aginha; mecya = mécinha; e uy e pan^:=vinh' e pan. 

2) Nas Cantigas de S. Maria occorre também tt'mê = vermen (CM 69). 



166 



Sobreposto a g^ ponto e til ligados indicam a falta de ra; 

e só em dois casos a de ua (11) 

(11) gn = gran gue = grave *) ; 

gnd = grand grir = guarir 

gcir = gracir grdar = guardar 
gdo = grado 

Sobrepostos a p, ponto ou til figuram re (12); ponto e til 

pra (13); t sobreposto, pri (14); p cortado por linha horizontal 

equivale a per (15); mas também a par (16); cortado por linha 

recurvada deve ler- se pro (17). 2) 

(12) 



(13) 
(14) 

(15) 



pgutar = preguntar 
pnder = prender 
pndo = prendo 
pto = preto 
pito p'to = preito 
pz = prez 
semp semp' = sempre 

pz = praz 



p*x = prix 
p'mã = primeira 

p = per 
pço = perco 



pftar ^ prestar; 
pder = perder 
pdud = perdud 
pdon = perdon 
po = pêro 
empador = emperador 

(16) pte = parte 
ptir = partir 

ãpado = amparado 

(17) pi = prol 
puar = provar 

puguer = prouguer. ^) 



Escripto ao lado de í ou è, as abreviaturas ♦ - s ~ equivalem 
a ra, re, ro 

(18) aiít = antre out~ = outra. 



cõt' e cõt~ = contra 



sob' = sobre. 



Um f longo, traçado, equivale a -ser nas palavras 

(19) quif = quiser fuiç = serviç 
quifdes = quiserdes fuir = servir; 

c invertido significa con em osentir; 9 é ws nas palavras seguintes 

(20) deç = deus (também occorre d's) teç = teus 
me9 = meus U9 = vus. 

Além das abreviaturas citadas notei ainda : sca = sancta ; scaren= 
sanctaren; wro ==nostro; -Xjpo-Christo. — Nada mais. 



1) No. CM encontro ainda consagnd = consagrand. 

2) Por costuma andar escripto sem abreviatura. 

3) Não admira que os copistas italianos trocassem ás vezes p e p, 
escrevendo -^ugiier ^uar. Mas o restaurador de textos não devo sanccionar 
taes erros. E crime de lesa -critica imprimir perugtier peruar. — Vid. 
Res. Bibl. No. 76. 



— 167 — 

§ 139. Notas marginaes em cursivo. — Rara é a folha do 
cancioneiro em que não se lê uma nota mais ou menos interessante 
em cursivo.^) 

Divido -as em três categorias: 1°) meras correcções de erros; 
2°) avisos practicos do escrevente ou revisor para o pintor das 
maiúsculas e copista da notação musical; 3°) reflexões de vários 
leitores que se entretiveram a recamar a obra dos antepassados 
com glosas, ora serias, ora galhofeiras. 

§ 140. As da primeira e segunda classe parecem todas da 
mesma mão. 2) De uma letra muito fina, miudinha, fácil de rasurar, 
foram traçadas por quem, tendo o dever e o empenho de não afear 
o códice, calculava que seriam apagadas por meio da raspadeira ou 
de corrosivos, mal tivessem cumprido o seu destino. — Devem ser 
portanto obra do próprio escrevente (a quem estou disposta a attri- 
buir as correcções, executadas sem auxilio de notas marginaes); 
ou então provêem de pessoa, incumbida por quem mandara col- 
leccionar as trovas, de rever o treslado e vigiar pela sua ab- 
soluta fidelidade. Neste caso seriam também do revisor, e não 
do escrevente, as minúsculas lançadas, com a mesma tinta adel- 
gaçada e de traço igualmente fino e elegante, nos claros deixados 
abertos para as iniciaes de côr. Ou então a calligraphia de ambos 
era semilhante a ponto de hoje se confundirem. Fallando do revisor, 
deixarei ao critério do leitor, o distinguí-lo ou identificá-lo com 
o 'escrevente. Varias considerações levam -me a acreditar na activi- 
dade de ambos. 3) 

Esse cursivo é evidentemente da idade do códice. Parecido a 
todas quantas amostras de gothico cursivo se vêem em tabeliãs paleogra- 
phicas, aproxima -se muito da do Septenario de Alfonso X.*); é quasi 
igual ao typo empregado na versão portuguesa da Crónica de Espana 
que se guarda na bibliotheca regia de Madrid,^) e ainda a outra 
mão que lançou notas em livros de registo da chancellaria de. 
Affonso III., distinguindo -se comtudo de todas pela maior finura, 
pequenez e formosa regularidade do traço. **) 

1) Os editores antigos repararam apenas em algumas das mais salientes. 

2) Isto com pouquíssimas excepções, a que mais abaixo me refiro. 

3) Em todo o caso, o trabalho fez -se em dois tempos. 

4) Orundriss I, p. 174, Tab. IV. 

5) Marca 2-H-3. — Vid. Ramon Menendez Pidal Crónicas No. 8. 

6) Foi o Snr general Brito Rebello , conhecedor distincto e frequentador 
assiduo da Torre do Tombo, quem teve a bondade de me informar ultima- 



— 168 — 

§ 141. Das emendas posso tratar summariamente, sem grande 
dispêndio de palavras, porque as tomei na devida consideração, 
no acto de redigir o texto, prestando contas nas notas que o 
accompanham , ao fundo das paginas, i) posto que sem me espraiar 
demasiadamente sobre minúcias, de pouco ou nenhum peso. 2) Não 
dediquei p. ex. nota especial a cada espaço onde uma lettra foi 
supprimida por meio de rasura; cada palavra que se destaca com 
tinta um pouco carregada sobre pergaminho raspançado; cada 
inicial indicada apenas em minúsculo; cada correcção que apparece 
em duplicado, primeiro á margem, ou entre linhas, e depois, 
repetida no texto. 

O leitor possue, na pagina fac-similada e na obra de Ayres 
de Sá amostras que podem servir de bitola para avaliação tanto 
da somma de trabalho e cuidado expendida pelo velho copista e 
seu revisor, 3) como também da exacção com que aproveitei todos 
esses elementos.^) Isso emquanto a Academia não publicar uma 
edição heliotypica. 

O systema adoptado pelo escrevente e revisor na rectificação 
de erros involuntariamente commettidos, não se afasta da praxe, 
sendo em tudo igual ao que vigorou na execução do Cancioneiro 
de S. Maria. 5) 



mente d' esta coincidência. É verdade que, na opinião d'elle, as notas do 
CA são posteriores ao texto. 

1) Vol. I sob No. I: Texto e Variantes. 

2) Ponho ao dispor de quem os quiser utilizar todos os meus aponta- 
mentos. 

3) Nas oito cantigas reproduzidas por Ayres de Sá ha 25 emendas: 
4 letras completamente eliminadas; 6 parcellas rasuradas e em seguida 
retocadas; 5 igualmente rasuradas e corrigidas, subsistindo ainda, á margem, 
o padrão para as emendas; 6 accrescentos ainda não introduzidos no texto; 
3 letras riscadas e pontuadas; e um accrescento intercalado directamente 
no texto. 

4) Compare -se as Notas que accompanham as cantigas 257 — 264 do 
CA com as que lhe foram dedicadas pelo auctor de Frei Gonçalo Velho 
a p. 132 — 140. Ainda assim a sua reproducção não é de modo algum 
»quasi« photographica, visto que desenvolveu as abreviaturas, acentuou vogacs 
onde o julgou de necessidade, collocou o signal til onde deve estar segundo 
a graphia moderna, e indicou entre parentheses as letras supprimidas por 
elisão: tudo isso não sem errar. — Cf. Res. Bibl. No. 76. 

5) Não sendo poucos os erros de escripta rectificados no CA, parece - 
me todavia, pelas notas que accompanham as Cantigas de S. Maria e pelo 
próprio texto, que os amanuenses do Sábio escorregaram mais vezes. 



— 169 — 

Reconhecendo erros durante o trabalho, o copista emendava- os 
acto continuo, conforme indicam palavras de letra igual á do texto, 
accrescentadas ou antes entaladas no próprio logar e numerosos 
trechos curtos, de uma só lettra até vinte ou mais, escriptos sobre 
pergaminho respançado, sem que á margem se descubra em cur- 
sivo a emenda, ou signal de que lá estivesse. i) Outras vezes, 
somnolento ou menos bem disposto para a tarefa, contentou -se 
com simples cancelação de letras sobejas. Na maioria dos casos 
os erros foram todavia reconhecidos durante a revisão final. Onde 
se tornava necessário substituir passagens, as emendas eram então 
lançadas á margem, accompanhadas de um signal de chamada 
(traço obliquo, ás vezes com dois pontos no fundo; dois tracinhos 
oblíquos, ás vezes ligados por um travessão) que se vê repetido 
no texto, no logar competente. Muitos exemplos ha de que estas 
emendas foram attendidas. Raspançado o trecho errado, era intro- 
duzido o que se lia e lê á margem. Isso com mais ou menos exacção, 
empregando -se abreviaturas ou resolvendo -se as do revisor, 2) con- 
forme a opportunidade, e não sem se commetterem enganos novos 
de ambas as partes. ^) A miúdo as rectificações necessárias foram 
porém desattendidas, evidentemente porque o trabalho parou, sendo 
obrigação do editor moderno o aproveitá-las.*) No meio do texto 
nota -se, além d' isso, frequentemente letras supérfluas, canceladas 
e subponteadas — o que indica estarem condemnadas á suppressão. 
Onde os cortes abrangem syllabas ou palavras inteiras, não passaram 
desapercebidos aos ajudantes de Lord Stuart e Yarnhagen; mas quasi 
sempre, onde se trata de uma única letra. 



1) De longe em longe aconteceu deixar rasuradas palavras que exigiam 
substituição, sem preencher a lacuna, quer fosse no texto, quer á margem. 
Vid. 240, 7. 

2) Onde á margem encontro: qro bê sofrer porê q'sestes , vejo no texto 
quero hen soffrer poren quisestes. Na cantiga CA 258, 15 o escrevente 
copiara e tios dix o grand amor que ei. Junto a que ha chamada, á 
margem ló-se uos de sorte que o editor deve imprimir e vos dix' o grand' 
amor que vos ei. 

3) Na cantiga 259, 9 o copista enganou -se. O revisor, ao lançar á 
margem a emenda uos qro muy gran 6ê, omittiu a palavra eu. Notando 
isso, o corrector, tendo respançado o trecho errado, escreveu uos eu quero 
muy gran ben. 

4) O leitor encontra dois exemplos no nosso facsimile. Uma vez o 
escrevente posera ouuefflí, 15, omittindo o e final, que apparece á margem; 
a outra vez 15, 3 escapara {re)cey., em logar de reçeey., sendo riscado 
cey e lançado á margem çeey, ambas as vezes com chamada. 



— 170 — 

Dão prova do escrúpulo com que o revisor procedeu os casos 
nada raros em que substituiu uos por uus. Igualmente muitos 
onde cortou vogaes no fim de palavra que haviam de ser elimi- 
nadas no canto e na contagem das syllabas, segundo o systema 
arithmetico em vigor entre os trovadores, embora, ao nosso ver, 
não estragassem o metro, dando -lhe pelo contrario mais alguma 
amplidão e elasticidade. Também ha exemplos de o escrevente, 
insurgindo -se contra a fidelidade litteral que lhe fora recommendada, 
haver corrigido falhas e erros evidentes do original — cortando 
syllabas que, sem serem precisas para complemento do sentido, 
estragam o metro — arbitrariedade que levou o consciencioso revisor 
a re -introduzi -las novamente. Veja-se a cantiga 257, 8 onde no 
texto se lê pêro uus amo mais camin nen ai, e á margem 
fero que. — Não está na nossa mão verificar quando o revêdor se 
enganou. Em todo o caso as suas lições são algumas vezes ina- 
ceitáveis. Na canção 11, i8 riscou p. ex. o adverbio ia, sem o qual 
o verso claudica. Havendo no CB um ia sobrecellente no verso 
immediato, imagino que o erro provém do original primeiro. Ahi 
haviam escripto a palavrinha por engano nos versos 18 e 19; can- 
celaram em seguida o segundo. O copista omittiu-o por isso, e o 
revisor, não encontrando no apographo nenhum ia riscado, traçou 
precipitadamente o da linha 18. 

§ 142. Segue a lista dos pequenos erros, que foram marcados 
durante a revisão, mas não sanados, porque são esses que mais 
facilmente escapam á vista de quem lê, ^) 

5, 27. O copista escrevera logo. O revisor riscou e pontuou a vogal 
do fim, para indicar que devia ser raspada.^) 

11, 5. No texto temos qeu eu non sei, achando -se cancelada a palavra 
eu que estragava o metro. 

15, 3. Encontrando no texto re cey, o revisor teve de lançar á margem 
a emenda {re)çeey. 

18, 4. Está escripto me aqueste; mas cancelado o e de me. 

18, 6. O escrevente pôs comigo. Em seguida, a primeira syllaba foi 
traçada. 

19 , 23. A letra final de soffro anda marcada com um ponto. Por isso, 
eu devia tê-la supprimido. 



1) Omitto em geral as correcções, lançadas á margem, das quaes ja 
me occupei nas notas que accompanham o texto, referindo -me a ellas 
somente onde tenho de retocar alguma indicação menos precisa. 

12) Se o primeiro houvesse reconhecido o erro no acto de escrever, 
servia -se logo da raspadeira, sem recorrer a um processo muito mais de- 
morado. 



— 171 — 

26, 7. No texto está ela. A suppressão do a, que é absolutamente 
necessária, foi prescripta do modo usual pelo revisor. 

37, 14. Querendo escrever poder se poderei, o copista metteu duas 
vezes poderei. Reconhecendo o lapso, o revêdor pontuou as ultimas letras 
da primeira palavra. 

40, 19. Também a final de ualuera está pontuada. Devemos portanto 
ler valver\ conforme indiquei, incluindo o a entre parentheses. 

42, 4. Depois de uos, acha-se esoripto um «9 supérfluo, sendo a 
suppressão indicada como de costume. 

42, 23. A final de otiuera está traçada e marcada com o ponto. E pois 
correcta a lição ouver' que adoptei. 

42,31. O copiante enganou-se, escrevendo oyredes. Em seguida 
pontuou -se a syllaba re. 

43, 23. Fallei, como se acha no pergaminho, tem o segundo l marcado 
a ponto. 

44, 7. Este verso tem um ar supérfluo, riscado para que o rasurassem. 
50 , 14. Em logar de prend, o copiante escrevera porend; a letra inútil 

está pontuada. 

53, 27. No original lê -se: de me matar ou de ms guarir. O segundo 
de está assignalado como de costume. 

81 , 2. Aqui o lapso consiste em terem introduzido quatro syllabas 
inúteis , pondo : e non lhe lo ouso dixer quer eu ia mais negar. Varnhagen 
imaginou que saltando de um verso para o seguinte, o copista omittira o 
final do primeiro e o principio do segundo. Diez , observando que a estrophe 
está completa, quis riscar dixer quer eu, emenda que satisfaz, no metro e 
no sentido. Mas ainda assim não a podemos aceitar, visto que os amanuenses 
pontuaram as palavras ouso dixer., lançando á margem uma cruz para chamar 
a attenção da pessoa a cujo cargo ficava a ultima correcção dos erros notados. 

83, 2. Sobeja a syllaba ben, antes de querer ben. Por isto está ris- 
cada; emenda á qual Varnhagen se cingiu. 

85, 17. Um e no principio do verso, antes da formula per boa fe, 
está marcado com o pontinho que indica suppressão. 

93, 4. A final de mundo acha-se marcada. E esta é a única emenda 
de copista, que Lo rd Stuart teve em conta. 

95, 6. O erro mio foi apontado , estando riscada e pontuada a ultima letra. 

96, 15. O copista commetteu erro, pondo mui gran. Varnhagen 
reparou no traço que inutiliza a primeira syllaba. 

96, 27. Em seria por sem, a necessidade de raspar o i está figurada 
como de costume. 

103, 9. Um e entre donas e parecer tem o signal que o condemna. 
Varnhagen executou a ordem. 

105, 20. O copista enganou-se principiando des, antes de sempre. 
Reparando no lapso, parou e riscou de, pontuando -o. 

117, 13. Em logar de ai escreveu qual, tendo de riscar e pontuaras 
letras do principio. 

117, 14. Pensando ainda no verso anterior escreveu ogeu e teve de 
inutilizar og. 

129, 18. Pelo mesmo motivo temos um ia erróneo antes de nunca, 
mas traçado e pontuado. 

129, 24. A final de posso e conselho, por não contar por syllaba, foi 
riscada e marcada. 



— 172 — 

133,25. Tendo de C0Y>\a.Y perderia o copista enganou -se, escrevendo 
poderia. Reparando no lapso pontuaram o o, e emendaram o p, dando -lhe 
a forma p. 

134, 7. JEWo, como o copista deixou escripto, foi abreviado, riscando- 
se o e e pontuando -se o o. 

139, 2. No texto wem, com a final pontuada. Á margem, o. — Varn- 
hagen pôs correctamente vejo. 

159, 6. Na rima 7nin a nasal está riscada, emenda necessária que 
por descuido não observei. 

167,6. A conjuncção e, antes de g'?^^, está pontuada, conservando- se 
a final de falasse. Ainda assim teremos de ler falass' e que se doesse, 
conforme imprimi. 

167, 26 e 28. O escrevente começou as findas com c minúsculo. Por 
isso o revisor lançou á margem duas vezes C grande. 

167, 30. O lapso ren dixer ren obrigou -o a cancelar a ultima palavra. 

170, 12. Em cuido a vogal do fim está pontuada. 

170, 16. O lapso deo obrigou a riscar e pontuar o. 

171, 19. Em ouuesse sobeja o e final, condemnado a desapparecer. 

172, 10. Estando riscado e pontuado o pronome eu, devemos lêr ca 
estou de vos como vus direi. 

175, 1. O escrevente posera de uus eu ueer. Riscaram -lhe o eu. 

179, 12. Em ouuesse a final está traçada e pontuada. 

183, 15. E o conselho ia o eu hy filiei, estando vigorosamente traçado 
o hy. Por isso mesmo Varnhagen já o supprimiu. 

203, 6. O copiante escreveu nenen. A primeira syllaba está riscada 
e pontuada, intimação a que Varnhagen obedeceu. 

203, 8. A final de quando, supérflua por não formar syllaba, foi 
cancelada e pontuada. 

217, 1. Principia J., e non Ay. Corte e uma cruz á margem 
mostram que o escrevente ou o revisor notou o erro. 

231 , 18. Em logar de ei, o copista escreveu sei, erro emendado na 
forma do costume. 

232,14. Querendo por: e dereit' é de sempr^ andar assi enganou -se. 
pondo e dereit e dandar sempr andar assi. Não falta o corte, nem os 
pontos. 

234, 19. Deante de poren um e supérfluo está traçado e pontuado. 

238, 18. Em guarria, o primeiro r está marcado. 

244, 9. A final de visse teve de ser riscada. 

245, 4. Querria, seguido de agora, contando por duas syllabas, tem 
a final marcada. 

246, 6. Depois do pronome 11 ha espaço em branco. A margem: ousey. 

247, 1 — 2. O escrevente copiou que mui de grado querria faxer eu 
hua cãtiga por mia sennor. O revisor traçou e pontuou o o de grado, 
substituindo - o á margem por eu; no segundo verso riscou eu; lançou á 
margem tal; chamadas entre hua, e cantiga. Mas alguém, não approvando 
a correcção, tornou a escrever eu hua catiga (sic) por mja sènor. 

250, 7. Tendo escripto mele, em logar de me ben, o revisor pontuou 
as ultimas duas letras, acrescentando á margem a palavra ben (e não que 
ben, como se diz a p. 488). 

250, 21. Na palavra dissesfsje sobejava o e final, por não contar por 
syllaba. Está por isso marcado. 



— 173 — 

251,15. Querendo escrever nõ an, o copista enganou -se, começando 
com a, letra que está riscada. Varnhagen teve em conta esta emenda. 

252, 12. Em quero a vogal do fim está riscada e pontuada. 

252, 14. Sobejando * depois de vi, foi preciso annullá-lo. Varnhagen 
reparou na emenda. 

252, 17, A ultima letra de filio, sujeita á elisão, foi pontuada. Depois 
de filho seguia ui, riscado e substituído por hy. 

253, 7. O mesmo aconteceu com moiro. 

255, 5. Tendo de pôr ca me queria ben, o copista escreveu ca me 
que ca me queria. As três syllabas repetidas por engano foram traçadas. 
255, 14. Traçada a final de perdudo. 

255, 20. E a de gaano. 

256, 4. Eu, deante de direi acha -se cancelado. Varnhagen realizou 
ã emenda. 

257, 2. Depois de escrever a uerdade vos direi sennor, o copista 
reparou no seu engano e riscou da e direi, ficando a uer de uos sennor. 

258, 6. O d! inicial foi pontuado e riscado. Mas esta emenda não 
significa devermos ler e vos casaren. A nota D refran, lançada á margem, 
mostra que o copista se enganara só em escrever de tinta preta e como 
minúscula a inicial do refram. 

258, 16. O pronome relativo que, omittido entre amor e ei, foi lançado 
á margem pelo revisor. 

264, 4. Tendo -se escripto a qtie o roguei, houve necessidade de riscar 
e pontuar o pronome o. 

265 , 25. Em coita damor tiveram de cancelar da, restando coita mor 
(= coita 'mor ou coit' amor). 

283, 9. Escapando las das, foi preciso pontuar o primeiro vocábulo. 
286, 18. Em beno sei sujeitaram ao mesmo processo o o erróneo. 
294, 1. Em desquando temos a final pontuada. 

298, 14. Em sei, a inicial. 

299 , 2. O pronome eu, antes de muy coitado, está pontuado, por deturpar 
o metro. 

301, 5. O segundo l de fallar tem ponto de suppressão. 
305, 2. Em agentes, por gentes, ha ponto por baixo do a. 
307, 4. Igualmente, na final de graça. 

§ 143. Nenhuma d' estas emendas obriga -nos a postular que 
o revisor se serviu, além do original copiado, de segundo exemplar 
mais correcto. 

Outras correcções ha, porém, de caracteres maiores, grossos 
e rasgados, que parecem accusar outra mão, bem mais moderna, 
e também proveniência diversa. São as que se referem ás cantigas 
260, 251 e 253. E como todas se acham dentro de um espaço 
circumscripto, no cancioneirinho individual de Pay Gomes Charinho, 
é possível que derivem não da phantasia de um leitor, mas da 
comparação com outro texto. Possível, mas de modo algum certo. 

Quanto á estrophe inteira, accrescentada a uma poesia da 
mesma Secção XXVII (No. 250) estou tão pouco segura d' esta 



— 174 — 

interpretação que ao redigir e rever as provas do texto i) ainda a 
quis attribuir ao copista, embora a letra a distancie da mão que 
escreveu as emendas. O mesmo vale da nota vacat, junto á canção 
253*» 2) pela qual alguém (copista, revedor, leitor ou collacionador) 
quis enunciar que a poesia é repetição da 248» 3). 

§ 144. Na segunda ordem de notas — avisos ao illuminador — 
entram em primeiro logar todas as maiúsculas, em principio de 
cyclo, cantiga, estrophe, refram ou fiinda, a que já me referi. Para 
que o artista não desacertasse quanto ao tamanho das maiúsculas, 
destinadas ao refram (em casos onde este se destaca pouco do corpo 
das estancias, sendo de metro igual e de uma só linha) e quanto 
ao typo que competia aos raros remates com musica propriamente 
d'elles, vem depois, em 21 casos, a palavra fijda, com til ou sem 
til sobre a primeira ou segunda vogal ^), e 10 vezes o vocábulo 
rrefran, reffran,^) precedido aqui e alli com um ligeiro esboço da 
letra que havia de ser pintada. Alguns menos delicados podiam 
ser de outra mão. Uma vez, referindo -se a um E, em principio 
de estrophe, destinou -se que pintassem um e altuxo (CA 92).^) 
Notarei ainda a palavra Outra entre as canções 102 e 103. Bem 
precisa era: tão chegadas estão uma á outra, sem as usuaes três 
linhas de intervaUo! A intenção de um simples Notabene (Nta) 
ao pé da 212* escapa -me, naturalmente. 



1) Vid. p. 488 do Vol. I. 

2) Vid. ib. p. 486. 

3) A minha interpretação de vacat por está de vago = sobeja discorda 
da que foi proposta, ha pouco, pelo único perito com quem troquei palavras 
a respeito das notas marginaes. O já citado S>ir Brito Rebello que olhou 
com viva curiosidade e critério superior para o velho pergaminho julga que 
vacat significa falta, ou está vaxío, e refere a nota ao claro, deixado a principio 
da cantiga, para o illuminador ahi pintar em cores um o grande. Mas estes 
claros repetem -se mais de cem vezes e mal podem ter surprehendido o 
leitor, por pouco attento que fosse. O caso da repetição, pelo contrario, 
é único, merecendo por isso uma nota. 

4) Vid. Cantiga 95, 101, 102 (três vezes) 104, 106 (duas vezes) 115, 
132, 133 (duas vezes) 134, 135, 137, 138, 139, 147, 159, 202; e 172, 
como tenho de accrescentar. 

5) Vid. Cantiga 200, 217, 222, 224, 235, 244, 245, 258, 261; e 
também a 225» onde por descuido não o marquei. 

6) No CB ha junto á cantiga 266 (=: 252) a nota cartuxo. Será erro 
por: o altuxo'? Ou nome de auctor alias desconhecido? — Vid. Cap. IV, 
Miscella 41. 



— 175 — 

§ 145. A terceira ordem de notas marginaes offerece maior 
interesse. Foram, pelo menos, cinco os leitores que inscrev^eram as 
suas observações no códice, rasgada e caprichosamente, em letra 
pouco cuidada, sem as considerações estheticas e practicas que 
guiaram e moderaram os escreventes profissionaes. Três pertencem 
ao século XV. Dois entre elles tocam talvez os annos de 1500. 
O ultimo annotador deve ter manuseado o volume em meado do 
sec. XVI, como já deixei explicado no capitulo anterior. 

Algumas d'estas apostillas estão mutiladas pelo aparado das 
margens. Varias são indescifraveis. Para mim, pelo menos. 
O erudito escriptor que obsequiosamente conferiu, á ultima hora, os 
meus decalques com os originaes, achou -os imperfeitos nos três ou 
quatro casos em que não atinei com o sentido, e propôs duas 
correcções valiosas que me apresso a introduzir neste paragrapho. 

1°) A letra que julgo mais antiga, lançada ainda com certa 
descrição que mostra respeito pelo antigo monumento, aproxima -se 
bastante do gothico- cursivo empregado pelo amanuense, de modo 
tal que o S"'' Brito Rebello se mostrou disposto a datá-la do sec. XIV. 
Mas evidentemente ella ap parenta mais idade do que tem. Pelo 
conteúdo de uma das annotações, não pôde ser anterior ao 2° quartel 
do sec. XV. Refiro -me á que diz, com relação ao desempenado 
trovador João de Guilhade: deste aprendeo joam de Mena.^) Já 
expliquei quem em Portugal travou primeiro relações com o famoso 
auctor das Tfexentas, tantas vezes citado de 1450 em deante pelos 
poetas palacionos da segunda época lyrica, sem querer, está claro, 
affirmar que foi elle quem escreveu positivamente a nota em questão 
e ainda a que trata de fina outra trova do mesmo auctor. 2) 

2°) Um artista estudioso, amador sincero e serio dos versos 
plangentes do velho Portugal, distinguiu por meio dos epithetos 
hoa, mui boa (ou muito boa) e mui muito boa, precedidos ás vezes 
do substantivo abreviado C {antiga) umas 18 trovas que mais lhe 
agradaram, posto que em grau differente. 

Usa de letra firme e rasgada, talvez do fim do sec. XV. 
A maiúscula M, que occorre na nota lançada á margem da f. 97'',^) 
assemelha -se á que figura na estrophe intercalada na 250'. Registo -as 



1) CA 232. 

2) CA 231. 

3) CA 64. 



— 176 — 

respectivas notas como provenientes de uma só mão, sem desconhecer 
que ha differenças visiveis de graphia entre os bb e mm, a ponto de, com 
certa dose de subtileza graphologica, ainda ahi se poderem distinguir 
dois ou três leitores. As poesias que achou dignas de louvor são 
deSomesso (No. 24), Corpancho (64), Ruy Queimado (129); duas 
de Praga (3 e 10); três de Pay Gomes Charinho (250, 259 e 260); 
cinco de Torneol (71, 78, 79, 80, 81) e cinco do Burgalês (86, 87, 
88, 93, 104). Sem esquecer que de gustibus non disputandum 
(ou a f aliar com o bom povinho de Portugal: se não houvesse 
gostos, que seria do aonarello?) sempre direi que entre as que gaba, 
ha varias que realmente merecem distincção (64 , 71 , 260). ^) 

3°) Mais grosseiro pela graphia e linguagem, pelo pensar e o 
estylo, apresenta- se um terceiro annotador, amigo de philosophar 
á patusca 1 rindo jovialmente. Attribuo-lhe o principal contingente 
das notas: duas dúzias de observações, espalhadas pelo códice fóra, 
desde a primeira até á penúltima cantiga. Ei-las aqui, resolvidas 
as abreviaturas: 

1. diz verdade (1, 21), 

2. este ahia enveja aos que via morrer (2, 2), 

3. esta tijnha sua alma mal empregada (2, 24), 

4. faxia lhe pesar este em -na muito am,ar (13, 3), 

5. ora pois fazêlho (15, 28), 

6. muito pode alia fé (16, 6), 

7. heher sobre o cheiro (16, 4), 

8. estaa (ou estas) bem satisfeito (17, 7), 

9. bofe (17,28), 

10. mas muito (18, 17), 

11. matallo (18, 28), 

12. este leixa os . . . a deus (20, 28), 

13. calar (21, 11), 

14. Uma palavra illegivel (21, 22), 

15. outro dia te verá (22, 17), 

16. m^ylhor e muito dixelho logo (23, 7), 

17. ergo (27, 28), 

18. guarte e calate (28, 17), 

19. latim, (29, 20), 

20. [este] quer mal a quem quer bem a sua amdgafe tnjal a quem a 
mal quer (165, 1), 



1) Leio boa ao lado das trovas 3, 10, 24, 93. G. boa junto a 78, 
79, 80, 81, 86, 87, 88; muj boa á margem de 71; mtijto boa 104 e 129; 
e ainda no alto da f. lOO"", ao pé da cantiga 260, com quanto reste unica- 
mente a parte inferior da escripta; C. Mujto boa 64 e 250; e mui mujto 
boa junto á 259* de Charinho. — No texto omitti fallar da nota que se 
refere aos Nos 71 e 260. 



— 177 — 

21. respondeolke (230, 4), 

22. trobasses tu ben e non lhe pesara (232, 9), 

23. gabar -sse me quer (232, 18), 

24. andae era maa u vades (233), 
2õ. Nota illegivel (233, 6), 

26. se a non visse . . . perdia o ssem . . . (246, 21), 

27. a johan de . . . (259, 6), 

28. e por este se disse: guardado he que[mj deus guarda (288, 25)^ 

29. ao demo ao demo o amor (309, 25). 

Como se vè, a maior parte d' estas nótulas acha- se no prin- 
cipio do volume. O génio timido e submisso do lacrymoso auctor 
do segundo cancioneirinho, que ainda hoje aborrece ao leitor, im- 
pacientou particularmente o glosador, provocando a sua hilaridade. 
Ora apoia ideias e resoluções do poeta namorado, que se queixa 
do Amor, exclamando, diz verdade (1); muito pode alia fé (6) ou 
bofe (9). Ora dirige -lhe bons conselhos, não isentos de ironia, 
sendo callar! (13) ou gixarte e callate! (18), ou ainda: mylhoo- e 
muito dizêlho logo! ou então andae era maa u vades (24) o 
curativo que recommenda ao receoso que não ousa fallar á sua 
dama. Onde"" assenta ora pois fazelho (5), ou com maior sem- 
ceremonia matallo (18), está a exhortar um ciumento a realizar as 
suas ameaças de vingança, livrando -se de um rival odioso. Dizendo 
outro dia te verá (15) consola a ura ausente. Do que jm-a não 
ambicionar outro favor que não seja avistar a amada, troça com a 
formula: está bem satisfeito (8). No fim depois de ter ouvido o 
longo rosário de lamurias apaixonadas de Somesso (29), acaba, 
amaldiçoando o amor — ao demo, ao demo o amor! — As vezes 
expõe apenas num tom docente o estado psychico dos poetas: este 
havia enveja etc. (2), este tinha suai alma mal empregada (3). i) 
Invertendo a evolução real deriva um adagio conhecido dos versos 
eróticos de um trovador (28). Aponta a latinidade do vocábulo ergo 
(17 e 19) e o caracter dialogistico de uma poesia (21). 

Tem um logar aparte, por ser imaginativa, a phrase familiar 
beber sobre o cheiro (7). Usada nos conciliábulos dos devotos de 
Baccho com o fim de indicar que basta o cheiro de certos petiscos 
para provocar, da parte de um fino bebedor, abundantes libações 2), 
o nosso philosopho popular symboliza por meio d' ella os desejos 



1) Cf. 4, 12, 20, 23, 27. 

2) Como se vê a pag. 38 do Vol. I, eu desconhecia a phrase, cuja 
leitura e explicação se deve ao illustre emdito que citei. 

12 



— 178 — 

lubricamente violentos que a vista do objecto amado sugere 
ao amador. Ha mais três notas incompletas que não sei lêr 
nem interpretar. A primeira (14) consta de uma só palavra 
que se parece a porquê? Na segunda (25) reconheço hão 
dizer daran. Na terceira, muito apagada, distingue -se a custo a 
johã de . . A) 

Sobre o auctor d' estas annotações, nada sei dizer. B por v 
em abia, enbeja, bejo etc. parece indicio de pronuncia gallega ou 
minhota. Julgo todavia que se trata apenas de v com haste 
comprida. 

4°) A copla accrescentada na margem da f. 69 á cantiga 130, 
de letra em partes muito sumida, de tal modo que não pude 
entender o que falta nos últimos versos 2), pertence ao meado do 
sec. XVI e apresenta, conforme expliquei no capitulo anterior, 
alguma semilhança com a do Dr. António Ferreira. 

5°) Além d' isso ha em algumas folhas brancas exercicios 
de escripta que pouco ou nada nos ensinam a respeito do Can- 
cioneiro. Tenho -08 em conta de tentativas de um ocioso que 
se esforçou a imitar os caracteres do códice, copiando phrases 
e também certos vultos das vinhetas, com traços infantilmente 
toscos. A principio eu nutria o preconceito de os attribuir a algum 
rapaz estudante, datando -os da época em que o Cancioneiro, res- 
guardado em institutos de educação, quer no Seminário da Com- 
panhia de Jesus, quer no CoUegio dos Nobres, foi impiedosamente 
retalhado. Oppõe-se comtudo a esta interpretação o facto de 
estarem cerceados pelo encadernador. Na folha 105 acha- se 
desenhada uma mulher, um homem sentado, guitarra em punho, 
uma rapariga a tocar pandeiro, um cavaUeiro etc. Na f. 116'' lê -se, 
de tinta muito desvanecida o nome P. Oomes dasinhaga. Na folha 
de guarda (115) ha uma miscellanea de nomes, troços de phrase, 



1) Continuava com mais algumas letras cuja tinta se espalhou numa 
mancha. Na mesma folha (f. 100'') ha uma serie de gg^ postos obliqua- 
mente, a três linhas de distancia da referida Nota. 

2) O Snr Brito -Eebello leu com divergência nos versos 3 — 4: 

que mia senhor meu mal todo entender 
e qtte soubesse eu bem q o entendia 
e de 8 a 9: 

como dizia 
Nunca lhe . . . d' alma dizer. 



— 179 — 

desenhos (entre elles um cavallo- unicórnio) e garatujas. As partes 
que descifrei dizem: 1) Eu que . . .da muy nobre cidade tenho apilido . . . 
a quem te . . . que te acabo de leer; 2) que tal bitafe fez nõ foy 
muito (bis); 3) Jolmm andaua, 4) este liuro he Do colaço doimfãt, 
5) afom paag^; 6) Dotn Edumie pela graça de deus rei de Portugal 
e dalgarus. Só a quarta e sexta podiam ter por ventura a impor- 
tância que llies tentei ligar no capitulo anterior. 



12* 



Relações do Cancioneiro da Ajuda com 
os apographos italianos. 



§ 146. No Capitulo I contei como, á medida que se iam divul- 
gando os textos contidos nos apographos italianos, foram descobertas 
notáveis concordâncias com o pergaminho de Lisboa, i) e como pouco 
a pouco surgiu a hypothese de as três obras jimtas constituírem 
uma vasta compilação — espécie de Cancioneiro Geral da primeira 
época da lyrica peninsular.^) O leitor ficou inteirado de que no 
CV se apuraram umas 56 (respectivamente 57) e no CB mais 190 

1) Vid. Res.Bibl. §31, 33, 38, 39, 52, 56, 57, 68. 

2) Não integro, visto todos os três cancioneiros estarem truncados. 
Do material inventariado na Tavola Golocciana falta o seguinte: 

1°. Cantigas 9 — 13 de Diego Moniz. 

Pêro Paez Bazoco, 

Joan Velaz, 

Pêro Paez Bazoco. 

D. Juano, 

Joan Soarez de Pavia, 

Pêro Rodrigues de Palmeira, 

D. Rodrigo Diaz de los Cameros, 

Ayras Soarez. 

Um Desconhecido. 

Vaasco Gil, suppridos por ventura pelo CA, 

Gonçal' Eannes do Vinhal, 

Joan d' Aboim (311 supprido pelo CA), 

Joan Coelho (312 e 315 suppridos pelo CA). 

um Desconhecido. 

Meen Paez, 

Pêro Viviaes, 

Pêro d' Ambroa. 

Pedr' Amigo, 

Juião Bolseiro. 

Mesmo o manuscripto-pae, synthetizado pelo índice., nSo era com- 
pleto: faltavam -lhe muitos versos de trovadores que figuram nos cancio- 
neiros, como p. ex. alguns de Coelho e Buy Queimado a que se allude nas 
cantigas CV 1023 e 988. Faltavam as obras do prior de Alem quer, D. Martim 
Alvítes, a que se refere o monarca castelhano (CM 316); mas não os lais 
a NS. de Rocamador de Pedro de Sigrar (ib. 8), porque esse era pro- 
vençal ou francês. Faltavam as obras de pelo menos um trovador de 
nomeada quando se escreveu o Nobiliário antigo: Esteiram Atines de 





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-19 




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20 






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51 


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23- 


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11 


29- 


-30 




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31- 


-33 




11 


34- 


-36 


2°. 


Talvez 138- 


-139 


3". 


Talvez 273- 


-279 




11 


280- 


-294 




11 


295- 


-311 




11 


312- 


-316 


40. 


Talvez 1498- 


-1499 


5». 


Talvez 1563- 


-1564 




11 


1565- 


-1568 




11 


1569- 


-1571 


6°. 


11 


1672- 


-1674 




11 


1675- 


-? 



— 181 — 

(respectivamente 189) i) das composições conservadas no fragmen- 
tário CA, 2) e conhecedor também de que essas poesias em com- 



Valladares {P.M.H., Script. 199, 271, 272); e talvez ainda de Joan de 
Gaia que foy miiy boo trobador e mui saboroso (ib. 271 e 272). Faltam 
também cantigas de trovadores ignotos, mencionados nos textos que possuimos: 
Mestre Nicolas (CV 1116 e CB 1577); Cavaleiros d' Orxelhon (947); Joan 
Eannes (917); Fernand' Escalho (985); Martim Alvelo (1092); D. Martim 
Oalo (1094); D. Pedro de Aragão (1147); Ruy Gonçalves (917); Sueir' 
Eannes (1117); Ugo ou Diego Gonçalves de Montemor o Novo (666). 

Além d' isso houve muitos jograes e cantadores que n5o figuram nos 
cancioneiros, mas cujos nomes surgem em documentos castelhanos, portu- 
gueses e gallegos. E muitos mais iriam provavelmente surgindo , se alguém 
explorasse conscienciosamente os archivos e cartórios peninsulares. Eis os 
que posso registar, sem ter tomado parte no trabalho de exploração, e sem 
saber decidir quaes foram apenas instinimentistas e cantadores (servos exe- 
cutantes), e quaes compositores. 

Aparício Peres (ou Pêro Garcia) Jogral, (1360). — Vid. Hist. Gen., 
Provas 1, p. 140. 

Domingos, jograr, pae de Marinha Peres, fallecido antes de 1288 
{Rev. Grit. I, p. 374). 

Fernam Perex-, Marcon, jograr, natural de Castro d' Ouro (1316) ib. 375. 

Gilberto, poeta (1203). — Vid. Balaguer, Trovadores 50. 

Gomes, trovador (1161 e 1197). — Vid. Milá, Poesia Heróico Po- 
pular, p. 412; Ticknor-Julius I, p. 432; Balaguer 50; Godoy Alcântara, 
Apelidos 173. 

Gonçalo Martins, trovador de Santarém (1300). — Rev. Lus.Y, p. 136. 

Gonxalo Rodrigues, jograr^ de S. Jurjo de Torres, irmSo de Joham 
Fernandez (1285). — Rev. Grit. I, p. 375. 

Joan, jograr de Viseu (1294). — Rev. Lus. V. 119. 

Mamiel Gonçalves, trovador, sepultado em Pombeiro. — Vid. Caldas, 
Guimarães, p. 241; Ticknor-Julius I, p. 492; Milá 570. 

Martim Froax, de Guimil (1260). — Rev. Grit. I, p. 233. 

Martim das Donas (1277). — Ib. 234. 

Palha jograr (1248). — Vid. Menendez Pidal, Crónicas 68, 96, 117; 
Balaguer 50; Rev. Crit. 231; Milá 540; Col. Doe. Ined., vol. 106°, p. 6; 
cap. 236 da 4° Crónica de Hespanha. 

Pedro Bico (1247). — Rev. Crit. I, p. 374. 

Pedro jograr (1241) , casado com Marinha Bermudez. — Ib. 375. 

Pedro jograr (1297) filho de Pêro Perez Parente. — Ib. 234 o 374. 

Pedro joglar (1282). — Ib. 374. 

Pedro Soares joglar (c. 1232). — Ib. 373. 

Pedro, jograr de Alem quer (ou Camarnal) (1276). — Rev. Lus. V, 119. 

Pêro Corcova, joglar (1272). — Vid. P.M.E. Leges, p. 427. 

Ruy Fernandex, jograr (1324). — Ib. p. 119. 

Samuel trovador (1293). — Rev. Lus. V, p. 129. 

1) Cf. mais acima, p. 52 , Nota 6. A cantiga que ad libitum podemos 
considerar como pertencente ao CV ou CB é a 68* do CA, attribuida num a 
Nuno Rodrigues de Candarey (noCBl81''), e no outro aJoãodeGaia (CV1061). 

2) Todas as 57 do CV existem, de resto, também no CB. Por isso 
podemos asseverar doravante que o CA partilha 246 poesias com o CB. 



— 182 — 

mum haviam passado, desde então, de anonymas, a serem attri- 
buidas a 38 auctores determinados. 

A malfadada ordem lógica, dada ás trovas na única edição 
accessivel, impediu todavia que se reconhecesse todo o alcance 
d' essa conformidade , a qual não se restringe apenas ás matérias 
e lições, mas também á distribuição e ordem dos textos. Nem 
mesmo o artigo de Theophilo Braga, dedicado especialmente a este 
assumpto, 1) curto, inexacto, e pouco lido, tanto cá como lá fora, 
chegou a elucidar plenamente sobre o caracter d' essas relações de 
parentesco e a dependência ou independência dos apographos. 

§ 147. Para que seja possível abrangê-las commodamente num 
relance de olhos, apresento o Índice comparativo, critico e com- 
mentado, das partes em commum ao códice membranaceo e aos 
cartaceos da Itália. Conferindo esse índice 2) com o quadro dos 
cadernos, será fácil avaliar, com qne direito procurei preencher 
certas lacunas, com as 157 cantigas supplementares, tiradas ora 
do CV, ora do CB, e insertas nos Appensos\ por que motivo sub- 
sistem outros vácuos; e ainda, em que razões me baseio ao attri- 
buir a este ou aquelloutro poeta versos do CA que não concordam 
com nenhuns dos contidos nos apographos. 

Eesta-me chamar a attenção dos estudiosos para as proporções 
das folhas nos vários códices. Em cada uma das laudas do CA 
têem cabida 3 a 4 poesias. Outrotanto acontece com o CB. O CV, 
pelo contrario, creio que em harmonia com o códice -pae de que 
é transumpto, apresenta o dobro, umas 6 a 8 composições, ou 
porque realmente fosse de dimensões mais amplas, ou porque não 
encerrava a notação musical, ou porque a paginação se contava por 
folhas inteiras de quatro paginas, 2) em correspondência com os rótulos 
originários, com que se composeram os Cancioneiros trovadorescos. ^) 
Cada caderno do CA contém portanto 24 a 32 poemas, termo médio. ^) 

1) Vid. Resenha Bibliographica No. 53 e cf. No. 40. 

2) Implieite^ elle já estava contido nas notas de pagina (I) que no 
Vol. I accompanham o nosso texto. 

3) Vid. a 56* das Miseellas, relativas ao índice que segue. 

4) As miniaturas dos códices alfonsinos, os catálogos das bibliothecas 
medievaes e algumas nótulas do CB , em que occorre a palavra R" {rolo 
ou rotulo) não deixam subsistir duvidas a este respeito. 

5) No seu estado actual, os cadernos constam de 22 cantigas e meia. 
O único que possuímos completo, encerra 25. Os que constavam de vários 
cancioneirinhos, separados por espaços em branco, deviam naturalmente 
conter quantidade menor. 



— 183 



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— 201 — 

§ 149. Miscellas illustrativas do índice comparativo.'^) 

1. As poesias que precediam a folha inicial do CA, tiradas 
das 23 primeiras laudas do CB,2) são 64; mas foram 92 (em 32 folhas?) 
outr' ora quando se conservava intacto o manuscripto cuja syn- 
thestí é o catalogo de auctores de Colocci. 3) Esta parte, em que 
entram varias poesias de uma única estrophe, mas também algumas 
bem extensas, accompanhadas de longas rubricas, teria enchido os 
quatro cadernos do CA, a meu vôr, desgastados antes de 1500. 
Começando o nosso códice no meio não só de um cyclo, mas 
ainda no meio de uma poesia, havíamos de forçosamente recuar 
até onde principia o grupo, o que nos leva até o meado de ura 
caderno. E como não é provável que a compilação começasse com 
um caderno incompleto, temos de continuar a retroceder até o 
seu começo, parando então novamente no meio do cancioneirinho 
de um trovador (Calheiros CB 51). E assim por deante até 
chegarmos ao Lais primeiro, collocado propositadamente, i. é. contra 
o que a chronologia mandava, conforme a confissão expressa do 
colleccionador, aa dma {== ao cabo ou á frente*), porque era o 
melhor que foi feito. ^) Eis a razão porque formei d' esse troço o 
Appendice I (311 — 374). Aqui e sempre sob reserva, bem se vê, 
e quanto aos Lais, persuadida que não pertenceram á coUecção 
original de que o códice da Ajuda é apographo incompleto — tendo 
sido addicionados pelo Conde de Barcellos.^) 

2. Ha divergência entre o CB e a Tavola. Nesta, falta o 
nome Ayras Moniz Dasme. O de Diego Moniz vae junto á 
cantiga 12*. Encimando no texto a 8», é muito possível que lhe 
pertencessem todas as de 8 a 12, e a Ayras Moniz apenas a 6' e 7*. 



1) Estas explicações completam as notas relativas ás lacunas do CA 
que deixei intercaladas no texto (Vol. I). Também permittem rectificar uma 
ou outra interpretação que hoje considero falsa. 

2) A folha em que principia a nossa cantiga 1*, é numerada 24. Mas 
as que precedem não têm paginação regular. — Cf. Miscella 10. 

3) Obra d' elle , ou treslado de outro preexistente. Não seria caso 
único a existência de um índice antigo junto a um cancioneiro. — Cf. 
Miscella 4. 

4) Colocci traduziu a abreviatura (f ), que evidentemente está detur- 
pada por aqui {qui). 

5) Supprimo, ou abrevio, as extensas rubricas em italiano que accom- 
panham essas poesias, embora com erros, na Tavola Colocciana, porque o 
leitor as encontra reproduzidas, e commentadas na Biogr. XXXIX da Parte III 

- d' este Volume. 

6) Vid. Cap. VI, Biogr. XXXIX. 



— 202 —• 

3. A não haver erro de numeração, faltam 28 poesias 
registadas na Tavola, equivalentes a um caderno inteiro do manu- 
scripto-pae, e do nosso CA. No CB ha hoje, neste sitio, uma 
folha não contada » prohahihnente scritta, che fíi lacerata.« Além 
d' isso subsistem duas em branco (12 e 13), a ultima das quaes tem 
a marca de registo A. Deve indicar que com ella acabava o 
primeiro fasciculo do treslado. 

4. Pergunta- se naturalmente, de onde é que Angelo Colocci tiraria 
os nomes inscriptos no catalogo, caso o ms.-pae do €B já estivesse 
defeituoso, como presumo. Só posso responder que nada prova ser o 
índice trabalho original do humanista. Talvez fosse simples treslado 
(com parcellas italianizadas) de outro mais antigo que andava junto 
ao cancioneiro, ou corria solto. A não ser- assim, teve effectivamente 
á mão outro terceiro códice, desapparecido, como pensam os criticos 
italianos. Mas neste caso não percebo porque não se serviu d'elle 
com mais p>'>'oficMÍdade , preenchendo lacunas e corrigindo erros. ^) 
Só, se mandou copiar também integralmente o tal terceiro códice, 
cujo índice possuímos. 

5. O copista inverteu as duas poesias. Colocci sanou o erro, 
accrescentando h e a aos algarismos 42 e 43. 

6. O verso da folha não principia exactamente ahi, mas antes 
no meio da canção anterior, circumstancia que se repete infinitas 
vezes, mas que deixo de apontar. 

7. Divergência entre a Tavola e o CB. Segundo este, a 
cantiga 72 pertence a Calheiros, e não a Fero d'Ambroa. 

8. Repetida sob No. 1336 = CV 943. 

9. No fundo da f. 23", com que acaba o segundo caderno, 
lê -se o registo b (sic). 

10. Á margem esquerda, no canto de cima da f. 24, lê -se 32: 
talvez a paginação antiga do original, inscripta para facilitar ao 
sabiojhumanista a fiscalização do trabalho que distribuía entre três 
amanuenses. 

11. Com a ultima syllaba d' este verso principia o Cancio- 
neiro da Ajuda. A fim de destacar claramente as cantigas que 
effectivamente subsistem no nosso códice, das que colloquei nos 
Appensos, passo a inscrever aquellas na terceira casa, que lhes é 
destinada. 



1) Cf. mais acima o nosso § 58, 59, 110, 113; assim como no Cap. VI, 
a Biogr. XXXIX. 



— 203 — 

12. Na p. 39 do Vol. I deixei exposto o que penso da folha 
cortada entre a 3* e 4'. O conter ella muito pergaminho em branco 
e apenas algumas linhas de escripta, despertaria a cobiça de algum 
industrioso. A supposição que ahi dubitativamente aventei de que 
por ventura aquella lauda terá incluído ainda as três poesias im- 
mediatas do CB (que faltam no CA), com attribuição a Praga de 
Sendim, de certo não convenceu ninguém. Afigura -se -me agora 
mais provável que essas três se achassem no fim do cyclo per- 
tencente a Somesso, formando parte do caderno que desappareceu 
entre o I e o II (Lacuna 8*). D' este modo elle abrangia 25 poesias, 
em vez de 22 (ou 23, em lugar de 20, se os Nos. 138 e 139, a 
que me refiro na Miscella 14, nunc-a existiram). 

Quanto a divergências na coordenação das cantigas pertencen- 
tes ao mesmo poeta, veja-se p. ex. o cancioneirinho de Guilhade, 
o de Martim Soares, e o de Vasco Rodrigues de Calvelo. 

13. A ordem das cantigas 118 e 119 está invertida no CB. 

14. Os Nos. 138 e 139 não existem no CB. A f. 35 que é 
final do terceiro caderno, tendo a marca de registo C, está em branco. 
Erros d' estes são frequentíssimos no CB , exactamente como nas 
edições de Lord Stuart, Varnhagen, Monaci e Molteni. Penso que 
no original faltava a numeração das cantigas e que o explorador qui- 
nhentista, determinado a fazer o treslado, mandou contar e numerar 
as cantigas a priori, commettendo - se então esses erros arith- 
meticos. 

15. Divergência entre a Tavola e o CB, segundo o qual a 
cantiga 143 é de Martim Soares. 

16. Supprimo também aqui as longas epigraphes, impressas 
a p. 745, 777 e 779 do Vol. I; e observo que nutro duvidas, sobre 
se estas três peças figurariam de facto no nosso Cancioneiro. 

17. Na f. 37 encontra -se um fragmento da cantiga 496 (= CV 79), 
fora do seu logar e cancelado. É copia talvez de uma folha solta 
deslocada e que por descuido não fora retirada do caderno D, antes 
de elle ser entregue ao copista. 

18. As poesias dos dois irmãos Pêro Velho e Pay Soares e as 
de Martim Soares andavam apparentemente juntas nos rótulos 
originaes, sendo confundidas pelos copistas. Com os elementos contra- 
dictorios do índice e Cancioneiro CB não é possível destrinçar o 
que pertence a cada um. O que resulta certo é que os seis 
versos iniciaes da cantiga 31 constituem o final da ultima folha do 



— 204 — 

caderno que hoje falta no CA. Portanto essa cantiga não era a 
primeira do cyclo attribuido a Pay Soares deTaveirós, sendo obra 
sua ainda composições precisas para encher a pagina. Quaes eram, 
é o que não sei adivinhar: a tenção em que disputa com Marti m 
Soares? a chufa que tanto se semelha ao No. 142 de seu irmão? 
Ou antes duas cantigas de amor, desconhecidas? 

19. A f. 38^^ em que vae a marca de registo do quarto caderno 
(D), está em branco. As três que sobejam, não contadas, que outrora 
houve no CB neste logar e foram cortadas, conforme mostram as 
rebarbas, podiam indicar lacuna. O confronto com o índice, e 
a chamada, inscripta por Colocci, depõem todavia contra esta sup- 
posição. A favor d'ella está o CA que diverge, offerecendo quatro 
cantigas a maior; originariamente talvez incluisse mais algumas, 
visto que, depois da 39*, foi roubada uma meia -folha. Segundo 
os meus cálculos, essa continha na face o final da cantiga 39' e no 
verso, guarnecido de Vinheta e capital ornamentada, uma poesia 
ignota de Martim Soares, assim como o principio da 40". 

20. No canto esquerdo da margem superior encontra- se in- 
scripta a paginação 44. Cf. Miscella 10. 

21. Note -se a divergência na coordenação. A cantiga CA 61, 
ultima do cyclo, occupa o primeiro logar no CB (124). 

21b. Ha divergência entre CA e CB. Este offerece uma estrophe 
a mais. 

22. A cantiga CV 679 principia de modo idêntico. Mas todo 
o resto é differente. 

23. Por engano saltou -se o algarismo 139 na edição Molteni- 
Monaci. 

23b. Vid. Vol.I, p.l25. Divergência entre o CA e o CB. Este 
tem mais uma estrophe. 

24. Veja -se o que digo a p. 127 do Vol. I. Bem pode ser 
que na folha cortada fosse apenas o fim da Cantiga CA 61, sendo 
ella roubada por isso mesmo. 

25. A Vinheta da folha indica que divergindo do CB, o modelo 
transcripto pelo copista do CA attribuia as duas cantigas não a 
Martim Soares mas a outro vate. Vid. Cap. VI, Biogr. V. 

26. Aqui a Tavola aifasta-se tanto do CB como do CA, que 
estão em harmonia. Segundo ambos, as poesias de Corpancho 
acabam com a cantiga 179. Os Nos. 180, 181 et 181'' são attri- 



— 205 — 

buidos no CB a Nuno Eodrigues de Candarey, cujo nome 
falta no catalogo de auctores. 

27. Vid. p. 134 do Vol. I. Nova divergência entre o CB e o 
índice de um lado, e o CÁ do outro lado. 

28. Segundo já expliquei mais acima, e a p. 145 do Vol. I, essa 
poesia torna a apparecer nos apographos italianos, com variantes e 
attribuição diversa: no CV 1061 em nome de João de Gaia; no 
CB sob No. 1450, accompanhada do nome Pêro Amigo, a julgar 
da Tavola. 

29. Divergência entre o CB e o índice de um lado, estando 
do outro o CA, a não ser que Nuno Rodrigues de Candarey e o 
outro Nuno, de sobrenome ominoso, sejam o mesmo individuo. 
Vid. Vol. I, p. 148. 

30. Segundo CB e CA, que andam conformes neste particular, 
apenas 13 poesias pertencem aTorneol. As restantes são de Pêro 
Garcia Burgalês, cujo nome foi por descuido omittido no índice 
de auctores. 

31. Vid. Vol. I, p. 172. Divergência entre CA e CB. Pode ser que 
na folha arrancada não fosse a cantiga 185'', mas antes um pequeno 
grupo de versos pertencentes a ura trovador desconhecido. 

32. Divergência. O CB tem mais uma estrophe que o CA. 

33. Vid. Vol.I p. 200. —As folhas 51^ e 52 — 55 do CB estão 
em branco. Mas apparen temente não ha lacuna, tratando -se apenas 
de papel que sobejou do que fora entregue ao amanuense. A pen- 
última d' essas folhas, com a qual acaba o quinto caderno, traz a 
marca de registo F. A lettra E não se acha na edição Molteni, 
de sorte que ignoramos onde acaba o quarto. — Cf. Miseella 3, 
9 e 19. 

34. Na f. 56, no canto esquerdo da margem de cima, lê-se 55. 
— Cf. Miseella 10 e 20. 

36. No CB trataram as quatro fiindas como se fossem uma 
cantiga independente. Enganos d' estes ministram a prova de que 
a numeração não provém do original. 

36. Também aqui consideraram os remates como cantiga 
independente. 

37. Divergência entre CB e CA, Vid. Vol.I, p.200. Reproduzi 
todas as sete composições no Appendice VTII, a pesar de saber 
perfeitamente que na meia -folha cortada entre a 60* e 61' do nosso 
códice não cabiam tantas. 



— 206 — 

38. Divergência. Não lia aqui lacuna que pudéssemos pre- 
encher com as obras de Lobeira. 

39. Divergência. O CB tem a maior a fiinda da cantiga. 

40. Vid. Vol. I p. 288. Duvido que haja aqui divergência. Não 
é raro ficar algum espaço vazio no fim de cantigas pouco extensas. 

41. No CB a cantiga é encimada da palavra Cartuxo (de mão 
e letra de Colocci). Monaci metteu na lista dos auctores. Vid. 
§ 144. Nas ff. 67^ e 68"^ ha a letra de registo G. 

42. Na margem de cima da f. 69 lê -se a paginação 67. 

43. Divergência. O CB tem mais uma estrophe. 

44. No CB arrancaram quatro folhas depois da 69". Pelo 
confronto com a CA e com o índice reconhece -se que a lacuna 
abrangia 44 poesias que davam para encher dois cadernos inteiros, 
e não somente as folhas que faltam e mais a 70* e 71 a 74 de 
que fallei a p. 310 do Vol. I. 

44»», A lacuna do CA é menos extensa. De 44 composições 
só faltam 32, i. é um caderno e mais meia folha. — Cf. Miscella 51. 

45. Em vista da grande analogia entre os cancioneiros, estáva- 
mos auctorizados a attribuir a D. João d'Aboim o cyclo de poesias 
que precede o cancioneirinho de João Coelho. Cf. Miscella 51. 

46. No CB ha erro de contagem nos versos de Coelho. Parece 
que o cancioneirinho d' este auctor deve começar com o No. 311. 

47. O CB apresenta apenas o verso 1 6 da cantiga 163 do CA. 

48. As folhas 70'' — 74 do CB estão em branco; em fim de 
caderno, como as mais vezes. Na f. 72"^ vê -se a marca de registo I 
(e na 74 a letra M). A lettra H, que falta, entrava provavelmente 
no caderno perdido. Na f. 75 lê -se a paginação 77. 

49. Ha divergências sensiveis entre os dois cancioneiros, como 
explico a p. 354 do Vol. I. Na meia -folha arrancada ao CA mal teriam 
tido cabimento as cinco composições do CB. As que seguem imme- 
diatas no nosso volume ficam também sem correspondência no CB e no 
índice. E pois muito arriscada a attribuição a Redondo. Accresce 
ainda que uma d' essas poesias anda no CV (279) entre as de D. João 
d' Aboim. Vid. Miscella 51. 

50. No. 335 é repetição de 331. 

51. A cantiga do CA 184 é idêntica á 279' do CV. Se fôr 
realmente de D. João d'Aboim, sendo suas também as quatro pre- 
cedentes, teremos de suppôr que a meia -folha isolada do CA 
anda tora do seu logar, sendo uma das oito que originariamente 



— 207 — 

perfaziam um dos cadernos desgastados antes de 1500. — Cf. Cap. Ill, 
p. 151, Nota 1'. 

52. De 361 a 391 ha divergências notáveis entre o nosso 
Cancioneiro, o índice e CB, o qual oiferece aqui, fora do seu logar, 
dois cantares de amigo (373 e 383), retalliando os versos de Pêro 
Ma f a Ido em varias parcellas. O CA apresenta seis (respectivamente 
sete) canções de F. G. de Seabra que não entraram nos apographos 
italianos. Mas faltam -lhe três do mesmo auctor, que são privativas 
do CB. Pode ser que a folha cortada do CA contivesse inteira a 
menor das quatro series que CB apresenta, ou partes de uma das re- 
stantes. Só por este motivo é que as publico todas no Jppendice XII. 

63. Na Tavola os nomes Pêro Mafaldo (369) e Rodrigu' 
Eannes de Yasconcellos (367) estão invertidos. 

54. Esta cantiga encontra- se repetida no CV 55 {= Tavola 443), 
com attribuição a Ayras Vaz, pouco depois do nosso No. 264. 

55. Na margem inferior da f. 86"" lê -se a letra de registo L. 
Na 87', no canto exterior da margem de cima, ha a paginação 89. 

56. Com esta canção, incompleta, começa o Cancioneiro da 
Vaticana. E como até hoje não se publicou nenhum estudo com- 
parativo das partes em commum a ambos os apographos, força 
é cingir-me apenas ás informações que posso colher no CV e na 
Tavola. Ommitto por isso a paginação. Copiado de um exemplar 
bastante deteriorado, especialmente no primeiro caderno, que imagino 
desorganizado a ponto de constar de folhas soltas, cujo nexo e ordem 
era penoso reconstituir, o cancioneiro, falho das primeiras 43 folhas, 
principia com a 44". Esta corresponde á 88' do CB, o que pode 
levar a suppôr que a paginação do ms-pae do códice vaticano estava 
feita por folhas inteiras, contendo por isso duas vezes tanta matéria 
como CB e CA, conforme deixei estabelecido, i) Todavia é preciso 
não esquecer que o CB também está truncado. Mas mesmo se cada 
folha encerrass seis a sete, ou mesmo oito poesias, não cabiam em 43 
as 390 composições de que, na apparencia, carece. Elias enchiam, 
creio eu, 55 ou 56. Talvez que erros de numeração expliquem o caso. 

57. O nome Pêro Barroso falta na Tavola. Penso que por 
descuido do organizador. Não falta porém no CB que lhe attribue 
as canções 392 e 393, segundo me foi communicado em 1880 
pelo S"'' Ernesto Monaci. 

1) Vid. § 147. 



— 208 — 

58. Divergência. Esta cantiga encontra -se posteriormente com 
attribuição a outro trovador (CA291 = CV569, que corresponde ao 
No. 982 da Tavola). E como não se nota lacuna no CA, não é de 
suppôr que figurasse aqui. Em vista de um erro de contagem, 
relativo á cantiga que marquei, em duvida, com o algarismo 402*^, 
quer me parecer que na Tavola haviam falsificado por desleixo os 
assentos que dizem respeito a Cobolillia. 

69. O nome Affonso Lopes de Baião falta na Tavola. Acha- 
se, porém, no CB, de mão e letra de Colocci. 

60. Fica duvidoso se as quatro cantigas, contidas provavelmente 
na meia-folha cortada do CA, eram de Tenoiro ou de Cobolilha. 
Na Tavola e no ÇB attribuem-na a est' ultimo trovador. No CT, pelo 
contrario, estão assignadas a Tenoiro, cujo nome se acha repetido 
três vezes. Mal havia logar para versos de dois poetas, vendo -se por 
ventura na face uma poesia de Tenoiro e no verso três de Cobolilha. 
Nem tão pouco o espaço chegava para irem incluídas ainda as 
duas que seguem no CV. E sendo a primeira um caritar de amigo 
(repetido depois sob No. 319 = Ind. 718) e a segunda uma tenção 
grosseira e burlesca, estavam também pelo assumpto excluídas de 
um bem ordenado cancioneiro de amor. 

61. Nova divergência. Temos de dar um salto desde a cantiga 404 
(ou 405) da Tavola até á 41 7^ As 16 poesias de D. Affonso 
Sanches (406 — 416), precedidas de uma só de Cobolilha (405), 
não figuraram no CA, ao que parece. 

62. Divergência. Vid. Vol. I, p. 466. 

63. Divergência entre CA e CV. — Vid. Vol. I, p. 470. — O CB 
concorda com CA em attribuir aEstêvamFaiam só duas cantigas, 
concedendo ainda aJoãodeGuilhade a que corresponde a CV 37. 

64. Na Tavola falta o nome Joan Vaasques, mas não no CB, 
onde foi introduzido por Colocci. No sitio onde no CV se lê a nota 
desuni multa (entre os Nos. 43 e 44), ha no CB apenas duas estrophes 
a maior, que completam a cantiga 43, e mais outra que inteira a 
immediata. Todas ellas se encontram no CA. 

65. Divergência, e não só quanto á ordem. As rimas de amor de 
Pay Gomes Charinho faltam quasi todas nos apographos italianos 
no logar correspondente, apparecendo muito depois, repartidas em 
duas metades, no meio de cantares de amigo; mas mesmo ahi só 
em pequena parte. Oito são privativas do CA. 

66. Eepetido depois de No. 253. Cf. Cap. III, § 143 (vacat). 



— 209 — 

67. Vid. Vol. I, p. 502. 

68. D' ahi em deante a divergência entre os três cancioneiros 
é completa. No CA temos Bonifácio de Génova, logo após Fernam 
Yellio. Depois, seguem três Anonymos, cujas obras não figuram 
nos apographos italianos, e finalmente um poeta que surge nos 
dois muito posteriormente, entre os auctores de canta/res de amigo. 
No CV temos Ayras Veaz (sendo uma das suas canções idêntica á 
213' do CA, de F. Gr. de Seabra), Vaasco Perez, e logo depois um 
corte importante que abrange 27 poesias. No CB e no índice os 
auctores immediatos são Ayras Yeaz, Pêro Yiviaes, Bonifácio 
de Génova e Vasco Perez, seguidos de dois condes portugueses 
e dos trovadores coroados de Castella, Leão e Portugal. 

69. Erro por 976? 

69''. Depois da cantiga 978, acham -se repetidas no CB, por 
descuido, as estrophes 2 e 3 da 975\ 

70. Cf. mais acima a Miscella 58. 

71. Creio que houve divergências. Os sirventeses históricos 
de Pêro da Ponte talvez nunca fizessem parte do CA. 

72. A ordem das cantigas diverge nos apographos italianos e 
no CA, e também o numero de cantigas attribuidas a Calvelo. 

73. Ha no CB erros de numeração dentro d' este cyclo. 

74. Descobri tarde que a poesia CA 307 é a mesma que lemos 
no CV480, com attribuição aMartimMoxa. A não ser isso, teria 
reproduzido os de mais cantares d'elle (CV 472—483 =Ind.887— 898) 
como Appendice, na ideia de assim preencher a lacuna 26*, que consta 
de meia -folha ou três paginas e a 27*. 

75. Ha divergência entre CA e os apographos, embora pareça 
que os cantares de Roy Fernandes de Santiago se seguiam em 
todos elles aos de Martim Moxa. 



§ 150. Bem se vê que na maioria dos casos as minhas attri- 
buições devem ter sahido certeiras. A mais duvidosa é a do cyclo XVI, 
constituído pelos versos contidos na f. 75 (=47) e completado no 
Appendice XI, porque essa lauda avulsa — resto de um caderno 
perdido — se acha provavelmente deslocada, não tanto por in- 
advertência do encadernador como pela falta absoluta de indícios 
que o guiassem. Parecendo de Rodrigu' Eannes Redondo, é 
possível que na realidade esses versos sejam de D. João d'Aboim. 

14 



— 210 — 

Além d' isso ha incerteza sobre se as cantigas 448 — 451 e 226 — 227 
são de Cobolillia ou de Tenoiro. 

Quanto ás tentativas de preencher lacunas, estou persuadida 
que também quasi todas merecem approvação. Poderia mesmo ter 
completado ainda mais o nosso livro, introduzindo cantigas de Mar ti m 
Moxa nas lacunas 26 e 27, e seis de Roy Fernandes de San- 
tiago (Ind. 899 — 903 e 916) na lacuna 28, As propostas de inte- 
gração que considero problemáticas, e que desauctorizei com a minha 
própria palavra ^), são, além da que se refere aEedondo(CA415— 419), 
as que dizem respeito a Martim Soares (398), Candarey (400), 
Torneol (402) nas secções IV, VI e VII. E principalmente na XII* 
as relativas aos versos de Cogominho, Vasconcellos, Mafaldo 
e Besteiros; assim como as que inteiram o cyclo de Tenoiro- 
Cobolilha (452 — 453), Guilhade (455 — 456) e Pêro da Ponte 
(459 — 460). Umas, porque não percebo como essas cantigas haviam 
de materialmente caber no espaço restricto da folha ou das folhas 
de pergaminho que parece faltam nos legares respectivos. Outras 
por motivos intrínsecos, porque representam géneros que imagino 
alheios ao Cancioneiro da Ajuda, e excluídos por principio. 

São estas ultimas cantigas extravagantes que induzem a con- 
siderações geraes sobre o conteúdo e sobre a disposição das três 
miscellaneas conhecidas, especialmente do CA. 

§ 151. O Cancioneiro Geral gallaico -português, reconstituído com 
a ajuda dos exemplares truncados que possuímos, tão incompletamente 
como é possível neste instante, divide -se em três partes principaes: 
Parte I: um Cancioneiro de Amor, com todas as cantigas em que, 
segundo a ingénua interpretação do doutrinal antigo, elles faliam a ellas 
ou d' ellas , sendo em ambos os casos o thema da conversa o magno 
e eterno assumpto da vida humana. Parte II: Livro dos Cantares 
de Amigo, composto de versos em que, conforme a mesma fonte, são 
damas, e em especial donzellas, as que manifestam os seus senti- 
mentos e por isso mesmo podia receber o titulo de Livro das Donas 
ou Donzellas que lhe dou ás vezes. Parte III: Cancioneiro de 
Burlas, com versos de chacota, escarnho e maldizer, em que aberta ou 
encobertamente, se pecca contra o mandamento oitavo do Decálogo. 2) 

1) Vid. Miscella 16. 18. 49. 53. 60. 70. 

2) A Parte I abrange as poesias 1 — 625. Isto é CB 1—337, seguidas 
de CVl (respectivamente 2) -57, CB 338—372 e CV61— 226. — CB 343— 345 
correspondem a CV 58 — 60. 



— 211 — 

Se escrevesse a historia da litteratura portuguesa, teria de 
designar como Parte IV ou Cancioneiro religioso as Cantigas de 
S. Maria de Alfonso X, de combinação com o problemático Cancio- 
neiro da Virgem, attribuido pela tradição litteraria a D. Denis, talvez 
por confusão e talvez de direito. Nunca o juntaram todavia ás 
collecções de versos profanos, quer fosse por causa da discrepância no 
assumpto e espirito, quer também por inaccessivel. Ou mais pro- 
vavelmente, porque já existia em transumpto artístico na própria 
bibliotheca regia, para a qual se destinava, a meu vêr, o primitivo 
Cancioneiro Geral mundano. O facto de serem volumosos em 
demasia também pode ter influído na decisão, i) 

E provável que cada uma das três Partes formasse originaria- 
mente um grosso in- folio separado, e que somente nas copias 
cartaceas as juntassem, reduzindo o volume por ommissão das musicas 
e por substituição da letra de códices pelo cursivo. Os fragmentos 
contidos nos três códices encheriam bem, quando escriptos em 
pergaminho e providos de notação musical, como os alfonsinos, e como 
idealiter o nosso CA, três colossos, cada um com quasi o dobro 
das folhas que ainda hoje contamos no pesadíssimo códice da Ajuda. 2) 

§ 152. A Parte II principia onde nos apographos italianos, 
autes do No. 626, se lê a nota: Em esta folha adeante se começam 
as cantigas d' amigo. ^) A Parte III onde o No. 1329 apparece 
encabeçado pela epigraphe: Aqui se começam as cantigas d'escarnh' 
e de maldizer. E todavia preciso juntar -lhe mais umas trinta compo- 
sições satyricas (de 1300 em deante), intercaladas posteriormente 
á primitiva e ainda incompleta coUeccionação. 

§ 153. O plano original, tal como o julgo concebido, não se 
realizou comtudo inteiramente. Feita a tripartição das matérias 

A Parte II compôe-se das poesias 626 — 1299, impressas no CV de 
227 a 902. 

A Parte III vae de 1300 a 1675. Temos metade no CV de 903 a 1110, 
e outra metade no CB 374 — 442 e CV 1111 — 1205. — Os Nos 1563 — 1572 
faltam; CB 373 corresponde a CV 1110. 

1) Uma única poesia sacra, ou talvez duas, entraram no Cancioneiro 
Geral. Vid. § 63 e p. 216, Nota. 

2) Temos 1195 poesias no CV; 438 no CB; 64 no CA (depois de 
abatidas as repetições e numerações erróneas) que juntas e com as 74 que se 
perderam, sommam 1771. 

3) A epigraphe continua, fallando dos primeiros e mais antigos dois 
compositores de cantares de amigo, que juntos num mesmo rolo haviam 
ido parar ás mãos do colleccionador. Vid. Cap. VI, Biogr. XLVII e I. 

14* 



— 212. — 

colhidas durante a primeira phase da exploração, nos paços régios 
portugueses, em solares de magnates indígenas e escolas de jograes, 
o colleccionador planeava agrupar os poetas clironologicamente, até 
onde chegasse o seu saber — um século, ou século e meio, depois 
do alvorecer da lyrica palaciana — guiando -se, está claro, pela 
ordem, numeração e rubricas dos rolos originaes de pergaminho, 
depositados na corte ou guardados em casa dos trovadores e jograes. 

Esta tendência e o empenlio de apresentar juntos os trovadores que 
de facto haviam convivido e trocado entre si versos, resulta, com bastante 
clareza, do confronto das três Partes para quem, depois de têr estudado 
as biographias dos auctores principaes, passa a examinar a Tavola. A 
paridade na coordenação não só da Parte I e II, mas também da 
Parte III, comquanto esta ultima esteja menos bem ordenada, é tão 
notável que se impõe á observação mesmo do leitor leigo e desprevenido. 

Não que ella seja absoluta. O agrupamento, sufficiente mente pare- 
cido nas três divisões para que d'elle se possa inferir o systema seguido, 
varia ainda assim, sensivelmente. Se muitos escriptores apparecem 
em todos, alguns ha que, tendo figurado no primeiro cancioneiro, não 
tornam a apparecer nos seguintes. Outros pelo contrario, que nunca 
escreveram versos de amor á moda palaciana, surgem pela primeira 
vez na Livro das Donas como auctores de cantares de amigo, de feitio 
popular. Também ha poetas satyricos, que não lograram outro talento 
se não o de calumniar e injuriar o próximo, burlando, ou a serio. i) 

1) Cf. mais abaixo § 357. — Nas listas seguintes vou enumerar os auctores 
principaes que nos deixaram exclusivamente canções de amor (I); cantares 
de amigo (II); e dizeres de escarnho (III); os que cantaram de amor e de 
amigo (IV); de amor e de escarnho (V); os que nos legaram cantigas de 
amigo e dizeres de escarnho (VI) ; e os que cultivaram todos os géneros (VII). 
Deixo de lado apenas alguns de nome incerto ou dos quaes resta apenas 
metade de uma tenção. 

Vão em griffo os nomes dos poetas tratados nesta obra. Designam 
jograes os que vão marcados de asterisco; e segreis os que levam uma cruz. 

I. Poetas representados no Cancioneiro excliisivamente com canções 
de amor (29 de 106): 

1. Ayras Monix d'Asme 8. Ayras Soarez (perd.) 

2. Diego Monix 9. Osoir' Eannes 

3. Pêro Paez Bazoco (perd.) 10. Monto Fernandez de Mirapeixe 

4. Joan Velaz (perd.) 11. D. OU Sanches 

5. D. Juano (perd.) 12. Euy Oomes, o Freire 

6. Pêro Rodrigues de Palmeira 13. Joan Ayras Somesso 

(perd.) 14. Nun' Eannes Cerxeo 

7. D. Rodrigo Diax dos Carneiros 15. Nuno Rodrigues de Candarey 

(perd.) 16. Bonifácio Calvo 



— 213 — 

Além d' isso, encontram -se series evidentemente deslocadas 
e outras desordenadas, ou porque o coUector nada soubesse das 



17. *Fernam Padront 

18. D. Garcia Mendes d' Eixo 

19. O Conde D. Garcia 

20. Rey D. Alfonso XI 

21. Alfonso Paes de Braga 

22. Mem Eodrigues de Briteiros 

23. Pêro Annes Marinho 

II. Entre 87 auctores de cantares de amigo ha 26 que se occuparam 
só d' este ramo de poesia: 



24. *Ayras, o Engeitado 

25. Pêro Goterres 

26. Martim Peres d' Alvim 

27. *Ayras Veaz 

28. Abril Peres de Lumiares 

29. Pêro Velho de Taveirós. 



1. Estevam Reimondo 

2. Estevam Coelho 

3. Estevam Travanca 

4. Nuno Peres, Sandeu 

5. Mem Vasques de Folhete 

6. Fernam Froyaz 

7. Joam Garcia Sobrinho 

8. Reimom Gonçalves 

9. Garcia Soares, irmão de Martim 

Soares. 

10. *Mendinho 

11. Pêro Gonçalves de Portocarreiro 

12. Payo de Cana, clérigo 

13. Rodrigu' Eannes Alvares 



14. *Joam Zorro 

15. * Martim Campina [ou de Cam- 

pinha\ 

16. *Pero Moogo (ou Meogo?) 

17. * Martim de Caldas 

18. *Pero de Dardia 

19. * Nuno Peres ou Fernandez (Treez) 

20. *Payo Calvo 

21. *Golparro. 

22. * Martim de Ginzo 
*Joam de Cangas 

* Martim Codax 

* Fernam do Lago 
*Joam de Requeixo 



23. 
24. 
25. 
26. 



Além d' estes Payo Soares (27.), se não for idêntico com Pay Soares Velho 
de Taveirós. 



III. Auctores, cujas composições 
ou tenções de briga {Streitgedichte): 

1. D. Josep 

2. -fJoan Fernandes, d'Ardeleiro 

3. D. Lopo Lias ou Diaz 

4. Pêro Martins 

5. *ou f Picandon 

6. Ayras Perez Vuiturom 

7. Gil Perez Conde 

8. Fernam Soarez Quinhones 
!). *Diego Pezelho, jograr 

10. Martim Annes Marinho 

11. Garcia Martins 



são todas do burla, escarnho, maldizer; 

12. Garcia Perez 

13. * Álvaro Gomes, de Sarria, jogral 

14. *Joam Jograr 

15. Joani Velho, de Pedragaes 

16. Aífonso Fernandes Cubei 

17. Estevam Fernandes Barreto 

18. Joam Romeo, de Lugo 

19. Fernam Rodrigues Redondo 

20. Aífonso Soares 

21. Caldeirem. 



IV. Auctores de canções de amor e cantares de amigo: 



1. * Martim [de] Pedrozellos 

2. * Ayras Paes, jogral 

3. *Lopo jogral 

4. Ruy Martins do Casal 

õ. Fernam Feriutndex Cogombilio 

6. *Pedr' Annes Solax 

7. *Pero de Veer. 



8. Galisteu Fernandes 

9. Sancho Sanches, clérigo 

10. Estevam Fernandes d' Elvas 

11. *Pero d' Ornellas 

12. U. Gomes Garcia, Abbade de 

Valladolid 

13. Vasco Praga de Sendim 



— 214 



circumstancias da vida dos auctores, ou porque os respectivos can- 
cioneiros individuaes lhe chegassem ás mãos, depois de organizada 
a obra, sendo intercalados um pouco á aventura, entre caderno e 
caderno, ou onde havia folhas em branco. Pode ser também que 
um ou outro continuador, que já se não importava com o plano do 
que começou a obra, ignorando -o talvez, accrescentassem posterior- 
mente á toa os materiaes que lhe chegavam ás mãos. i) 



14. * Ayras Corpancho 

15. Fernam Gonçalves de Seabra 

16. Joan Lopes d' Ulhoa 

17. Pay Soares de Taveiros (?) 

18. Joani Nunes Camanês 

19. Vasco Rodrigues de Cairelo 

20. Ruy Fernandes de Santiago, clérigo 

V. Auctores de canções de amor e dizeres de escarnho 



21. Rodrigu' Eanncs de Vasconcellos 

22. Joam Mendes de Besteiros 

23. * Nuno Porco 

24. f Bernaldo de Bonaval 

25. *Juião Bolseiro 

26. Fernam Figueira de Lemos. 



1. Joam Soares de Paiva 

2. Ruy Oomes de Briteiros (?) 

3. D. Alfonso X 

4. O Conde de Barcellos 

5. D. Fernam Paes de Tamalancos 

6. Martim Moxa 

7. *Pero Larouco 

8. Martim Soares 

9. Pêro Garcia Bur galês 



11. Pêro Gomes Barroso 

12. Pêro Mendes da Fonseca 

13. Rodrigu' Eannes Redondo 

14. Fernam Velho 

15. D. Fernam Garcia Esgaravunha 

16. D. Estevam Peres Frogam 

17. fJoam de Gaia 

18. Affonso Fernandes Cobolilha 

(Cubei). 



10. Roy Paes de Ribela 

VI. Auctores de cantares de amigo e dizeres de escarnho: 

1. Alfonso de Leon (?) 3. *Fernand' Esguio, ou Esquio. 

2. f Affons' Eannes do Cotom 

VII. Poetas que escreveram cantares de amor, de amigo e de escarnho: 

15. Rey D. Denis 

16. Estevam da Guarda 

17. D. AíTonso Sanches 

18. Joam Ayres, de Santiago 

19. * Lourenço 

20. fPero d'Armea 

21. *Joam Sorvando 

22. -j-Joam Baveca 

23. Ayras Nunes de Santiago, clérigo 

24. Affonso Mendes de Besteiros 

25. Vasco Peres Pardal 

26. "fPero [Garcia] d' Amhroa 

27. *Pero Viviaes 

28. fPedr' Amigo de Sevilha. 



1. Nuno Fernandes Torneol 

2. Joam [Garcia] de Guilhade 

3. Ruy Queimado 

4. D. Joam, Soares Coelho 

5. D. Joatn d' Ahoim 

6. Z>. Vasco Gil 

7. D. Affonso Lopes de Baião 

8. Pay Gomes Charinho 

9. •\Pero da Ponte 

10. Pêro Mafaldo 

11. Mem Rodrigues Tenoiro 

12. Joam Vasques de Talaveira 

13. Fernam Rodrigues de Calheiros 

14. GonçaV Eannes do Vinhal 



1) Assim se explicariam certas irregularidades na nomenclatura dos 
poetas, a fragmentação do pecúlio de vários em mais de três parcellas, e a 
conglobação do haver de outros. 



— 215 — 

§ 154. Nem mesmo a separação dos três géneros foi levada 
a cabo. No Cancioneiro de amor, e no de Burlas o collector 
aproximou- se do seu objectivo. Mas mesmo ahi não faltam desvios 
e irregularidades. Algumas espécies raras (como sirventeses^ des- 
cordoSy prantos históricos), que em rigor não cabem em nenhuma 
das três categorias, foram arbitriariamente conservadas onde se 
achava o pecúlio mais importante do respectivo auctor. i) No Can- 
cioneiro de amor figuram p. ex. as rimas quasi inteiras de D. Denis, 
inclusive uns 52 cantares de amigo, destinados em theoria a 
entrarem na Parte II. Nessa, a confusão é grande. Ha ahi 
muita miscellanea jogralesca, i. é bastantes cancioneirinhos individuaes, 
ainda não decompostos nos três géneros typicos, offerecendo de 
mistura canções de amor, bailadas de mulheres, tenções, cantos 
de romaria, chufas, sirventeses ;, maledicências. Da Parte II podem 
extrahir-se quasi duzentas obras que completariam a Parte I. ^) Na 
III* occorrem também dispersas algumas poucas cantigas de amor. 3) 
E da r Parte devem passar para as outras duas, não poucos cantares 
de amigo e alguns de escarnho. ^) 



1) Penso nos prantos de Pêro da Ponte e Joain de Leon e nos sirvea- 
teses de Pay Gomes Charinho e Marfim Moxa. 

2) As proporções numéricas das três Partes são as seguintes: 
Entre as 625 composições da Parte I 494 são de amor. Da Parte II 

provém 179; e 7 da Parte III, o que, com mais 64 privativas do CA 
perfaz 744. 

Na Parte II (625 — 1299) ha 488 cantares de amigo. Juntando -lhes 
os 60 que andam dispersos pela Parte I, temos 548. 

Na Parte III (1300 — 1675) ha 354 dizeres de escarnho. Juntando- 
Ihes 18 da Parte I, e 26 da Parte II, sahe a somma de 398. 

A totalidade de 1690 (se lhe ajuntarmos uns sete fragmentos inclassi- 
ficáveis, de incompletos e deturpados que estão) corresponde á somma que 
resulta da addição dos 1195 números contidos no CV aos 438 de CB e 
aos 64 do CA, números que são os verdadeiros, depois de deduzidas as 
repetições e rectificadas as numerações erróneas. Vid. p. 211, Nota 2. 

3) Na Parte III são canções ou coplas do amor os Nos CV 934, 1044, 
1059, 1060, 1061, 1138 e 1139. 

4) Vid. Nota 2 d'esta pag. 215. — Além dos 58 poetas de amor, re- 
presentados no nosso volume, e cuja vida tentei elucidar no Capitulo VI, 
ha mais 19 que figuram no meio e principalmente no fim da Parte I, tal 
como ella nos foi conservada nos apographos italianos: 

1. Joam Lobeira CB 244—249 

2. Gonçal' Eaànes do Vinhal Ind. 280 — 294, perdidos 

3. Sancho Sanches [clerigoj „ 394 (= CV 4) 

4. Affonso Fernandes Cobolilha „ 404-405 (= CV15 — 16) 

5. D. Affonso Sanches , 406 — 416 (= CV 17— 27) 



~ 216 



§ 155, Quanto á ordem chronologica, o coUector ainda menos 
realizou o ideal a que visava. Bastará citar dois exemplos. Primeiro: 
D. Affonso Sanches, o filho de D. Denis (1289 — 1329), de mãos 



6. Vasco Martins 

7. Ayras Veaz 

8. Pêro Viviaes 

9. Vasco Peres [Pardal] 

10. Conde D. Gonçalo 

11. Garcia Mendes d' Eixo 
Rey D. Affonso de Leon 



Ind. 416 (=- CV27) 

,, 443 — 445 H CV55 — 57) 
CB 447—448 

CB 451 — 453 (= CV58 — 60) 
CB 454 
CB 455 
CB 456 — 466 



12. Rey D. Affonso de Castela e Leon CB 468»> — 471 



13. Rey D. Denis 

14. Rey D. Affonso XI 

15. Conde D. Pedro de Portugal 

16. Pêro Laronco 

17. Estevam Fernandes d' Elvas 

18. Estevam da Guarda 

19. Pêro d' Orneias 



Ind. 479 — 572 (=- CV80 — 155) 

„ 607 (=- CV209) 

„ 608-611 (= CV 210— 213) 

„ 612 (= CV214) 

„ 615-616 (== CY 217 — 218) 

„ 619-624 (= CV 220 -225) 

„ 625 f= CY226J. 



De 1 e 2 occupo-me em additainento ao § XXXIX do Capitulo VI. — 
Quanto a 7, vid. a Miscella 54 do índice comparativo. Registo sem o 
contar a Alfonso de Leon, por não saber se é idêntico com o Sábio e 
também porque, na verdade, nenhuma d' essas poesias cabe de direito no 
cancioneiro de amor: CB 456 é de amigo, e as immediatas são de escambo 
e burla. — No 467 é um cântico sacro. Talvez seja também dirigido á 
Virgem o No 468. Os Nos 47ib„478 são sátiras. — Mais avultado é o 
numero de trovadores de amor que surgem na Parte II, fora do seu logar, 
entre os auctores de cantares de amigo. Vários que ahi teem canções, são 
personagens que já figuraram na Parte I. Vòu numerando apenas os que 
são inteiramente novos. Os algarismos que junto, são os do CV. Omitto 
a numeração da Tavola, com medo de errar. Com relação a auctores já 
nossos conhecidos, excluo a indicação das cantigas que são repetições, re- 
gistando apenas os accrescentos: 



Affonso Mendes dos Besteiros Ind. 731 



Pay Gomes Charinho 

20. Affonso Paes de Braga 

21. Joam Mendes de Besteiros 
Martim Moxa 

Roy Fernandes 

22. Pêro Goterres 
Estevam Peres Froyam 

23. D. Gomes Garcia 

24. Per' Eannes Marinho 

25. Joam Ayras 

26. Ayras Nunes 

27. Affons' Eannes do Cotom 

28. Ayras, o Engeitado 
Pernam Padrom 
Pêro da Ponte 

Vasco Rodrigues de Calvelo 



(= CV332) 



392 — 394, 396 — 399, 402 

439 — 443 

444 — 449 

473 — 481, 483, 502 — 504 

484 — 501 

509 — 510 

511 

512 

523 

530 — 549, 551—554 

454, 459-461, 463, 465, 469 

555 

558 — 561 ■ 

563 — 565 

566 — 571 e 577 

579 — 587 



— 217 — 

dadas com seu vassallo Vasco Martins de Resende, precede o 
próprio rei, surgindo no meio de poetas alfonsinos (a f. 90 e tantos 
do CB, com obras que têem a numeração 406 — 416). Segundo: 
Ao cancioneiro de burlas antepuseram os esearnhos deEstevam da 
Guarda, valido de D. Denis e de Aííonso IV, vivo ainda em 1347, 
e portanto um dos trovadores mais tardios. Para affastar iUaçÕes 
injustificadas, cumpre -me porém repetir que esses casos mais salientes, 
e vários outros, resultam muito provavelmente de interpolação pos- 
terior, visto que nem mn só exemplo igual consta do nosso códice 
membranaceo. Também observarei que, com relação ao tempo em 
que floresceram muitos auctores que nos legaram só uma compo- 
sição, estamos completamente ás escuras. 

§ 156. É no troço do Cancioneiro Geral representado pelo CA 
que a ordem está melhor estabelecida. Considerando os appensos 
como se com efeito completassem o CA, e como preenchidos os 
vácuos que especifiíquei no CB, abstrahindo também das varias dispari- 



29. Ruy Martins d' Ulveira Ind. 588 

D. Pêro Gomes Barroco „ 592 — 593 

30. Martiin Peres Alvim „ 643 — 649 

31. Pêro de Veer „ 650 — 651 

32. Bernaldo de Bonaval „ 653 — 662 

33. Abril Peres [de Lumiares] „ 653 

34. Joam Servando „ 664 — 665 

35. Juiao Bolseiro „ 667 — 668 

36. Pêro d'Armea „ 669-681 

37. Pedr' Amigo de Sevilha „ 685 — 690 e 826 

38. Ayras Paes, Jograr „ 691 — 692 

39. Lourenço „ 693 e 706 

40. Joam Baveca „ 694 — 700 e 826 

41. Galisteu Fernandes ou Fulano Fer- 

nandes, de Galisteu „ 701 — 702 

42. Lopo „ 703—705 

43. Pêro (ou Affonso) Mendes de Fonseca „ 714 - 718 

44. Ruy Martins do Casal „ 762, 763, 767 
Pedr' Annes Solaz „ 824 — 825 

45. Martim [de] Pedrozellos „ 852 
Na Parte III surgem ainda com poucos espécimens: 

46. Vidal Judeu Ind. 1138 — 1139 

47. Joam de Gaia „ 1044, 1059 — 1061 

48. Joam Fernandes d' Ardeleiro „ 934 

Por junto, portanto, 106 cantores de amor. Entre os novos, uns^vinte são 
fidalgos e teem biographias , as quaes conto publicar mais tarde. Os de mais 
são trovadores de profissão: villões, escudeiros, cavalleiros, cavalleiros- 
villões, clérigos, burgueses. — Cf. Cap. Vil, § 357. 



— 218 — 

dades que existem entre os dois, possuimos no códice membranaceo 
as cantigas 1 — 450 1), isto é o conteúdo das folhas 10 — 100 do 
CB2), e ao mesmo tempo do ms.-pae que serviu para elaboração 
da Tavola Colocciana.''^) E nessas noventa paginas vae aquella 
porção do Livro de amor que precede os versos dos Alfonsos de 
Castella e Leão e os de D, Denis de Portugal. 

No meio d' esse meio -milhar escasso, que parece ter enchido 
18 cadernos do CÁ, ha, além das 64 canções que lhe são privativas, 
algumas secções, ahi chronologicamente bem collocadas — desde já 
seja dicto — mas que nos apographos se encontram na Parte II, 
com erro evidente.*) 

§ 157. Olhando para os assumptos, vemos que as 310 compo- 
sições que constituem o códice archaico são, na verdade, canções 
de amor, palacianas, monotonamente serias, de um convencionalismo 
hierático.^) As menos graves, em que de longe em longe um poeta 
graceja ou mesmo chasqueia de amores mal correspondidos, em 
chufa alegre, sirventês comedido, ou dizer de escarnho, são tão 
raras que confirmam a regra. Apenas umas quatro pertencem a 
esses géneros , outrora postas de parte por Yarnhagen como estranhas 
ao assumpto, designadas por Bellermann ^) como bagatellas sem im- 
portância, e apontadas também por Diez como destoando do senti- 
mentalismo abemolado que predomina no cancioneiro da Ajudai) E 
são: a cantiga contra uma rica dona raptada, de nome D. Elvira 
(No. 60); certas ironias contra D. Guiomar Aífonso Gata, a esquiva 
(142 e 143); e risotas sobre uma dona mal- ferida (281). As que 



1) Vid. p. 59 Nota 2; e Miscella 56. 

2) As folhas 1—9 eram talvez occupadas pelo doutrinal poético de 
que restam apenas bocados. 

3) Das 246 composições em commum a CA e CB, 223 encontram -se 
nos princípios do apographo. 

4) Como se vê do índice Comparativo, são os versos de Pay O ornes 
Gharinho (808 — 818 e 842), os de Pedr' Annes Solax (1219 — 1220), 
Fernam Padrom (976 — 978), Pêro da Ponte (979 — 990 b) Vasco Rodrigues 
de Calvelo (991 — 998), Martim Moxa (895) e Roy Fernandes de Santiago 
(900 — 902). 

5)^0 mesmo vale das 157 cantigas supplementaves. Já deixei enunciado 
que essas 467, com mais as 18 que poderia ter introduzido, perfaziam 
dois^terços do Cancioneiro de amor (485 de 744). 

6) Ein paar tãndelnde [Lieder] ohne Werth, p. 12. 

7) As duas cantigas sobre Santarém (CA 278 e 279) affastam-se menos 
do typo ordinário. 



— 219 — 

não faliam de amor, nem mesmo brincando, são apenas duas: um 
sirventês pensieroso em que se traçou o perfil de Alfonso X (CA 256) ; 
e outro moral (305), sobre a maldade d' este mundo sublunar. 

§ 158. Nos Appensos ha um numero bem mais considerável 
de versos, em rigor tão impróprios de um Cancioneiro erótico, que 
duvido se todos figurariam nas partes arrancadas ao CA. Se no 
corpo do volume temos apenas um por 52 d' estas excepções 
(6 de 310), nos annexos estão na razão de um por 8 (20 de 157). 

Quanto ao logar destinado a espécies peregrinas como o des- 
corclo de Nun'Eannes Cerzeo (CA 381), o sirventês philosophico de 
Pêro da Ponte (435), os louvores e prantos históricos do mesmo 
(460, 464, 466, 468), as suas heresias amorosas (409), e mesmo 
algumas ironias (359 e 375), nada posso adivinhar, repito-o. As 
bailadas bretonicas, cantadas por um coro de donzellas (312 e 315) 
formam também um género á parte. Os sons de amor de uma 
menina só, como o de Fernam Figueira de Lemos No. 331, e os de 
Ruy Queimado (413), Redondo ou d'Aboim (416), Mafaldo (434), 
Tenoiro (444 e 452), deviam, pelo contrario, ter entrado na 
Parte 11, indo para a 111 a tenção realistica de burla entre 
Juião e Tenoiro (453), assim como os escambos dos Velhos e de 
Martim Soares (395, 396 e 398), se bem que o seu teor é per- 
feitamente digno e está em harmonia com a decente gravidade dos 
verdadeiros e antigos trovadores palacianos de Portugal. 

Ainda assim, comparando essas pequenas irregularidades com 
a desordem aberta que reina no Livro das Donas, i) do qual se 
podem destacar, conforme já disse, perto de 200 infracções á regra, 
é preciso confessar que a coordenação do Cancioneiro de Amor foi 
regulada systematicamente. 

§ 159. Passando a conferir o catalogo dos poetas de amor, 
na ordem em que elles se acham enfileirados no CA restituído, com 
a lista dos que compõem a Parte II e a 111, apuram -se também 
concordâncias e semelhanças sufficientes para tornar verosimil o 
plano chronologico e a tendência de collocar, lado a lado, os versi- 
ficadores que na realidade haviam sido camaradas ou amigos. 



1) Entre as peças que citei, só as de Pêro da Fonte figuram 
materialmente na Parte II. As de mais acham -se naquella porção da Parte I 
que falta no truncado códice lisbonense. 



k 



— 220 — 

As 63 cantigas que vão á frente do nosso códice e as 88 
dos Appensos I a VI, em substituição das partes cortadas do €A, 
são de 21 vates muito archaicos, que na maioria só apparecem 
esta única vez, por se haverem restringido a celebrar damas, can- 
tando os effeitos suaves e perniciosos do amor. 

Ha comtudo neste grupo pre-alfonsino uma pequena minoria 
de poetas que também escreveram cantares de amigo e versos de 
escambo. E essa minoria occupa os mesmos togares prim,aciaes 
no Livro das Donas e tio (Jaticioneiro de Burlas. 

Como primeiros auctores de cantares de amigo apresentam - 
se, após 

Fernam Eodrigues de Calheiros (Ind. 626 — 633), 
um seu amigo 

Vasco Praga de Sendim (634 — 637), 
e Pay Soares de Taveirós (638 — 640), 

i. é o primeiro e o segundo dos poetas do CA. 
E como primeiros auctores satiricos figuram 

Joam Soares de Paiva (1330), 

Fernam Eodrigues de Calheiros (1331 — 1333), 

D. Fernam Paes de Tamalancos (1434 — 1337), 

Martim Soares^) (1357)2). 
i. é o fidalgo -trovador que é o mais velho entre quantos conhecemos 
(e apparece também na primeira plana do Cancioneiro de amor), 
seguido de perto por um dos que agora mesmo nomeei e por outros 
dois que tenho em conta de pre-alf ensinos. 

Juntos seguem no CA: Ayras Corpancho (6), Nuno Eodri- 
gues de Candarey (7), Nuno Fernandes Torneei (8), Pêro 
Garcia Burgalês (9), João Nunes Camanês (10), D. Fernam 
Grarcia Esgaravunha (11). João Lobeira anda ao par d'elles só 
no CB. Na Parte II faltam Candarey, Esgaravunha e Lobeira, 
por não serem auctores de cantares de amigo. A serie dos outros que 
enumerei, e se reúnem sem interrupção aos acima citados, vae de 
Torneei (641 — 648) ao Burgalês (649 — 650); de lá ao Camanês 
(651 — 655) e a Corpancho (656 — 663). Na Parte III" também 
caminham unidos Torneei (1371) e o Burgalês (1372), seguidos 

1) Tem o 4° logar no CA. 

2) O auctor das cantigas 1338 — 1356 Ws, D. Lopo Lias ou Diax, é 
provavelmente o heróico magnate de Biscaia, chorado por Pêro da Ponte 
no anno da sua morte (1236). — Vid. Cap. VI, Biogr. LVI e XLIV e 
Bandglosse IK. 



— 221 — 

logo de Queimada, com o qual principia no CA o grupo imme- 
diato, e de Vinhal e Lobeira, com outros camaradas dos quaes 
não subsistem canções de amor. 

Componho, por motivos practicos, outro grupo de Roy Quei- 
mado, D. Vasco Gil, Gonçal' Eannes do Vinhal (cuja contri- 
buição ao Cancioneiro de amor se perdeu, tanto no códice mem- 
branaceo como nos cartaceos), D. Joam d'Aboim, Coelho, Redondo, 
o nosso Desco7ihecido II, Ruy Paes de Ribela, Joam Lopes 
d'Ulhoa e Fornam Fernandes Cogominho, o qual na verdade, 
iria melhor á frente do grupo immediato. Na Parte II temos Vasco 
Gil (664), Aboim (665 — 677), Coelho (678 — 692), escoltados por 
um Estevam Rei mondo (6 93 — 694) que não figura no Cancioneiro 
de amor. Depois seguem Ulhoa (695 — 701), Cogominho 
(702 — 705), Vinhal (706 — 712) e Queimado (713 — 715). 
Redondo não apparece pela razão que sabemos; nem tão pouco 
Ribela, por não se lhe conhecerem cantares de amigo. Do Des- 
conhecido nada se pode asseverar. Na PartelII surgem Vinhal 
(1390 — 1399), Aboim (1400), Coelho (1403), e Ribela (1417), 
mas a certa distancia um do outro. 

Temos em seguida Rodrigu' Eannes de Vasconcellos, 
Pêro Mafaldo e Besteiros no Appenso XII, e depois no CA 
Fernam Gonçalves de Seabra, Pêro Barroso, D. Affonso 
Lopes de Baião, Mem Rodrigues Tenoiro, e Joam de 
Guilhade. No Livro das Donas falta Mafaldo, porque as únicas 
canções de amigo que d' elle permanecem, andam erroneamente in- 
corporadas na Parte I. Os de mais inverteram os seus postos. Após 
Tenoiro (716—719) seguem -se dois poetas que não nos legaram versos 
de amor: Estevam Coelho (720 — 721) e Estevam Travanca 
(722 — 725). A elles se juntam Vasconcellos (726 — 728), 
Besteiros (729—731), Barroso (732 — 734), Seabra (737)^), 
Baião (738 — 741), Guilhade (742 — 760, respectivamente 778 2) 
e 785 — 787). Na Parte III apparecem Barroso, Baião, Tenoiro 
e Guilhade, embora um pouco affastados um do outro. Mais tarde 



1) Entre as obras de Barroso e Seabra acham - se mettidas duas poesias 
de um Pêro Viviaes (735 — 736) , o qual também figura no Livro de amor, 
em companhia de Bonifácio de Oenova, mas não apparece no CA no seu 
estado actual. 

2) Ha erros de numeração nesta serie (775 por 757). Os poetas 
D. Affonso Sanches (781 — 784), Estevam da Ouarda (779) e Pêro d' Orneias 
(780) estão fora do logar que lhes competia. 



— 222 — 

ainda surge Fernam Velho, um grupo com Esgaravunha, Vaasco 
Gil, Pêro Mafaldo, e outro com Redondo, Charinlio, Da Ponte. 

D' aqui em deante as divergências são muito notáveis: as canções 
de amor deEstevam Faiam, Joam Vasques, Charinho, Fernam 
Velho, Solaz, Da Ponte, Moxa, Calvelo e Roy Fernandes de 
Santiago foram, nos apographos, intromettidas entre os cantares 
de amigo. 

Ainda assim, também lá os vemos figurar juntos, ou a curtos 
intervallos. ^) 

Para a demonstração da minha these isso deve ser sufficiente. 
A quem publicar o índice Geral incumbe continuar nesta revista. 

§ 160. Estudando finalmente as biographias dos poetas, cujas 
obras de amor o CA nos conservou, apura- se que a maioria dos 
que materialmente apparecem antepostos aos Alfonsos de Castella 
e Leão e a D. Denis de Portugal, pertencem, de facto, ao reinado 
anterior, de Affonso III, o Bolonhês (1245 — 1279); e são ricos-homeus 
e cavalleiros da sua corte. Alguns ainda alcançaram o tempo do filho 
e successor, ou em Castella o de Sancho IV que herdou a coroa do Sábio. 
A vida de dois prolongou-se depois de 1300. Mas mesmo d'elles 
não ha uma só poesia que seja necessário datar de época tão tardia. 

Os que poetaram mais cedo, de 1200 a 1245, figuram, sem 
excepção, no principio do velho pergaminho, ou nas partes que lhe 
faltam, sendo -nos suppridos pelo CB. 

Estes resultados que estabeleço antecipadamente'^), espalham 
alguma luz sobre a organização dos Cancioneiros. O plano do primeiro 
coUeccionador foi com bastante precisão observado, emquanto os seus 
ajudantes reuniam o escasso remanescente do tempo de Sancho I 
(•{•1211), archivado na recamara dos paços régios. Bastava quasi copiar 
esse núcleo. Em seguida juntaram o que restava do período turbulento 
de Affonso II (-j- 1223) e Sancho II (f 1245). Quando, porém, tiveram 
de grangear e engavelar a abundante colheita dos trovadores ainda 
vivos, do tempo de Fernando o Santo, Affonso III e Alfonso X, 
encontraram difficuldades, em virtude da dispersão dos materíaes, visto 
que as relações intimas com a faustosa corte de Leão e Castella e a 
expansão cada vez mais vigorosa da arte trovadoresca haviam levado 



1) Joam Vasques (788 — 795), Charinho (808 — 818), Velho (819 e 
819^ Solax 828—830; Da Ponte 831 — 837; Calvelo 850 (e 991). 

2) As biographias seguem no Cap. VI. 



— 223 — 

muitos poetas para fora do reino. Não sei, se estas difficuldades 
se avolumaram quando os mesmos, ou os continuadores, trataram 
de juntar o pecúlio dos cortesãos de D. Denis e o dos pouco 
numerosos epígonos que, depois do seu faUecimento, continuaram 
a cultivar a poesia; ou se por ventura não se incommodaram com 
este trabalho, persuadidos que o Eei- Trovador, mandando executar 
artisticos treslados das suas próprias Eimas, encarregaria alguém de 
também reunir em volume os cantares dos seus vassalos e apaniguados, i) 
A julgar da desordem relativa e do estado de deturpação em que 
nos foram transmittidas grande parte das obras dos auctores que flore- 
ceram na corte vizinha, incluindo os versos do próprio Alfonso X, 
teremos de concluir que o trabalho começou a ser difficultosissimo 
quando, transpondo as fronteiras, o empresário e seus subordinados 
procuraram rótulos e cancioneirinhos em Leão, Castella, Aragão, na 
Galliza G Andaluzia, nos paços e castellos e nas maetas e saccolas 
dos artistas viandantes. Encontrando durante essas jornadas abun- 
dantes materiaes, não os coordenaram chronologicamente (quer fosse 
por falta de saber, paciência, e vagar, quer fosse porque o Can- 
cioneiro de amor ja estava copiado), contentando -se com a gloria 
de os haver salvado do esquecimento, ou apenas de haver engrossado 
o Cancioneiro Geral, E como foi na corte de Alfonso X que se 
geraram as principaes cantigas de escarnho e maldizer, algumas das 
quaes se guardavam de certo bem fechadas, e foram a custo arrancadas 
aos esconderijos, a Parte III sahiu relativamente livre de elementos 
estranhos, mas cheia de textos mal conservados, e muito baralhados. 

§ 161. Despeço -me do assumpto, mas não sem primeiro elaborar 
o summario das ideias expendidas até aqui. 

1°. O Cancioneiro da Ajuda é um fragmento do Cancioneiro 
de Amor, isto é da Parte Primeira do Cancioneiro Qeral gallaico- 
português. 

2°. Embora truncado, pode calcular -se aproximadamente o 
que lhe falta no principio e no meio, pela comparação com o Can- 
cioneiro Colocci-Brancuti, ao qual muito se semelha, e também 
com o da Vaticana. 



1) Escuso de estabelecer que também ha versos de trovadores preal- 
fonsinos e luso-alfonsinos horrivelmente viciados (Vid. p. ex. CA 317 e 
Cy215, 387, 404, 410, 460, 461, 511 — 513, 642, 666, 770.) Mas os 
que mais deturpados se apresentam, estão redigidos em lingoa estrangeira. 
(Vid. €B 454 e CV 460 e 461). 



— 224 — 

3°. Ignoramos todavia quantos cadernos se perderam no fim, 
o que elles terão contido, e se o plano inicial do coUeccionador foi 
completamente realizado. 

4°. Fica portanto em duvida se, integro, conteve em tempo 
(ou estava destinado a conter) todas as canções de amor que se 
acham (nos apographos) na segunda metade da Parte I, e espa- 
lhados pela Parte IP e III'. 

5°. A totalidade teria sido neste caso de 744 composições: 
277 a mais das que publico neste volume. Isto é bem mais do 
dobro das que realmente se lêem actualmente no velho códice 
membranaceo. Para as abranger teria sido preciso um volume 
avultadíssimo: 26 cadernos ou 208 folhas, pouco mais ou menos. 

6°. Nas porções que subsistem, possuímos versos de poetas 
antigos, desde D.Sancho I, predominando os alfonsinos. Yarios dos 
que estão representados alcançaram o tempo de D. Denis. Mas 
mesmo dos que ainda viviam depois de 1300, não ha poesia que 
seja forçoso datar de época tão tardia. 

7°. Alguns trovadores dionysianos e post-dionysianos como 
D. Affonso Sanches (1289 — 1329) e Vasco Martins de Re- 
sende, que figuram na primeira metade dos códices cartaceos, faltara 
nas partes correspondentes do códice membranaceo. Excluídos 
estão também os reis, e filhos de reis peninsulares. 

8°. Methodicamente ordenado, tendo quasi nenhuma mistura 
de elementos estranhos, e offerecendo incontestavelmente textos mais 
limpos que as compilações conservadas na Itália i), o CA parece ter 
sido menos completo, se bem que não deixe de incluir alguns 
versos que faltam naquellas. 

9°. Propendo por isso para ver nelle uma collecção anterior e 
independente, de versos pre- dionysianos: um nitcleo primordial que 
serviu de ponto de partida aos compiladores subsequentes. E con- 
jecturo que no fim do volume e nos cadernos de que estamos privados, 
figurariam poetas alfonsinos e pre -alfonsinos como Gronçal' Eannes 
do Vinhal, João Lobeira, Bernardo de Bonaval, João Ayres 
de Santiago, Ayras Nunes e outros mais. 



1) A razão da maior pureza deve ser o estar mais próximo dos originacs. 
— Entre os mais cancioneirinhos, de cuja juxta- posição sahiu o Cancioneiro 
Geral, só conheço um que está igualmente bem ordenado e conservado: o 
de D. Denis. 



— 225 ™ 

10°. As divergências entre o CA e os apographos são tão 
numerosas e de importância tal^) que excluem a ideia de aquelle 
ter sido o próprio original sobre o qual se tiraram directamente as 
partes em commum. Se assim fosse, não teriam explicação as 
variantes, nem as attribuições oppostas, nem a ordem diversa, nem 
o plus de 64 cantigas que apresenta o nosso códice. 

§ 162. Das opiniões emittidas até hoje sobre o CA, umas 
ficam d' este modo comprovadas, e outras inutilizadas. 

E insustentável o parecer de F. Wolf que julgava o CA posterior 
ao Cancioneiro de D. Denis, por ser puramente provençalesco , 2) em 
quanto que no Livro das Trovas do monarca ha ecos populares e 
reminiscências indígenas. 

Nem posso aceitar a explicação de Theophilo Braga, que considera 
como poetas dionysiacos os que figuram no nosso códice. 3) 

Igualmente inexacto é o pensar dos que, allegando as razões 
de Wolf, opinam que o códice representa a escola dos trovadores 
palacianos, antes de elles terem sido influídos e dominados pelo 
lyrismo popular. 

O leitor sabe que o CA nos mostra um só dos aspectos, uma 
única das faces do prisma tricolor da lyrica gallaíco- portuguesa: o 
erotismo azul -celeste d' esta nação de sonhadores namorados. Esse 
aspecto , que predominava evidentemente ao alvorecer da arte cartesan, 
perdurou im movei no mesmo molde estereotypico durante toda a 
época, até á sua extincção completa. Mas nunca foi o único. O gosto 
nacional dos géneros simples e ligeiros, i. é das cantigas de raparigas 
do povo, rubras de saúde, não esperou até á época de D. Denis, 
seu mais fervoroso fautor, para se manifestar; nem veio substituir^ 
debaixo da sua égide, a grave maneira estrangeirada. As demo- 
ticas bailadas virginaes infiltraram- se muito mais cedo nos paços 
régios. E as parodias alegres e mordazes, tantas vezes lívidas de 
enveja e ódio, nasceram igualmente temporans. 

Exacto é todavia estarem no CA as poesias mais antigas: os 
primeiros monumentos históricos da Kunst- und HofpoesieA) Mas 
torno a insistir em que alguns dos trovadores mais antigos culti- 

1) Vid. Miscella 12, 21, 2P, 25, 27, 29, 31, 32, 37, 38, .39, 43, 
49, 52; — Õ8, 61, 65, 68, 71, 72, 75. 

2) Vid. Cap.I, §20 e 34. 

3) Vid. § 57. 

4) Menendez y Pelayo, Antologia III, p. 15, 17, 48. 

15 



— 226 — 

varam não só a canção de amor, mas também o dizer de escarnho 
e o cantar de amigo, figurando á frente das Partes I, II e III. 

Exacto é também que as obras qiie o nosso livro encerra, são 
quasi exclusivamente provençalescas. 

Exacto é ainda, e consequência necessária d' esses dois factores, 
que o CA tem feições convencionaes, de rigidez hierática, sendo 
por vezes fastidioso e aborrecido de lêr, embora eu não subscreva 
o veredicto dos que o acham desprovido de todo valor poético: pura 
noja continuata.'^) 

Veja -se o nosso No. 35 que, após seis séculos de inhumação, 
ainda rescende modesta mas suavemente a violetas e morangos, e 
os Nos 64, 66, 71, 75, além das cantigas que o velho annotador 
achou boas, muy boas e muy muito boas. 



1) Vid. Canello, Saggi p. 220; P. Meyer, Romania I, p. 120. 



Os compiladores — Lista 
dos Cancioneiros gallaíco- portugueses. 



§ 163. Pergunta -se agora, quando e por quem é que as cantigas 
pre-alfon sinas e alfonsinas do Cancioneiro da Ajuda foram colligidas; 
ou por outra, se a compilação das obras lyricas, geradas desde 1200, 
se effeituou de um só jacto, finda a época trovadoresca; ou gra- 
dualmente, emquanto ella durava. Será o Cancioneiro, conforme 
calculei, um Ldvro das Trovas dei Rei D. Affonso, composto por 
ordem do Bolonhês? um Livro das Trovas dei Rei D, Denis? ou o 
Livro das Cantigas do Conde de Barcellos? 

Absolutamente falsas no sentido de vindicarem para o próprio 
D. Affonso III, para o Rei -trovador, ou para seu bastardo, a compo- 
sição das canções que o códice membranaceo encerra, qualquer 
d' essas attribuições poderia ser exacta na accepção lata das palavras, 
se indicassem colleccionação por mandado dos soberanos, e por 
isso direito de propriedade. 

A identificação com o cancioneiro do Conde de Barcellos, 
tacitamente expressa por quem encadernou num volume o Nobiliário 
e o Cancioneiro, foi, como sabemos, adoptada por Bellermann e 
Yarnhagen, antes de serem conhecidos os apographos italianos; e 
posteriormente com modificações por Theophilo Braga. A ideia de 
o classificar como Cancioneiro de D. Denis, inscripta no corte das 
folhas, mas talvez repetição de outra nota mais antiga, não tem, 
que eu saiba, nenhum propugnador moderno. De hoje, e minha, 
é a opinião que o considera como resto destroçado de um volume 
alfonsino e pre-alfon sino, que serviu de núcleo primitivo dos outros 
dois, isto é do Cancioneiro Geral da primeira época lyrica. E essa, 
não documentada como as outras duas por noticia alguma ou tradi- 
ção histórica, exige mais ampla demonstração. 

Apoiada, mas não suggerida pelo catalogo dos livros de uso 
de D. Duarte, deriva especialmente das qualidades materiaes do 

15* 



~ 228 — 

códice e dos resultados chronologicos a que me levou tanto a aiialyse 
dos versos que encerra como o exame comparado de todas as obras 
poéticas que possuímos. 

Considerando como apogeu da lyrica palaciana os annos de 
1275 a 1280, em que o jovem D. Denis, rodeado dos melhores 
trovadores de seu pae, dos veteranos do avô castelhano e de alguns 
artistas vindos da terra de seu sogro aragonês, manifestava o ex- 
cepcional talento que possuia, penso que o plano do Bolonhês de 
reunir os productos da gaia sciencia hispânica, também foi iniciado 
então, e continuado até 1325, pelo filho. E sendo D. Denis o ultimo 
entre os reis de Portugal que exerceu e protegeu efficazmente a 
arte trovadoresca i) penso mais que quando, depois do seu falleci- 
mento o rápido declinar se annunciava, esse plano foi completado, 
reinando D. AfFonso IV (1325 — 1357), pelo Conde de Barcellos, 
a quem movia o duplo interesse de propagar os versos do pae e 
os seus próprios. Cada geração, cada cancioneiro. 

Os apographos italianos encerram canções que é materialmente 
impossível fossem colleccionadas antes de 1325. Sem entrar aqui 
no exame de versos poeticamente insignificantes, mas chronologi- 
camente importantíssimos, compostos depois d'aquella data pelos 
jograes João de Gaya, João de Leon^ João Fernandez de Ardeleiro, 
ou pelos filhos de D. Denis e seu escrivão da puridade 2) — exame 
que tem seu logar natural no encalço das biographias — bastará 
apontar aqui a poesia 607 da Tavola Colocciana^) rubricada como obra 
Bel rey D, Affonso de Castela e de Leon que venceu el rey de 
Belamarin com o poder d' aalem-mar a par de Tarifa, porque 
essa epigraphe só de 1340 em deante é que podia ser escripta. 

Depois do Conde, cujo Livro estava prompto em 1350, não 
vejo príncipe ou magnate português algum, do qual justificadamente 
se pudesse esperar certo enthusiasmo desinteressado pela herança 
poética dos antepassados. O bastardo predilecto de D. Denis, 
D. Aífonso Sanches, fallecêra em 1329 em um dos seus domínios 
castelhanos. O rude e impetuoso Affonso IV, algoz da que depois 



1) De Alfonso XI de Leão e Castella, auctor de uma única canção, 
e essa redigida em castelhano, não consta fizesse da sua corte um ultimo 
refugio dos trovadores, apesar de alguns d'estes terem nutrido essa esperança. 
Vid. CV 708. 

2) Tid. Cap. VII, §349. 

3) CV 209. 



— 229 — 

de morta foi rainha, transmittiu o sceptro, logo após a morte do 
Conde, ao não menos bravo e apaixonado Justiceiro. Mas já antes 
d' este successo, o trágico desfecho do romance de Inês de Castro 
(1355) havia symbolizado o occaso completo da gaia arte. Theori- 
camente, é pois sustentável a ideia que as miscellaneas mais com- 
pletas, conservadas na Itália, representem indirectamente o volume 
cujo destino o Conde traçara a 30 de Março do anno indicado, 
escrevendo: Item mando o meu Livro das Cantigas a el rey de 
Castella. ^) 

No Cancioneiro da Ajuda, pelo contrario, não ha canção alguma 
de epigono ou mesmo de trovador puramente dionysiaco. Trun- 
cado como está, seria ainda assim dever nosso procurarmos nelle 
um fragmento do mesmo Livro (na supposiçào que as obras que 
lhe faltam, seguiam na segunda metade), se não fossem as múlti- 
plas divergências que ha entre elle e os Cancioneiros italianos, 
divergências que deixei registadas e são muito maiores do que as que 
existem entre o CB e CV. Em face d'ellas temos de considerá-lo 
como resto de outra collecção, mais antiga e menos completa. 

As concordâncias entre o Cancioneiro da Ajuda e os da Itália, 
demonstradas na tabeliã comparativa, explicam -se bem. Assim como 
o ultimo compilador do Livro das Linhagens da primeira dynastia 
se serviu de cadastros genealógicos e inquirições dos tempos de 
D. Affonso III e D. Denis, do mesmo modo o ultimo collector das 
canções trovadorescas se serviu de cancioneiros archaicos. E esses 
só se podem attribuir á iniciativa dos dois monarcas que, antes do 
conde de Barcellos, haviam sido fautores da poesia palaciana. 2) 

§ 164. Lembrando cortesmente ao leitor apressurado a facul- 
dade que tem de saltar quantas paginas quiser das que encho com 



1) Está claro que nos treslados e mesmo no original os amanuenses 
podem ter accrescentado, por ordem superior, versos recentemente compostos, 
ou omissos na 1* redacção. — Vid. Cap. VI, Biogr. LTX. 

2) Alfonso X de Castella, D. Jaime de Aragão e D. Denis de Portugal 
são os únicos monarcas que vemos celebrados nos Cancioneiros (CA 256; 
CA 466; CV 708) e estes com muito menos fervor do que era de esperar de 
disci pulos de provençaes. Mas o dictado lá -o diz: „o propheta nada vale 
dentro da sua pátria"; é preciso vir de fora -parte tanto para adorar como 
para ser adorado. A Affonso III se dirigem vários dizeres de escarnho 
(CV 1036 e 472; 1082, Í088, 1089). A respeito de uma cantiga relativa a 
Affonso IV e o príncipe herdeiro (CV 707) consulte -se o Cap. VII. Das que 
mencionam simplesmente um rei, tratei em Randglosse II. 



— 230 — 

pormenores e minúcias, vou desempenhar -me desaffrontadamente do 
meu dever de cronista, patenteando o que penso a respeito dos 
exemplares restantes das três suppostas collecções successivas de 
Affonso III, D. Denis e do Conde de Barcellos, e o pouco que sei 
d' aquelles cuja existência em tempos passados está mais ou menos 
authenticada por parcas noticias históricas. Incluirei mesmo os que 
julgo hypotheticos, introduzindo no campo da discussão vários de 
que nem mesmo Th. Braga se occupou. Como remate apresentarei 
um quadro de filiação dos exemplares que subsistem, tentando 
identificá-los com os volumes antigos, ou derivá-los d'elles. i) 

Por provadas dou certas ideias geraes que formam a base da 
minha argumentação. V. Sendo a canção de amor dos gallaico- 
portugueses essencialmente palaciana — Kunst- imd Hofpoesie — 
é de suppôr que muitos poetas seguissem a praxe de apresentar 
copias limpas das suas invenções aos trovadores coroados que os 
protegiam ou versejavam á porfia com elles para que os jograes 
e cantores aulicos as podessem estudar e recitar. D' este modo uma 
porção considerável de rótulos originaes com texto e musica — 
palavra e som — com ou sem nome de auctor, accompanhados , ou 
não, de alguma nota sobre os acontecimentos que provocaram a obra 2), 
ia -se accumulando na recamara dos monarcas, deposito das escrituras, 
o qual, como é sabido, se desdobrou mais tarde em bibliotheca regia 
e archivo nacional. 3) — 2°. Só um rei, um príncipe, ou um magnate 
aparentado com a casa reinante, dispunha da faculdade, dos meios, 
da influencia e de relações sufficientes para emprehender a collec- 
cionação e coordenação d' esses rolos e dos espalhados pelos 
vários centros peninsulares, ora solicitando a coUaboração dos ricos - 
homens trovadores, ora comprando o seu pecúlio a trovadores de 
profissão e jograes ambulantes*), e para promover a execução artis- 



1) Como além de três cancioneiros semelhantes, mas não iguaes, sendo 
um incompleto de-ab-initio^ e os outros apographos tardios e truncados, 
só dispomos do índice de Colocci e de vagas memorias de alguns mss. per- 
didos, a tentativa de identificar uns e outros deve necessariamente sahir 
muito imperfeita. Adhuc sub iudice lis est, e eu não pretendo, de modo 
algum, resolver problemas ainda tão pouco ventilados. 

2) Vid. Cap. VI, Biogr. 38. 

3) Vid. João Pedro Ribeiro, Metnorias authenticas para a historia 
do Real Archivo, Lisb. 1819. 

4) As obras profanas da primeira época são devidas a reis e filhos de 
reis, feitas na corte ou nos conventos, a pedido d' elles. Basta nomear 



— 231 — 

tica de um Cancioneiro, i) — 3°. Florescendo a lyrica trovadoresca mais 
viçosa e durável na corte portuguesa, e sendo a lingua empregada um 
galldico- português illusire é natural que em Portugal se procedesse 
á compilação; como igualmente, que saliissem melhor ordenados e 
mais abundantes os cancioneirinhos parciaes dos cortesãos de cá do 
que os que vieram de Castella e Leão, Aragão e Galliza. — 4°. Assim 
como das Cantigas de S. Maria de Alfonso o Sábio se executaram 
varias copias, todas divergentes, e todas ellas em vida do auctor, 
ou logo depois dò seu fallecimento, houve provavelmente treslados 
diversos das obras originaes profanas, executadas por iniciativa de 
Aífonso III, D. Denis e do Conde de Barcellos; exemplares poucos, 
bem se vê, dados em presente a reis, príncipes e infantas, e por- 
ventura a alguns ricos- homens intimamente ligados aos dynastas e 
interessados pelas artes apollineas. — 5". E cá como lá aconteceria 
ficar uma ou outra copia incompleta, quer isso fosse devido á morte 
do mandante, quer do amigo a quem se destinava, ou a falta de 

a Chronica Geral, as Flores de las Leyes, a Ghronica de Rasis, o Livro 
das Batalhas de Deus de Eabbi Abner. — As mais nomeadas entre as antigas 
bibliothecas peninsulares eram as da Rainba D. Maria, Martim de Na- 
varra (t 1410), o Duque de Calábria, Carlos de Vianna (f 1460), o Duque 
de Benavente, Fernando de Aragão (f 1494), Gomez Manrique, Luis Nunes 
de Guzman, Inigo Lopez de Mendoza, e o Conde de Haro (f 1455). Em 
Portugal temos as de D.Duarte, o Infante Santo, e o Condestavel D. Pedro. 
1) Sobre o preço dos livros em Portugal antigo ha algumas noticias na 
Historia da Universidade de Th. Biaga (p. 19tí). Em 1298 um simples 
Código custava 50 morabitinos; e outrotanto um exemplar das Decretaes. 
Quanto á importância ligada por Alfonso X a códices sumptuosos, e ao 
mesmo tempo quanto a presentes de livros, trocados entre monarcas aparen- 
tados, basta recordar as determinações consignadas no seu testamento. Legou 
á igreja de S. Maria de Sevilla los quatro libros que llaman Espejo istorial 
que mando faxer el Rey Luis de Francia {Memorial II, p. 125); ao seu 
herdeiro las dos biblias et trcs libros de letra gruesa, cobiertas de plata é 
la otra en três libros estoriada que nos dio el rey Luis de Francia (ib. 126) . . . 
E otrosi 7nandamos que . . . todos los otros libros que los den a la iglesia 
mayor de S. Maria de Sevilla o a la iglesia de Murcia, si el nuestro 
cuerpo fuere y enterrado, sacando . . . las dos biblias que mandamos dar 
a aquel que heredare lo nuestro. Otrosi mandamos que todos los libros 
de los cantares de loor de sancta Maria sean todos en aquella iglesia do 
nuestro cuerpo se enterrare e que los fagan cantar en las fiestas de S. Maria. 
E si aquel que lo nuestro heredare con derecho e por nos quisiere aver estos 
libros de los cantares de S. Maria, mandamos que faga por ende bien et 
algo a la iglesia onde los tomare por que los aya con merced e sin pecado. 
Otrosi mandamos a aquel que lo nuestro heredare el libro Setenario que 
nos fezimos. . . São curiosos também os recibos {Memorial I, 257 e 258) 
em que confessa ter havido de empréstimo certos livros do Cabido de 
Albelda e de S. Maria de Nagera. 



— 232 — 

executantes adestrados. O códice de Florença, p. ex., irmana neste 
sentido com o da Ajuda; e mesmo um dos escorialenses está im- 
completo, faltando -lhe o volume II. i) — 6°. Guardados a principio 
com certo zelo ciumento, os cancioneiros da primeira época foram 
posteriormente desprezados como velharias sem valor, quando o gosto 
e a cultura tomaram rumo opposto, perdendo a França a sua soberania 
intellectual ao desabrochar do renascimento clássico. Postos a um 
canto, entre 1400 e 1500, uns foram destruídos pelo alvião do 
tempo; outros distrahidos, em troca de modernices ou antiguidades 
clássicas, para o gabinete de curiosos, cujo fervor arclieologico 
crescia á medida que o interesse geral ia afrouxando. — 7°. Em 
Portugal, o desleixo e menoscabo das memorias pátrias tomou pro- 
porções desusadas, desde que de 1415 em deante o sonho do 
império do mundo e da unidade ibérica, com a hegemonia em 
Portugal, levou os conquistadores da Africa e descobridores da índia 
e do Brasil, a cultivarem de preferencia a lingua castelhana. Esta 
tendência não foi menos perniciosa do que o particularisrao mesquinho 
de dilettantes e especialistas invejosos que „ fazendo caixinha" 
aferrolham ou mesmo annullam raridades, só para as sonegar ao 
conhecimento dos confrades. — 8°. Parece que os Livros das Trovas 
se perderam depois de D. Aífonso V ter aberto a sua livraria aos 
estudiosos. 

I. O Livi*o das Trovas dei Rey D. Affoiíso. 

§ 165. Durante a sua longa estada em França, i. é antes de 
1245, o Bolonhês viu, de certo, conforme já apontei, cancioneiros 
com obras de troveiros e trovadores, escriptos e pintados no estylo 
gothico- francês 2), em parte ordenados pelo systema chronologico, em 
parte pelo systema esthetico, por géneros.^) 

Nem é temerário imaginar trouxesse comsigo ou mandasse vir 
depois de enthronado, algum exemplar para servir de modelo 



1) Incompleto ficou também um códice provençal (No. 1592) da Bibl. 
Nat. de Paris e outro de Berna (389), com entrelinhas para a notação musical 
que falta. Os que carecem das capitães de cor são numerosíssimos. 

2) Os caracteres, as miniaturas dos códices peninsulares e a tripar- 
tição, feita segundo as matérias, lembram os melhores códices provençaes, 
em que era costume agrupar em secções separadas, canções, sirventeses e 
tenções. 

3) Vid. G. Groeber, Die Liedersatnmlungen der Troitbado7(rs , em 
Romanische Studien^ vol. II, 1877; e Miláy Fontanals, Trovadores cn Empana, 
p. 264—269. 



— 233 — 

aos seus escrivães^) e de fonte de inspiração e texto de estudo 
aos seus trovadores. Espectador das festas brilhantes da corte de 
S. Luís, conhecedor das empresas de seu tio -avô Alfonso II de 
Aragão, que incumbira um monge do mosteiro de St. Honarat de 
juntar em um volume obras poéticas em lingua d'oc;2) sciente do 
esmero com que seu sogro, o Sábio de Castella, eternizava os 
seus cânticos, e também da actividade poética de Thibaut de Cham- 
pagne e Navarra (servidor mais ou menos authentico de Blanca de 
Castella e herdeiro de seu tio Sancho Sanches, o Forte) o rei de 
Portugal não só publicou decretos sobre a posição dos jograes 
na sua corte ^), mas concebeu também, se não me engano, o plano 
de reunir era volume os roiulos com versos dos seus vassallos 
e as reliquias que restavam dos reinados anteriores. No principio 
do seu governo os tesouros accumulados deviam ser diminutos. 
Cresceram comtudo rapidamente desde que os seus companheiros de 
França, D. João d'Aboim, Kuy Gomes de Briteiros, Esgara- 
vunha etc. deram impulso vigoroso ao cultivo da arte, dentro do paço, 
introduzindo géneros á moda francesa até então desconhecidos como a 
pastoreia^ e os lais. Nos annos em que Airaéric d' Ebrard cuidava 
da educação litteraria do precoce primogénito (n. 1261) que, cheio 
de enthusiasmo pela arte e imitando o inclyto avô, se preparava para 
ser não só Mecenas, como seu pae, mas também o melhor ti'Ovador 
do seu meio, como Alfonso X e Thibaut de Champagne, — de 
1275 em deante é que Affonso III trataria de realizar o seu intento, 
principiando o trabalho que o successor havia de naturalmente 
continuar, quer fosse quando em 1278 o rei lhe deu casa pró- 
pria, associando -o no anno immediato ao governo, quer depois 
de dirigir só e resoluto o leme do estado. De propósito evito o 
termo acabar. O cancioneiro alfonsino e posteriormente o dionysiaco 
ficou, a meu ver, e^n aberto, emquanto durava o mesmo estylo, 
— exactamente como o ficaram os Livros de linhagem. 

O que parece fora de duvida é que D. Denis (entre os soberanos 
portugueses da primeira dynastia o único que poetou) teve ao seu 
dispor, de facto, não só cancioneiros franceses e provençaes, e os 

1) Vid. p. 155, Nota^. 

2) Quem propagou a noticia foi o phantasioso Nostradamus {Les 
Viés des poetes prorençaux, 1575, p. 2) de cuja pouca authenticidade se 
trata no Jahrbuch XIII, p. 2 a 18. Cf. Guinguenet, Hist. litt. cf Italie I, 
243 e 303, n. 9. 

3) P. M. H. Leges, p. 199. 



— 234 — 

estudava, mas também e de preferencia, os versos dos poetas nacio- 
naes, alfonsinos e pre-alfon sinos, os quaes muitas vezes imita. i) 

Lembrando novamente ao leitor que o rei D. Duarte possuia 
um Livro das Trovas, designado como dei Bei D.Affonso^^) compilado 
de mais a mais por um português, de Montemor- o -Novo 3), fica 
dicto tudo quanto posso allegar a favor da existência de um Can- 
cioneiro de um AfPonso português, treslado directo de pergaminhos 
originaes, de que o CA, incompleto e mutilado, com letra inteira- 
mente semelhante a de um foral de 1280, seria, não o primeiro 
exemplar, mas um apographo: Al, 2, 3 do quadro final, 

II. O Livro das Trovas dei Rey D. Denis. 

§ 166. Este titulo antigo está em harmonia com o antecedente. 
A palavra erudita Cancioneiro não se vulgarizou senão na segunda 
época da lyrica peninsular,*) por influencia francesa. 

Da existência áo Livro não ha que duvidar, embora faltem docu- 
mentos coevos que a attestem. O próprio monarca não se lembrou 
no seu testamento das suas obras litterarias, o que leva a crer 
formassem apenas as delicias da sua juventude. Incorporadas no 
Cancioneiro Geral ainda na época trovadoresca , talvez em vida do 
próprio D. Denis, e por ordem sua, ou mais provavelmente um pouco 



1) Yid. as Notas Finaes de Lang ao Liederbueh des Konigs Denis 
von Portugal. 

2) No. 63 da sua bibliotheca. Cf. § 117. 

3) Cf. § 117. No CV figura um poeta de Montemor - o - Novo , Ugo 
(ouDiego) Gonçalves, com uma só poesia deturpadissima (606) que nada 
nos diz sobre a sua idade. 

4) É nos catálogos das livrarias de Martim de Navarra e Carlos de 
Vianna, que surge a expressão Cançoner, designando coUecções francesas, 
das que no sec. XV formavam as delicias de todo o mundo culto. Os pri- 
meiros Cancioneiros castelhanos, individuaes, foram (creio eu) os de Santilhana 
e Gomez Manrique (II, 332). O primeiro e principal Cancioneiro Geral 
da segunda época (1350 — 1450) é o de Baena, se realmente tiver este titulo 
de Cancioneiro no MS. Paris. 585. No Prologo o compilador não o emprega. 
Chama a sua obi'a el muy notable e fa/tnoso libro fundado sobre la muy 
graciosa e sotil arte de la poetria e gaya ciência . . . que fiso e ordeno e 
cotnpuso e acopiló el indino Johan Alfonso de Baena eserivano e servidor 
dei muy alto e muy noble Rey de Castilla Don Johan niiestro senor. Os 
que deram no sec. XIX ás collecções gallaico - portuguesas o titulo de Can- 
cioneiros cometteram em rigor um anachronismo. O próprio Varnhagen que 
acertara, chamando Livro das Cantigas ao fragmento da Ajuda, escolheu 
para o seu pequeno florilégio vaticano a epigraphe Cancioneirinho. E por 
serem mais commodos e práticos, esses termos prevaleceram. Com a reserva 
aqui enunciada, também me sirvo d' elles. 



— 235 — 

depois pelo filho, os pósteros acharam mais vantajoso mandar tres- 
ladar a collecção inteira. Mas como nella avulta pelo numero, 
pela qualidade e pela fama o pecúlio do rei^), aconteceu darem 
mesmo ás miscellaneas o titulo de Livro das Trovas dei Bei D. Denis, 
e ao periodo ti'ovadoresco o nome de época de D. Denis, cingindo - 
se á velha regra : a maiori fit denominatio. ^) 

Apenas quanto ao exemplar guardado em 1488 na bibliotheca de 
D. Duarte (No. 38), pouco mais de um século depois da morte de 
D. Denis, é provável que fosse um volume original, sumptuoso, com 
poesias só d'elle, e poesias profanas, a julgar do titulo.^) No fim do mesmo 
século quando o eborense Garcia de Resende, que era empregado da 
casa real, começou ajuntar a colheita lyrica da 2' época (1440—1516), 
os três Livros de Trovas que haviam pertencido a D. Duarte já não 
existiam na livraria do paço.^) Em 1585 os eruditos sabiam 
apenas do volume achado em Roma. De manuscriptos , guardados 
na pátria, attribuiam-lhe apenas um volume da Torre do Tombo, 
com versos religiosos.^) Em 1756 um poeta português referiu -se 
a um Cancioneiro de D. Denis, conservado no Escoriai; mas ... este 
relator, o qual soube até especializar, contando que o precioso volume 
fora mandado a Castella, de neto a avô . . . ^) nunca sahira de 
Portugal, vivendo quasi sempre retirado na província.'') Ha quem 



1) Possuímos 138 poesias de D. Denis. Dos restantes trovadores, o 
mais rico deixou -nos 56. Termo médio, a obra de cada um attínge 13. 

2) Víd. § 117. 

3) O apuro na arte calligraphica e o gosto por bellas miniaturas é 
antigo em Portugal. Víd. p. 156, Nota õ. O ms. do Lecd Conselheiro 
p. ex. é esplendido. Um livro de orações dei rei D. Fernando que se guarda 
no Eío do Janeiro, diz -se que é um primor {Panorama VIII, 230; 
Th. Braga, Hist. da Universidade, 206). Igualmente o Livro de Horas de 
D. Duarte que manuseei na Torre do Toaibo e a Chronica da Guiné de 
Azurara, na Bibliotheca de Paris. 

4) Vid. p. 132, Nota 6. 

5) Não seria de admirar, se D. Denis tivesse imitado o avô também 
como trovador da Virgem. Vid. p. 114, NotaS. Nas referencias de Duarte 
Nunes, a formula: segundo vimos pode dizer respeito a ambos os cancio- 
neiros. Mas igualmente possível é que o chronísta e seus successores, muito 
mais vagamente instruídos do que nós, lho attríbuissem por confusão um 
volume de Cantares de S. Maria de Alfonso X, desguarnecido de titulo. 

6) Isto seria antes de 1284, contando D. Denis 23 annos, ou menos! 

7) Já deixei dícto (p. 117, Nota 5 e 6) que os bíblíothecaríos de 
S. Lourenço não descreveram nenhum volume com versos gallaico - portu- 
gueses: nem Perez Bayer {liegiae Bibl. Eseur. Manuscriptorum Catalogus, 
3. P., 1762), nem Monsenhor Ferreira Gordo {Memorias de Litteratura IV, 49), 
nem Ebert {Jahrbuch IV) , nem Knust (íb. VIII , IX e X), nem Rudolf Beer, 



— 236 — 

lubrigasse outro exemplar em Thomar, no fim do sec. XVIII. i) 
E na nossa era, Costa e Silva {f 1854) descortinou um, nas mãos 
do Padre J. de Figueiredo. Este iconoclasta sancto queimou -o todavia 
antes de expirar! 2) 

Deixo de novamente entreter o leitor com minúcias não authen- 
ticadas que já conhece. Não tento adevinhar se os problemáticos 
volumes eram Cancioneiros originaes e avulsos. Nem tão pouco, se 
incluiriam somente canções de amor e cantares de amigo, ou tam- 
bém dizeres de escarnho, e ainda, como Parte II, e separada, os 
suppostos louvores da Yirgem?^) 

§ 167. Passemos adeante, fallando das miscellaneas designadas 
como Cancioneiro de D. Denis. Já fallei do nome Rey Dõ Denis,^) 
inscripto a tinta preta no corte transversal inferior das folhas do 
CA depois de encadernado, e provavelmente muito depois, quando 
o volume já andava despido do couro lombal. Se a epigraphe 
fosse reproducção de dizeres ahi consignados, representava a opi- 
nião do curioso que no sec. XVI salvaguardou, conjuntamente com 
os fragmentos do Nobiliário, os do Cancioneiro — opinião que nesse 
caso poderia ter inspirado o Dr. António Ferreira. Sendo comtudo 
muito mais provável que o benemérito que mandou encadernar 
o códice entendesse possuir duas obras do Conde de Barcellos, julgo 
prudente reconhecer na attribuição a D. Denis apenas a lembrança 
de um qualquer reitor de um Seminário de Jesuítas ou do CoUegio 
dos Nobres. 

O parecer de Varnhagen e Braga, segundo o qual a in- 
scripção indicaria proveniência da bibliotheca de D. Denis, mal 
pode ser verdadeiro. Não é de crer que o rei -trovador conser- 



Handschriftenschãtxe Spaniefis, Wien 1895. Th. Braga utilizou, apesar 
d' isso, a fabula, para fallar do lendário „saqiie filipino". 

1) Vid. F. Denis, Portugal Illustré, p. 31 e Grundriss IP 186, n. 5. 

2) Se nesse conto estranho houver alguma verdade, talvez se trate 
de um treslado moderno do CY, cujos cantares obscenos de maldizer teriam 
provocado escândalo. Neste caso correria parelhas com o do mysterioso Qrande 
de Hespanha. Vid. No. XI d' este capitulo. 

3) D. Duarte, o pio moralista e traductor da Oração do Justo Juix 
(vid. p. 131 , Nota 5) , o qual certamente teria dado maior apreço aos cânticos 
sacros do que ás cantigas de amor, nem uma só vez se refere áquelles. O 
mesmo vale do Marquês de Santilhana. 

4) Vid. p. 32 e 141. 



— 237 — 

vasse piamente como reliquia essa obra começada, mas nunca 
acabada. ^) 

Acho, muito mais crivei, possuisse a supposta coUecção com- 
pleta np próprio códice de que o da Ajuda era treslado. No meu 
eschema designo -o como C 1. Do Cancioneiro de D. Denis, achado 
em Roma, trato sob No. X. 

III. O Cancioneiro de D. Meneia de Cisneros, 

§ 168. Entre as miscellaneas que é costume citar quando se 
falia do Cancioneiro de D. Denis por incluírem as obras do mo- 
narca, a mais importante é a que D. Ifíigo Lopez de Mendoza viu 
a principies do sec. XV. É o próprio magnate castelhano quem 
falia d' ella na tantas vezes nomeada Carta ao Condestavel de Por- 
tugal,^) que accompanha como Proemio vários exemplares do Can- 
cioneiro das suas obras, e precedia autographa o que foi remettido 
entre 1445 e 1449 ao Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte, mas 
com destino para o filho primogénito (n. 1429), mancebo de talento 
precoce e que poetava gentilmente na mesma idade em que supponho 
manifestou suas aptidões artísticas o nosso rei -trovador. 

Posto que colligisse apaixona lamente, gastando sommas avul- 
tadas na acquisição de livros que pudessem augmentar o seu saber, 
o Marquês de Santilhana não possuía as obras de D, Denis e seus 
coevos, nem tão pouco as de Alfonso o Sábio. D' estas só ouvira 
fallar, tendo visto aquellas na sua menor idade. 3) Foi em poder 
da avó materna'*) em Torre de la Yega, solar dos Garcilasos, na 
cidade de Guadalfaxara, onde os Mendozas costumavam residir, ou 



1) A favor da ideia que o juvenil D. Denis, e nao Affonso III, ordenasse 
a compilaç3o podia allegar-se que em geral só mandavam coUeccionar versos 

.os que eram ao mesmo tempo poetas. Não o nego. Mas mesmo nesta 
eventualidade o CA, necessariamente colhido em cadernos ou em rótulos 
alf ensinos e pre-alfonsinos, é na realidade o que nelle vejo: um Livro das 
Trovas alfonsinas e pre - alfonsinas de Portugal. 

2) Yid. p. 125, Nota 2. 

3) Antes de o mancebo em 1414 figurar, com apenas 16 annos, entre 
os Grandes de Castella. Em 1416 (n. 1398) estava casado. 

4) D. Meneia de Cisneros (f 1418) casara com Garcilaso de la Voga IIP 
(f 1367). A filha dos dois, D. Leonor de la Vega, era mãe do Marquês. 
Em primeiras núpcias o almirante seu pae esposara D. Maria de Castella, 
irmã de D. Juan I. Como o Marquês era herdeiro dos bens dos Garcilasos 
e dos Mendozas, pode ser juntassem em casa de D. Meneia, que o criava, 
todos os volumes que haviam de servir na sua educação litteraria. 



— 238 — 

em qualquer dos seus castellos,^) que folheou e ouviu lêr bastantes 
vezes cantigas portuguesas, cora curiosidade e intelligencia sufficiente 
para se lembrar, após decennios, dos géneros poéticos e de nomes 
e lendas românticas que por essa occasião lhe haviam narrado. 2) Leva 
a crer que o volume fosse dos Mendozas o seguinte facto : tanto o pae 
do Marquês, o almirante Diego Furtado de Mendoza (f 1405), como o 
avô paterno Pêro Gonzalez de Mendoza, o qual sacrificou a vida 
para salvar seu rei e senhor na batalha de Aljubarrota, e um dos 
tios (Ifiigo Lopez de Relho) haviam poetado á maneira gallaico- 
portuguesa,^) no género rústico que caracterizava o cancioneiro e 
para o qual chamaram a attenção do novel litterato. 

Da raridade dos livros de trovas da primeira época, já em 
principies do sec. XV, e pelo outro lado da pouca importância que 
o erudito imitador de Dante e Petrarca, introductor do Soneto italiano, 
ligava no fundo ás curiosidades de antanno^)^ dá ideia o pormenor 
que pela sua mente nem mesmo perpassou a suspeita de o Regente 
poder haver tido á mão, em casa de seu pupillo e genro D. Affonso Y, 
uma collecção dos versos do bisdono de todos elles. 

1) Os morgados de Guadalfaxara, Fita e Buitrago foram instituídos em 
1365 pelo avô do Marquês, o de Real de Mançanares em 1383. A respeito 
das livrarias de magnates castelhanos e dos consistórios poéticos, celebrados 
em seus castellos, veja- se um artigo de Felipe B. Navarro, Fortalezas y 
Castillos de la Edad Media no Boletin de la Soeiedad Espanola de Ex- 
cursiones, vol. VII, 1899. 

2) E incontestável ter visto o volume antes de o terem emancipado 
aos 14 annos. Mas pode haver duvidas sobre se o viu em poder de D. Meneia, 
ou alhures. Mn poder de . . . pode referir -se ao pequeno magnate; mas 
mais natural me parece referi-lo ao livro. Eu entendo: recordo . . . em 
poder de minha avô . . . haver visto um grande volume de cantigas serranas. 
Outros entendem: recordo haver visto um grande volume . . ., sendo eu 
em, idade não provecta mas assaz pequeno moço ern poder de minha avó . . . 
Veja -se por exemplo a traducção de Hugo Eennert, no seu estudo sobre 
Macias o Namorado, citado no nosso § 97. 

3) Da actividade d' estes epígonos terei de fallar no Capitulo IX. 

4) Na livraria do Marquês havia uma única obra em romanço do 
sec. XIII, conforme direi mais tarde. É comparando a bibliotheca d' este 
grande hespanhol, e dos mais coUeccionadores mencionados mais acima, 
com a de D. Duarte, que se reconhece claramente, qual e quão importante 
era o pecúlio de manuscriptos com poesias archaicas , no gosto dos séculos XIII 
e XIV, que os reis de Portugal haviam herdado de seus maiores. Por grande 
que fosse o gasto dos imitadores castelhanos, de 1350 a 1450, o que admira 
é que nem mesmo nas riquíssimas collecções de Isabel a Cathohca se en- 
contrasse exemplar algum. As Eevistas annunciam, como em preparação, 
um estudo de Mário Schiff sobre os mss. da bibliotheca do Marquês de San- 
tilhana. 



— 239 — 

§ 168. Copio as palavras do Marquês não só para que o leitor 
não tenha de recorrer a outros volumes, e para completar os in- 
diculos que inseri no Cap. II, mas também porque terei de lhes juntar 
algumas observações. 

Depois de ter fallado das origens gallaico- portuguesas da lyrica 
castelhana, acrescenta, exemplificando: 

'■>Acuerdome, sehor muy magnifíeo , siendo yo en edat no pi'ovecta 
mas asaz mozo pequePío en poder de mi abuela Dona Meneia de 
Cisneros entre oiros libros aver visto un grant volumen de cantigas 
serranas e decires portugueses e gallegos de los quales la mayor 
parte eran dei Iley Don Dionis de Portugal (creo, senor, fue vuestro 
hisahuelo), cuyas obras aquellos que las leian loaban de invenciones 
sutiles e de graciosas e dulces palabras. Avia atras de Johan Soarez 
de Pavia el qual se dice aver muerto en Oalicia por amores de 
una infante de Portugal. E de otro Fernant Gonzalez de Sanabria.« 

Os indicies dados são insufficientes para se detei-minar o conteúdo 
do volume. De um lado os nomes dos auctores fazem suppôr que 
era igual ou semelhante aos apographos italianos (mas não ao CA)^), e 
constituia uma compilação de obras da época toda, desde os mais antigos 
trovadores como D. João Soares de Paiva (Ind. 23 — 28 e 1330), 
pelos alfonsinos comoFernam Gonçalves de Seabra Çlnd. 384 — 391 
e 737), até D. Denis, sendo este o poeta que cá como lá assignava 
a maior porção de versos. Do outro lado as notas sobre os géneros 
representados podem suscitar a ideia que a miscellanea de D. Meneia 
de Cisneros fosse sensivelmente diversa das três que hoje pos- 
suímos, mais completa em serranas, pastoreias, e cantares de 
amigo, i. é nas especialidades semi -populares, cultivadas com pre- 
dilecção por D. Denis, D. João d' Aboim (o mais illustre dos corte- 
sãos que vieram de França com o Bolonhês) e por mais alguns 
trovadores como Ayras Nunes, o culto clérigo de Santiago, e Pedro 
Amigo de Sevilha: um cancioneiro de D. Denis, na accepção lata 
da palavra (C 1 do quadro), uma continuação portanto do CA, em 
que a Parte II, o Livro das Donas, havia tomado um desenvolvi- 
mento notável; ou, por ventura, apenas essa tal Parte 11 



1) D. Denis nSo tem parte alguma no CA. Paiva era, segundo os 
meus cálculos, representado com alguns cânticos de amor, nas partes cor- 
tadas a principio do volume. Seabra ainda hoje alli figura com as canti- 
gas 210—221 (e 445—447). 



— 240 — 

avulsa.^) Emfim, o estádio intermediário entre o CA e o CV 
e CB. 

Tudo depende da interpretação que devemos dar ás palavras: 
cantigas serranas e decires. Pondo virgula entre cantigas serranas, 
podemos pensar em três géneros diversos: canções de amor, can- 
tares de amigo e versos de escarnho. Neste caso a semelhança 
com os apograplios italianos pode ser sustentada. Lendo cantigas 
serranas, o caso muda de figura. Mas mesmo então lia duas 
possibilidades. Ou o marquês dava esse nome, em harmonia 
com o uso posterior de Gil Vicente, aos cantares virginaes em 
dísticos encadeados ou outros versos de refram, differenciando 
assim vagamente todos os versos no gosto popular, das cantigas de 
mestria no gosto dos eruditos palacianos (decires).^) Ou cantigas 
serranas eram exclusivamente as verdadeiras serranilhas, i. é as 
pastoreias peninsulares, propositadamente rústicas e realistas, em que 
a leviana pastorinha de França apparece transformada picarescamente 
em virago (vaqueira ou toureira), com hábitos e traje de bandoleira. 
Esta interpretação recebe apoio do facto que o Arcipreste de Fita, 
seu principal cultivador, as chamou cantares serranos^) e canticas 
de serrana^) (mas não cantigas serranas, como ás vezes se tem 
asseverado); e também do outro facto já indicado, que os três 
ascendentes do Marquês seguiram o mesmo rumo, de mãos dadas 
com o próprio magnate que o acrisolou deliciosamente na celebre 
Yaqueira de Finojosa. Se assim fosse, a diíferença entre o 
volume de D. Meneia e as três compilações de que hoje dispomos, 
seria evidente. Nos apographos italianos ha apenas quatro pasto- 
reias á maneira francesa^), (sendo duas no gosto archaico e as 
outras segundo a ultima moda) e uma única á maneira nacional, 



1) É certo que um volume já vetusto em 1400 devia estar mais próximo 
dos textos autographos do que as copias de Angelo Colocci. Braga conclue 
das formas Senabria e Fernant (var. Ferrant) que o exemplar de D. Meneia 
era uma trauscripção castelhana. Sem razão, porque o Marquês escrevendo 
castelhano havia de nacionalizar forçosamente os nomes próprios gallego - por- 
tugueses, visto que tal era o costume da época. 

2) Se pelo contrario decir significasse versos de escarnho, podíamos 
pensar numa combinação da Parte II e III, eventualidade que julgo pouco 
plausível. 

3) Fita, estr. 970. 

4) Ib. estr. 933, 961, 971, 996. 

5) Cf. § 238. 



— 241 — 

cujos começos e primeiras amostras procuramos de balde. Nem 
mesmo essa única está completa. O fragmento que subsiste, 
intercalado, com direito ou sem direito, em outra cantiga diz: 

Na terra de Sintra \ a par d' esta serra 

vi Ha pastora \ qtie braadava guerra. (CV 410). ^) 

Sufficiente para provar a existência da serrana como género humoristi- 
camente rústico na litteratura portuguesa, antes do Arcipreste, 
dos Mendozas, e dos imitadores posteriores (pois teve voga até os 
dias de Lope de Vega), não o é de modo algum para motivar 
a descripção do códice, tal como o Marquês a esboçou. 

Do grande volume, patenteado outr' ora aos olhares ávidos 
do juvenil e estudioso magnate, nunca mais se descobriu vestigio 
algum. Seria destruído por um accidente? foi desgastado pelos 
epígonos que na 1* metade do sec. XIV ainda trabalhavam na 
renovação da lyrica e musica indígena? dado a um colleccionador 
italiano em troca de um Boccaccio, Petrarca ou Dante? de um 
Cicero, Séneca, Platão, Aristóteles? Ignoramo'-lo, infelizmente. — 
Tenho de registar apenas a opinião de Th. Braga, que reconhece 
no volume de D. Meneia um treslado secundário do Livro das 
Cantigas do Conde de Barcellos, extraviado em Castella por morte 
de Alfonso XI. 

§ 170. Quanto á Carta do Marquês, o primeiro escritor que 
a aproveitou, haurindo nella informações sobre o período gallíziano 
da lyrica peninsular, foi o íllustre Contador D. Gonzalo de Argote 
y Molina (1548 — 1598), feitor de S. Sebastião em Sevilha. Era 
duas das suas obras menciona a Carta, classificando -a de excellente 



1) É liçSo restituída. No apographo do Vaticano lê -se: 

aterra derint' o per desta fserra 

uy hua fserana q braadaua gerra. 
Os versos immediatos que parecem conter palavras da serrana: 

vos teede comigo, decé-vus d terra 
e mais uma phrase proverbial 

pois [ajllá tangem e ca ora sõa, 
estão ligados pela rima com o principio da poesia: 

Imís Vaasqiies, depois que parti 

d' essa cidade tan bõa Lisboa, 

achei tal encontro que digo per mi 

que son ja õa, 

e também com a serranilha, de sorte que é provável ser essa realmente 
um intertnexxo. 

16 



— 242 — 

discurso de la antiguedad de la poesia. Primeiro , no Discurso sohre 
la poesia castellana eontenida en este libro ^ i. é. no Conde Lucanor 
de D. Juan Manuel, por elle tirado á luz em 1575.^) Em segundo 
logar, ao historiar os feitos dos Mendozas, na obra histórico - genea- 
lógica sobre a Nohleza de Andalucia^) ^ a qual tive e terei de citar 
a miúdo neste volume. 3) Nella referiu -se varias vezes ao em- 
prego da lingua gallaíco- portuguesa pelos metrificadores castelhanos 
até os dias de Enrique III, p. ex. ao fallar de Macias o Namo- 
rado.*) De posse de um exemplar dos Cânticos e Milagres de 
Alfonso X, do qual extrahiu versos,^) Argote foi dos que melhor 
conheceram os cimelios da litteratura pátria, o Duarte Nunes de 
Hespanha. Ainda assim, não possuia nenhum Livro de Trovas 
profanas. ^) 

O seu exemplo ficou porém isolado. Tanto o cancioneiro do 
próprio Marquês como o seu Doutrinal litterario continuaram occultos 
e inexplorados até 1775.^) Só então a Carta foi extractada por Sar- 
miento nas Memorias para la historia de la poesia y poetas espanoles,^) 
sendo impressa por Sanchez no primeiro volume das Poesias Castellanas 
anteriores ai siglo XV^). Desde então repetiram -na varias vezes, i°) 



1) Na nova impressão d' este Discurso (por Menendez y Pelayo 
Antologia, V, 72) não encontro período algum relativo ao Marquês. Não 
tendo ao meu alcance o original de 1575, é-me impossível verificar a exac- 
tidão das referencias de Sanchez (vol. I, p. XXXVII) e A. de los Eíos. 
{Obras dei Marquês, p. 159) que nos remetteni ao § 20. 

2) Infelizmente, a obra ficou incompleta. Só possuímos as duas partes 
relativas a Baeza e Córdova. A terceira e mais importante sobre Sevilla 
nunca appareceu. A 1* ed. é de 1588. Aproveito a 2" de 1866. Longe 
de ser impeccavel olla é, comtudo, preciosa. 

3) Víd. p. 708 da 2» ed. 

4) Ib. p. 548 ss. e 555. 

5) Ib. p. 9 e 300. 

6) Víd. No. VI d' este Capítulo. 

7) O exemplar das obras de Santilhana que fora parar ás mãos de 
Argote de Molina, não é o próprio do Condestavel (No. 86 da sua bíbliotheca, 
vendida em 1467). Segundo Sanchez e A. de los Rios, o códice M. 59 da 
Bibl. Nac. de Madrid, sendo o próprio que Argote de Molina possuia, é 
apenas copia tardia, escrita por differentes mãos do sec. XVI. 

8) P. 148. 

9) Ed. Madrid 1799, vol. I, p. LVIIss. 

10) A. de los Rios, Obras dei Marquês de Santillana, Madr. 1852, p. 1 — 18; 
Annaes de Sciencias e Lettras., Lisb. 1858, tomo II, 284 ss; Th. Braga, 
Poetas Palacianos, p. 151 ss; M. Menendez y Pelayo, Antologia, Tomo V, 
p. 18 ss. 



— 243 — 

com os merecidos elogios. Com relação ás espécies sobre a lyrica 
gallaí CO- portuguesa 1) ainda não foi, nem pode por ora, ser devi- 
damente commentada. 

IV. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. 

§ 171. Já conhecemos a breve clausula do testamento, datado 
dos paços de Lalim, 30 de Março de 1350, pela qual D. Pedro 
de Portugal, Conde de Barcellos, legava ao rei de Castella o seu 
LÂvro das Cantigas.^) Para merecer tal distincção devemos ima- 
giná-lo de excepcional valor, intrínseco e artistico, suppondo que 
irmanaria com os códices que mereceram especial cuidado a Alfonso X 
na sua ultima vontade. Mas a pesar d' isso não resta nenhum dado 
ulterior seguro sobre o tesouro indigitado. Apenas conjecturas, tanto 
sobre o seu caracter como acerca do fadário que correu. 

Desde que o testamento viera a lume, sendo aproveitado pelos 
auctores da Monarchia Lusitana ,^) ou desde que, um pouco antes, 
a noticia fora divulgada nas obras históricas de Faria e Sousa, ^) 
os escritores dos sec. XVII e XVIII 5) interpretaram a doação como 
prova indiscutível do talento poético do Conde. ^) 



1) Os §§ 14 — 16. 

2) Vid. § 163, e § 28 da Resenha Bibliographica. O testamento 
acha -se impresso integralmente na Hist. Oen., Provas I, No. 22 (p. 138). 

3) Mon.Lus.Y^ Livro XVII — XIX, publicado tardiamente em 1650. 

4) Epitome, III, c. 9 (1628); Europa, III, p. 387. Na assaz inexacta 
Vida do Conde, que serve de Prologo á detestável edição hespanhola do 
Nobiliário (1646), não ha referencia alguma ás Cantigas. Nem tão pouco 
nas Notas genealógicas de Faria o Sousa, no fim do volume. 

5) Mon. Lus. XVII, c. 5 (p. 184): homem inclinado a estudos, segundo 
vemos em seu testamento em que deixou a el Rerj de Castella o seu Livro 
das Cantigas; e quem tinha composto hum cancioneiro que podia ser 
apresentado a hum Rey, pessoa era com noticia de boas lettras. — Hist. 
Oen. I, 265: nelle se declara poeta, porque deixa as suas poesias a el 
Rey de Castella. Da sua existência não pode ja haver duvida nem de 
que o Conde seja o seu author pela menção que delle fax no seu testa- 
mento. — Barbosa Machado {Bibl. Lus. III, 538 — 542), Nicolas António 
(Bibl. Vet. II, 9 e cf. II, 160), Pinheiro Chagas {Hist. Port. I, 139) pro- 
nunciam -se no mesmo sentido. 

6) É todavia possivel que já no sec. XVI alguns eruditos como Resende 
e Duarte Nunes de Leão, e outros que tinham entrada na Torre do Archivo, 
soubessem das Trovas pelo testamento ou por outros indícios. O possuidor 
quinhentista que mandou encadernar o CA juntamente com o Nobiliário, 
estava certamente informado. Cf. Varnhagen, Notas 377, Jahrhuch VI, 
p. 355. 

16* 



— 244 — 

No principio d' este estudo expus miudamente os pareceres 
dos modernos depois do descobrimento do CA. Narrei, como Beller- 
mann aventou a questão, se o nosso códice seria por ventura o 
Livro das Cantigas] como Varnhagen construiu sobre esta lem- 
brança um romance de amores entre o Conde e sua sobrinha, (esposa 
de Alfonso XI e neta predilecta de S. Isabel, á qual D. Branca de 
Portugal legara a sua bibliotheca) — aquella formosíssima Maria, cuja 
mediação entre os reis de Castella e Portugal, por occasião da batalha 
do Salado, inspirou uma estrophe sentida ao cantor dos Lusíadas.^) 
Expliquei como esta construcção phantasiosa se foi pouco a pouco 
desmoronando; e também como Th. Braga a substituiu pela conjectura 
judiciosa de que o Livro fora do Conde apenas pelo facto material da 
coUeccionação e da propriedade. Finalmente, como Varnhagen, vexado 
com a queda do seu château en Espagne, começou a taxar o bastardo 
de D. Denis de plagiário que descarada e fraudulentamente se tivesse 
apropriado de versos alheios, supprimindo os nomes dos verdadeiros 
auctores no seu Livro das Cantigas!^) 

Pela maneira como discuti o assumpto, mostrei claramente 
aceitar a hypothese de Braga, persuadida de que o livro legado 
ao rei de Castella continha rimas de muitos trovadores, o espolio 
da época inteira, colhido nos últimos momentos do crepúsculo.^) 
Levam a esta convicção os termos em que o Conde falia do seu códice, 
chamando -o o meu Livro das Cantigas e não o Livro das minhas 
Cantigas, ou o Livro das Cantigas que eu fiz;^) a falta de toda 
a allusão ao seu talento poético nos Nobiliários e documentos his- 
tóricos ; a carência de versos d' elle na bibliotheca de D. Duarte ; e 
principalmente o logar modesto que pelas suas composições occupa 
nas opulentas miscellaneas CB e CV. 



1) Lus. III, 102. 

2) Varnhagen tinha em mente as 56 composições em commum ao 
CA e CV, cujos auctores tornara conhecidos. — Cingindo -se ao parecer de 
Varnhagen, Júlio de Castilho dedicou um capitulo da sua Lisboa Antiga 
(Vol. VII, p. 204 — 223) ao talento poético e ao romance do Conde de Barcellos. 

3) Não creio que o titulo indicasse mero direito de propriedade, no 
sentido em que hoje falíamos do Cancioneiro de D. Meneia de Cisneros, 
do Cancioneiro Colocci-Brancuti, Gayangos, Gallardo, Juromenha, Fer- 
nandes Thomas etc. Se realmente a obra fosse apenas um exemplar 
sumptuoso do Cancioneiro de D. Denis, o Conde teria empregado, penso 
eu, designação mais adequada. Segundo Brandão, não faltou quem assim 
pensasse. 

4) Cf. p. 132, Nota 5. 



— 245 — 

Nellas assigna apenas quatro canções de amor,i) e seis de es- 
cambo, 2) por signal muito mediocres. Além d' isso, encontro apenas 
duas allusões ao meio -irmão de Affonso IV. ^) Mas nenhuma diz 
respeito ás suas benemerencias litterarias. Uma, do escudeiro -portu- 
guês Joam de Gaya a um vassallo interesseiro e volúvel do Conde, 
nomeia este simplesmente a par de seu sobrinbo, o senhor de Albu- 
querque, e do infaute-successor.^) Outra, 5) de ura jogral leonês, de 
pouquissima veia, o qual depois de gabar o rei de Portugal, em cujo 
serviço prosperava, cantando, e o jovem herdeiro da coroa*'), exalta a 
liberalidade do Conde (titulo cuja interpretação é incontroversa, visto 
que o de Barcellos era naquelle tempo o único Conde em Portugal).'') 
Sem experiência directa da generosidade do magnificente fautor dos 
fidalgos que os pôs nas mui grandes quantias, só por o ouvir affirmar, 
João de Leon assevera — segundo com apres' ei: 

se fosse seu o tesouro 
que cl rey de França ten, 
tan ben prata come ouro 
daria todo a seu seti. 

Ingénua maneira de captar a benevolência do elogiado. E realmente 

as riquezas do Conde, devidas em parte a mercês regias, em parte 

1) CV 210—213. 

2) CV 1037 — 1042. É justo suppôr não houvesse mais que esta 
dezena de ensaios. Mesmo se o CB e o CV fossem independentes do Livro 
das Cantigas, o incógnito compilador das duas miscellaneas que acolheu 
138 poesias de D. Denis, não teria de certo oníittido copla alguma do Conde, 
caso o seix haver fosse mais abundante. 

3) Sabendo que ha uma única poesia sobre D. Denis, o leitor já não 
se admirará de tal penúria. 

4) CV 1058. 

5) CV 707. No respectivo trecho occorre uma palavra duvidosa, 
que clama pelo confronto com o CB. Monaci imprimiu q he irmãtio 
dei rey. Varnhagen , desejoso de encontrar provas da veia poética do Conde, 
metteu rimante dei rey [Novas Notas 378). Braga aceitou esta lição 
{Zeitschrift, 1, 44). Posteriormente substituiu -a pela lição irmão -tio {Canc. 
Vat. Rest. No. 707, p. LXX e LXXXI). Desconheço o termo; ignoro 
que grau de parentesco possa indicar; sei que as cinco syllabas de que consta, 
são demasiadas para a economia do verso, que só exige três; julgo de todo 
ponto improvável que um jogral qualificasse sem cerimonia nem consideração 
de rimante dei rei a um dos personagens mais grados da corte. A simples 
leitura irmão (3s.), possivel numa época onde a bastardia não era consi- 
derada como deshonra, e metricamente correcta, parece-me preferível ajemi- 
irmão ou meio -irmão. 

6) Vid. Cap. VI, §59. 

7) Temos expressão parecida numa obra hespanhola, o Libro de Mo)i- 
teria (Vol. II, 407 da Bibl. Venatoria). Mas ahi o rei e o Co7idc su fijo 
são Alfonso XI e o Conde de Trastámara. 



— 246 — 

a opimos casamentos, eram tão consideráveis que no Livro de 
Linhagens as vemos mencionadas com espanto, i) nas notas, accres- 
centadas por algum continuador nos claros deixados de propósito 
para estes fins. 2) 

§ 172, Junto algumas notas biographicas com o intuito de 
mostrar quanto a sua elevada posição, e seu parentesco com os 
dynastas e aristocratas de Portugal, Castella e Aragão, suas viagens, 
sua prolongada estancia na região clássica dos solares antigos (Entre 
Doiro e Minho) na qualidade de inquiridor official, as investigações 
nos cadastros e nas chronicas a que esses trabalhos e os de genea- 
logia o obrigavam, o ócio que desfrutou durante muitos annos, 
as riquezas que juntara, e a sua liberalidade, devem ter facilitado 
a tarefa de recolher as trovas dos coevos e antepassados. 

D. Pedro de Portugal é mais conhecido ainda que D. Affonso 
Sanches (o primogénito entre os nove bastardos que o sempre 
namorado D. Denis dava a criar a sua esposa, confiado nas virtudes 
mais que griseldicas da que foi santificada pela voz do povo antes 
de o ser pela cúria), talvez porque sobreviveu ao irmão e também pelo 
papel politico que representou, mas principalmente mercê dos dois 
trabalhos litterarios que a fama lhe attribue. 3) 

Em 1304 acompanhara a Agreda e Tarazona o pae que ia 
conciliar Aragão e Castella com os Lacerdas. *) Senhor de Gestaçô, 
na comarca de Lamego desde 1306, e também de Várzea da 
Serra e Lalim, onde estabeleceu residência num paço opulento, 
D. Pedro foi em 1307 instituido mordomo da Infanta D. Brites, 
futura rainha de Portugal. Posteriormente occupou o posto de 



1) Ca mais forom por elle postos e feitos em muy gramães contias 
ca pellos melhores quatro homeens boos que forom em Portugall, sal- 
uamdo se forom rreys. E este foy o qtie erdou alguuns filhos dalgo nas 
sas erdades e que ouue os melhores vassallos que ouue outro comde nem 
homeens boos dos que dantes forom. — P. M. H., Seript. 193 e 290. 

2) E rrogo a aquelles que de pos mym veerem e uomtade ouuereni, 
de saber os linhageens , que acreçentem em estes titollos deste liuro aquelles 
que adianite deçemderem dos nobres fídallgos da Espanha e os ponhatn 
e espreuam nos togares hu conuem. — P. M. H. Seript. 231: Prologo. 

3) Com relação ao Nobiliário seja repetida aqui a informação que 
uma das minhas Randglossen, a XXX*, lhe será dedicada. 

4) É costume dizer que D. Pedro nasceu em 1291, dois annos depois 
de Affonso Sanches. De maior idade não só quaudo em 1301 accompanhou 
seu pae a Tarazona mas já quando viuvou em 1301, passando logo a 
segundas núpcias, teremos de fixar seu nascimento pelo menos em 1285. 



— 247 — 

alferes -mór, nomeado no mesmo acto pelo qual D. Denis lhe 
deu o Condado de Barcellos, em Maio de 1314.1) Temporaria- 
mente foi também fronteiro -mór de Entre Doiro e Minho e da 
Beira. Neste meio -tempo ajudou o pae na sua obra legislatoria sobre 
honras e coutos. Os fidalgos com cujos bens se locupletou, princi- 
palmente como herdeiro de sua primeira esposa D. Branca Pires 
de Sousa, eram D. JoãodeAboim, o trovador, e Mem Garcia de 
Sousa, irmão do poeta Fernam Garcia de Esgaravunha. Essas 
suas relações de parentesco com a fidalguia peninsular foram alargadas 
por um segundo matrimonio com a aragonesa D. Maria Ximenes 
Coronel 2) y Artal, dama da rainha D. Isabel. 3) Nas hostilidades 
entre D. Denis e seus filhos, provocadas pelos extremos de affecto 
que o monarca mostrava pelo bastardo D. Affonso Sanches, tencio- 
nando até legitimá-lo (diziam), para lhe transmittir a coroa, o Conde 
tomou com intenções leaes o partido do herdeiro nato, a cuja casa 
pertencia pelo seu posto. Pçr causa d' essas luctas civis viveu 
desteiTado e destituído dos seus bens durante quatro annos, em 
Castella,*) onde tornamos a encontrá-lo em 1340 depois da victoria 
do Salado. ^) Quando, porém, o bravo Affonso pegou em armas 
(1321 — 1322), contra o progenitor e seu predilecto, fez-se medianeiro 
da paz, ao lado da Rainha D. Isabel, entrando em seguida novamente 
nas boas graças do pae,quelhe restituiu todos os bens confiscados (1324). 
D. Pedro falleceu em 1354. Teve sepultura honrada na igreja 
do mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca, não longe de Lalim. 
Quando a abriram no sec. XVII, a sua estatura gigantesca surprehen- 
deu os que assistiram á fúnebre cerimonia.^) 

1). Erram os que dizem 1324, ou 1304. D. Martim Gil, o 2" Conde, 
a quem D. Pedro succedia, ainda estava vivo em 1312. O 1°, D. João 
Affonso de Albuquerque, creado em 1298, fallecera em 1304. Cf. Anselmo 
de Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Cintra, Vol. II, p. 330 e 346. 

2) Para avaliar o poderio d' esta sua segunda esposa (parenta da mais 
que matrona romana, cuja fama os novellistas apregoam) bastará dizer que 
o casamento de D. Pedro IV de Aragão com a filha de Affonso IV de Por- 
tugal foi por ella tratado em 1347, de accordo com D. Juan Manuel de 
Castella e sua filha D. Constança. 

3) Teve ainda no fim da sua vida, relações com outra dama, D. Teresa 
Annes de Toledo; mas o casamento não está provado. Vid. Braamcamp 1. c. 

4) Pelo seu testamento sabemos que havia levantado um empréstimo de 
dinheiro em Burgos. Provavelmente no tempo do seu desterro. — Vid. 
Cap.VI, Biogr. IX. 

õ) Por occasião das cortes de Arenas. Vid. Cron. Alf. XI , cap. 255. 

6) Vid. Mon. Lus. XVII, c. 3 a o; XVIII, c. 11 e 48; XIX, 29. — Hist. 

Oen. I, 254—279 e Provas I, Nòs 19-22. — P.M.H., Script. 193, 257, 290. 



— 248 — 

Em 1336. por occasião de uma das guerrilhas inglórias e 
perniciosas entre os dynastas peninsulares, tivera de invadir a Galliza, 
talando campos e queimando castellos. Não obstante, o Conde amava 
muy verdadeiramente o serviço do rei castelJiano , ^) o qual casara desde 
1329 com a filha de Affonso IV, a gentilissima Maria a quem já 
alludi.2) Da, intimidade d' estas relações é testemunho a doação 
do cancioneiro, realmente significativa, porque o Conde no seu testa- 
mento não se lembra de nenhum seu consanguineo português.^) 

§ 173. Para explicar a singular preferencia, será bom recor- 
darmo-nos de que a arte portuguesa ficara orfan e agonizante desde 
a morte de D. Denis. O jogral lá o diz: 

Os trobadores que pois fiearon 

eno seu reino e no de Leon, 

no de Castela e no de Aragon, 

nunca pois de sa morte trobaron! 

E dos jograres vus quero dixer: 

nunca cobraron panos nen aver, 

e o seu ben, muito [o] desejaron.*) (CV 708.) 

D. Affonso IV, se bem que sustentou jograes, nunca revelou inti- 
midade com as musas. 5) Os acontecimentos que caracterizam o seu 
reinado são a feroz crueza contra D. Inês de Castro^) e a expedição 
ás Canárias e até o Cabo de Não, dos marinheiros educados pelo 
primeiro almirante português Manoel Pezagno (Pessanha) de Génova, 
a qual preludia aos gloriosos feitos da época joannina. ^) Quanto ao 
herdeiro que surge uma única vez no Cancioneiro , na cantiga acima 
mencionada de João de Leon,^) merecendo elogios apenas por causa 
das suas forças hercúleas e exercícios cynegeticos, atrevendo -se 
a un grand' usso matar, esse amava em segredo e com Ímpeto 



1) Cron. Alf. XI, c. 255. 

2) Alfonso XI era filho de uma meia-irman do Conde, a Infanta 
D. Constança de Portugal. 

3) Do Nobiliário não falia. Este era considerado como um docu- 
mento ofíicial, com destino pratico, obra de uma época e não de um homem. 

4) I. é: muito sentiram a falta do bem que elle lhes fazia. 

5) Sobre a lenda tardia da sua actividade poética (que se liga aos 
Sonetos de Amadis, do Dr. Ferreira) vid. p. 118, Nota 2. 

6) O sobrenome Bravo (de bárbaro, conforme foi estabelecido por 
J. Cornu na Bomania XIII, 110) significa Feroz. Só posteriormente é que 
o adjectivo passou a ter accepção laudatoria, equivalendo a Valente. 

7) Visconde de Santarém, Gosmographia I, 275; Edg. Prestage, Dis- 
covery and Gonquest ofOuinea, Lond. 1896.e 1899; vol.ll, LXXIXss. e 313. 

8) CV 707. 



— 249 — 

demasiado para exhalações lyricas, e preferia á viola e á harpa do 
trovador, danças ruidosas ao ar livre, ao som de atabales e trom- 
betas de prata, á claridade bruxuleante de tochas ou do luar. 

O mesmo jogral que lamenta a morte de D. Denis diz -nos, 
de modo nada ambiguo, para onde, á procura de conforto e de 
um Mecenas, convergiam em 1325 os olhares dos poetas. O neto 
que o vai semelhar era D. AlfonsoXI, então de quatorze annos apenas. 

Nascido em 1311, casado aos dezoito, e desde 1330 até o 
fim, amador bizarro da nobre rosa D. Leonor de Guzman, o esposo 
da portuguesa era valente e cavalheiresco, amigo enthusiasta de 
festas e torneios, i) fundador da poética Ordem da Banda (1332), 
e elegante trovador. Assim o documenta a única canção sua 2) que 
remata, symbolicamente, na sua linguagem castelhana, entremeada 
ainda de galleguismos,^) a época da lyrica gallaico- portuguesa*), e 
annuncia o raiar, no horizonte, de um dia novo. 

Sob este aspecto não é estranhavel que o Conde de Barcellos 
legasse ao vencedor dos Benamarin o seu tesouro poético. Mas dias 
antes de elle assentar por escrito essa sua vontade, Alfonso XI 
expirava. 

§ 174. A incerteza sobre o conteúdo do Livro das Cantigas 
accresce portanto ainda a duvida, se o Conde modificaria, ou não, 
o testamento, nos quatro annos que lhe ficaram de vida, juntando - 
lhe por ventura um codicillo hoje perdido, ou se os testamenteiros 
remetteriam escrupulosamente o legado ao successor e herdeiro, o 
Justiceiro de Castella. 

Em todo o caso, por decadente que fosse a poesia, e embora 
entre os que poetavam não haja nenhum, cuja sobrevivência se 
possa provar, 5) é impossível crer que o exemplar, destinado a 



1) Cron. Alf. XI, c. 50, 100, 141 e 186. 

2) Ind. 607 = CT 209. 

3) Uma composição que principia: En un tiempo cogi flores dei 
muy nobre paraíso, e contém vocábulos como tiempo bien mientes, puedo 
muerfe puesto pueda , dios , vengo, vino, cogicoger, muieho, soUa soltas — 
particularidade que não se nota em nenhuma outra poesia trovadoresca, deve 
ser decididamente classificada como castelhana, apesar dos três galleguismos 
dizer, faxer, morrer. 

4) Vid. Cap. X e Randglosse XXIV, contra Baist, Orundriss II'', 
p. 418, 5. 

5) O luso - aragonês Estevam da Quarda, de quem suspeito ter coad- 
juvado o Conde na colleccionação das trovas, por causa da posição avanta- 
jada que os seus versos occupam, estava vivo em 1347. Ignoro quando 



— 2Õ0 — 

sahir de Portugal, permanecesse único, não havendo entre os vas- 
sallos e parentes do Conde um só que diligenciasse e conseguisse 
tresladar o importante monumento, salvando para a pátria o que 
de direito lhe pertencia. O mesmo vale de Castella, onde a nacio- 
nalização da lyrica e seu libertamente do predominio gallaico- portu- 
guês exigia e surtiu positivamente um estudo afincado da obra dos 
antepassados. 

Quanto á maneira como o Conde procedeu, só posso repetir 
as conjecturas que já aventei. Encontrando, completo ou incompleto, 
um cancioneiro alfonsino e o Livro das Trovas de D. Denis, serviu -se 
de ambos, accrescentando-lhes as canções novas de amor, de amigo 
e de escarnho que lhe chegavam de Portugal e de fora, de 
trovadores antigos e coevos, incluindo as que são illustrações das 
novellas em prosa de Tristan e Lançarote. A colleccionação dos 
cantares de auctores castelhanos seria em grande parte devida aos 
seus cuidados: especialmente a dos dizeres de escarnho. 

§ 175. Dois pontos exigem ainda a nossa attenção. Se o 
auctor do Nobiliário e o ultimo compilador do Cancioneiro são a 
mesma pessoa, como explicar então que no primeiro achemos men- 
cionados trovadores não representados no segundo? e que ahi oc- 
corram nomes de dúzias de próceres e cavalleiros, os quaes cul- 
tivaram a arte, sem nota'allusiva á sua habilidade? Em segundo 
logar, não haverá revelação alguma sobre o compilador nas notas 
que accompanham as cantigas do Conde e as restantes? 

Vejamos as relações entre os cancioneiros o o Livro de linhagens 
do Conde. Nelle apparecem sete nobres com o sobrenome de 
trovadores 1): João Soares de Paiva, ^) Fernavi Garcia Esgaravunha ,^) 
Vasco Fernandez Praga,^) João Soares,^) João Martins;^) João de 
Oaya '^) e Estevam Annes de Valladares. ^) Os três primeiros estão 



morreu. Estevam Coelho II (irmão de Pêro, o matador de Inês de Castro, 
o qual fora vassallo do Conde) era activo em 1352, conforme mostro no 
Cap. VI, Biogr. XV. Mas não é certo ser elle o poeta do lindo cantar de 
amigo CV 321, em vista da homonymia com seu pae. 

1) Vid. p. 118, Nota 6 e p. 180, Nota 2. 

2) P. M. H. Seript. 201 , 297, 336, 352. 

3) Ib. 152, 192, 290. 

4) Ib. 349. 

5) Ib. 166. 

6) Ib.l27re-272. 

7)'lb. Í707 178, 207, 302. 
8) íb. 271 e 272. 



- 251 — 

effecti vãmente representados nos fragmentos que possuímos, com 
producções mais ou menos elegantes ;i) e igualmente o João Soares, 
se com efeito for idêntico aJoãoSoairesSomesso, como suspeito. 2) 
Um João de Gaya figura nos nossos cancioneiros, escudeiro e jogral 
servente de D. Affonso lY, mas tão mediocre poeta, que de modo 
algum merecia a perpetuação do seu nome, conforme mostram os 
versos que copiei. Custa por isso a crer fosse idêntico ao fidalgo, 
citado pelo linhagista. Mas afinal não é impossível que tal injustiça 
se conimettesse, por motivos que nos escapam. Os outros, não estão 
representados. João Martins^ porque não foi poeta, tendo recebido 
a alcunha de trovador apenas como herança nobilitante do pae, que 
o fora. 3) Quanto a Estevam Annes, um dos trovadores mais tardios, 
a concluir da arvore genealógica dos Valladares , *) as suas obras 
parecem irremediavelmente perdidas. Exactamente porque não en- 
traram na compilação do Conde? 

E a explicação? Por mais poderoso e sollicito que fosse, 
nem todas as composições, de cuja existência sabia, lhe seriam 
entregues. Muitas já então estariam extraviadas. Mas como alguns 
dos nomes já haviam sido registados por auctores genealógicos 
anteriores, no Livro Velho, ^) elle não podia deixar de repetir as 
nótulas sobre o seu talento. Quanto aos outros muitos, cujo talento não 
mencionai deveremos crer que fossem inferiores, na opinião do vulgo 
aos poucos que effectivamente distingue e cujo renome fulgurava 
com mais brilhantismo entre os coetâneos? Difficilmente! O fim do 
linhagista era fixar, uum singelo catalogo das gerações nobres , direitos 
históricos, evitando a realização de matrimónios entre parentes. Só 
por excepção foram apontadas qualidades e relatadas façanhas ou 
anecdotas pittorescas. Estes hors-d' oeuvre, que agradaram, e com 
que por isso mesmo vemos hoje enfeitadas as enfadonhas listas de 
nomes, são em grande parte accrescentos da geração immediata. 

Passando ás cantigas do Conde ^) — pouco numerosas e de 
somenos valor artístico, porque realmente não era águia de grande 



1) Vid. Cap. VI, Biogr. LVI, XI e I. 

2) Vid. § 204. 

3) Eev.Lus.Y, 114 — 136. 

4) Vid. § 204. 

5) Esgaravunha ^ Martins, Soares i. é um fidalgo cujas obras se con- 
servaram; um que não fora trovador; um cujos versos estão perdidos. 

6) CV 210—213 e 1038 — 1042 (== Ind. 1428 — 1432 Ws). 



— 252 — 

envergadura — parece que foram (e não admira fossem) copiadas 
segundo as suas ordens por algum amanuense, logo depois de com- 
postas. Pelo menos nas rubricas respectivas, que são das mais 
explicitas e claras,^) falia- se d' elle na 3° pessoa, apontando occor- 
rencias muito recentes, do outro dia, o que não acontece em mais 
caso algum. 2) 

Entre as rubricas de canções alheias, ha apenas três em que 
o mandatário falia. E, é preciso notá-lo, essas poucas referem-se 
a cantigas fora do commum, cuja addição (talvez supplementar) ao 
Cancioneiro era forçoso justificar. Temos de um lado os Lais 
de assumpto bretão, tirados de romances em prosa, traduzidos 
do francês,') os quaes dispôs na vanguarda das canções subjectivas 
de amor; 4) do outro lado, esparsas eróticas, não vasadas nos usuaes 
moldes palacianos, de um Judeu de Elvas 5) que apparecem des- 
locadas na Parte III. O mandatário falia d' ellas majestaticamente 
na primeira pessoa do plural, como convinha a um príncipe, mas 
sem outros esclarecimentos sobre a sua própria pessoa. Esses, talvez 
se achassem no frontespicio, em um titulo á moda de prologo, 
parecido ao que guarnece os Cantares de S. Maria? 

§ 176. Desnecessário me parece dissertar novamente, sobre 
se as duas miscellaneas descobertas na Itália^) e o nosso códice 



1) Todos os seus dizeres de escarnko têem epigraphes extensas. 

2) Vid. CV 1041: e o Conde fex-lhis porem esta cantiga; ib. 10i2: 
Esta cantiga suso escrita ... se jttntou aas que no outro dia fex, o 
Conde . . . e o conde fex Ihi esta cantiga. Note -se a divergência entre a 
expressão cantiga de cima, usada na parte antiga do Cancioneiro, e este 
suso -escrita que revela certas pretensões linguisticas. 

3) Na apostilla relativa á cantiga inicial do Cancioneiro Colocci - Bran- 
cuti (e Ind. 1), copiada no nosso Cap. VI, § XXXIV, lê -se: este lais posemos 
a a cima (ou aqui, se Colocci resolveu com acerto a abreviatura -) 
porque era o melhor que foi fe[i]to. Na que diz respeito ao segundo lais 
accrescenta: esta cantiga é a primeira que achamos que. foi feicta. 

4) Cf. §295ss. 

5) CV 1138 e 1139. Ahi se encontra a confissão seguinte: e jwrque 
é bem que o ben que homem, fax se non perca mandamo-lo screver e 
non s abonos (mais) delo mais de duas cobras . . . Confira- se na Carta do 
Marquês, as palavras relativas ao Rabbi Santob (jue cito mais abaexo. 

6) Sobre as divergências entre o CB e o CV de um lado, que são 
transumptos de originaes de tamanho diverso, e do outro lado entre o CB 
e o índice, ainda estamos insufficientemente informados. — Vid. Cap. IV, 
Miscella 7, 15, 30, 53, 56, 57, 59, 64 e § 147. — Em todo o caso ellas 
não são tão flagrantes como as que ha entre o CA e os volumes conservados 
na Itália. 



— 253 — 

serão apographos, directos ou indirectos, do Livro das Cantigas do 
Conde. Basta repetir que sendo o Conde o compilador mais tardio 
de que ha noticia, e contendo aquellas os versos do Conde e de 
coevos seus, a identidade da matéria de ambos é quasi certa. E 
se não fossem as divergências sensiveis entre o CA e os apographos 
italianos,^) que authenticam derivação diversa e certa independência, 2) 
offerecia-se muito naturalmente a supposição de o nosso códice ser 
também um treslado do Livro começado em Portugal e interrompido. 
Em vista das variantes, faltando nelle os trovadores post-dionysiacos 
e dionysianos, assim como as obras dos reis e infantes de Portugal 
e Castella, devemos considerar como sahidos do volume perdido 
do Conde de Barcellos apenas o CB e o CV, e talvez o de 
D. Meneia. ^) 



§ 177. A corte castelhana foi incontestavelmente nos dias de 
Alfonso X o mais esplendoroso centro do movimento trovadoresco 
gallai CO - português , e nos do vencedor de Tarifa o foco onde se 
realizou a transformação dos moldes e a substituição do idioma Oc- 
cidental pelo do centro castelhano. Por isso não seria de estranhar que 
também lá um dos últimos príncipes da dynastia borgonhesa tivesse 
concebido e executado o plano de encelleirar a colheita lyrica da 
época transacta. Creio todavia que tal não succedeu. 

O prazer com que o pio e arrependido auctor e coordenador 
dos Cantares de S. Maria se lembrava dos versos profanos da sua 
adolescência, posto que elles documentem um talento de veras 
assombroso,*) não podia ser bastante puro e elevado para o decidir 
a legá-los manu- própria aos vindouros, publicando a sua versatili- 
dade. O estado de desordem e deturpação em que se encontram 
esses versos, conforme indiquei, não abona a hypothese de uma 
colleccionação systematica, e temporan. Sancho o Bravo não 



1) Vid. Cap. IV, Miscellas 12, 21, 21b, 25, 27, 29, 31, 32, 37, 38, 
39, 43, 49, 52, 58, 61, 65, 68, 71, 72, 75. 

2) Cf. §57, Nota 97 e §161. 

3) Th. Braga identifica com o Livro do Conde não só o Cancioneiro de 
D. Meneia mas também o ms.-pae do cancioneiro Colocci - Brancuti , vendo 
neste ultimo o original, estraviado em Castella, no de D. Meneia uma copia 
secundaria do sec. XV; e no Cancioneiro da Vaticana um apographo ter- 
ciário. Talvez com razSlo. 

4) Vid. Eandglosse V e VI. 



— 254 — 

documentou amor algum pela poesia. O reinado de Fernando lY 
foi uma minoridade turbulenta. Alfonso XI poetava e olhava 
com benevolência para as canções de amor, já o sabemos. Mas 
a arte, velha e gasta após dois séculos e meio de esplendor, ia 
decahindo, ou evolucionando. Inteirado de mais a mais do tra- 
balho de colleccionação a que se dedicava o Conde português (o 
bem querido tio da esposa que se conservou leal e casta, apesar 
do seu cruel abandono); contando com o Livro das Cantigas que, 
certo é, lhe fora verbalmente promettido, devemos suppôr que 
apenas o coadjuvaria, franqueando -lhe os cadernos do seu reposito, 
mandando reunir as folhas soltas, espalhadas por Leão, Burgos, 
Toledo, Falência, Santiago, Sevilla e remettendo-lhe copia da 
melhor ou da única cantiga sua. De D. Pedro, o feroz Justiceiro, 
ninguém se lembrou ou lembrará como colleccionador de archaicos 
versos de amor. 

§ 178. Entre os infantes cuja vida se desenrola dentro dos 
limites da época, ha pelo contrario dois, que tanto pelo seu amor 
á arte como pelas suas relações pessoaes com o ramo occidental e os 
filhos de D. Denis podia suspeitar -se tivessem sido coUeccionadores 
de cantigas gallaico- portuguesas. Ambos eram poetas. De um consta, 
incontestavelmente, que possuia e coordenara não só um Libro de los 
Cantares mas ainda um doutrinal poético, embora a sua fama como 
versificador já estivesse apagada em tempos do Marquês de San- 
tilhana, offuscada talvez pela sua gloria como prosaísta. A fama 
do outro, para nós quasi extincta, perdurava então. Por isso julgo 
obrigatório registar o pouco que a tal respeito se sabe. 

V. O Livro dos Cantares de D. Juan Manuel. 

§ 179. Filho legitimo do Infante D. Manuel, neto portanto de San 
í^ernando, e sobrinho do Sábio, este coevo do Conde de Bai"cellos, 
com o qual se encontrou na corte castelhana em varias occasiões, 
estava coUocado pelo nascimento nos degraus do throno, cuja posse 
mais de uma vez parece ter ambicionado, quando serviu de tutor e 
CO -regente de Alfonso XI. ^) Admirador enthusiasta da obra scienti- 



1) Vid. Gayangos, Bibl. Aut. Esp., vol. .51 e na Revista Espanola de 
ambos mundos, II, 387; A. de los Rios, IV, 235 e 238; Baist, El Libro 
de la Gaza, Halle 1880; Grâfenberg em Romanische ForseJmngen VII; 
Rev. Critica I, 113. 



— 255 — 

fica e litteraria do Sábio/) é, depois d'elle, o melhor e mais 
fecundo entre os escritores da primeira época. Quasi todas as suas 
obras em prosa permanecem. As trovas estão perdidas. Em dois 
escritos deixou porém assentes allusões directas, embora lacónicas, 
ao volume que ellas constituíam. 

Numa advertência que no manuscripto mais estimado precede 
os cincoenta Exemplos do Conde Lucanor, ideados de 1329 a 1335, 
D. Juan Manuel inseriu um catalogo dos livros por elle compostos 
e previdentemente depositados no mosteiro dos frades pregadores 
de Pefiafiel por elle fundado, com o intento de os salvaguardar 
contra as inepcias de tresladadores pouco competentes. 2) No ultimo 
logar, aM se menciona El Libro de los Cantares, sem indicação 
ulterior. ^) 

A segunda referencia lê -se no Prologo Geral que o Infante 
pôs depois ás suas obras, reunidas em um só corpo. Fallando 
ahi das Regias como se deve trovar , tratado complementar da obra 
que nos interessa, e que é chamada d' esta vez: El Libro de las 
Cantigas, accrescenta expressamente a clausula que yo fiz.^) 

Perante explicação tão clara não é licito applicar ao caso a 
arte de adevinhar, pensando, á maneira de Grayangos, em uma 
collecção de cantigas populares,^) ou numa compilação de versos 
próprios e alheios.^) 



1) No Prologo do » Livro da Caça« enaltece especialmente o talante do 
rei de acrescentar el saber: non podria dexir ningun omne quanto bien este 
noble rey fixo senaladamente en acrescentar e alunbrar el saber. E 
ainda mais desenvolvidamente no Sumario de la Crónica de Espana. 

2) Depois de contar a historieta dantesca do çapateiro e do trovador 
continua: »Et recelando yo, don Johan, que por razon que non se podrá 
excusar que los libros que yo he fechos non se hayan de trasladar muchas 
veces et porque yo he visto que en los traslados acaesco muchas veces lo 
uno por desentendimiento de escribano, ó porque las letras semejan unas 
a otras que en trasladando el libro ponen una razon por otra en guisa que 
muda toda la entencion et toda la suma et sea traido el que la fizo non 
habiendo y culpa, et por guardar esto cuanto yo pudiere, fice facer este 
volumen eu que estan escriptos todos los libros que yo fasta aqui he 
fechos « etc. 

3) Bibl. Aut. Esp., vol. 51, p. 368 b. 

4) Ib. p. 234. 

5) Rev. Esp. de ambos mundos II, 387. 

6) A auctora d'estas linhas aventou a ideia, em uma nota, em simples 
forma de pergunta {Orundriss Ilb, 202). F. Wolf parece ter sido de 
parecer igual , segundo deprebeodo de um artigo inserto no Jahrbuch 11 , 99. 



— 256 — 

Eesta todavia a questão da lingua e a dos géneros lyricos, 
profanos ou sacros. ^) A este respeito faltam todas as indicações. Um 
único erudito viu em 1575 o ms. autographo, sahido do convento 
dominicano, apesar dos cuidados do douto varão. 2) E o Contador 
Argote de Molina, com quem já travámos conhecimento. Este 
benemérito editor do Conde Lucauor tencionava publicar também 
o cancioneiro do Infante. Mas o plano gorou- se. No Discurso de 
la poesia castellana, impresso na edição referida^), mas destinado a 
principio a accompanhar (em edição ampliada?) o Libro de los Cantares, 
não dá esclarecimento algum sobre o idioma, os metros e as estrophes, 
nem apresenta amostras. Apenas diz o seguinte: 

» Aunque lenia abordado de poner las anitnadversiones 
siguientes en la poesia castellana en el libro que D. Juan 
Manuel eserivio en coplas y rimas de aquel tiempo, el qual 
plaziendo a Dios sacaré despues a luz, con todo me parecio traetar 
lo m,esmo aqui, tomando oceasion destos versos que tienen alguna 
grada por su antigicedad y por la autoridad dei p'incipe que 
los hi%o.« 

Continua com algumas preciosas considerações sobre os metros 
principaes, empregados nas sentenças rimadas [viesos = versos) com 
que D. Juan Manuel havia rematado cada um dos contos do Livro 
de Patronio. Isto é: septenarios reunidos em coplas -redondilhas 
castelhanas, essa forma eminentemente nacional; alexandrinos á 
moda francesa de Berceo, Fita, Ayala; decasyllabos (respectivamente 
hendecasyllahos, segundo a maneira dos catalães Mossen Jordi , Febrer 
e Ausias March, que chama espanoles-provenzales , e também de 
italianizantes posteriores como Boscan e Garcilaso) , e o áe arte maior, 
também hespanhoKssimo. De poetas gallaico- portugueses não diz 
coisa alguma. Nem tão pouco da lingua occidental. Com razão, 
porque os disticos estão sem excepção redigidos em castelhano, 
6 castelhano acintemente muito apurado, de expressões selectas — por 
muy buenas palabras et por los muy fermosos latines que yo nufwa 



1) No século XVI deram o titulo de Libro de los Cantares aos Lou- 
vores e Milagres da Virgem, de Alfonso X. 

2) Um exemplar do Conde Lucanor achava -se na bibliotheca de 
D. Duarte de Portugal ; as cantigas não. 

3) Foi reimpresso modernamente na Antologia de Menendez y Pelayo 
ÍV, 72). 



— 257 — 

oi decir en libro que fuese fecho en romance — i) isto é , sem mistura 
gallaíca, igual ao que empregou em todas as nove obras em prosa 
que d'elle se conservam. 2) 

§ 180. Inserto numa d'ellas,^) ha apenas o dizer seguinte 
de escamlio, em gallaico- português: 

Rei belho (= velho) que Deos co(n)fonda, 
três son estas con a de Malonda. 

Mas este cantar — de que me non acuerdo sinon dei refran, diz 
o Infante — não era de modo algum composição sua, nem mesmo 
coeva ! Para illustrar acontecimentos históricos , alias não documen- 
tados , que o seu aio e mestre e outros homens da casa de D. Manuel, 
seu progenitor, lhe haviam narrado, é que cita essa obra alheia e 
antiga, a qual havia erguido brado entre os pães e avós. Antiga, 
porque fora lançada contra D. Jaime de Aragão, quando por occasião 
das contendas entre o rei de Castella e seu irmão Dom Enrique, o 
velho e sagaz monarca não cumpriu promessas a este ultimo feitas*), 
deve datar dos annos 1255 a 1259; isto é, dos tempos do Bolonhês 
e do Sábio !^) Portanto, a citação comprova apenas o que sabíamos 
do idioma lyrico de então e o seu emprego na Hespanha inteira, 
mas nada acerca do idioma dos Cantares; nem deve ser allegada 
para attestar o galleguismo poético de D. Juan Manuel. 



k 



1) Vid. Libro de los Estados, I, 90. 

2) Apenas no Chronicon se serviu do idioma dos eruditos. Vid. Esp. 
Sagr. II e Romanische Forschungen, VII, 428. 

3) Tratado de las Armas em Bibl. Aut. Esp. vol. 51, p. 260. 

4) . . porque el rey de Aragon non toro el jileito que puso con don 
Anrique. O pleito versava, segundo D. Juan Manuel, sobre duas coisas: 
guerrear o rei de Castella e casar sua própria filha D. Constança com 
D. Arrigo , logo que este se assenhoreasse de algum reino. A deslealdade do 
Aragonês consistia em não a conceder ao Infante depois de elle ter arran- 
cado aos Mouros o reino de Niebla, e em casá-la, pelo contrario, com o 
Infante D. Manuel, o irmão menor, a quem os dous reis, de commum 
accordo, deram o reino de Murcia. Parece que o filho d' este matrimonio 
devia estar bem informado. A historia não regista todavia os successos alludidos. 
Sobre os desmandos que levaram Alfonso X a banir do seu reino o inquieto, 
ambicioso e fortíssimo D. Arrigo, vid. o nosso Cap. VI, Biogr. XXXIX; 
Schirmiacher, 533 e 691 ss.; e Randglosse Xlll. 

5) Conheço um partidário de D. Arrigo que podia muito bem ter sido 
auctor do esearnho: D.GronçaTEannes do Vinhal. D' esse poeta, português 
de nascimento, descendente de uma família toledana, casado com uma ara- 
gonesa, e vassallo de D. Affonso X, occupo-me no Cap. VI, Biogr. XXXIX. 

17 



— 258 — 

Dos argumentos negativos do Discurso concluo, pratica e 
logicamente, que os metros e a língua dos cantares perdidos eram 
os metros e a lingua do Conde Lucanor ^) e seus versos. 

Theoricamente não seria estranho, seria até naturalíssimo, que 
o neto de S. Fernando — seguindo também nesse particular o exemplo 
do seu duca e maestro — tivesse poetado em gallaíco- português, 
redigindo em castelhano apenas as suas prosas. Ha todavia uma 
differença capital entre os dois. Alfonso o Sábio nascera em 1221, 
quando Leão e Galliza formavam ainda um reino independente, e 
não haviam abandonado as antigas aspirações á hegemonia. Creio 
que fallava o idioma occidental naturalmente, desde o berço, como 
seu pae, el-rei Fernando III, que vivera na Galliza até 1209. 
D. Juan Manuel, pelo contrario, pertence a outra geração. Nasceu 
quasi um século (1282) depois de Leão ter sido privado do privi- 
legio de corte permanente, cincoenta annos após a união com Castella, 
e de mais a mais quando o centro já não se importava demasiadamente 
com a gaia sciencia, procurando sendas novas. Além d' isso, o In- 
fante foi educado em Murcia, cujo fronteiro - mór veio a ser; e nunca 
assistiu com demora no occidente. O emprego da lingua portuguesa 
teria portanto sido nelle um verdadeiro tour de force, e mero 
artificio. 2) Litterariamente floresceu em dias de um monarca cuja 
falia, na expressão significativa do chronista, era heni castelhana e 
não duvidava no que havia de dizer, d'aquelle Alfonso XI que ouvimos 
entoar uma cantiga de amor, em castelhano, imica nos cancioneiros 
archaicos, como que em confirmação do que deixo explicado (queiram 
desculpar a intencional repetição). Foi coevo portanto do Arcipreste 
de Fita, que de 1330 a 1343 ia enchendo cadernos inteiros com 
poesias lyricas em castelhano, segundo a opinião geral, que sigo: 
louvores de Santa Maria, orações, serranas, canções de amor, cantigas 
de dança e troteras , tudo isso não para os palaciegos, mas para a 
arraia miúda: 

para judias e 7noras e para entendederas (estr. 1487) 
cantares fi-x, algtmos de los que dixen los çiegos 



1) No Libro de los Estados I, c. 3.5, o Infante não se aventura a 
referir em gallego o disciu'so de certo arcebispo de Santiago (Ruy Padron), 
contentando - se com dizer que o recitou em sua linguagem gallega. 

2) As suas obras foram escríptas de 1320 a 1336. — Vid. Baist, 
Libro de la Caza 132 — 155 e Orundriss II'', 405. 



— 259 — 

et fará escolares que andan nocherniegos, 

et para muchos oiros por piiertas andariegos, 

caxurros et de biãrras, non cabrian en diex priegos (1488). 

Por esta razão, faltando todos os indícios em contrario, não con- 
sidero anachronico admittir que D. Juan Manuel versificasse em 
castelhano/) embora os seus cantares pertencessem tanto pelo espirito 
como pelos eschemas métricos e estrophicos á arte trovadoresca, e 
não obstante no seu tempo e no século immediato, até o advento 
do gosto italiano, e ainda durante os seus prelúdios, muitos poetas 
se terem conservado fieis ao costume dos avoengos, cultivando, 
exclusivamente, ou juntamente com o castelhano, o idioma tradicional 
com todos os artifícios dos gallego- portugueses: o leixa-pren, macho 
e fêmea, dobre e mordobre, lay e deslay, cor e descor, cantigas de 
centões etc. O facto de elle ter estabelecido regras para a sua 
arte, está longe de abalar a minha convicção. 2) 

TI. Cantigas de D. Jnan de Lacerda. 

§ 181. Como se as gerações immediatas tivessem tomado a 
peito cancelar na época castelhana do lyrismo peninsular, todas as 
provas da influencia exercida pelos gallego -portugueses sobre os 
primeiros lyricos de Hespanha,^) as obras d' este quatrocentista de 



1) A este respeito estou em desaccordo com G. Baist, que jura com 
demasiada confiança nos assertos e na chronologia do Marquês de Santilhana. 
Deixando -se levar muito longe pelo intento justificado de caracterizar os 
gallego - portugueses como cultores da poesia lyrica e os castelhanos como 
cultores da prosa, e também pelo costume de fixar limites demasiadamente 
tardios á primeira época, opina que tanto pelo espirito como pela linguagem, 
a obra do senhor de Penafiel deve ter pertencido ao lyrismo gallaíco - português, 
e não reconhece razSo alguma para suppôr versificasse em castelhano. Vid. 
Orundriss Ilb, 419 e 426. — Milà y Fontanals, Trovadores , p. 542 era da 
opinião que defendo, quanto á hnguagem. Com relação aos metros refere - 
se a Argote, e falia de coplas castelhanas, ou redondilhas. 

2) É de todo o ponto improvável que esse doutrinal perdido , castelhano, 
seja a Poética archaíca em português de que restam fragmentos, antepostos 
ao Cancioneiro de Colocci-Brancuti. Penso, pelo contrario, que o Infante tentou 
castelhanizar as regras da gaia sciencia palaciana, tal como elle as applicára 
nos seus versos, levado pelo desejo de proporcionar aos seus conterrâneos 
o que os vizinhos na Catalunha e em Portugal já possuíam. Não posso 
imaginar por que razão Milá põe em duvida a existência da Arte de trovar; 
nem tão pouco porque não havemos de lamentar a perda d' essas obras que 
nos elucidariam sobre os pensamentos do innovador. 

3) Torno a lembrar que em nenhuma das bíbliothecas de princípes 
e magnates peninsulares dos séculos XIV e XV de que ficaram vestígios, 
se encontravam Livros de Trovas. Cantigas ou Coplas, exceptuando a livraria 

17* 



— 260 — 

sangue real não tiveram melhor sorte do que as de D. Juan Manuel. 
Somente o Marquês de Santilhana — o qual, de resto, desconhecia 
o Lib7-o de los Cantares do neto de S. Fernando — nos transmittiu 
o nome illustre do poeta Lacerda. 

Não é no paragrapho (XV), dedicado ao Cancioneiro de D. Meneia 
e aos poetas gallego- portugueses da época de transição, que o 
douto magnate o menciona, mas antes no immediato, dedicado aos 
gallego -castelhanos. Depois de ter fallado muito de leve, e de 
ouvido, da actividade poética de Alfonso X, passa sem interrupção 
a referir- se a vários outros conterrâneos, citando em primeiro logar 
o bisneto ou tresneto Don Johan de la Cerda, em seguida seu 
próprio avô Pêro Gronçalez de Mendoça, depois o Rabi Santo 
e o pouco conhecido Alfonso Gonçalez de Castro, natural de 
Guadalfaxara , terra do Marquês. 

A chronologia dos factos^) está evidentemente maltratada nas 
respectivas proposições, que cito em nota. 2) Entre a morte de 



de D. Duarte e de Santilhana. Apenas na de Carlos de Vianna existia imi 
Libre de copies (No. 82) e outro de cobles (89). Provavelmente em língua 
catalã, visto que cobles eram a forma principal da Oaya Seiencia de Bar- 
celona (estrophes de 8 versos ou bordões, compostos de dois hemistichios, 
de 4 e 6 (7) syllabas). Cf. Morei -Fatio, Catai. Litt. § 5 e 6 em Orundriss II b, 
pag. 77. 

1) Como provavelmente todos os poetas de vulto do seu tempo, o 
marquês tinha noções vagas sobre os começos e a evolução da arte. Sabia 
que D. Denis fora trovador e que juntamente com elle houve muitos deei- 
dores; mas mal se lembrava da actividade lyrica de Alfonso X. De 
alguns dos epígonos gallego -castelhanos mais em voga conhecia os nomes, 
e alguns poucos dos versos de mais nomeada. Não ignorava que grande 
parte haviam sido escritos originariamente em gallego, posto que em Castella 
continuassem a cantá-los meio ou inteiramente vertidos para castèHmqo. 
Os raros cancioneiros do primeiro período estavam gastos ou escondidos; as" 
obras do período de transição ou não estavam colleccionadas ou acabavam 
de sê -lo. Não admira por isso que errasse, coUocando a florescência da 
lyríca em geral, depois do Arcipreste e do chanceler Pêro Lopez de Ayala 
1332 — 1407 (§ XIV). O seu plano foi dar a lista dos gallego -portugueses 
que conhecia, de D. Denis até Macias (XV); agrupar sem exame minucioso 
(XVI) os gallego - castelhanos do mesmo período, de D. Alfonso X até á 
morte de Enrique II (1879), para tratar em seguida dos poetas do reinado 
de D. Juan I (XVII). Esboçando a historia da poesia a traços largos, a 
bem de um príncipe curioso, não entrou naturalmente em investigações 
miúdas de chronologia. 

2) § XVI: En este reyno de Castilla, dixo bien el Rey Don Alonso 
el Sábio e yo vi quien vio decires suyos e aun se dice metrificaba alta- 
mente en lengua latiria. Vinieron despues destos (i. é depois de Camões, 
Casquicio e Macias, citados no § anterior como successores gallicianos de 



— 261 — 

Alfonso X e a do heroe do romance Si el cahallo vos han muerto, 
que sacrificou a vida ao seu rei na batalha de Aljubarrota (1385), 
medeiam quatro gerações/) ou um século inteiro! O sentencioso 
Eabbi Santob, tão pouco no seu logar entre os adeptos do lyrismo 
gallaico - português é mais velho um pouco, tendo poetado em dias 
de Alfonso XI e do Justiceiro. 2) Gonçalez de Castro também 
parece ter sido coevo d'elle, apparecendo distanciado de Macias, 3) 
como os mais, só por causa da nacionalidade. Os dois Lacerdas 
de nome João que a historia conhece, pertencem á geração anterior, 
um ao segundo terço e o outro á primeira metade do sec. XIV, i. é 
ao grupo dos epigonos; ou por outra, aos primeiros representantes 
da época de transição. 

Ninguém duvidou ou duvida em qualificar o poeta a que San- 
tilhana allude, como descendente do primeiro Lacerda, aquelle in- 
fante D. Fernando que, fallecendo prematuramente em 1275, deu 
motivo para que os direitos de successão, não incontroversos, de seus 
filhos fossem postergados.*) Quanto ao individuo, os commenta- 
dores da Carta^) apontam o terceiro Lacerda, o qual realmente fora 
coevo do avô do marquês: filho de D. Luis de Lacerda, conde de 
Talmond (Telamon), que é costume designar como Príncipe da 



D. Denis, Paiva e Senabria) vinieron despues destos Juan de la Cerda e 
Pêro Oonçalex de Mendoxa mi ahuelo : fico buenas cançiones e entre otras 
„Pero te sirvo sin arte" e atra a las monjas de la Saydia qtmndo el 
rey don Pedro tenia el sitio contra Valência: comienqa „A las riberas 
dei rio." . . . Concurriô en estos tiempos un judio que se llamó Rabi 
Santo . . . Alfonso Gonçalex de Castro, natural desta villa de Ouadal- 
faxara, dixo assax bien e fico estas cançiones: „Con tan alto poderio." 
„Vedes que descortesia." 

1) D. Juan I era tetraneto de Alfonso X. O avô do marquês, nascido 
em 1340, poetava antes de 1369, conforme elle conta. 

2) Vid. Dr. Leopold Stein, Untersuehungen iiber die Provérbios 
Mor ales von Santob de Carrion; Berlin 1900. 

3) As poesias que SantiUiana lhe attribue, vão commummente assig- 
nadas a Macias, e não se distinguem das do Namorado. — Vid. Hugo 
Eennevt, Macias, o Namorado, a Qalician Trobador, Philadelphia 1900. 

4) Nas Sette Partidas.^ o pae introduzira a boa lei que si el fijo 
mayor muriese ante que heredase, si dejase fijo o fija que dejase de su 
mujer legitima, que aquel o aquella lo huviese y no otro ninguno (Part. II. 
Tit. 15 ley 2). Mas a grande obra de legislação nunca fora publicada nem 
sanccionada. Por isso, o antigo direito tradicional, segundo o qual o filho 
maior vivo herdava a coroa, podia ser invocado pelo usurpador. 

5) Vid. Sanchez, Poesias Anteriores ai siglo XV, vol. I, p. 177, Nota 251 ; 
A. de los Eios, Obras de Santillana 602; P. Wolf, Jahrbuch VI, p. 99 e 
Studien, 87 e 189; Milá, Trovadores 529. 



— 262 — 

Fortuna ou rei das Canárias.^) Esse D. João, filho de uma fran- 
cesa e neto de outra, 2) passara a sua juventude longe da pátria, 
em França. Como vassallo dei rei D, Pedro revoltou -se em 1350 
abertamente contra alguns seus crimes ultrajantes, tomando o partido 
de Alfonso Fernandez Coronel e D. Álvaro de Guzman, sen sogro e 
cunhado.^) Vencido, foi justiçado no anno 1357.*) Pela sua valentia 
recebera o cognome de Cide.^) 

Do outro, seu homonymo, que pertence a geração anterior, os 
críticos nem faliam, embora como vassallo de D. Denis, contem- 
porâneo do Conde de Barcellos e próximo parente de ambos,*') tenba 
todo o direito de entrar no litigio e, a meu ver, mais probabili- 
dades de o vencer. Tio de D. Juan (II, Cide) e irmão menor do 
Príncipe da Fortuna, este D. Juan (I) senhor de Gibraleon e tronco 
dos Lacerdas de Portugal, '') estabeleceu -se nesta corte, cujos monarcas 
ora protegiam as empresas dos Lacerdas, ora se viravam contra 
ellas, conforme as conjuncturas da politica e interesses dynasticos 
o exigiam. 8) Ahi casou em 1318 com uma das bastardas do Rei 
Trovador,^) continuando no reino até 1337. Insurgiu- se então 
contra D. Affonso IV e abandonou a pátria adoptiva para tomar parte 
na guerra, contra ella movida por D. Alfonso XI. Este deu -lhe o 



1) Foi a 15 de Novembro de 1344 que o papa Clemente VI lhe outorgou 
em feudo a posse das Canárias. Casado com D. Leonor de Guzman, filha 
do Bueno de Tarifa, D. Luis morreu em 1363. 

2) Filho de Mathilde de Narbonna e neto de Blanehe que era filha de 
San Luis de França. 

3) D. Juan de Lacerda estava casado com D. Maria Coronel, beUa e 
virtuosa senhora, entorno da qual a phantasia do povo andaluz teceu poéticas 
lendas. D. Álvaro de Guzman era esposo da irman, D. Aldonça Coronel, cujos 
encantos attrahiram a attonção perigosíssima do reinante. Uma irman de 
Juan II Lacerda teve sorte igual. — Vid. Zuniga, Anales de Sevilla s. a. 
1357 6 1358. 

4) Vid. Zuniga, ib.; Ayala, Oronica de D. Pedro a. 1357, c. 2 e 3; 
Mérimée, Histoire de Don Pèdre, p. 225. 

5) No Livro de Linhagens um continuador do Conde chama -o muy 
boo mancebo e aventuyrado em lides e por esto disseram que avia a tier- 
tude do Ruuy Dia%^ Cide . . . viueo pouco porque o matou elrrey dom 
Pedro de Castella. — P. M. H. , Script. 288. — Ao morrer contava 40 annos. 

6) Genro de D. Denis, era cunhado - torto do Conde de Barcellos. 

7) Para indicar a filiação, distinguindo -o do homonymo, os historiadores 
dão -lhe freqiientes vezes o nome D. Juan Alfonso. 

8) A respeito da parte tomada por D. Denis nas pretenções dos La- 
cerdas, consulte -se a Mon. Lus. XVI, c. 20, 31 e 56; XVII, c. 30; XVIII, 
cie 66; XIX, c. 28; Salazar, Casa de Lara, III, 8, 3. 

9) Mon. Lus. XVII, c.6; XVin, 66; Hist. Qen. I, p. 282. 



— 263 — 

senhorio de Real de Manzanares. i) Os historiadores e linhagistas 
collocam a sua morte em 1357, não sei se com acerto, 2) ou por 
ventura porque o confundissem com seu sobrinho e homonymo. Na 
Oronica de D. Pedro já não figura. 

Á falta das obras que escreveu, ninguém pretenderá decidir o pleito. 

Em todo o caso nenhum dos dois Lacerdas alcançou como poeta 
o reinado de D. Enrique 11.^) Quem o af firma, ^) e igualmente quem 
o considera como cultor das musas castelhanas, 5) desattende os 
dados históricos, fundando -se unicamente na vaga chronologia do 
Marquês e nas ainda menos precisas observações da Carta sobre a 
linguagem dos epígonos. 

Dos poetas baralhados no § XVI, Alfonso X versificou exclusi- 
vamente em gallego, se bem que Santilhana o ignorasse.^) O sen- 
tencioso Rabbi Santob, que ahi entrou por nefas^ serviu- se exclu- 
sivamente do idioma castelhano. Fero Gonzalez de Mendoza 
ensaiou-se em ambas as línguas. Do Castro e dos Lacerdas, o 
caso fica duvidoso. Mas tudo quanto hoje sabemos, e também a 



1) Oron. Alfonso, XI, cap. 177. 

2) Creio morreu mais cedo, porque no anno 1355 Gibraloon foi dado 
ao sobrinho, no tratado de Toro. Oron. de D. Pedro a. 1354, c. 8; 1355, c. 1. 

3) Eis o quadro resumido da filiação dos Lacerdas (alcunha que anti- 
gamente os portugueses costumavam traduzir, dizendo Quedelhas) 

.„ /Fernando I 1256 — 1275 

\Branca, filha de S. Luís de França. 



(Alfonso I, Fernandes ["Fernando II, Fernandes 

1270 — 1322 goJjuana Nunes, a Pombinha, 
Mathilde de Narbonna | viuva de 

I ID. Arrigo, desde 1303 

I 1 I 

00 /Luís 11363 íJuan I, Alfonso, 3° Juan Nunes de Lara 

^Leonor de Guzmaa ool c. 1318 com f 1350 

I Maria Affonso de 
\ Portugal 



ÍJuan II Cide í Isabel Lacerda, 

4°-! 1307—1357 4»<! amante do Justi- 

I^Maria Coronel \ ceiro de Castella. 

4) Baist, Qrundriss IP, 426. 

5) Id., em desharmonia com as suas opiniões sobre D. Juan Manuel; 
A. de los Rios, Milá y Fontanals, Trovadores, p. 529, n. 12. 

6) Repito que, segundo elle, o monarca metrificava altamente en 
lengua latina. Os escritores do sec. XVII também attribuiam este dom 
a D. Denis. Cf . § 110, 7. 



— 264 — 

affirmação formal do marquês que non ha mitcho tiempo qicalesqicer 
deçidores e trovadores destas partes, agora fuessen castellanos , andor 
luçes ó de la Extremadura, todas sus obras componian en lengua 
gallega ó portuguesa, obriga -nos a suppôr theoricamente que poetas 
anteriores a 1357 continuassem o costume antigo, sempre que o 
contrario não conste ou não se possa tornar plausivel, como no 
caso de Alfonso XI e D. João Manuel. 

Quanto ao Lacerda que fora genro de D. Denis, cunhado e 
companheiro de D. Affonso Sanches e D. Pedro de Portugal (de 1318 
a 1337), a opinião que o enfileira na escola gallaico- portuguesa, 
merece evidentemente maior confiança, i) Com relação a D. João de 
Lacerda II, que esteve em Portugal só de passagem 2), também não 
é impossivel poetasse unicamente em gallego, como Macias. Mais 
provável é porém , que escrevesse só em castelhano, como o Arcipreste, 
o Chanceler, D. Alfonso XI, D. Juan Manuel, Pedro Ferrus, ou que 
fosse bilingue como Pêro Gonzalez de Meudoça e os successores (o 
Arcediano de Toro, Villasandino, Garci Fernandez de Gerena). O 
facto de nenhum Lacerda figurar no florilégio de Baena, que abrange 
o reinado do Justiceiro e dos primeiros Trastámaras (1350 a 1450), 
não é desfavorável á primeira hypothese. 

§ 182. Com relação á parte que esse poeta de sangue real 
tomaria por ventura na colleccionação das trovas, nem mesmo me 
parece licito imaginar que coadjuvasse seu parente, o de Barcellos, 
visto que nenhuma composição sua, nem sequer seu nome, se en- 
contra nos cancioneiros da primeira época. 3) Será entre estes e o 
Cancioneiro de Baena, no grupo dos primeiros poetas tão mal conheci- 
dos do periodo de transição, do segundo terço do sec. XIV, que 
o deveremos collocar? 

VII. Volume de poemas em Iíng'ua gallega antiga do tempo 
dei rei D. Alfonso. 

§ 183. Apesar de tudo quanto fica dicto, houve apparente- 
mente no século XIX um códice com o suggestivo titulo, que 



1) Wolf, Jahrbuch VI, 99. 

2) Cron. de D. Pedro, a. 1353 c. 4. 

3) E verdade que no índice de Colocci ha um Don Jiiano (sic). O 
nome occorre porém tanto no principio da lista, entre os trovadores pre-al- 
fonsinos, que seria absurdo dar seguimento á conjectura de elle ser o poeta 
mencionado pelo marquês. 



— 265 — 

lembra o da livraria dei rey D. Duarte. E esse códice estava desti- 
nado a ser posto á venda em Madrid, conjuntamente com 400 manu- 
scriptos, distrahidos do espolio de um cavalleiro andaluz, todos 
anteriores ao século XVI. Lá havia os Cânticos (sic) de Alfonso o 
Sábio, as obras poéticas do Arcipreste, as do Judeu de Carrion, 
muitos romances, muitas coplas. Emíim, preciosidades de primeira 
ordem. Assim o affirmava um catalogo impresso numa typographia 
da capital vizinha, cujo auctor chamava os curiosos para ulteriores 
esclarecimentos a uma livraria conhecida. 

Mas — ineredibile dictu — o maravilhoso acontecimento não 
alvoroçou a península deWuno aW altro mar! Nenhum bibliographo 
deu conta do successo. Apenas ura erudito como Pascual de Gayangos 
referiu- se ao catalogo, decennios depois, com notável indifferença, 
e sem informar sobre as occorrencias do leilão.^) 

Fazendo conjecturas sobre a proveniência do mysterioso volume, 
sonhei que se tratava do cancioneiro de D. Meneia, sahido entre 1414 
e 1449 da posse dos Garcilasos-Mendozas, por troca, empréstimo, 
furto, ou como brinde. Pensei no Museu de Argote de Molina, tão 
excepcionalmente bem provido que Felipe II, o insigne coUec- 
cionador coroado, o honrou com a sua visita. 2) Mas na lista dos 
códices de que Argote se valeu, não figura o indicado volume, ao 
lado do Libro de los Cantares de N. Senhora. — Lembrei -me do erudito 
Ximena, auctor dos Obispos e Anales eclesiásticos de Jaen e Baeza.^ 
sciente de este chronista haver adquirido papeis de Argote de 
Molina, recebendo -os de D. Cristobal Peralta, cónego da Collegiada 
de Baeza e filho de outro do mesmo nome, a cujas mãos haviam 
passado directamente, como herança.^) — Não esqueci D. Lucas Cortes, 
outro sevilhano illustre e amador de antigualhas, que planeou a 
edição da Crónica general e possuia entre outras preciosidades um 
magnifico exemplar das Cantigas de Santa 3 faria ^) e um importante ms. 
do Pentateuco, de 1339. — Nem tão pouco deixei de procurar 
o rasto das obras annunciadas nos catálogos da Colombina e nas 
varias anecdotas que correm sobre os saques a que a importante 



1) Bibl Aut. Esp., vol. 51 (publicado em 1860)', p. 231, nota 2. 

2) Nobl. And., p. 9ss da ed. de 1866. 

3) Ib. Prologo, p. XI e XIII-XIV. 

4) Este exemplar que adquiriu em 1674, havia sahido da bibliotheca 
de Alfoaso Siliceo curiosus literarum omnis generis aestimator, no dizer 
de Nicolas António, que era amigo e correspondente de D. Lucas. Cf. mais 
acima p. 64, Nota 5. 



— 266 — 

bibliotheca foi sujeita. — Tão pouco me descuidei das vagas referen- 
cias de Varnhagen a um escriptor hespanhol (o qual teria citado o 
cancioneiro do Vaticano junto com outros códices de poesias catalans 
e valencianas), vendo então que entre parentheses ia lançado dubi- 
tativamente o nome de Mayans y Siscar. i) — As razões porque tam- 
bém o nome Árias Montano passou pela minha mente, deduzem -se 
do paragrapho seguinte. 

Todas essas lembranças são todavia phantasmagoricas , dissolving 
views, sem nada de palpável. 

§ 184. Graças aos vastos conhecimentos do sábio castelhano que 
é oráculo e padroeiro dos que dentro da peninsula tratam de litteratura 
hespanhola, estou hoje quasi certa de que o famoso catalogo não passa 
de invenção de um mystiíicador. Eis o que D. Marcelino Menendez 
y Pelayo escreveu em carta particular, de 10 de Sept. de 1899: 

»El catalogo a que se refiere Qayangos es el que lleva por 
titulo: Catalogo de manuscritos especiales de Espana an- 
teriores ai afio 1600 que logro juntar en la mayor parte 
un curioso andaluz. A guisa de colofon dice en la ultima hoja: 
»con licencia: en Madrid: en la Imprenta de Dn. Josef 
Collado. Se hallará en la libreria de Claros, calle dei 
Arenal, en que darán raxon de la venta de muchos destos 
manuscritos y de otros raros cedidos á beneficio de una 
obra pia. — 4'^, 8 hojas.« Este papelejo anda raro. Yo no lo 
tengo, pêro he visto vários ejemplares. Gayangos tenia uno, y 
seguramente estará entre sus libros. Creo recordar tambien que el 
Marques de Jerex o su hermano lo tienen. No lleva ano de im- 
presion, pêro el Collado, editor y librero, a quien se menciona en 
la portada, ienia su oficina en Madrid, por los anos de 1820 a 
1823. Esta debe de ser la fecha en que se imprimió el Catalogo, 
como lo indica tambien su aspecto tipográfico. Tradicionalmente se 
cree entre los bibliófilos espanoles que este catalogo dei qual nadie 
ha encontrado en venta un solo artículo, ni rastro siquiera 
dei paradero de tal coleccion, es una supercheria o mas 
hien un bromazo que algun aficionado quiso dar a sus 
CO frades. Se observa sin embargo que no está compuesio de obras 
imaginarias sino de libros que han existido o han podido existir, 



1) Vid. Theophilo Braga e os antigos Bomanceiros de Trovadores^ 
p.22-, e cf. mais acima p. 16 Nota 2. 



— 267 — 

y de muchos de los cuales se conocen otras copias. Cabe pues 
alguna duda, aunque yo, francamente, por apócrifo lo tengo, pues 
rayaria en lo inverosímil qtte una coleccion tan maravillosa y cuyo 
catalogo fue impreso y dehió de circular entre bibliófilos y libreros, 
no haya dejado ot7'o vestigio de su existência. Algunos atribuyen la 
broma a Gallardo y quizá lleven razon porque estaba muy en 
su génio. « 

VIII. Cancioneiro de que se yaleu Árias Montano. (?) 

§ 185. Nos seus commentarios ao livro de Oseas, o insigne 
editor da Escritura sagrada, polyglotta, de Antuérpia (1569 — 1572) 
{de la biblia sacra un sol — un Geronimo espanol — y un David 
en verso y prosa) cita umas „ coplas antiquissimas de Hespanha" 
cujo principio é: Oh pino pino! oh pino florido!^) 

Quem conhecer os » versos de amigo « dos nossos velhos trova- 
dores e especialmente o lindo cantar de D. Denis: Ai flores ai flores 
do verde pino, e ainda Vede la frol do pinho l"^) não deixará de 
procurar comigo no verso citado uma variante, ou composição pa- 
rallela, colhida pelo amigo de Luis de Leon num cancioneiro 
.archaíco, por elle percorrido, a procura de reminiscências da lyrica 
semi -popular, em que abundam taes interrogações e exclamações 
geminadas, como effluvios de grande dôr e affecto. A não ser 
assim — tendo colhido da boca do povo, o aUudido cantar, o que não 
seria menos interessante — Árias Montano difficilmente o chamaria 
antiquissimo , creio eu. 

IX. O Cancioneiro Marialva. 

§ 186. Em 1609, Frei Bernardo de Brito, 3) affirmou ter 
visto ou colhido em um cancioneiro de mão, que sahira da casa 



1) Vid. Panegyrico por la Poesia, p. 34 — 35. 

2) CV 171 e 173. 

3) Mon. Lus., Parte II, livro VII, c. 9. — Depois de ter tratado 
longamente de Mauregato e do lendário tributo das donzellas, localizado no 
Peito Burdello da Galliza, e em Portugal em Figueiredo das Donas perto 
de Viseu, continua: E porqiie em matérias onde falíão Authores vai muito 
a tradição vulgar e as cousas que os antigos traxião entre si como atithen- 
tieas e verdadeiras e as ensinavão a seus descendentes nos Romances e 
cantares que então se costumavão , porey parte daquelle cantar velho que 
vi eserito em hu Cancioneiro de mão que foi de don Francisco Cou- 
tinho Conde de Marialva e veo a mão de quem o estimava hem pouco e 
depois o ouvi cantar na Beira a lavradores antigos cõ algiía corrtipção e 
sem duvida foi composto em memoria deste successo na forma seguinte. 



— 268 — 

Marialva, 1) a famigerada canção popular do Figueiral, ou seja o 
romance dos Figueiredos. 2) Como todos sabem, este testemunho 
é suspeito. O romance emparelha provavelmente com as de mais 
reliqiiias de arte nacional, em prosa e verso, que appareceram no 
tempo das mudanças, maravilhosamente a ponto para favorecer certas 
patranhas e doutrinas históricas, genealógicas e litterarias, então em 
moda. Logo depois, o livro sumiu- se. Não possuímos d' elle mais 
signal algum. Parece todavia que resurgiu no nosso século, mo- 
mentaneamente, em Barcelona, apparecendo a um musicographo 
privilegiado. Creio que em sonhos! Soriano Fuertes, cujos juizos, 
em matéria litteraria, são de leveza inaudita, diz ter colhido no 
cancioneiro Marialva uma cantiga portuguesa de século XII ou 
XIII. E communica-a, com notação igual a que se vê nas cantigas 
de Alf onso o Sábio. ^) Isso não admira , visto ser de facto obra do 
próprio rei, colhida em qualquer apographo secundário.^) Ignoro, 
comtudo, de onde lhe veio a notação moderna do romance dos Figueire- 
dos. ^) O texto, tirou- o evidentemente da Monarchia Lusitana.'") 



Segue o romance. Depois accrescenta: «Servirá a velhice deste verso antigo de 
aliviar o enfadamento da historia, que minha tenção não he trazello pêra 
maior credito nem authoridade do que merece hum cantar ordinário, posto 
que os antigos não deixão de ter sua probabilidade.* 

1) Só houve um D. Francisco Coutinho. Foi 4° Conde de Marialva, 
pae d' aquella D. Guiomar cujo matrimonio secreto com o Duque de Aveiro 
e enlace publico com um filho de D. Manuel, tanto deu que fallar entre 
1520 e 1530. Morreu em 1552, sem herdeiros. O 1° fora Vasco Coutinho 
(1440), o 2% Gonçalo (f 1463), o 3°, D. João (f 1471). 

2) Impresso primeiro na Mon. Lus. 1. c; depois na Miseellanea de 
Leitão Andrade (1629) que a ouvira cantar, muito sentida a huma velha 
de muita idade, natural do Algarve sendo elle muito menino; neste 
século no Cancioneiro de Th. Braga; no de Bellermann e Hardung, no 
Cancioneiro Musical e outros mais. Esta poesia e as apocryphas todas da 
litteratura portuguesa forniam o assumpto da Randglosse XXXI. 

3) Historia de la Musica Espanola, p. 111 — 117. Barcelona 1855. 

4) A poesia é a 67* das Cantigas de S. Maria e começa: A reynna 
groriosa tan e de gran santidade! Soriano Fuertes junta a declaração 
seguinte : Para dar alguna idea de la poesia portuguesa dei siglo XII y 
principias dei XIII copiaremos una cancion^i estradada de un Cancioneiro 
antiguo que fue de D. Francisco Contino (sic) conde de Marialva. — 
Nada mais. 

5) Vease la musica de esta cancion en el n. 7 é tudo quanto mani- 
festa! Não me compete examinar aqui, qual a sua origem. Os críticos 
nacionaes acolheram -na como amostra authentica de musica trovadoresca do 
sec. XIII. 

6) A p. 111, 112 e 114 Soriano Fuertes refere-se a Brito, sem men- 
cionar o cancioneiro antigo. Será possível que a tira de papel em que in- 



— 269 — 

Se o muito problemático cancioneiro existiu, era portanto uma 
miscellanea, diversa das que subsistem. Mas como ninguém asse- 
verou ter ella encerrado uma única das cantigas profanas de amor, 
de amigo ou de escarnho que hoje conhecemos, peço vénia para 
callando-me passar adeante. i) 

X. O Cancioneiro de D. Affonso IV. 

§ 187. Do Cancioneiro, também puramente hypothetico, de 
D. Affonso lY, 2) já disse o preciso no Cap. II. ^) A lenda nasceu 
no tempo dos Britos, Farias e consortes, depois de os Sonetos de 
Amadis, compostos pelo Dr. António Ferreira, terem sido discutidos 
por estes e outros pseudo -críticos sem critério, que attribuiam 
visos de certeza a tudo quanto se lhes antolhava. 

Repetirei apenas que se esses escritores, cujo talento é inne- 
gavel, tivessem tido á vista, em qualquer códice legitimo, cantigas 
artisticas e semi -populares dos velhos trovadores, os apocryphos 
que forjaram'^) sempre teriam sabido um pouco mais aceitáveis, 
se não pelo espirito e as formas métricas e estrophicas, pelo menos 
quanto ao vocabulário e a grammatica! 

XI. Cancioneiro de um Grande de Hespanha. 

§ 188. As ,, profundas e fundamentaes" variantes que offerece 
o texto de Varnhagen, confrontado com o do cancioneiro do Vaticano, 
fizeram scismar e phantasiar o illustre cathedratico de Lisboa, 
levando -o a assentar que o treslado hespanhol provém induhitavel- 



scrovera as palavras estradada de un Cancionero etc. , pertencente origina- 
riamente á canção do Figueira! , ío9,se por engano juntada ás que continham 
a transcripção do cântico de Alfonso X? 

1) Th. Braga occupou-se do Cancioneiro Marialva repetidas vezes (no 
volume dedicado aos Mozarabes, cap. IV e V; no Manual, 139ss; no Ourso 139; 
e no Cancioneiro Popidar No. 2), persuadido da sua authenticidade. Datando - o 
do sec. XV, tentou identificá-lo com um volume, vagamente descripto por 
Ribeiro dos Santos {Memorias VIII, 233 — 251 e Jornal da Sociedade dos 
Amigos das Letras ] 836) que fora propriedade de certo Dr. Gualter Antunes 
e desappareceu por occasião da sua morte! — Mas esse volume era um opúsculo 
em prosa, em louvor dalingua portuguesa, entremeado de documentos iliustra- 
tivos, entre os quaes avultava uma das cinco reliquias prehistoricas ! Nada 
mais é preciso para o caracterizar como producto do sec. XVII, creio eu. 

2) Vid. o Canc. Vat. Eest. a p. XCV; Cantigas de Maria I, p. 56, 
e Menendez Pelayo, Antologia III, p. L. 

3) Vid. p. 118, Nota 2. 

4) Vid. mais acima p. 125 e p. 126, Nota 3. 



— 270 — 

mente de outra fonte estranha, e de época differente. ^) Olhadas de 
perto, essa illusão desfaz -se, A meu vôr, as variantes são retoques 
e modificações arbitrarias do editor. 2) Encontrando falsificado in- 
numeras vezes o metro, as rimas, e a grammatica, no transunpto 
do Grande, executado provavelmente por mãos mercenárias ou pelo 
menos' inexpertas, Varnhagen tentou emendar aquillo que não com- 
prehendia. Em vista das declarações terminantes do benemérito 
brasileiro, 3) o único a quem o mysterioso Madrileno se dignou 
mostrar amicalmente o seu tesouro, não ha que duvidar: de letra 
e papel mais moderno, em tudo o mais, igual ao Cancioneiro do 
Vaticano, começando como elle pelas trovas de Fernam Gonçalves 
de Seabra e Pêro Barroso, combinando nos mesmos nomes, na 
ordem das canções e em muitos erros de escrita, o Cancioneiro do 
Grande de Hespanha é uma copia d' elle, de fins do século XVIII, ou 
antes da primeira metade do XIX. Ainda assim, seria bom que 
sahisse da sua prisão, em que escrúpulos hoje sem base o conser- 
vam retido.*) 

Passemos aos cancioneiros levados para fora da peninsula. 

X. O Cancioneiro achado em Roma. 

§ 189. A noticia assentada por Duarte Nunes de Leão em 1585,^) 
chronologicamente a primeira que falia do códice de Roma, foi 
ainda assim lançada uns trinta annos depois do successo, se a data 
em tempo de el rey D. Joam, III for exacta, como devemos crer. 
Nesse caso, quer o chronista visse em Roma o cancioneiro, quer 
se inteirasse do acontecimento indirectamente, na pátria, mal se 
pôde acreditar que elle fosse a única pessoa informada e que a 
nova ficasse desconhecida dos corypheos da litteratura e archeologia 
portuguesas d' então. Creio até que a attribuição ao Rei -Trovador 
de um cancioneiro sacro, resguardado na Torre do Tombo, foi 



1) Canc. Vat.Rest. p. XCIIss. e XCV. 

2) A p. 245 , Nota 5 fallei da lição irmãtio, transformada por Varn- 
hagen em rimanfe. — Quasi todas as variantes cift'am-se em omissões, saltos, 
transposições, e intercalações não justificadas. As poucas que têm valor, são 
obvias. É útil confrontar o N» XXI do Cancioneirinho com CV 729. — Cf. 
a Nota 2* da p. 16 e o § 39. 

3) Cancioneirinho, p. 3, 4 e 10, onde é chamado espelho do de Roma. 

4) Cf. o nosso § 167 n. 2 da p. 237; e Menendez y Pelayo, Anto- 
logia III, p. L, nota. 

5) Cf. os nossos §§20, 52, 110 e 112. 



— 271 — 

consequência do boato generalizado antes que Duarte Nunes publi- 
casse 08 seus escritos. E isso mesmo no caso que os vagos elogios 
de Miranda e Camões não se baseiem na nova do achado^) (mas 
unicamente numa tradição, transmittida por historiadores antigos), 
e se os positivos louvores do Dr. Ferreira 2) derivam do exame directo 
do Cancioneiro da Ajuda. A forma como o chronista propagou a 
noticia, accidentalmente , num folheto de contenda, não accusa de 
modo algum a emphase desorbitante com que novidades peregrinas, 
nunca ouvidas, costumam ser apregoadas pelo próprio descobridor. 
Tão pouco vejo resultar d'elía, com evidencia, que Duarte 
Nunes considerasse o cancioneiro profano, visto em Roma, como 
sendo exclusivamente de D. Denis. As expressões quasi o primeiro 
— quasi de los primeros — o que elle e os d' aquelle tempo come- 
çaram a fazer á imitação dos Avernos — indicam o contrario. E a 
clausula final sobre as medidas varias dos sonetos de amores e cousas 
profanas en que se vee luego que im^itó a los poetas limosines y 
alvernos, mostra que o historiador, ou quem o informou, havia folheado 
o códice com algum conhecimento de causa. Os auctores nacionaes 
que repetiram nos séculos XYII e XVIII os seus dizeres, sem in- 
vestigação própria, entenderam todavia mal ou interpretaram livre- 
mente o seu pensar. 

§ 190. De 1847 a 1880 prevaleceu naturalmente a opinião 
que o enunciado de Duarte Nunes se referia ao códice vaticano 4803, 
ou ao ms-pae, do qual fora tresladado. •"*) Ainda hoje é essa a que 
domina.^) Apenas Th. Braga defendeu por vezes a velha these de 
elle ser um Cancioneiro privativo de D. Denis, olhando unicamente 
para a parte do trecho em que occorre o dicto um cancioneiro seu.'') 

Desde que em 1880 foi descoberta a segunda misceUanea em 
que o Rei -Trovador também se destaca e avulta com o mais opu- 
lento património, no meio de uma plêiada de rimantes, maior ainda 
do que a do CV, o problema complicou -se, principalmente porque o 



1) Vid. mais acima p. 124, Nota 3. 

2) As obras de Ferreira, — collega de Duarte Nunes no Tribunal do 
Desembargo de 1564 até 1569 — embora sahissem impressas tardiamente 
em 1598, eram conhecidas dos seus amigos, seus confrades e seus Mecenas, 
porque corriam manuscritas, segundo o costume da época. 

3) Diez, Kunst- und Hofpoesie 12; A. de los Rios, e outros. 

4) Vid. Menendez y Pelayo, Antologia III, p. XLVII. 

5) Gane. Vat. I?est. p. LXXXV. 



— 272 — 

conteúdo, cingindo -se muito de perto ao índice de Colocci, ainda 
assim se afasta d' elle em algumas minúcias. *) 

Já sabemos que Monaci, disposto a dar ao saque de Roma o 
mesmo papel romanticamente providencial que o terremoto de 
Lisboa, o dominio felipino, e a invasão francesa representam entre 
os nacionaes, não identifica o cancioneiro mencionado por Duarte 
Nunes com nenhum dos apographos italianos. 2) Segundo elle, o 
cancioneiro de D. Denis (sobre cujo conteúdo, vicissitudes ulteriores 
e actual paradeiro se abstém de emittir conjecturas minuciosas) 
foi, no cataclysmo de 1527, roubado e levado á península his- 
pânica. 3) Acredita na existência de um terceiro códice, explorado 
por Angelo Colocci depois de elle ter mandado tresladar o CB e CV.*) 
Também já ficou exposto que tenho duvidas a este respeito, en- 
contrando argumentos que fazem alternadamente propender o meu 
espirito para a affirraativa e a negativa^), mas que me inclino a 
crer em apenas dois originaes ou mss. pães, que, extremamente 
estragados, obrigaram Colocci a metter de longe em longe mãos 
á obra, escrevendo trechos que os seus amanuenses não se atre- 
viam a copiar. Suppondo que, devido ao seu estado de deterioração, 
esses dois mss. pães pereceram em seguida, mal nutro a esperança 
que ainda se encontrem restos em algum canto de bibliotheca. Sobre 
qual dos originaes foi visto pelo português ou pelos portugueses 
que presenciaram em Roma entre 1521 e 1557 o descobrimento, 
nã,o tenho opinião formada, visto que ambos encerram cantares de 
D. Denis e de outros d'aquelle tempo. Apenas creio que o huma- 
nista desencantou primeiro o exemplar menos completo (alias não 
os mandava copiar a ambos); que um e outro deriva do Livro das 
Cantigas do Conde de Barcellos e que o Itidice, trabalho individual 



1) Vid. § 176. 

2) Se non m' inganno le testimonianxe dei Santillana e di Nunes 
de Leão valgomi solo a provare la esistenxa in quei tempi di altri due 
antichi eanxioneri portoghesi da non confondersi punto con questo con~ 
servatoci dal benemérito italiano. 

3) Mário Pelaez admitte duas probabilidades: ruhato ou destrutto. 

4) O auctor citado na nota anterior é da mesma opinião. Segundo 
elle o CB foi completado por Colocci colV aiuto di un altro códice nelle 
lacune che presentava e postillato. Falta -nos por ora um estudo pormenori- 
zado em que essa these seja demonstrada. 

5) Sobre a maior ou menor probabilidade da existência de um terceiro 
códice vejam -se as Miscellas do Cap. IV, § 149 e 150 (especialmente 1, 2, 4); 
§Õ8 e 59, especialmente p. 50, Nota 2; assim como § 110 e 113. 



— 273 — 

de Colocci, ou copia de outro mais antigo, estava destinado a 
facilitar- lhe o confronto entre os dois.*) 

XI. O Cancioneiro do Cardeal Bembo. 

§ 191. Nas notas marginaes, appostas por Angelo Colocci ao 
índice de auctores, occorre duas vezes o nome Bembo. Colocci 
possuia livros que anteriormente haviam estado em poder do Cardeal^), 
e este, amigo intimo de Lucrécia Borgia, interessava -se viva- 
mente pela lyrica castelhana, a ponto de colligir para seu uso 
pessoal um álbum de quadras, motes e cantares, utilizando oppor- 
tunamente essa selecta de conceitos e agudezas subtis. ^) D' ahi a 
inferência que também possuiria um cancioneiro português, o sup- 
posto terceiro códice, que na opinião de alguns facultou ao dono do 
CV e CB emendas e pre- enchimentos de lacunas.^) As relações entre 
Bembo e vários portugueses illustres tornam -nos até complacentes 
e promptos a dar fé á deducção phantasiosa que alguns patriotas, 
viajando na Itália durante o reinado de D. João III, chegassem 
a vislumbrar a actividade litteraria de D. Denis, graças á amizade 
d' aquelle prelado , que lhes teria mostrado o seu tesouro. Eu , pelo 
menos, segui esse rasto. Do exame detido das constituintes da 
hypothese resulta o seguinte: 

No precioso catalogo de auctores lê -se sob o No. 449 o nome 
Bonifax de Jenoa, seguindo -se a nota: vide bembo Ms. bonifaxio 
Calvo de Genoa. E sob No. 456, junto á rubrica il Bey don 
Affonso de Leon, lê -se a referencia: bembo dice di Bagona figlio di 
Berenghieri. ^) 

No primeiro caso trata -se não de conhecimentos especiaes de 
Bembo sobre o período hispânico do Genovês, mas de um celebre 



1) Alguns Cancioneiros provençaes têm índice; p. ex. o N» 856 da 
Bibl. Nat. de Paris. 

2) P. ex. um canxoniere italiano: Cod. Vat. 3793 (A). Cf. Nota 5 d' esta 
pagina. 

3) Vid. E. Teza, Giornale diFil. Roma. VIII, 73 e Riv. Crit. lett. ital. I, 
61 ss. (1884); Croce, Lingua Spagnuola in Itália SB] Pelayo, Antologia YI, 
369; A. Faiinelli, Rassegna Bibliográfica II, 139; Mussaíia, Spanische 
Cancioneros, Wien 1901. 

4) Vid. § 110, p. 112 nota 4 e § 113. 

õ) Ainda ha outra nota, relativa á Hespanha, da mão de Bembo 
(segundo Monaci ella é de Colocci). No Cod. Vat. 3793, acima citado, é que 
junto ao nome Don Arrigo, se encontra a nota fris regis hispanie. — Vid. 
Randglosse XIII. 

18 



— 274 — 

cancioneiro provençal de fins do sec. XIII, hoje cod. 12473, da 
Bibl. Nac. de Paris , mas outrora propriedade de Bembo que o guarne- 
ceu de apostiUas de seu punho. Nesse cancioneiro (K) di cui facea 
maggior conta, acham -se realmente a f. 79 — 82 as poesias pro- 
vençaes de Bonifácio Calvo, i) 

No segundo caso, Colocci refere talvez uma opinião oralmente 
emittida pelo seu amigo, o qual, conhecendo como trovador proven- 
çalesco apenas a el rei D. Alfonso II de Aragão, ignorando portanto 
ou avaliando muito imperfeitamente a litteratura e a historia portu- 
guesa, deu de boa fé aquella explicação, que hoje sabemos ser 
errónea. 

Escuso dizer que, eliminadas essas pseudo -referencias a um 
cancioneiro português de Bembo , fica invalidada, mas não destruida de 
raiz a hypothese de elle ter sido temporariamente dono dos ori- 
ginaes copiados por Colocci. Sempre permanece em pé o facto de que 
o humanista conversava com Pietro Bembo a respeito dos trovadores 
d' esta terra. 

XII. II Libro di Portogrhesi. 

§ 192. Em um volume, autographo de Colocci — Cod.Yat.4817 — 
acha -se este apontamento solto, digno de nota: Messer Octaviano di 
messer harharino ha il libro di portoghesi, quel da Eíbera Vha 
hssato.^) Monaci perguntava em 1875: Era quello for se il libro 
di cui pxsentemente deploriamo la perdita ? i. é o códice d' onde o 
humanista extrahiu o seu catalogo? ou por outra, o CB encontrado 
mais tarde (respectivamente o ms.-pae)? — Com o mesmo direito 
se podia perguntar: seria o códice vaticano o original do índice? 
E também: seria essa nota lançada quando Colocci ainda não havia 
adquirido nenhum dos dois cancioneiros, nem achado ensejo de os 
copiar? Tendo visto e cobiçado o antigo monumento nas mãos de 
um viajante peninsular — quel da Ribera ? — e ouvindo depois que 



1) Vid. Mário Pelaez, Bonifaxio Calvo, p. 40ss. e 44, onde diz ex- 
pressamente: il rimando ai tns. dei Bembo si riferiscc ai canz. prov. 
12473. — Cf. Raynouard, Ghoix 11, p. CL VIII; 'Barisch. ^ Orundriss , p. 28; 
Groeber, Romanische. Studien, II, p. 462ss.; LoUis, Romania IX, 467; 
Monaei^ CV p. XX. 

2) Cf. § 52 , p. 40, nota 2 e 3. Levado pelo nome da Ribera, Th. Braga, 
procura no Libro di Portoghesi a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, 
visto este romance ter sido impresso na Itália. Notabene: a impressão veri- 
ficou -se em Ferrara no anno 1553, na typographia israelita dos Usques, que 
tiveram de emigrar de cá, conforme demonstrei no Krit. Jahresbericht , IV. 



— 275 — 

Messer Ottaviano o comprara, lançou talvez o respectivo memoran- 
dum na sua agenda, já então determinado a não deixar escapar 
documentos tão importantes para os seus estudos românicos? i) 

Mas para que interpretações e lucubrações vazias? 2) Mais 
valerá notar que o italiano, no único caso em que se refere in- 
contestavelmente a um cancioneiro gallaíco- português por elle ex- 
plorado, i. é na epigraphe da Tavola Colocciana, emprega o termo 
correcto Poríoghesi, exactamente como na notinha citada, e que 
portanto não é inverosímil que o Livro dos Portugueses fosse o ori- 
ginal de que se extractou o índice. 

§ 193. Aqui seja- me permittido abrir um parenthesis para 
catalogar os nomes de alguns viajantes portugueses que pelo seu amor 
á arte, patriotismo, posição privilegiada, conhecimentos históricos e 
relações amigáveis com eruditos italianos, bem poderiam, no estudo 
do cardeal Bembo, no museu de Colocci, ou no gabinete de Sa- 
doleto, têr inspeccionado o volume chamado ora Libro di Poiioghesi^ 
ora Libro spagnuolo di romanzc^) {Cancioneiro de D. Denis, só 
pelos indígenas) ministrando ao seu dono algumas notas históricas.'*) 
Em tempo de D. João III — é preciso não perder isso de vista — 
o cancioneiro do Vaticano e o índice achavam -se ém poder de Colocci: 
até 1549 (não se sabe desde quando); depois, no seu espolio. 
A's mãos de Fulvio Orsini passaram entre 1555 e 1558, e deram 
entrada na bibliotheca papal só em 1600. 



1) Registemos aqui outra nota que documenta esses estudos compara- 
tivos. Junto á cantiga 467 do CB, epigraphada Don Ãffonso de Castella 
et de Leon, lê -se: vide nel mio lemosino; ai re di Castella ha sepius el 
re Affonso et leon (sic). 

2) Podiam -se propor soluções diversas, apontando o Cancioneiro de 
Eesende ou o Nobiliário do Condo. Mas taes hypotheses estariam completa- 
mente no ar, emquanto as outras têm base, embora tenuissima. 

3) No inventario da livraria de Colocci, os peritos registaram como 
fazendo parte da caixa 6* un Libro spagnuolo di romanxe (No. 18) e outro 
Libro spagnuolo di romanxe (No. 41), títulos inadequados que talvez dessem 
aos cancioneiros. A este respeito confiram as observações judiciosas de 
Monaci (p. XI). 

4) Vejam -se no índice as notas relativas aos Nos 1323 e 1533. A 
primeira explica quem foi el Rey Don Affonso filho dei Rey dom Denis 
por meio do accrescento: alfonso IIII sticcessit dionysio. A ultima expõe 
que el rey Don Denis era filitis alfonsi 8 et pr (pater) alfonsi 4 jwete, ex- 
plicação errónea na sua ultima parte, por confusão do bastardo Alfonso 
(Sanches) com o legitimo Affonso IV. 

18* 



— 276 — 

As múltiplas e antiquíssimas relações politicas, commerciaes, 
scientificas e artisticas entre Portugal e Itália, estreitadas na época 
dos descobrimentos e das conquistas,^) recrudesceram exactamente no 
segundo terço do sec. XVI. A dupla reforma da Unisersidade, primeiro 
no espirito humanistico (1527 — 1537) e pouco depois segundo o 
regimen jesuítico (1550); a íntroducção tardia do estylo- renascença 
na arte portuguesa (c. 1530); as medidas contra os heterodoxos, 
complicadas em Portugal com a magna questão dos Christãos -Novos 
e da Inquisição, levavam a Roma e ao concilio tridentino, além dos 
embaixadores ordinários, numerosos emissários extraoi-dinarios , re- 
commendados pelos reinantes a certos cardeaes (protectores de Por- 
tugal como Ghinuccí, Santiquattro, Santafiore, Gaddi, Farnese) ou 
enviados pela parte contraria, a fim de contrabalançarem os empenhos 
do governo. 

Francisco de Miranda, o Sâ Colonês, reformador da lyrica 
portuguesa pelo dolce stil nuovo, viajou de 1521 a 26, e travou 
conhecimento com Sannazzaro, Eucellai, Tolomei, Ariosto, Navagiero, 
Castíglione, Yittoria Colonna sua parenta, e Bembo. Mas embora 
conhecesse os provençaes e a sua arte ^) (já mencionei a sua fabula 
da Chuva de Maio que pode ser traducção, directa mas livre, da 
composição de Peíre Cardenal)^) e embora cite el rei trovador 
D. Denis, não chegou a meu vêr, a colher noticias dos códices de 
que estou tratando. 

Durante um decennio (1525 — 1535) D. Martinho de Portugal, 
bispo do Funchal (f 1547), re\inia em Roma no seu paço o que 
havia de selecto na colónia portuguesa, fazendo -se um dia retratar 



1) Vid. OrundrisslV" 230 e 296; F. de Hollanda, Qtiatro Diálogos , ed. 
Joaquim de Vasconcellos, Wicn 1899, p. XVIIss; 197 ss. Lembrarei alguns 
factos anteriores aos que allego no texto: as relações de D. João II com 
Lorenzo de' Mediei, Poliziano, Cataldo Siculo, Sansovino, Leonardo da 
Vinci, Attavante; o discurso De Obedientia de Garcia de Meneses (1483); 
a sumptuosa embaixada de Tristão da Cunha (1514), a cuja mesa comiam 
140 portugueses; o discurso de Diogo Pacheco e as homenagens que lhe 
prestaram Lancilotto Polito (o Frà Ambrogio dos Diálogos da Pintura), e 
Blosio); a missão ethiopica de Francisco Alvares (1533), porque deu occasião 
ás relações entre o chronista de D. Manoel e o elegante latinista Paulo 
Giovio. 

2) Vid. p. 122, nota 4; p. 123, 1; p. 124, 3. 

3) Vid. p. 124, nota 2. — Em 1886 não estava persuadida da plausi- 
bilidade d' essa interpretação. Vid. Poesias de Sá de Miranda, Halle 1886, 
pag. 4. 



— 277 — 

no meio de seus patrícios pelo pintor Domenico Giuntalodi da 
Prato. 1) 

O antiquário André de Resende relacionou -se em Bologna 
(1533) com António Pucci, o futuro cardeal; e para este mandou 
redigir em 1541 um opúsculo sobre o mosteiro de S. Cruz de 
Coimbra. 

De 1534 a 1538 Damião de Góes, o grande erasmista, hu- 
manizou -se em Padoa, frequentando durante as ferias a cúria. 
Posteriormente manteve commercio epistolar com Sadoleto, Bembo 
e Giovio. 

Quasi ao mesmo tempo, de 1537 a 1545, o apostolo da 
Renascença, Francisco de HoUanda, percorria a Itália. Em Roma 
teve livre accesso não só ao Belvedere, ao Vaticano e aos palácios 
dos cardeaes, mas também aos estudos do miniaturista Clovio e de 
Valério de Vicenza e ao museu de Lattanzio Tolomei, o illustre 
Siennês (primo de Monsenhor Cláudio). Graças á protecção do poly- 
glotta (l'uom di quaitr' alme) e aos bons serviços de Messer Blosio, 
Eleito de Fuligno e secretario de Paulo III (de 1527 a 1550), foi 
até admittido aos colloquios de Miguel Angelo com Vittoria Colonna 
na igrejinha de S. Silvestre em Monte Cavallo. Mas este teria olhado 
para o velho cancioneiro só se fosse um sumptuoso códice illuminado. 
Era então embaixador o velho D. Pedro de Mascarenhas, que fora 
discípulo de Resende. 

De 1541 a 1543 outro alumno do Eborense, um aventureiro 
de vida tão cortada de peripécias que constitue um verdadeiro 
romance, o afamado grammatico Fernão de Oliveira (n. c. 1507, 
m. depois de 1580) esteve na Itália, ^j onde talvez se encontrou com 
D. Manoel de Portugal. Despachado por D. João III para compri- 
mentar o Emperador Carlos V no seu regresso a Europa, depois da 
desastrosa expedição a Argel, esse juvenil filho dos Condes de 
Vimioso (futuro Mecenas de Camões e adorador de D. Francisca de 
Aragão) percorreu o bel paese ove il si suona.^) 

Em 1546 o auctor da Chorographia , Gaspar Barreiros, foi a 
Roma agradecer a nomeação do Infante D. Henrique para cardeal, 
com cartas da rainha D. Catharina para Ottavio Farnese e Madama 



1) Vid. F. de HoUanda, p. 98; Corpo Ghronologieo III, 182 e passim; 
Herculano, Inqtcisição I, 210, 260, 270; Hist. Oen. X, 883. 

2) Vid. H. Lopes de Mendonça, O Padre Fernando Oliveira , Lisb. 1898. 

3) Corpo Diplomático V, 101. 



— 278 — 

Margherita, sua sobrinha. Bem acolhido, recebeu de Sadoleto um 
exemplar da celebre oração de Garcia de Meneses em que o clássico 
nome Lusitano fora empregado pela primeira vez. i) 

Favorecido pelos Farneses. emquanto a fortuna o bafejava, 
D. Miguel da Silva, bispo de Viseu, residiu longos annos na cúria, 
em contacto intimo com Castigiione que lhe dedicou em 1529 o 
seu Cortigiano. O prelado português possuia valiosa livraria na 
qual não havia, parece, carência de códices antigos. Falla-se p. ex. 
de um volume, traduzido de arábigo em português, a instancias 
dei rei D. Denis. 2) 

Embora nada se apurasse sobre trato directo entre os portugueses 
citados e Angelo Colocci, essas notas bastarão para abonar a simples 
conjectura que qualquer português illustre e culto dos que nomeei, 
ou outros dos que omitti, seria consultado pelo benemérito huma- 
nista acerca dos volumes archaicos que lia, estudava, e annotava 
com vivo interesse e muito apreciável conhecimento da lingua 
gallaíco - portuguesa. 

§ 194. Fechado o parenthesis, passo a tocar de leve no problema, 
qual a via por que chegariam a Roma exemplares do cancioneiro 
ou dos cancioneiros de que o €V e CB são transumptos incom- 
pletos? 

Duas soluções foram propostas. Segundo Th. Braga, o papa 
Leão X chamou a Roma os cantos de amor e de escarnho dos velhos 
peninsulares, sob pretexto de os submetter á censura, mas na ver- 
dade para enriquecer as collecções do Vaticano.^) Mas . . . nesse 
caso, não seria em mãos de particulares que encontraríamos apo- 
graphos, mesmo das mais desbx^agadas sátiras, em dias da fanática 
antireforma de Paulo III. Para os chamar, devia saber da sua 
existência. E depois, o CV entrou na livraria papal oito ou nove 
decennios após Leão X. 

A segunda lembrança, do mesmo escritor, diz que o volume 
para lá fora por intervenção do cardeal D. Gil de Albornoz.^) Ao 



1) Vid. p. 123, nota 2. 

2) Confesso não ver claro no que a este respeito nos contam Brandão 
na Mon. Lus. XVI , cap. 3 , e Freire de Carvalho no seu Ensaio 46 e 290. 
Ainda não tive occasião de me occupar do Eborense Flávio Jacobo que viu, 
dizem, o respectivo nis. na livraria de I). Miguel da Silva. 

8) Gane. Vat.Rest, p. LXXXIV. 

4) Trovadores, p. 187 e Monaci, p. V. — Cf. §52. 



— 279 — 

proferi-la, imaginava que o códice, ainda então mal conhecido, seria 
copia antiga do exemplar de D. Meneia, em posse da cúria de- 
abinicio; e nesse via o verdadeiro Livro das Cantigas do Conde de 
Barcellos, mandado a Castella e logo ahi estraviado por morte 
de Alfonso XI. Modificando esses pormenores em harmonia com 
a realidade, referindo a opinião a um códice membranaceo do 
sec. XIV, e pondo em logar de »bibliotheca do Vaticano «, o coUegio 
hispânico de Bolonha, ao qual o magnânimo fundador legou a sua 
livraria, a ideia não se torna mais viável. O grande prelado^) 
de quem dizem salvou a vida de Alfonso XI em Tarifa, e que de 
Avignon reconduziu a Roma a santa Sé, expatriou- se em 1353, 
revoltado pela conducta do Justiceiro, cujos crimes de balde tentara 
embargar, i. é. quando, vivo o Conde, o Livro destinado a Alfonso XI 
ainda permanecia em Portugal no mosteiro de S. João de Tarouca, 
ou nos paços de Lalim da Beira. — Não é de modo algum impossível 
que treslados fossem ao estrangeiro entre 1350 e 1354, Faltam 
porém indícios de relações amicaes entre o cardeal e o conde ou os 
herdeiros de Alfonso XI; nem vejo argumento que faça suppôr passa- 
gem tão remota de exemplares para a Itália. 

§ 195. Substituirei por isso a lembrança, abandonada de ha 
muito por seu auctor, por outra que d' ella deriva indirectamente, 
por associação natural de ideias. 

Já ao fallar do cancioneiro de D. Meneia aventei a hypothese 
que os Mendoças ou Grarcilasos teriam trocado o vetusto cancioneiro, 
como mera antigualha sem valor instructivo, contra um Dante, 
Petrarca, Boccaccio, ura Vergilio ou Homero, um Séneca, Platão 
ou Aristóteles. 2) A mesma reflexão podia naturalmente ser appli- 



1) A respeito de Albornoz, considerado como o politico mais genial do 
seu tempo, vid. Gines de Sepúlveda, Liber gestorum Aegidii Alhornotii, 
Bologna 1521; H. J. Wurm, Cardinal Albornoz, der xweite Begrunãer des 
Kirchenstaafes , Paderborn 1892; Arturo Farinelli, Giornalc storico delia 
Leff. Ital. XXIV, 22 ss. (relatório succulento sobre Benedetto Croce, Primi 
Gontatti fra Spagna e Itália, Nap. 1893). 

2) Vid. § 169, p. 238 nota 4, onde disse que o marquês resguardava na sua 
livraria um único volume em romance antigo, e este didáctico: o encyclo- 
pedico Breviari d' amor de Matfre Ermengaud de Beziers, o qual também 
foi amplamente explorado pelos escritores catalano- aragoneses (1288). 
Digno de attenção é também o facto que não se conservaram cancioneiros 
provençaes nos reinos peninsulares, sem embargo da actividade provençalesca 
de Alfonso X, Jaime 1 e D. Denis. 



— 280 — 

cada a príncipes catalano- aragoneses como D. Martim de Navarra 
e Carlos de Vianna e a portugueses como Alfonso V, o Regente, 
e seu cunhado, o Condestavel, que de Portugal passou para Bar- 
celona (1460 a 1466), porque todos elles reorganizaram no sec. XY 
as suas livrarias no sentido clássico. Intermediários para transac- 
ções d' esta ordem eram doutores e antiquários, vindos de Roma no 
séquito de núncios e legados, ou idos para lá em companhia de 
embaixadores, enviados aos concilies (Basilea, Constança) e a cúria, 
ora com discursos congratulatorios , ora com presentes e relatórios 
sobre feitos africanos. Lá residiu p. ex. durante longos annos o 
filho do marquês de Santilhana, o Grmide Cardeal de Hespanha, 
D. Pedro de Mendoça (f 1495), que já como escolar traduzia poetas 
latinos para seu progenitor, enriquecendo posteriormente as collecções 
dos avoengos com volumes preciosos.^) Lá esteve aquelle Nuno 
de Guzman que para os seus desempenhava a mesma nobre f uncção. ^) 
Lá temos aquelle eloquente Yasco de Portugal que ^possuía lihros no 
valor de alguns milhares de florins porque queria todos quantos acliava 
foi-mosos^' .^) Lá temos o próprio irmão do Condestavel, D. Jaime de 
Portugal, o qual juntou em Florença assaz boa copia de livros.^) 
Mas o centro do grande movimento de aproximação entre Itália e 
Hespanha foi a corte de Alfonso V de Aragão. De Nápoles, das 
aulas do sagacissimo catalão, é que irradiou o conhecimento da 
litteratura hespanhola na Itália. Bastantes códices peninsulares 
antigos que hoje se encontram em bibliothecas italianas iriam para 
lá durante o dominio secular dos Aragoneses. 5) E viceversa. A 
paixão pelo dolce stil nnovo de Petrarca e pelo renascimento da 
antiguidade latina infiltrou elementos italianos na litteratura catalano - 
aragonesa não menos cedo nem menos intensamente que na castelhana, 



1) Vespasiano da Bisticci, Vite di uomini illustri dei secolo XV, 
rirenzel859, p. 168. 

2) Ib. 517 ss. — Vid. Romania XIV, 104ss. 

3) Ib. 521 ss. 

4) Ib. 152. 

5) Ainda não existe, que eu saiba, trabalho algum completo sobre os 
mss. hespanhoes e portugueses, existentes nas bibliothecas italianas. Mas 
já ha alguns escriptos valiosos, relativos a Nápoles, Modena, Floren{,'a, 
Veneza, redigidos por Benedetto Croce, Alfonso Miola, Spinelli, E. Teza, 
Ad. Mussafia. — Vid. principalmente B. Croce, Versi sjjagnuoli in Iode di 
Lucrexia Borgia, Nap. 1894 e Miola, Notixie di mss. neolatini delia 
Bibl. Nax. di Napoli, Nap. 1895. Os Borjas e também os Farneses foram 
introductores de numerosos textos. 



— 281 — 

da 2* metade do sec. XIV em deante. ^) O próprio cardeal Albornoz 
{■f 1367), aragonês de nascimento (n. em Cuenca), letrado de fino 
gosto, e em relações directas com Petrarca, merece o titulo de seu 
primeiro apreciador peninsular. Não é impossível portanto que 
os cancioneiros archaicos passassem, não por Castella, mas pelo reino 
catalano - aragonês. 

Durante todo o primeiro período, mas principalmente no ultimo 
tempo da arte de trovar, as relações com Portugal foram múltiplas. 
Dos laços de parentesco entre os dynastas, dos tratados de paz, 
amizade e confederação, tantas vezes dirigidos contra Leão e Castella, 
terei de dizer alguma cousa no Cap. VIL 2) Como já não preciso 
chamar a attenção dos doutos para os ti'aços em commum entre 
as duas linguas, enfeixarei apenas meia dúzia de notas relativas a 
allianças de familia de Portugal e Aragão, viagens, e communicações 
entre trovadores dos dois paizes. 

Sem f aliar de Pêro Velho de Ta veiros, cuja presença na corte 
aragonesa é duvidosa, recordarei que D. Jaime de Aragão foi en- 
altecido em 1238 pelo segrel galliziano Pêro da Ponte como con- 
quistador de Valença, 2) e escarnecido mais tarde (1255 — 1259) 
por um trovador anonymo, cujo nome tentei adivinhar.*) Pêro 
Mafaldo falia de uma sua jornada a Catalonha.^) Joan Velho esteve 
em 1281 em Barcelona, tratando do casamento de D. Isabel com 
D. Denis de Portugal.^) Dos aragoneses, vindos com a rainha ou 
a visitá-la, o mais iUustre é o meio-irmão d'ella, que veremos 
figurar na corte do rei -trovador, cantando e porventura compondo 
lais no gosto bretão,'') como aquelles cinco anonymos que servem de 
preludio ao CB. 8) Temos depois a D. Miguel Vivas (Vives), bispo 
de Viseu, a cuja mesa era costume entoarem cantares de Martim 



1) A respeito dos primeiros imitadores de Petrarca e traductores de 
Boccaccio e Dante vid. Milá Trov. 504, 516; Croce e Farinelli nos tra- 
balhos citados; Morelfatio, Orimdriss IP. 

2) Num seu discurso académico sobre Enlaces de Reyes de Portugal 
con Infantas de Aragon, Madr. 1899, naturalmente escasso em factos posi- 
tivos, o Marquês de Ayerbe refuta apenas alguns despauterios modernos de 
historiadores portugueses sobre o caracter e o sangue aragonês. 

3) CA 466. 

4) Vid. p. 257 nota 5 e Cap. VI, Biogr. XXXIX. 

5) CA 444. 

6) Santarém, Corpo Diplomático I, p. 31 — 39. 

7) CV 1130. 

8) Vid. Cap. VI, Biogr. 39. 



— 282 — 

Moxa, oEstevam da Guarda, de veia mordaz, que foi collaborador 
do Conde de Barcellos na colleccionação do Cancioneiro Geral (suspeita 
minha, como o leitor sabe). Duvido que o bastardo de D. Denis 
levasse comsigo a segunda esposa quaudo accomi^anhou o pae a 
Tarrazona. ^) Mas sei que D. Maria Ximenes de Artal e Coronel 
regressou á sua pátria natural, onde falleceu, pouco depois de ter 
contratado o enlace de D. Leonor de Portugal, filha de AiTonso IV 
e poi-tanto sobrinha do Conde , com Pedro I Y de Aragão , -) ficando 
sepultada no convento dos Hospitaleiros de Xixena, fundação sua. 3) 
E o cancioneiro? Nada sei do intellecto de D. Maria Ximenes. 
Ignoro se ella levou versos portugueses a Aragão, e se em vida 
do Conde ou depois um exemplar do Livro das Cantigas foi enviado 
a rainha luso -aragonesa cujo esposo poetava. Suspeito porém que 
lá existissem e corressem não só rótulos avulsos dos trovadores 
catalano- lusitanos como Gonçal' Eannes do Vinhal, Estevam da 
Guarda, Martim Moxa, Pedro de Aragão e dos que haviam 
celebrado o Conquistador, mas também uma compilação geral, da 
época toda. 

§ 196. A influencia exercida pela lyrica gallaico - portuguesa 
sobre a dos catalano -aragoneses é um dos pontos cujo estudo no 
Cançoner de obres enamorades e o de Çaragoça deve ficai" ]'eservado 
para o futuro. Por ora posso indicar apenas três nótulas, colliidas 
em seara alhea. O erudito auctor dos Trovadores en Espana, patriota 



1) Santarém, Corpo Diplomático I, 68 e 92. 

2) Zurita, Anales de Aragon VIII, cap. 6; Santarém, Co7-j)o Diplo- 
mático, 257 ss; Lavanha, Notas ao Nobiliário , p. 38. — Eis um pequeno 
quadro que representa as principaes allianças luso - aragonesas e luso -cas- 
telhanas que se effectuaram no sec. XIV: 

1281 / ^^^^^ ^^ Portugal 
\ Isabel de Aragílo 

I 



1 qnq/^ftonso IV de Portugal , oao/ Constança de Portugal 

■^"^^^XBeatriz de Castella ^'^^'^XFernandoIVdeCastella 

L_ I 

I I ,oc)qíLeonor de Castella 

^ qoo/MariadePortugal , ., .„ÍLeonor de Portugal ~" \Alfonso IV de Aragão 

^"^^^Ulfonso XI ^^*^\Pedio IV de Aragão | 



{Fernando de Tortosa 
Maria de Portugal, 
filha de Pedro I 



3) Vid. Hispânia Illustrata IV, p. 558. 



— 283 — 

imparcial que ninguém poderá taxar de favoritismo, estava persua- 
dido de que os poetas da Catalunha, intermédios entre os verdadeiros 
trovadores provençalescos e o consistório de Barcelona, conheceram 
e aproveitaram as trovas portuguesas, i) 

Segundo elle, Lourenço Malhol, auctor que, de resto, já 
conhecia as rimas de Petrarca, inspirou -se para um seu verso figurado^) 
num sirventês de Pay Gomes Charinho. ^) Este havia estabelecido 
um extenso parallelo entre a indole versátil, liberalissiraa e irrita,vel 
de Alfonso X e o oceano. Aquelle compara a vera-eruz a uma 
arvore, e o salvador a uma avezinha. A semelhança consiste apenas 
no desenvolvimento dado ao simile. 

Uma bailada de Luis de Yilharasa {Si com lo flacJi), com o 

estribilho Li parlo d' ais e callme de mon cas^), é imitação da cantiga 

em que Fero Garcia, o Burgalês, declara que a presença da 

amada lhe tolhe a falia: 

ca poi' -la vejo^ eoido sempr' enton 
no seu fretiioso parecer^ e non 
me nenbra nada; ea todo me fal 
quanto lhe coid' a dixer e dig' al.^) 

Fra Rocabertí*') allude na sua Comedia de la Gloria de Amor, imi- 
tação de Dante pela forma dominante dos tercetos e pelo espirito, á 
celebre cantiga composta por Lourenço da Cunha, o dos cornos de 
miro, ou propagada era seu nome,'^) quando D. Fernando de Por- 
tugal lhe desencaminhou a esposa, a flor de altura, D. Leonor 
Telles. s) Mas esta cantiga e a glosa gallego- castelhana, em que 
a paraphrasearam ^) já é obra dos epígonos, datando de cerca de 



1) Milá y Fontanals, Troradores p. 529 nota 12. 

2) Ib. 504 s. 

3) €A 256, e Cap. VI, Biogr. XXVII. 

4) Trovadores, 516 nota 221 — Vid. Cod. Paris., Fonds Esp. 595 f. 318. 

5) CA 99. — Cap. VI § IX. 

6) A respeito dos catalano - lemosines Vilharasa e Rocabertí, cf. Jahr- 
buch II, 282. 

7) Creio que a muito citada e versada cantiga portuguesa ainda se 
conserva inédita. Eis o principio, extrahido da Glosa a que me refiro na 
nota immediata: 

Ay donas por que tristura 
perjjasso noite e dia! 
Non vejo come seria 
partida de min rencura. 

8) Lembrem -se da nobre rosa, cantada por Alfonso XI. 

9) Canc. S. Roman, fi. 419. 



— 284 — 

1370,^) e portanto não andava nos cancioneiros primitivos que dos 
occupam. ^) 

Para tornar plausível a minha hypothese, exemplos mais nume- 
rosos e mais eloquentes que esses três serão precisos, bem o sei. 
Eu própria os considero muito vagos: Malliol eVilharasa podem ter 
imitado os mesmos modelos antigos em queCharinho e o Burgalês 
se haviam inspirado — modelos que por ventura ainda se hão de encon- 
trar na litteratura provençal. Mas em theoria, a minha supposição é 
muito aceitável. Apoio -a apontando para a parte importantíssima que a 
imitação do gallego- português teve, durante a segunda época, não 
só na corte dos dynastas castelhanos, mas mesmo fora da península, 
na corte napolitana do Aragonês Alfonso Y. Nos cancioneiros do 
sec. XV (chamados de Estuniga, Gomes Nieva, San Roman etc.)') 
surgem vários poetas que, na pista dos Mendozas cultivaram a ser- 
raniliia rústica, e outros que, mesmo em regiões tão aiTastadas, se 
serviram, entre catalães e italianos, da lingua gallego -portuguesa.^) 

§ 197. Avaliando bem esta influença, que actuou em Macias, 
Villasandino , Pêro Gonzalez de Mendoza, Diego Furtado, Ifiigo 
Lopez de Relho (e por elles no próprio Marquês), sobre o Arce- 
diano de Toro, Garci Fernandez de Gerena, Carvajales, Bocanegra e 
outros mais, é impossível crer não houvesse exemplares, inteiros ou 
incompletos, dos dífferentes Livros das Trovas nos reinos vizinhos^) 
onde poetas e músicos os iriam desgastando, á força de os folhearem. 

1) Somente no Lirro das Trovas dei rei D. Duarte, se ahi se jun- 
tassem as obras dos continuadores, é que porventura podia haver tido logar. 

2) As relações Mtterarias entre Portugal e Aragão continuaram. Lem- 
brarei aqui, porque se trata de um ms. precioso, que um bello exemplar da 
Chronica da Quine de Zurara foi mandado (talvez por ordem de Affonso V) 
ao Duque de Calábria, D. Fernando de Aragão. — Vid. Qrundriss IP, 248 
n. 6 e 2õ7, n. 6. 

3) Esses livros de trovas são trilingiies, ou mesmo empregam quatro 
idiomas: castelhano, catalão, gallego e italiano, documentando os elementos 
que, fundidos, constituem a lyrica hispânica. No Cancioneiro Musical oc- 
correm, além d' isso, canções em francês e algumas em latim, dos goHardos. 

4) Não entro em pormenores, cujo logar, de resto, seria no Cap. X, 
porque o meu amigo H. R. Lang prepara um cancioneiro gallego - castelhano 
da época de transição, em cujo prologo elucidará estes problemas. 

5) Verdade é que dos Cancioneiros manuscriptos da 2» e S"' época em 
geral houve e ha um único exemplar. Mas a differeuça consiste em que os 
colleccionadores multiplicaram no sec. XV, servindo -se frequentes vezes dos 
mesmos núcleos primitivos. Vid. C. M. de Vasconcellos , Zum Cancionero 
von Modena, Erlangen 1899, e Ad. Mussafia, Die Spanischen Cancioneros, 
Wien 1901. 



— 285 — 

Os pergaminhos das bibliothecas regias seriam dos melhor guardados 
e por isso dos últimos que desappareceram, indo entre 1450 e 1500 
aonde todos os caminhos vão têr. 

É do prematuro fallecimento de D. Duarte em deante (1438), 
ou depois de 1449 (carta de Santilhana, desastrosa morte do Regente, 
e data aproximativa em que Alfonso V patenteou a sua livraria aos 
seus cortesãos) que nos faltam noticias sobre o paradeiro dos três 
Livros das Trovas, até então guardados na recamara dos reis de 
Portugal. O de D. Meneia de Cisneros, dado talvez aos Mendozas 
por D. Juan I de Castella,^) desappareceu entre 1400 e 1449. 
Faltam todos os indicies do supposto exemplar aragonês, a não ser 
que os dois Livros de coplas em posse do príncipe de Viana, que 
julguei dever considerar como cancioneiros catalães, fossem gallaíco- 
portugueses. ^) 

§ 198. Yolto ás perguntas com que entrei neste capitulo. In- 
felizmente, os nossos resultados vêm a ser um dilemma. 

Houve uma única compilação tardia, a do Conde de Bar- 
cellos. Neste caso quem fez encadernar no sec. XVI o fragmento 
do Nobiliário e o do Livro das Cantigas estava bem informado. 
O CA, os rass.-paes do CB e CV, o cancioneiro de D. Meneia, e 
quantos mais existiram e existam hoje escondidos, são apenas vari- 
antes do mesmo original, modificado orthographicamente e ampliado 
quanto ao texto, á vista de cadernos complementares, á medida 
que d' elle se iam tirando treslados para as casas reinantes e pró- 
ceres -trovadores, com ellas aparentados, quer fosse sob a vigilância 
do próprio empresário, quer posteriormente, dentro das fronteiras 
portuguesas, ou no estrangeiro. 

Ou então, varias compilações foram executadas em reinados 
successivos, sendo chronologicamente a derradeira e mais abundante, 
a do Conde, na qual se incorporaram as anteriores; a do meio um 
cancioneiro dionysiano, na accepção lata do termo; a primeira e menos 
completa, uma collecção de trovas alfonsinas e pre-alf ensinas que 
julgo reunida por ordem do Bolonhês, de 1275 a 1280 — núcleo 
primordial das outras. 



1) Vid. p. 237, nota 4 e p. 261, nota 1. 

2) Cobles (de 8 bordões, compostos de dois hemistichios de 4 e 6, 
respectivamente 7, syllabas) são a forma principal da Gaia Sciencia de 
Barcelona, conforme deixei indicado (p. 2.59, nota 3). Md& cobras ora igual- 
mente o nome technico das estrophes, em tempo dos nossos trovadores. 



— 286 — 

Sendo assim (e pelo meu raciocínio ficou notório que é esta 
concepção a que julgo verdadeira) é de suppôr que a ultima com- 
pilação supplantou as anteriores, as quaes por isso mesmo não mais 
foram tresladadas depois de 1350, desapparecendo. D'ellas resta 
hoje apenas o fragmento que publico e considero como exemplar 
antigo, incompleto, e nunca acabado d'aquelle Livro das Trovas dei 
rei D. Affonso que se guardou até 1438 na livraria dos soberanos 
portugueses. 

O Livro do Conde, conservado em duas transcripções secun- 
darias, compõe- se de três partes. Quanto ás compilações anteriores, 
opino que a mesma divisão fora planeada e iniciada, saliindo todavia 
bem guarnecido no Livro do Bolonhês apenas o Cancioneiro de amor; 
no de D. Denis esse mesmo e o Cancioneiro das Donas; e no de 
seu bastardo, além dos dois, o Cancioneiro de Burlas. 

Os originaes iam accompanhados de notação musical. O mesmo 
penso dos transumptos tirados nos séculos XIV e XV, porque o som 
não era de menos importância que o texto, embora o Marquês nada 
diga a este respeito. — No sec. XVI o humanista estrangeiro que 
estudava a historia das línguas e litteraturas românicas, mas não 
a musica, omittiu estes accessorios. ^) 

§ 199. Vou terminar, figurando num quadro um simulacro de 
filiação, tal como resulta verosímil das analyses antecedentes. Não 
ignoro porém que os meus cálculos formam uma base pouco mais 
solida do que fora a de Th. Braga, no seu » Cancioneiro Vaticano 
Restituído. « 

Eis a sua chave. 
A^ = rótulos e cadernos soltos, contendo canções de amor de tro- 
vadores (e jograes) alfonsinos e pre-alfonsínos; principalmente 
de fidalgos portugueses, mas também da Galliza e de Castella 
e Leão. — Perdidos. 
A' = copia callígraphíca, chronologicamente ordenada dos mesmos, 
em volume tripartido, graphicamente completo, i. é contendo, 
além dos textos, os nomes dos trovadores, a notação musical e 
algumas rubricas explicativas. — Perdida. — No 63 da Bibl. 
de D. Duarte: Livro das Trovas dei Rey D. Affonso encadernado 
em couro, o qual compilou F. de Montemor o Novo. 

1) A epigraphe usual d' essas folhas soltas e d' esses cadernos era: 
F. fex, estafs] cantigafs] descarnh e de maldixer, respectivamente de amigo, 
ou de amor. Vid. Lidíce 1504, 1510, 1512, 1513, 1.543, 1561, 1562. " 



• — 287 — 

A^ = copia graphicamente inacabada do mesmo. O fragmento mem- 
branaceo, resguardado na Bibliotheca da Ajuda. 

B = rótulos e cadernos soltos com trovas de amor, de amigo e de 
escarnho, de Alfonso X e trovadores da sua corte e da corte 
dos antecessores. — Perdidos. 

C^ = Cancioneiro privativo de D. Denis. Talvez No 38 da Biblio- 
theca de D. Duarte: O Livro das Trovas dei Bei D. Denis. 
— Perdido. 

C" = Rótulos e cadernos soltos com trovas dos poetas dionysianos, 
avultando as semi -populares cantigas de amigo. — Perdidos. 

C'' = Compilação de A^ C^ C^ — Duvidosa. — Talvez No 38 da 
Bibl. de D. Duarte. 

D'= Rótulos e cadernos soltos com trovas do Conde de Barcellos, 
D. Affonso Sanches, Estevam da Guarda, Alfonso XI. e tro- 
vadores e jograes de ambos os reinos; i) com addições ás 
partes anteriormente colligidas. 

D- = Compilação de C* e D' ou de A- C^ C^ D*: Livro das Cantigas 
do Conde de Barcellos. — Cf. F — H. 

D^ = Copia coetânea e calligraphica do mesmo, com addição ulterior 
das obras dos epígonos de 1357 a 14382): No 78 da Bibl. 
de D. Duarte: Liw^o das Trovas dei 7-ci. — Duvidoso. 

E = Apographo do sec. XIV, visto entre 1400 e 1414 pelo mar- 
quês de Santilhana em poder de D. Meneia de Cisneros. — 
Carta-Proemio § XVI. 

F^ = Exemplar de D' avistado em Roma, entre 1521 e 1557, 
conforme refere Duarte Nunes. — MS.-pae de O* ou G'. — 
Perdido ou escondido. 

F- = Exemplar de D% — MS. pae de G' ou Gl 

F^ = Exemplar de D-, que serviu para Colocci compor o seu 
índice de auctores. — Duvidoso e talvez idêntico a F-. 



1) A folha solta, que encerrava uma tenção entre D. Affonso Sanches 
e Vasco Martins de Resende, com notação musical, e foi achada no 
espolio de André de Resende, era provavelmente um d' esses rótulos mem- 
branaceos do sec. XIV. Cf. § 108 e 103, assim como Randglosse XV. 

2) No CV ha, que eu saiba, uma única cantiga rubricada que por 
ventura poderia ter sido inscripta no Livro do Conde depois de 1357, reinando 
Pedro I. Mas não é de modo algum forçoso inferir da expressão: o in- 
ffantc dom affonso filho dei rey dom donis que depoys foy rey que Affonso IV 
já não vivia quando copiaram a cantiga CV Í158. Em CV 1036. o rei 
D. Affonso, mencionado como fallecido, é o Bolonhês. 



288 



G' = apographo de F', escripto em Koma, no 1° quartel do sec. XVI, 

por ordem de Angelo Colocci. — Cod. Vat. 4803. 
G- = apographo de F-, escripto em Koma na 1° metade do sec. XVI, 

por ordem de Angelo Colocci. = Cod. Colocci -Brancuti, hoje 

propriedade de Ernesto Monaci. 
H* = apographo moderno de G\ em posse de iim Grande de 

Hespanha. 
H' = apographo moderno provavelmente de G', queimado em 1850 

pelo P® J. de Figueiredo. 




PARTE III. 

08 POETAS DO CANCIONEIRO DA AJUDA. 



19 



Notas biographicas. 



§ 199". Principio pelos trovadores que vemos positivamente 
representados no nosso códice, deixando para o fim aquelles que 
figuram apenas nos Appendices. 

Quem quiser cingir- se á seriação natural, essencialmente 
chronologica do CB e do índice, tal como a deixei apontada na lista 
comparativa do Cap. IV, deve lê'-las pela ordem seguinte: 
39. Lais deHelys, deTristan e deLançarote 311 — 315 



40. Airas Moniz 

41. Diego Moniz 

56. João Soares, de Paiva 

57. Pêro Rodrigues, de Palmeira 

58. D. Rodrigo Díaz, dos Carneiros 

42. Osoir Eánnes 

43. Monir Fernandes, de Mirapeixe 

44. Fernam Figueira, de Lemos 

45. D. Gil Sanches 

46. Ruy Gomes, o Freire 

47. Fernam Rodiigues, de Calheiros 

48. Pêro Garcia, d' Ambroa 

49. D. Fernam Paes, de Tamalancos 

1. Vasco Praga, de Sandim 

2. João Soares, Somesso 



316 
318- 



317 
319 



50. Nun' Eánnes , Cerzeo 

51. Pêro Velho, de Taveiroos 

3. Paay Soares, de Taveiroos 

4. Martim Soares 



396 



320—327 
328 — 329 
330 — 331 
332 

333 - 334 
335 — 356 
357 

358—362 

363 — 374 J 

1— 13 

14— 30 

375 — 377 

378 — 3821 

383 — 391 

392 — 395 

- 397 e 398 

31— 39 

40— 61 



■ App. I. 



398 
5. Desconhecido I (Ruy Gomes, de Briteiros) 62 — 63 

64— 67 
399 

68 



6. Aires, Corpancho 

7. Nuno Rodrígues, de Candarey 

8. Nuno Fernandes, Torneol 



400- 
70- 
402 



69 

401 

81 



App. II. 
App. III. 

App. IV. 

App. V. 
App. VI. 

App. vn. 

19* 



— 292 



9. Pêro Garcia, Burgalês 

10. João Nunes, Camanês 

11. D. Fernam Garcia, Esgaravuuha 

12. Roy, Queimado 

13. D. Vasco Gil 

14. D. João, d' Aboim 

15. D. João Soares, Coelho 

16. Rodrigu' Eánnes, Redondo 

17. Desconhecido II 

18. Roy Paes, de Ribela 

19. João Lopes, d' Ulhoa 

52. Feruani Fernandes, Cogominho 

53. Rodrigu' Eánnes, de Vasconcellos 

54. Pêro Mafaldo 

55. Affonso Mendes, de Besteiros 

20. Fernam Gonçalves, de Seabra 

21. Pêro Barroso 

22. D. Affonso Lopes, de Baião 

23. Mem Rodrigues, Tenoiro 

24. João, de Guilhade 

25. Estevam, de Faião, ou Froyão 

26. Joào Vásques 

27. Pay Gomes, Charinho 

28. Fernam Velho 

29. Bonifácio, de Génova 

30. Desconhecido III 

31. Desconhecido IV 

32. Desconhecido V 

33. Pedr'Annes, Solaz 

34. Fernam Padron 

35. Pêro, da Ponte 

36. Vasco Rodrigues, de Cal velo 

37. Desconhecido VI (Martim Moxa) 

38. Roy Fernandes, de Santiago 



82- 
403- 
111- 
114- 
410- 
129- 
413- 
144- 
157 
158- 
180- 
415- 
185 
186- 
199- 
420- 
427- 

/430- 

1444 
436- 
445- 
210- 
222- 
224- 
448- 
226- 
228- 
454- 
240- 
457 
242- 
246- 
257- 
458 
265- 
267- 
277 
278- 
281- 
285- 
288- 
459- 
293- 
467 
303- 
308- 



110 

409 App. VIII 

113 

128 

412 App. IX 

143 

414 App. X 

15f5 

179 
184 
419 App. XI 



198 
209 
•426 
429 
435 



266 
276 



App. XII 



443 

447 > 

221 

223 

225 

453 App. XIII 

227 

239. 

456 App. XIV 

241 

App. XV 
245 
256 
264 



App. XVI 



280 

284 

287 

292 

466 App. XVII 

302 

App. XVIII 
307 
310 



João Lobeira, ao qual dedico o §319, teria seu logar natural 
entre Esgaravunha (11) e Queimado (12), seguindo -se -lhe Gonçal' 
Eánnes do Vinhal, de quem trato no § 320. 



— 293 — 

§ 200. As fontes onde colhi os materiaes para os esboços que 
seguem, são: 1. as cantigas todas das três compilações; 2. as rubricas 
em prosa que as illustrara de longe em longe; 3. os subsídios im- 
pressos da historia nacional, desde os mais antigos até aos mais 
recentes, incluindo, além dos annaes, das chronicas e dos nobiliários, 
as leis e os foraes, as cartas e os diplomas outorgados pelos primeiros 
dynastas. Creio têr explorado cuidadosa e conscienciosamente, os 
monumentos, em parte deturpadissimos, mas ainda assim copiosos e 
preciosos, que me foram accessiveis. Mas não procedi a investigações 
individuaes nos tesouros do Archivo Nacional nem nos mais cartórios. 
Grande mingua me fizeram as Crónicas de Alfonso X, de que não pude 
obter exemplar impresso nem ras., e os Documentos Inéditos. Cônscia 
d' estas e d' outras faltas, não me illudo sobre o diminuto valor 
das minhas, ainda assim bem fatigantes tentativas, e faço votos 
para que breve surja quem preencha as suas lacunas e rectifique 
os erros que seguramente commetti. Frequentes vezes terei de 
mover-me no campo das conjecturas e de responder com duvidas 
ás perguntas que formulo. Innumeros accessorios refuguei para não 
descer a prolixidades demasiadamente minuciosas, reservando -as para 
estudos especiaes. Detidamente occupo-me apenas das cantigas que 
representam datas. 

I. Taasco Praga, de Sandin.') 

§ 201. No índice de Colocci são-lhe attribuidos os N«^ 79 — 103 
e 633 — 637. Os primeiros acham -se impressos no CB, numerados 
de 53 — 77. Só os últimos treze d' este cyclo andam no CA, de 
1 — 13. As restantes cantigas faltam, como ficou amplamente ex- 
posto, por o códice membranaceo estar truncado no principio. O 
leitor encontra -as no Appendice I, de 363 a 374. O outro grupo, 
composto de cinco poesias, segundo o índice, está estampado no CV, 
onde consta de apenas quatro, provavelmente por haver erro na 
numeração original. 

Na nomenclatura do trovador acho de menos o patronymico. Lá 
está apenas o prenome Vaasco (de Velasco, hoje Vasco), a alcunha 
Praga que considero equivalente de bocca de pragas (= ali. Lãster- 
maul)]^) e além d' isso, a indicação do logar de onde era natural, 



1) Na epigraphe sirvo »me das formas archaicas. No texto modeniízo 
a orthograpbia. 

2) Na Galliza existe um logarejo assim chamado. Mas se Praga in- 
dicasse a naturalidade, devíamos suppôr dissessem de Praga, forma que 



— 294 — 

ou 110 nosíso caso, sobre o qual exercia direitos de senhor. De nome 
Sandini (Sendira, Sindim)^) ha em Portugal (Além Doiu-o) varias 
localidades, e outras em terras de Hespanha, nas províncias de 
Zamora e Orense. E de uma das de cá que se trata muito pro- 
vavelmente , 2) pelos motivos que o leitor deduzirá da explanação 
genealógica. Yasco Fernandes, não oriundo mas antes senhor de 
Sandim, possuia ahi bens que eram de sua mulher. 

No Livro do Conde^) depara -se -nos com um cavalleiro- trovador 
Yasco, caracterizado pelos contemporâneos com o motete Praga, o qual 
casara com uma fidalga de Sandim. O seu patronymico era Fer- 
nandes. Estabelecendo desde já que nem os cancioneiros nem os 
nobiliários transmittem sempre nomes completos, abreviando - os e 
estropeando-os, pelo contrario, muito a miúdo ^), opino podermos 
identificar esse Vasco [Fernandes] Praga, do Nobiliário, casado com 
uma dona de Sandim, com o Vasco Praga de Sandim do cancio- 
neiro, sem receio de errar, visto não apparecerem homonymos. Este 
varão, dado como tiatural de Gallixa e muy hoom trovador ^)^ era de 
somenos fidalguia, por isso que figura nos cadastros da nobreza 



não se encontra. E dado este caso, mal teriam accrescentado o segundo 
nome geographico , de Sandim. 

1) Considero errónea a leitura Senditt (por Sendin) no índice de Colocci 
(ao pé da cant. 79). 

2) A de mais fama, Santiago de Sandim, no julgado de Felgueiras, está 
situada no sitio onde em eras remotas houve, segundo dizem, a famosa e 
decantada, embora lendária, v^Wb. Aufragia. Quanto á aldeia de Sendim , em 
Terra - de - Miranda e á etymologia do nome, consultem -se os Eskulos de Philo- 
logia Mirandesa de J. Leite de Vasconcellos, Lisb. 1900, vol. I, p. 99. — 
Não me parece necessário tratar das villas e aldeias chamadas Sande (Satidi), 
embora nos Nobiliários confundam Sande e Satidim, p. ex. a p. 348 dos 
P. M. H.: Seript. {Sande, Samde, Samdy , Samdin). A forma que prevalece 
é Samdy, Sandi nas Chartas No 644 e 839. 

3) Comquanto sejam quatro os Nobiliários da primeira dynastia que 
hoje possuimos, conglobo -os só em dois, por conveniências praticas. Designo 
por Livro Velho o fragmento I e o Appenso II que o accompanha e com- 
pleta. E por Lirro do Conde tanto o troço III, que se acha encader- 
nado juntamente com o CA, como a obra completa IV, que é costume geral 
designar por aquelle titulo. Embora nenhum d' elles seja um evangelho, 
a superior exactidão do mais antigo evidencia -se á medida que se vão publi- 
cando documentos trecentistas da Torre do Tombo. — Vid. Eandglosse XXX. 

4) As abreviaturas não . precisam de explicação. As deturpações são, 
na maioria dos casos, devidas á ignorância dog que transcreveram os ori- 
ginaes. 

5) P. M. H.: Seript. BiQ. Acentuando -se propositadamente que o marido 
era da Galliza, é lógico concluir que a esposa não era gallega. 



— 29Õ — 

apenas por causa da sua alliança com D. Teresa Martins. Esta, 
pela sua parte, pertencia a uma linhagem de cavalleiros portugueses, 
chamados os Mogudos^) de Sandim, de mais alguma importância, 
dignos de preencherem um titulo especial, 2) embora fossem apenas 
vassallos dos magnates de Valladares, com os quaes travaremos 
conhecimento nas biographias subsequentes. 3) É provável que 
D. Teresa trouxesse em dote ao trovador as terras de Sandim, que 
lhe couberam na repartição dos bens dos avoengos*) e que ambos 
ahi estabelecessem a sua residência. 

Quanto á época em que floresceram, é preciso notar que 
D. Teresa pertence á quarta geração. 5). Contando -as, como é praxe, 
quando não ha indicações precisas em contrario, desde D. AfFonso 
Henriques (n. 1109, f. 1185), chegamos aos tempos de Affonso II 
(n. 1185, f. 1223). Em abono d' este calculo aproximativo posso 
narrar que o cunhado do poeta — o Vasco Martins da tabeliã — 
raptou D. Elvira Yasques, que era esposa (também á força) de seu 
senhor feudal D. Pay Soares de Valladares^) e irman de um dos 



1) Mogudo fora sobrenome dado ao bisavô de D. Teresa, com o qual 
começa o registo do Conde. Creio que mogitdo, de movudo (como dizem 
os manuscriptos mais antigos) é originariamente part. perf. de mover, e designa 
o fructo de um parto prematuro (= movitó). 

2) Tit. XLI: De D. Pay Mogudo de Samdy domde vêem os Ervilhães. 

3) P. M. K: Script. 177. No Livro do Conde (p. 200 e 296) affirma-se 
isso explicitamente com relação a um irmão de D. Teresa Martins: E este 
uaseo martins monudo (qxv. por inouudo) foi uasalo deste dom paay soarex 
de iialadares. Cf. nota 6. 

4) O nome de Samdym é dado ao bisavô, ao pae, a um irmão e á 
filha de D. Teresa. Os outros vêm assignalados com curiosas alcunhas in- 
dividuaes, como Ervilhão — Bonafé — Coresma — Oervas — Barbas 

— Oanso — Lacão^ que s6 perpetuaram como nomes de familia. 

5) Eis o quadro de filiação: 

Pay Mogudo de Sandim, o Velho. 

I 
Mem Paes, que foi cavaleiro. 

I 
Martim Mendes, Mogudo, de Sandim. 

Vasco Martins, M. de S. Teresa Martins, M. de Sandim. 

Do irmão que incluo — omittindo outros — terei de fallar no texto. Na 
filiação de Vasco Fernandes Praga ainda entram bisnetos seus. Um d'elles 

— filho de clérigo, por signal — é mencionado como cavaleiro »de boas 
manhas em lançar a cavalo a tavolado , e em bofordar e enas outras cousas 
que pertencem a fidalgo.» 

6) P. M. H. Script. \11: E este D. Pay Soares . . . rottssou D. Elvira 
VsLSqices . . . e casou com ella. Cf. p. 200: ^Esta dona eluira uasques de 
souerosa foy casada com dom, paay soarex de Valadares o uelho . . . e fez 



— 296 — 

magnates mais poderosos de Além -Douro, D. GilYasques de Soverosa, 
ò Velho. Este acompanhou o segundo rei de Portugal em todos os 
seus feitos de armas, morrendo cheio de annos perto de 1240.^) 
Também poderia allegar que Aires Nunes, avô de D. Pay Soares, 
está consignado na introducção do Livro Velho como um dos ricos 
homens e infanções que viveram no tempo dei rei D. Affonso^ o 
que ganhou Toledo (1085) . . ., se eu julgasse dever entender 
textualmente essas indicações e crer nellas a pés juntos. 2) 

Infelizmente, faltam-nos recursos para ponderar, se a sup- 
posta época de Vasco Fernandes Praga combina com elementos colhidos 
nos seus versos. Tudo quanto d' elle nos ficou é d' um conven- 
cionalismo absolutamente incolor, tanto as cantigas de amor que 
perfazem o primeiro cyclo, como as de amigo que compõem o se- 
gundo. De cantigas de escarnho e maldizer, ás quaes este dezidor 
por ventura deveu o apodo, não ha hoje vestigio, nem mesmo no 
índice. 

Por fim lembrarei que os cantares de amigo pertencem ao 
grupo inicial do Livro das Dotms. Ahi vão encabeçados com a 
epigraphe seguinte: Ein esta folha adeante se começam as cantigas 
de amigo que fexerom dous cavalleyros; et o primeiro lie Fernam 
Rodriguez de Calheiros. ^) Sendo de Calheiros os No 227 — 237 e 
de Vasco Praga os iramediatos, até 241, devemos forçosamente 
concluir que era elle o segundo dos cavalleiros, coevo e amigo do 
outro, e talvez seu parente, em vista da derivação dos Calheiros 
do tronco dos Valladares, e uma vez que versos de ambos se con- 
servaram no mesmo rolo de pergaminho. 

Das 25 cantigas de amor que constituem a principal parte do 
seu património poético, 21 são de mestria e apenas 4 de refram. 



em ela geraçom ... e en dias deste seu marido fex huum filho em drn- 
daria com uasco monudo (sic) de sandim que oiiue nome Martim tiasques 
harua e depois que moreo este dom paay soarex seu marido., casou ela com 
este uasco martins monudo de que auya o filho a furto. E este uasco 
martins monudo foi uasalo"- etc. — A p. 296 temos mogudo. 

1) Mon.Lus. XIV, c. 12; XV, c. 4; Herc. II, 233; P.M.H.: Leges 
351 — 584. — Gil Vasques assigna quasi todos os foraes outorgados ou con- 
firmados por Aífonso II. 

2) Não o creio. Os que transcreveram o cadastro original accrescen- 
taram muitos nomes de condes e barões, posteriores de um século, e mais, 
á tomada de Toledo. Lá está p. ex. D. Gil Vasques cuja existência se pôde 
ainda documentar no reinado de Sancho Capello. 

3) CV 227. — Cf. Biogr. XLVII. 



— 297 — 

Das de amigo, duas são balletas, e as restantes, dísticos. Em uma 
d' estas ultimas (CV 237) lia um tliema pouco vulgar na poesia pala- 
ciana, mas que tem affinidades no moderno cancioneiro do povo. A 
donzella pergunta com candorosa malícia: 

Se m' eu a, vos, meu amigú' e meu ben, 
non assanhar'^ dixede mi-úa ren: 
l por Deus , a quen m' assanharei, 
amigu'? ou como viverei? 

Por occupar o posto primazial no Livro das Donas, estando 
também na primeira plana do Cancioneiro de amor, e em vista da 
identificação que tentei, presumo que Vasco Fernandes Praga '), cavalleiro 
de Gallíza, casado e afazendado em Portugal, floresceu no primeiro 
quartel do sec. XIII. 

II. Joaii Soares, Somesso. 

§ 202. Pertencem -lhe, segundo o índice, 25 cantigas: N°^ 104 
— 128 do original (= CB 78 — 102), das quaes as 17 do meio oc- 
correm no CA 14 — 30, faltando apenas as primeiras três e as ultimas 
cinco, por causa de dois cortes brutaes no códice. Vão reprodu- 
zidas no Appendice II N^ 375 — 377 e 378 — 382. Todas ellas, 
muitíssimo serias, são de amor e de mestria. Apenas uma tem 
caracter jocoso, e é ao mesmo tempo de refram. 

Nos Nobiliários antigos não pude encontrar nenhum Somesso. 
Nem tão-pouco em documentos. Impunha- se por isso averiguar, 
se a aualyse dos factos e nomes, contidos na cantiga humorística, 
nos habilitava a fixar pelo menos o período em que João Soares 
metrificou. E o que aconteceu effectivamente. O N° 375 foi , sem 
duvida, composto na época pre-alfonsina, antes de 1245; prova vel- 



1) Escrevo Fernandes, Paes, Rodrigues etc, em harmonia com o uso 
actual que exigo s em fim de palavra quando a vogal antecedente é atona, 
e X quando é tónica, sem attenção á origem. No CA não occorre nenhum 
exemplo (apenas Paay Moniz). Nos apographos italianos, as graphias ~es e -ex, 
alternam, predominando todavia -ex. Quando algum dia se regular com rigor 
a orthographia portuguesa, será bom escrevermos Fer^iándex, de accordo 
com os castelhanos. A transcripção archaíca ~itx -its (p. ex. em limosino, 
na Historia da Querra de Navarra) mostra qual era a antiga pronuncia. 
Em documentos em latim - bárbaro representavam este ^ex -ix peninsular, 
ora por um genetivo artificial derivado d' este {Johannes Fernandici), certa- 
mente em desharmonia com o uso vulgar, ora sem accrescento algum {Jo- 
hannes Fernandix), ora pelo verdadeiro genetivo latino do nome paterno 
(Johannes Fernandi). Quanto á origem, uma epigraphe antiga {Corp. Inscr. II, 
45Õ) já fez suspeitar ser ibérica; mas talvez o texto não esteja bem copiado. 



— 298 — 

mente quando D. Affonso (III) ainda não sahira do reino, e com 
certeza antes que a luta entre a coroa e o clero, que findou com 
o desthronamento de Sancho Capello, se encarniçasse, isto é em- 
quanto governavam os antigos ministros de AíFonso II. 

§ 203. A poesia indicada é vaga e pouco clara, posto que se- 
jam históricos os quatro personagens que nella apparecem e que o 
poeta envolve num mesmo frouxo de riso escarnicador : tanto a 
jovem dama da corte D. Urraca Abril, como D. Martim Gil, que 
apparentemente a protege, e lamenta a sua desventura, mas no 
intimo talvez se regozijasse do desgosto por que ella passou, como 
pretendente regeitado, cheio de despeito ciumento. E não menos 
o outro prócere, designado apenas com o seu nick-name: Chora = 
Der Greiner^)^ por demasiado lacrimoso. Finalmente o pae da dama 
que se apresenta decidido a entregá-la como noiva a est' ultimo, 
apesar da pouca vontade ou aberta resistência da filha. Vejamos 
quem elles são. 

D. Urraca Abril descendia de um dos principaes magnates 
do reino, aparentado não só com a melhor nobreza da península 2), mas 
também com a casa real. D. Abril Peres, senhor deLumiares, 
seu progenitor, orgulhava -se de ser por sua mãe, D. Urraca Affonso,^) 
neto do primeiro rei de Portugal e, por varonia, bisneto do famoso 
Egas Moniz. A extensa serie dos documentos que este ricohomem 
confirmou, principia em 1218 e acaba em 1244.'^) Durante os 
annos 1228 — 1231, e novamente em 1244, governou os territórios 
de Sobre-Támega (Lamego e Viseu) como tenente. ^j Em 1226, 
na minoridade de Sancho II, serviu de mordomo da cúria. ^) Com elle 
tomou parte na conquista de Elvas, sendo de suppôr que também 



1) Hoje diríamos Chorão ou CAorawigras (respectivamente CAoram^w^ras). 
Nos Nobiliários temos ainda um Choroso {Script. 251). 

2) Uma sua irman casara nas Astúrias com um dos cinco Girões que 
se distinguiram na acção das Navas de Tolosa. Acerca de D. Pedro Rodrigues 
Qiron e D. Sancha Pires vid. P. M. H. Script. I, 144 e 162. — Cf. Tit. XV. 

3) Ilist. Oen. I, p. 179. — Script. 162, 201, 297. Bem possivel é que 
os iiaja anteriores, mas não os conheço. 

4) P.M.H.: Leges 579, 598, 607, 610, 612, 616, 618 etc. 

5) Sobre os ricos bornes qui tenebant terram, cf. Herculano, Hist. 
Port. III, 304 e Gama Barros, Hist. da Adtninistração I, 396. Ás pro- 
víncias chamaram terras, e tenente ao chefe supremo, ao mesmo tempo 
administrativo e militar, escolhido frequentemente no senhor dos territórios. 

6) Herculano, Hist. Port. II, 285. — Cf. ib. 277, 288, 344, 359, 388, 
394, 397, 474, 477, 479 da 3"^ edição. 



— 299 — 

batalhasse na tomada das de mais praças que o valente quanto infeliz 
monarca arrancou aos Mouros. Posteriormente, vemo'-lo servir de 
arbitro entre os cidadãos do Porto e o seu bispo D. Pedro Salva- 
dores. Afinal, depois da crise no governo, apparece ligado aos des- 
contentes barões de Além -Douro que, maldizendo da má administração 
e do favoritismo do negligente monarca, se colluiaram primeiro para 
desapossarem um seu valido de que logo terei de f aliar; depois, 
para lhe roubarem a esposa; e por ultimo, para o desthronarem. 
Devemos crer, houve muitos motivos, e justificados, para queixas e 
censuras graves, uma vez que um historiador coevo, da fama e do 
critério do Arcebispo de Toledo (f 1247), remata as suas notas 
portuguesas com a prece: dom imis dirigat vias eiusJ) Mas não se 
trata aqui de dirimir a contenda sobre o caracter e os erros do 
problemático reinante, cuja sorte o Sábio de Castella teve ensejo 
de comparar com a sua própria no fim do seu governo, contrastado 
pela rebellião dos filhos, dos irmãos, e dos vassallos. 

Quanto aos innumeros excessos e actos de prepotência inte- 
resseira, praticados pelos ricos -homens da opposição tanto nos tur- 
vos principies do reinado de Sancho II, Capello, como durante 
os ódios e as hostilidades do fim , estes estão bem patentes na tradição 
colhida pelos Nobiliaristas e confirmada em curiosos documentos. Alguns 
offerecem provas directas do génio auctoritario e violento do velho 
rico -homem de Lumiares. Herculano, que os estudou, 2) trata -o de 
juntador ( = capitão) da lide chamada do Porto, ou de Gaia,^) importante 
refrega que em 1245 serviu de prologo á guerra civil entre o partido 
de Sancho e seu irmão, o Conde de Bolonha, e em que os rebeldes, 
pouco depois vencedores, foram desbaratados. Procedendo assim, 
cinge -se ao texto à.o Livro Velho, impresso por D. Caetano de Sousa, *) 
comquanto d' elle se afaste na edição académica, onde estampou 
justador (campeão).^) Juntado^-, ou justador , as fontes são una- 
nimes na affirmação que D. Abril Peres succumbiu na lide, a qual 
custou a vida também a outro neto de D. Affonso Henriques.^) 



1) De Reb. Hisp. VII, c. 6. 

2) Hist. Port. II, Nota XXIV No. 22. 

3) Ib. II., 397. 

4) Provas I, 177. 

5) P. M. H. : Script. 162. 

6) D. Rodrigo Sanches, irmão do trovador D. Oil Sanches (No. XLV), o 
qual encontraremos morganaticameute casado com uma irman do trovador 
Fernão Oarcia Esgaravunha. 



— 300 — 

Dos importantes bens que D. Abril ao morrer cedeu ao mosteiro de 
S. João de Tarouca, elrei D. Denis achou necessário resgatar a 
melhor parcella, nada menos que a terça parte da cidade de Aveiro. i) 

Resta dizer que uma tenção, conservada nos apographos italianos 
(CV 663), a qual merece o titulo provençal de jogo enamorado, nos 
dá o direito de contarmos o Senhor de Lumiares entre os trova- 
dores. Esse único documento da sua veia poética mal pode ser 
fruto da sua velhice, pois é erótico. O seu interlocutor, Bernaldo de 
Bonaval, é um poeta tratado por Alfonso X^) como mestre e ante- 
cessor de Pêro da Ponte^), o qual havemos de ouvir poetar magistral- 
mente no anno de 1236. — 

D. Urraca Abril casou duas vezes, comquanto os nobiliaristas, 
ou antes os amanuenses que copiaram os antigos livros de linhagem, 
a enfileirem na magna e triste communidade dos leprosos do sec. XIII, 
na qual, como é sabido, nem mesmo falta um rei de Portugal. 
Engano, certamente, que nasceu de referirem o attributo gafo a 
toda a prole de D. Abril Peres, cabendo elle de direito unicamente 
a um irmão de D. Urraca (D. Pêro Abril), que morreu solteiro e 
sem geração; ou a dois, se por ventura escapou o nome de mais 
um que viveu e morreu em iguaes condições,*) conforme presumo. 

O primeiro marido de D. Urraca foi o Chora da cantiga, a 
quem ella deu a mão, constrangida, se nos é permittido tirar illações 
das zombarias do trovador. Chamava -se elle D.João Martins e era da 



1) Mon. Lus. XIV, c 5 e XV, c. 29. 

2) CY 70. 

3) Cf. Biogr. XXXV. 

4) Eis aqui o passo principal, relativo á faniilia de D. Abril. — 
P.M.H.: Script. 162: „Z>e Moço Viegas filho que foi de D. Egas 
Moniz de Riba do Douro. D. Moço Vecgas casou com Aldara Pires e 
fex filhos Pêro Affonso, e D. Egas Affonso, e Dordia Affonso, e Urraca 
Affonso; e D. Pêro Affonso filho de Moço Veegas foi casado com D. Urraca 
Affonso fdha dei rey D. Affonso, o primeiro rey que houue em Portugal, 
e de Eluira Otcalter, e fege em ella D. Abril Pires de Lumiares e D. Sancha 
Pires e D. Aldara Pires: e este Abril Pires foi casado com D. Sancha 
Nunes de Baruoxa, c fege em ella D. Urraca Abril, e Pêro Abril . . . e 
estes ambos forom gafos (as reticencias são intercalação minha). E esta 
D. Urraca Abril foi casada com D. João Martins Chora de Riba de Visela, 
e fege em ella D. Pêro Annes Oago , e este D. Pêro Annes foi casado com 
D. Urraca irmã dei rey D. Dinix, de gaança.^ que fora filha de huma moira., 
e non houue delia semel . . . E o sobredito D. Abril Paris foi instado r 
da lide do Porto e morreo em ella."- A variante imitador nem mesmo se 
regista, como se na impressão de Sousa fosse mero erro typographico. 
Cf. p. 201, 291 e 297. 



— 301 — 

estirpe illustre dos de Riba de Vizella. Seu pae, D. Martim Annes, 
um leal e valente servidor de Affonso II, pelejou e morreu perto 
de Montemor o Velho, i) no anno 1213, sendo vencido por D. Gonçalo 
Mendes de Sousa, o defensor da Infanta D. Teresa e suas irmans. 2) 
Ignoro, se Chora é o mesmo D. João Martins que vejo assignar um 
documento em 1251,^) ou se D. Urraca já enviuvara naquella data.^) 
O segundo marido é o rico -homem e trovador D.Fernam Garcia 
de Sousa, Esgaravunha , a quem terei de consagrar a biogxaphia XI 
d' esta Parte. Só do primeiro matrimonio houve um filho, fruto 
um tanto peco, mas ainda assim feliz e fecundo. Segundo in- 
formações históricas , 5) comquanto tivesse um defeito orgânico que 
lhe acarretou o sobrenome Gago^ D. Pedro Annes casou, antes de 
1265, com a Infanta D. Urraca Affonso, nascida de uma bella moira 
e do Bolonhês. Este neto de D. Abril governava Trás -os -Montes 
em 1284, quando, por sentença de D. Denis, foi obrigado a resti- 



1) Cf. CA 332 e Biogr. XLV. 

2) Entalado pelas tropas inimigas num terreno paludosissimo entre 
Coimbra e Montemor, ahi innumeras sanguesugas tanto sangue lhe chuparam 
que morreu exhausto. Esta anecdota, contada no Livro do Conde (P. M. H.: 
Serípt. 201 e 297) tem, segundo o próprio Herculano, {Hist. Po?i.ll, 175 e 
461) por si a probabilidade de verdadeira, senJLo em todos os aocidentes, ao 
menos no essencial. O illustre historiador deixou de dizer que a região de 
que se trata, ainda hoje tem fama de ter ribeiros, ricos em sanguesugas. 

3) Mon Lus. XV, c. 13 e Escrit. XXVIl. 

4) Para fixar bem a chronologia e a posição dos personagens direi ainda 
que D. João Martins teve por irmão aquelle D. Gil Martins (casado com a 
Sousan D. Mari- Annes, filha de João Pires da Maya) que se conservou fiel 
ao Vendido até ao seu ultimo arranco (Mon. Lus. XV c. 9). Reconciliado 
depois com o successor, obteve o principal cargo do estado, confirmando 
na sua qualidade de mordomo -mór, quasi todos os foraes outorgados por 
Affonso ni. — P.M.H.: Leges 686, 687, 693, 698 etc. 

5) P.M.H.: Script. 201, Titulo XXVI %2: De dom ioham martins 
chora. — Este dom ioham martins chora fog casado com dona oraca 
abril, filha de dom abril perex de lumeares e de dona sancha martins 
de baruosa e fex, em ela himm filho que ouue nome dom pedreanes gago 
que fog peco (apostilla, provavelmente accrescentada por algum continuador?). 
E este dom pedreanes fog casado com dona oraca afonso, filha dei Reg 
dom afonso de porttigal, de gaãça. E ouuerom huma filha que ouue 
nome dona alãonça perex que fog casada com ioham perex portei.'^ — 
Este marido da neta de D. Abril era neto do ti'ovador D. João de Aboim. 
Chamaram -no também de Sousa por ter herdado parte dos bens de D. Con- 
stança Mendes de Sousa, sua mãe. D. Aldonça, viva ainda em 1304, veio 
a ser cunhada de D. Pedro de Barcellos, pelo matrimonio d' este com Branca 
Peres. — Em D. João Peres acabou a linha varonil dos Aboins e Nobregas, 
tendo ja acabado a de D. Abril Pires em seus filhos. 



— 302 — 

tuir certos herdamentos á villa de Sortelha que o Chora usurpara, 
ou que a este haviam sido entregues sem justiça, i) — 

Passemos a D. Martim Gil. Entre os vários nobres que usaram 
d' esse nome, ha três que ganharam fama. O mais novo, neto de 
D. Gil Martins, segundo -sobrinho portanto de D. João Martins Chora, 
era de ambição e orgulho infrenes. 2) Serviu de alferes -mór 
a D. Denis e de aio ao herdeiro do throno, morrendo depois de 
1312. E costume designá-lo com o titulo de Conde porque o foi de 
Barcellos desde 1304. 3) Naturalmente, não pôde ser d' este que 
se trata. Nem creio que o alludido praguejador de D. Urraca Abril 
fosse seu pae e homonymo, porque esse não alcançou grande 
fama, salvo erro. 

O mais velho, a quem refiro a cantiga, é o vencedor de D. Abril 
Peres e de D. Rodrigo Sanches na lide do Porto, um arrojado valido 
de Sancho II que pelos seus altos feitos mereceu o titulo de bo7n. 
Este era filho de D. Gil Yasques, o Velho, de Soverosa, que já 
conhecemos; sendo pela mãe, D. Maria Aires de Fornellos, meio- 
irmão de alguns dos bastardos de Sancho o Velho.*) Desde 1223 
é que figura na corte ao lado do pae (e de Vasco Martins, seu 
irmão) occupando em breve o primeiro logar na proximidade e con- 
fiança do jovem monarca. Por vagas tradições, conservadas nas 
Chronicas peninsulares consta que os ricos -homens da opposição o 
accusavam publicamente de ser causador da má administração do 
reino e que um d'elles, o segundo esposo de D. Urraca Abril, o desafiou 
perto de Trancoso, em presença do próprio chefe do estado, cujo 
throno elle ia defendendo denodadamente. Mas o repto não foi aceito. 
D. Martim Gil mostrou velleidades de querer desfazer -se do ad- 
versário de um modo pouco cavalheiroso. 5) Apesar da sua dedi- 
cação, o valido não esteve presente em Toledo ao fallecimento de 



1) Anselmo Braamcamp Freire, Livro Primeiro dos Brasões da Sala 
de Cintra, Lisboa 1899. Ahi (p. 126 e 144) rectifica -se um erro que Her- 
culano commetteu (III, 115), confimdÍDdo Pedro Annes Gago com Pedro 
Annes de Portel , conforme explico na Biogr. XIV, P. S. 

2) Vid. Man. Lus. XV, c. 9; XVI, c. 25; XVII, 32; XVIII, 43, e espe- 
cialmente o seu curiosíssimo testamento no vol. V, p. 578 — 582. — P. M. H. : 
Seript. 152, 153 e 272. 

3) Mon Lus. XVIII, c. 16. 

4) P. M. H. : Seript. 167 , 168 e 293. — Mon Lus. XIV, c. 24 e 29. 
Herculano., II passim, particulannente a p. 858, 388, 411, 413. 

5) Vid. Biogr. XI. 



— 303 — 

D. Sancho, nem assignou o seu testamento o que levou os modernos 
historiadores a suppôr que já o houvesse abandonado. Mas a sus- 
peita não parece ter fundamento solido, visto o usurpador Affonso III 
lhe ter sequestrado os bens, e D. Martim Gil se ter conservado 
durante annos em terras dé Hespanha, onde prosperou a ponto de 
o antigo relator affirmar que ,,/bi igual em grão contia em Castella 
a D. Diogo de Biscaya.'-'- Ahi contava parentes e alliados. Uma irman 
sua, D. Teresa Gil, fora uma das favoritas de D. Affonso IX de 
Leon. Os luso -leoneses D. Martim, D. Urraca, D. Sancha e D. Maria, 
todos com o patronymico Affonso, eram portanto seus sobrinhos. 
Ignoro, se por lá ficou, ou voltou. O D. Martim Gil que assigna 
foraes e documentos,^) de 1258 em diante, como tenente de Tras- 
os- Montes, da Beira 2) e, em 1277 e 1279, como tenente de Elvas ,3) 
antes será o pae do Conde, a que ja alludi. O próprio Conde nascera 
cerca de 1260. 

O logar de Moimenta, onde se passaram os acontecimentos 
que deram assumpto á chufa do trovador, é muito provavelmente 
o da Beira (perto de Lamego'^), visto esta localidade ter feito 
parte dos vastos territórios, governados militarmente por D. Abril 
Peres de 1228 a 1231. Bem podia ser que a poesia fosse composta 
naquelle periodo. 

De toda a maneira temos de estabelecer data não só anterior á 
morte do rude batalhador, mas ainda ao primeiro casamento de D. Urraca 
com o Chora, 5) quando D. Martim Gil e D. Abril Peres ainda não 
eram inimigos irreconciliáveis, vigorando todavia já certa discórdia 
e má vontade entre as casas de Soverosa e Lumiares. 

§ 204. Depois d' esta investigação, cujas minudencias o leitor 
desculpará, de certo, porque nos levaram ao fim desejado, tornemos 
ao nosso poeta. Certos agora de que floresceu em vida de D. Abril 
Peres, e portanto de Bernaldo de Bona vai, estamos habilitados a 
fixar mais outro ponto importante. Quem tratava familiarmente aconte- 
cimentos Íntimos não so da vida de uma bisneta de Affonso Henriques, 



1) P.M. H.: Leges 686, 687, 693, 698. 

2) Ib. 698. 

3) Ib. 698. 

4) O foral é de 1189. — Ha outros dois, muito menos importantes, 
no Minho e Trás -os -Montes. 

5) A idade minima que este contaria em 1245 era de 22 annos. Nada 
nos obriga porém a presumir, nascesse no anno da morte de seu pae. 



— 304 — 

mas também de nm privado -mór de Sancho Capello, e outros fidalgos 
illustres, chamando um dos de Riba de Yizella, sem -cerimonia 
alguma, pelo bitafe que a familia lhe havia posto — pertence incon- 
testavelmente também a alguma familia nobre, do norte de Portugal. 

Torna- se por isso indispensável nova pesquisa nos Nobiliários, 
onde, repito, de balde procurei um Somesso. Agora ponho de 
lado aquelle nome que pelo significado considero mera alcunha, 
procurando simplesmente um João Soares Trovador, coevo dos 
barões citados.^) 

Na lista dos que vemos mencionados, parte no Livro Velho, 
parte no Livro do Conde, ou em ambos, 2) ha apenas dois que 
entrara em litigio. O primeiro, senhor da terra de Paiva, e geral- 
mente conhecido por este nome, era tio de D. João Martins Chora. 

Em tliese não seria inverosímil um tio ter escolhido para assumpto 
de zombarias os amores do sobrinho. Obsta comtudo o seguinte: este 
João Soares de Paiva que figura nos cancioneiros , assignando grupos 
diversos de poesias,') escreveu uma cantiga de escarnho que data 
do anno 1213, contando então o seu muito archaíco auctor bons 
setenta annos. *) 

Eliminado este, fica no campo um fidalgo da linhagem dos 
Valladares. No Livro Velho — o único onde figura — nomeiam -no 
João Soares que foi bom trovador. ^) Do capitulo muito importante, 
mas summamente confuso e deturpado pela incorporação de accres- 
centos postiços , em que se trata d' essa familia antiga e aparentada 
com quasi toda a nobreza d'aquelles tempos, (e simultaneamente 
da estirpe dos Veliws, com a qual se alliou cedo e repetidas vezes) 
resulta que o pae do poeta, D. Soeiro Aires, era chefe da segunda 
geração, coevo do senhor de Paiva e de todos os mais filhos dos 
vencedores de Ourique. 



1) A nomenclatura portuguesa, summamente oscillante, auctoriza-nos 
a isso. Basta ler os Nobiliários para reconhecer que os indivíduos são de- 
signados, ora pelo prenome e alcunha, ora pelo prenome e patronymico, 
ora pelo prenome e appellido, ora com todos elles juntos — particularidade a 
que já alludi na biographia anterior. 

2) Vid. § 175. 

3) Ind. 23 — 28 (perdidas); e 1330 = CV 937. - P. M. H. Script. 201 
e 297. Somente na redacção mais moderna do Livro do Conde (a p. 336 
e 352) é que o chamam simplesmente Joham Soarex o trobador. 

4) Vid. Biogr. LVI. 

5) P.M.H.: Script. 166. 



— 305 — 

Conta- se que D. Soeiro^) casou duas vezes, mas com pouca 
sorte. Em primeiras núpcias com uma filha de Nuno Soares Velho, 
o PosiumeiroJ) Apesar de muito filha -d' algo, D. Elvira Nunes 
Velha, depois de lhe ter dado um filho varão, deu que fallar nos 
soalheiros palacianos,') fugindo com certo Mem de {do ou da) Latide% 
alliança criminosa mas abençoada, com numerosa prole que fundou 
casas illustres, entre as quaes se conta a dos fidalgos de Callwiros.^) No 
segundo matrimonio com uma anonyma infante de Galliza,^) D. Soeiro 
gerou o trovador, o qual morreu sem descendência'^) e, se entendo 
bem as noticias do linhagista, mais dois filhos, de um dos quaes 
descende outro trovador:^) Estevam. Annes de Valladares. 

Pertencendo á 3' geração dos Valladares, João Soares trovador 
deve ter florescido em dias de Affonso II (r. 1211 — 1223) e talvez 
anteriormente, no longo reinado de Sancho I, alcançando ainda o 
de Sancho Capello. Imagino floresceria de 1210 a 1230. 

Para justificar tanto quanto possível este meu calculo, posso citar 
vários factos que se deram com pessoas da mesma familia. 1°. Já 



• 1) Filho de D. Aires Nunes, ti-onco da familia, D. Soeiro Aires é pro- 

genitor de D. Pay Soares, que já conhecemos como esposo da romântica 
D. Elvira Vasques de Soverosa. 

2) Isto é o ultimo, ou júnior; para o differençarem de seu avô, 
D. Nuno Soares Velho, o Primeiro. 

3) Os linhagistas castigaram - na , collocando-a no rol (de resto, exten- 
sissimo) das perversas (a que foi má). 

4) O nome — modernizado no Livro do Condo em d' Alaúde — (p. 333) 
evoca necessariamente a suspeita, se o amante, a quem deram tão poética 
alcunha, a encantou com artes orpheonicas. Já no Poema de Alfonso XI 
(estr. 408) asseveram que o laude passava por ser um instrumento falaguero. 

5) Cf. Biogr. I e XLVII. 

6) A respeito d' esta infante só ha indicações muito confusas. Do 
confronto critico de vários passos, em que se falia de D. Soeiro parece 
resultar todavia que a infante de Galliza não foi, como se podia imaginar, 
nenhuma descendente de reis por bastardia; mas sim D. Mor Peres de Bravães, 
dieta a Pro?'e (= Pobre) , com ou sem ironia. Filha da primeira esposa de 
Aires Nunes de Valladares, e portanto meia-irman de D.Soeiro, esta dama 
já enviuvara de Aires Nunes de Fornellos, ao qual havia dado, entre outros 
filhos, a bella D. Maria Aires de Fornellos, que já tive de mencionar. 

7) Mãe anonyma, ou controvertida — filho sem prole: eis os motivos 
por que no Livro do Conde omittiram o trovador. 

8) Vid. § 17õ e cf. o quadro genealógico. Houve um dia em que 
julguei que D. Soeiro Aires de Valladares havia casado terceira vez e d' esta 
feita positivamente com uma infante de sangue real, sendo fructo d' este 
enlace D. Pedro Soares, o Sarraça, e D. Affonso Soares. Com relação a esta 
miragem illusoria, provocada pela exposição defeituosa dos linhagistas, remetto 
o leitor para a Biogr. XXVI. 

20 



— 306 ~ 

lembrei que o meio -irmão do trovador, D. Pay Soares, mais velho que 
elle (quanto, é o que não sei) raptou a irman do Velho de Soverosa, 
isto é uma tia de D, Martim Gil, um dos heroes da cantiga qiie analizei. 
2°. Numa nota da pag. anterior está dicto que entre a prole de uma 
meia- irman de D. Soeiro se conta a bella Maria Aires de Fornellos, 
amante dei Rei Sancho T, a qual, acabadas essas relações (antes 
de 1200), deu a mão ao próprio D. Gil Vasques. 3". Uma sobrinha 
do trovador, filha de D. Pay Soares e de D. Elvira Vasques, cha- 
mada Maria Paes [de] Berredo, casou com Martim Paes Ribeira, 
irmão da que foi a ultima amante do monarca, desde os derradeiros 
annos do sec. XII até 1211, i. é da famigerada Ribeirinha que nos 
occupará na biographia terceira. Isso deve bastar. Incidentemente 
terei de referir- me ainda a outras relações e allianças com vários 
trovadores e agnatos de trovadores.^) 

§ 205. A collocação dos versos de João Soares entre os do 
cavalleiro Praga de Sandim e os de Pay Soares de Taveirôs não 
se oppõe aos meus resultados. Muito pelo contrario, apoia- os. E 



1) Ahi vae a lista dos factos genealógicos, que mais importa conhecermos: 

1°. D. Aires Nunes, tronco dos deValladares, c. c. D.Exemea (= Ximena) 
Nunes, viuva de Pêro Paes de Bravaes, o Pobre ^ do qual tivera a D. Mor 
Peres, a Pobre ^ que se consorciou com Aires Nunes de Fornellos e deu a 
vida á famosa D. Maria Aires de Fornellos. — P. M. H.: Seript. 166 e 167. 

2". De D. Aires e D. Ximena nasceu, entre outros, D. Soeiro Aires, 
c. c. Elvira Nunes Velha, íilha de Nuno Soares Velho, a qual abandonou 
o marido, ligando -se com Mem da Laude. — Ib. 

3^ D. Pay Soares, filho d' este matrimonio, c. c. Elvira Vasques de 
Soverosa que, pela sua parte, preferiu o enlace clandestino com Vasco 
Martins Mogudo de Sandim. — Ib. 199 — 200. 

'ò"". De D. Soeiro Aires e Mor Peres, a Pobre ^ sua meia -irman, nasceu 
João Soares, o Trovador; e nasceu 

3°. Pêro Soares, o Sarraça. 

4'\ Pm filho de D. Pay Soares e D. Elvira Vasques , chamado D. Soeiro 
Paes de V., casou c. Estevainha Ponço de Baião. 

4''. Uma filha dos dois — Maria Paes de Berredo — sobrinha portanto 
do trovador, c. c. Martim Paes Kibeiro (irmão da Ribeirinha, ultima amante 
de Sancho I, com filhos adultos em 1213). 

õ*. Um filho do casal 4"^, D. Lourenço Soares de Valladares, c. c. Maria 
Mendes de Sousa, a qual tornará a apparecer nas biographias posteriores. 

õ**. Um filho do casal 4^, D. Roy Paes, c. c. Theresa Gil, foi pio- 
genitor de dois varões: 

6". João Rodrigues que procreou com certa Maria Fernandes a Estevam 
Annes de Valladares ^ o trovador post-dionysio {1^) 

6**. e Pay Rodrigues Sovela que se consorciou com Aldonça Rodri- 
gues da Telha, conhecida como amante dei rei D. Denis e mãe do trovador 
D. Affonso Sanches. 



— 307 — 

apoia -os também a forma archaíca Soaires — (filho de Soairo, Soeiro), 
a qual se lê no índice de Colocci. 

Considerando o caracter da poesia de que tratei, vemos que 
é de escarnho, mas não de maledicência, pois não desce a baixezas 
nem villanias. O que lhe dá — a ella e a poucas outras — logar 
á parte, não é o facto de ahi serem postos na berlinda individues 
de alta gerarquia, mas o de a principal entidade motejada ser uma 
dama da aristrocracia, ficando ainda assim seu nome denimciado des- 
cobertamente. Esta circumstancia leva -me a collocá-la numa linha 
com os nossos N*'^ 38 e 62, e ainda com as cantigas 392, 394 
e 398, todas ellas bem archaicas, como demonstro. 

Quanto ás cantigas de amor de João Soares, peço agora para 
as relerem de novo, com o intuito de apurar a impressão que pro- 
duzem, comparadas com as dos coetâneos. E digam depois, se 
existe um só trovador que mereça com superior justiça o qualifica- 
tivo de Somesso, no sentido figurado em que Cicero, Ovidio, Petronio, 
Júlio César, Quintiliano e outros escriptores romanos empregaram 
submissus. Ninguém como João Soares para cantar em estylo 
simples, absolutamente desprovido de ornatos; com voz baixa; 
modesta e humildemente^); numa palavra, com verdadeira submissão 
ás vontades da amada. 

E preciso confessar que os velhos portugueses já possuíam o 
dom de caracterizar, num só traço, os fracos do próximo, dom de 
que ainda hoje dão provas diariamente. 

III. Paay Soares de Taveiroos.^) 

§ 206. As poesias que hoje possuimos d' este trovador são 
doze (se mettermos em conta duas tenções de que foi apenas colla- 

Voltando á primeira esposa de Aires Nunes do Fornellos (segunda de 
I). Soeiro Aires de Valladares) lembro que do casamento de sua filha com 
GilVasques de Soverosa nasceu, alem de D. Martim Gil: 

4:". D. Teresa Gil, que encantou o velho Leonês. Entre os bastardos 
dos dois encontra -se uma D. Maria Aífonso, viuva de um dos Laras, que 
procreou em ligação clandestina com Alfonso X de Castella, certa D. Beren- 
guela, ou Bringueira, a que mais tarde nos referiremos. (Ib. 177, 197 e 292). 
— Vid. Biogr. XXIX. 

1) São estes (e manso, brando, abafado) os significados do lat. sub- 
missus, quando empregado em sentido figurativo, que tiro, muito de pro- 
pósito, dos Diccionarios latino -portugueses. — Cf. §145. 

2) Ou Taveroos. — Nos apographos italianos occorre três vezes a forma 
Iwueeroos (respectivamente Tcmeroos) , e uma só vez Taueiroos. Nos Nobi- 
liários encontro Taueeruos, mas também Taueiros {P. M. H.: Script. 384). 

20* 



— 308 — 

borador): as nossas cantigas 31 — 39, 396—397^) e 394. Aos 
N°^ 144 — 150 do índice (=CB 118 — 123) correspondem os que 
numerámos de 31 a 35. Quanto a 36 ~ 39, não subsistem nos 
apographos italianos. As duas primeiras da serie original, que o 
leitor encontra no Appendice III, faltam, pelo contrario, no códice 
membranaceo, pelos motivos expostos no Cap. III. 

A composição N° 396 em que não se trata de amores, 
poderia muito bem figurar no Cancioneiro de Burlas.'^) E se 
por ventura lhe pertencessem ainda, como creio, três cantares de 
amigo (Ind. 638 — 640 = CV 239— 241), attribuidos a um Payo 
Soares, sem appellido que o distinga, o auctor seria, entre os que 
tenho de apresentar aos leitores, o primeiro, que se exercitou nos 
três géneros principaes da arte luso-provençalesca. A collocação 
dos seus versos logo no principio do Cancioneiro das Donas (perto 
das de Fernão Rodrigues de. Calfieiros e Vasco Praga de Sandini, 
cora precedência aos de Torneol, do Burgalês, do Camanês, e 
Corpancho), corresponde á disposição dos seus versos de amor 
e escíirnho na Primeira Parte do Cancioneiro de modo tão no- 
tável que me parece escrúpulo demasiado o duvidar da identi- 
dade. 3) 

Quatro das cantigas de amor são balletas de refram (32, 34, 
36, 39). Entre as de amigo, que supponho suas, ha uma que 
segue as mesmas normas métricas (CV241).^) As outras movem -se 
em disticos, trazendo uma o refrão anteposto,^) costume que era 
pouco usado entre os palacianos portugueses na segunda metade do 
sec. XIII. No mesmo cantar o poeta introduziu uma dona a queixar- se 
porque o amigo havia patenteado {ementado) nas suas trovas de 
amor o nome inteiro d'ella, infringindo assim os mandamentos da 



1) Por engano omitti no texto, a p. 743 e 781 do Vol. I, a epigraphe 
era que o CB vindica esta trova para pctay Soarex de Gaueroos (sic). 

2) Antes do N» 1357. 

3) O facto de não se conhecer um único trovador antigo, pre-alfon- 
sino, que tivesse cultivado exclusivamente aquelle género de feitio popular, 
reforça o meu razoado. 

4) Mas esta não lhe pertence incontestada, pois anda também nas 
obras de Affons' Eannes do Coton (CV 413). 

5) CV 240. A construcção da outra é irregular. Sem conhecer a 
lição do CB não posso todavia emittir juizo sobre a melhor maneira de a 
restaurar. 



- 309 — 

cortesania. E de facto, Pay Soares de Taveirôs, nomeia a dama 
a que prestava homenagem, designando -a, com antonomásia trans- 
parente, como filha de Don Paay Moniz (CA 38). Ainda em outra 
cantiga lhe aconteceu designá-la (CA 37) como parenta d'elle; ou 
da mesma linhagem a que pertencia. 

§ 207. A empresa de procurar traços biographicos do poeta 
é difficil. Segundo a epigraphe de uma das tenções (CA 394), o 
Pay Soares de que tratamos, era irmão de um Pêro Velho (de 
Taveirôs).^) Incumbia-me portanto descobrir um barão d'aquelle 
nome que, sendo tenente, proprietário ou habitante de Taveirôs e 
parente de D. Pay Moniz, era ao mesmo tempo irmão de um Pêro 
Velho. Não me subtrahi a este dever. Mas, embora destrinçasse 
a genealogia de uns dez homonyraos, não encontrei nenhum nestas 
condições. Nem sequer achei nas listas nobiliarchicas um que cor- 
respondesse a algum dos três requisitos. Em compensação, creio 
ter identificado o irmão Pêro Velho, e provado o seu parentesco 
com a dama cantada por Pay. 

E isso já vale alguma cousa. 

§ 208. A linhagem a que Pêro pertence pela alcunha, e que 
por isso mesmo oíferece maiores probabilidades de ser também a 
do nosso poeta — apesar do silencio absoluto dos linhagistas e da 
falta de documentos comprovativos'^) — é a dos Velhos. E tronco 
d' estes barões de Entre-Douro-e- Minho, que devem o sobrenome 
provavelmente á sua longevidade , 3) o famoso D. Arnaldo de Baião, 
considerado no appenso ao Livro VeUw como um dos cinco nobres 
principaes de onde descendem os bons fidalgos de Portugal. Ainda 
assim, o ramo dos Velhos, sabido de D. Soeiro Guedes, não produziu 
grandes senhores feudaes, da categoria dos que apparecem a con- 
firmar leis, diplomas e foraes régios nos primeiros séculos da 



1) Vid. Biogr. LT. 

2) Na excellente obra histórica de Ayres de Sá — sobre Frei Gonçalo 
Velho, que citei no Cap. I sob No 76, ha uma genealogia deduzida dos 
apontamentos dos nobiliaristas antigos, claramente exposta em linguagem 
moderna (a p. LIV e ss.), e illustrada com numerosos documentos inéditos. 
Entre estes não ha porém nenhum que nos elucide a respeito de Pêro e 
Payo, nem tão pouco sobre as terras de Taveirôs. 

3) Da proverbial longevidade e fecundidade dos antigos portugueses 
podia contar muitos exemplos, incluindo os que narra Miguel Leitão de An- 
drada na sua Miscellanea, assim como o das 40 filhas de um dos Eças. 



— 310 — 

monarchia na sua qualidade de dignatarios da corte. Tendo prestado 
serviços, sem gozar d' essas vantagens, torna- se especialmente sym- 
pathica pela continuidade da família, que, depois de ter dado ao 
país, nos tempos heróicos da idade media, valentes capitães, apaixo- 
nados aventureiros, vários dos quaes teem chronica altamente romântica 
(para não dizer escandalosa) i) e alguns trovadores, 2) procreou final- 
mente, nos umbraes da era nova, um destemido navegador,^) quando 
a velha nobreza que dominara no norte do reino, em continua 
desavença com os soberanos, ia decahindo, abastardada, cedendo o 
passo aos homens novos do Mestre de Avis. ^) 

§ 209. Já na biographia anterior toquei de passagem, de um 
lado na alliança de uma Velha com um Valladares, e do outro lado 
no casamento de uma Valladares com um Ribeira. Vimos D. Soeiro 
Aires de Valladares casado com Elvira Nunes Velha, e D. Maria 
Paes de Berredo, neta dos dois, consorciada com Martim Paes 



1) E escusado fallar mais uma vez dos amores de D. Elvira Nunes 
Velha com Mem da Lauda. Apontarei somente D. Gontrode Fernandes, 
casada com Nunes Velho o Postumeiro — que occasionou pela sua conducta 
criminosa um desafio entre Pêro Nunes e Simão Nunes Curutelo, cujos 
pormenores se acham relatados repetidamente nos livros de linhagem 
{Script. 168 e 333). — Pêro Velho II (i. é. Pêro Pires) teve por amante a 
filha de um ahbade minhoto de Santa Logriça (ib.). Um dos filhos de Gon- 
çalo Pires raptou uma freira professa, como terei de repetir na i?«o^r. XXVIII. 
Outro, chamado Estevam Pires, d'Ansemunde, seguiu o exemplo, ligando - 
se sem casar com a monja Urraca Pires. D. Denis teve de reconhecer e 
legitimar a numerosa prole dos dois. Com todos estes factos está em har- 
monia a talvez innocente irrupção no pomar de D. Rodrigo Gomes de Trastámar. 
praticada pelo trovador Pêro Velho de Taveirôs, e em seguida cantada por 
elle e seu irmão, i. é pelos dois poetas a que são dedicadas estas paginas, 

2) Vid. Biogr. XXYIII e LI. 

3) Frei Gonçalo Velho, descobridor da Terra Alta (1416) e dos Açores 
(1431), a cuja memoria está consagrada a obra mencionada. 

4) Reconhecendo o mérito de Frei Gonçalo, penso que o seu biographo 
pecca por um enthusiasmo excessivo pela gloria ancestral dos Velhos. A 
these »que não é fácil encontrar na historia moderna uma familia que, a 
partir do anno 700 (!) tivesse mais elevado destino, produzindo guerreiros 
destemidos, notáveis diplomatas, poetas primorosos e immortaes navegadores», 
verdadeira na ultima affirmação, parece -me exagerada nas que precedem. 
Quanto a allianças com famílias nobres e com as casas reinantes da penín- 
sula, são ellas tão frequentes, que não seria difficil organizar tabeliãs genea- 
lógicas, parecidas ás de Aires de Sá, a favor de muitas outras gerações. E 
episódios românticos de todo o género? ... os exemplos que vou espalhando 
nestes esboços darão ideia do que se poderia produzir a este respeito. 



- 311 — 

Eibeira, isto é com o próprio irmão da que o trovador chamou 
filha de don Paay Moniz. Agora tenho de accrescentar que um 
irmão de D. Soeiro Aires, chamado D. João Aires, consorciou uma 
das suas filhas — D. Teresa Annes de Penella — com D. Soeiro 
Nunes Velho, irmão da phantasiosa D. Elvira e neto do primeiro 
descendente dos de Baião a quem chamaram Velho, i) D' esta alli- 
ança é que nasceu entre outros Fero Soares, Pêro Velho, nomeado 
frequentemente em forma abreviada Pêro Soares ^)^ mais conhecido 
todavia pelo seu sobrenome individual de Escaldado (por ter tido 
pouca barba). ^) E nasceu ainda uma Maria Soares, a qual casou 
com outro Eibeira, o pouco conhecido D. Pedro Nunes da Ei- 
beira. ^) 

Pêro Soares, Pêro Velho — o Escaldado — ■ pae de João Pires, 
Eedondo") e de outro Pêro Velho que é preciso differenciar, cogno- 
minando -o Pêro Pires, é, na minha opinião, tanto pelo nome como 
pela idade e por suas relações de parentesco com os Eibeiras, o 
trovador que procuramos, embora nada conste a respeito de um seu 
irmão (quer legitimo, quer illegitimo) de nome Pay Soares, nem 
tão -pouco sobre se o irmão exerceu, ou não, direitos de senhorio 
em Taveirôs. Aqui como em muitíssimos outros casos, os cando- 



1) D. Nuno Soares Velho I era cunhado e companheiro de D. Gonçalo 
Mendes da Maia (f 1170), o celebre Lidador. Brandão dá -o por vivo em 
1174. Vid. Mon. Iais. X, c. 45 e XI, c. 17. — P. M. H. Seript. 166. 

2) No Livro Velho é chamado Pêro Soares (166), nome que igualmente 
occorre no Livro do Cotide (333 e 334). Com mais frequência usam todavia, 
em ambos, do costume de fazer segiiir ao prenome e patronymico novamente 
o prenome, accompanhado da alcunha secular que já valia por appellido, 
dizendo: Pêro Soares Pêro Velho — Nuno Soares Nuno Velho — Pêro 
Pires Pêro Velho — Oonçalo Pires Gonçalo Velho — Pêro Nunes Pêro 
Velho. — Joan Pires Joan Velho — Joan Gonçalves Joan Velho. Depre- 
hender-se-ha d' esta singularidade que os Velhos tinham por habito, como 
de resto outras famílias em que se dão casos idênticos , omittir completamente 
o patronymico? e que o linhagista, não podendo adoptar usança tão des- 
ordenada, escolheu o expediente de citar a dupla nomenclatura? Os modernos 
costumam separar os synonymos pela conjuução ou. 

3) A respeito do Escaldado veja- se Ayres de Sá p. LV, LVIl e 43 
(Doe. XXV) e Biogr. XXVIII e XVI. 

4) O Livro Velho diz : D' este D. Pedro Nunes 'procedem os Ribeiras. 
Mas em parte alguma achei elementos que confirmassem este dicto. Nem 
mesmo a sua filiação se indica. Suspeito tratar -se de um Pêro Nunes Velho, 
irmão de Sueiro Nunes. 

5) Vid. Biogr. XVI. 



312 



neiros ministram materiaes complementares para a construeção das 
biographias. i) 

As relações de Pay Soares e Pêro Velho de Taveirôs com 
Martim Soares, trovador notável, oriundo de Ponte de Lima, 2) vali- 
dam a minha conjectura, porque é justamente perto de Ponte de 
Lima, no julgado de Neiva, entre Cavado e Ave, que os Velhos 
residiam, ricamente afazendados ^) e aparentados, conforme já in- 
diquei, com boa parte da nobreza de Além -Douro e da Galliza.*) 



1) O parentesco deduz -se do modo seguinte. Nuao Soares Velho, o 
Postumeiro, com o qual principio, era neto de Nuno Soares Velho o Primeiro: 
-jíNuno Soares Velho II 
(Mór Pires, Perna 



I Elvira Nunes\' elha 
D. Soeiro Aires 
de Valladares 



ID. Soeiro Nunes Velho 
Teresa Annes 
de Penella 



D. Pay Soares de V. I ÍPero SoaresV. [Maria Soares 

Elvira Vasques 3''*Pay Soares? 34 o Escaldado 3''|Pero Nunes 
de Soverosa [Maria Vasques [ Ribeira 

I I 



Í Maria Paes de 
Berredo 
1 Martim Paes Ri- 
l beira 



[Pêro Pires V. 
4*'|Teresa Pires 
[ Pereira 



ÍJoão Pires Redondo 
Mor Pires 
Pereira 



I Gonçalo Pires V. jRodrigu' 
Sancha Gonçalves õ^^lEannes Redondo 
de Arga | trovador 



6'' Fernau Velho. 



6* Joan Velho 
dePedragães 

Posso indicar ainda outra alliança entre Valladares, Velhos e Ribeiras , mas esta 
é tardia demais para interessar o leitor. Quem quiser, procure na obra de 
Ayres de Sá a p. LXI a tabeliã em que fica demonstrado que uma bisneta 
de D. Maria Paes Ribeira, chamada Maria Pires Ribeira e Sousa, tinha por 
4" avô a Gonçalo Mendes de Sousa, que era 5" avô de Gonçalo Velho (5* 
do nosso quadro). 

2) Biogr. IV e CA 396 e P. M. H. Inquir. 

3) Vid. Ayres de Sá, Doe. XV. Em certas propriedades dos Velhos, 
o pão era medido per mensuram de Ponte Limie (ib. p. 11). 

4) Além dos Valladares e Ribeiras, podia nomear os Coelhos, Briteiros, 
Sousas, Vasconcellos nos sec. XII e XIII, Figueiredos, Travassos, Cabraes 
nos sec. XIV e XV. Merecera menção especial entre aquelles: Gualdim Paes, 
o mestre do Templo, e entre estes Nun' Alvares Pereira, o grande Con- 
destavel. 



— 313 - 

Quanto ás terras de Taveirôs, as minhas pesquisas falharam 
de todo , infelizmente. Conheço localidades d' este nome apenas na 
Galliza. 1) No sec. XIII a mais afamada era um vetusto castello, 
perto de Lobeira, Turris Taberioli na dicção latina dos annalistas 
e chronistas, o qual tivera importância em tempo de D. Urraca e 
nas luctas do arcebispo Diego Gelmires e da rainha D. Teresa contra 
o senhor de Leão. 2) Os de Portugal, se as houve, desappareceram 
ou mudaram de nome. Não é todavia, de modo algum, impossivel 
que um fidalgo português governasse do castello gallego como 
vassallo, quer de Alfonso IX, quer de D. Martim Sanches, ou ainda 
de D. Rodrigo Gomes de Trastámara; nem tão poiíco que o possuísse 
como propriedade adquirida por casamento.^) 

§ 210. Passemos aos factos miúdos que as cantigas de Pay 
Soares revelam. Da nobreza de um poeta que, depois de gabar a 
sua própria linhagem, se dirige familiarmente á Ribeirinha, seria 
ocioso fallar. Na tenção CA 396 graceja, de braço dado com Martim 
Soares (que imagino addido á casa dos Velhos), motejando de um 
seu homem, com pretensões a jogral ou segrel. Da cantiga 33 
parece resultar que transpôs os Pyreneos, versejando lá fora. 
Houve pelo menos quem entendeu assim as palavras Qtiantos aqui 
d' Espanha son e Desquando d' Espanha sái. Mas essa interpretação 
não é a única possível. Visto que o termo Espanha teve na idade 
media duas accepções, sendo tomado com freqiiencia no sentido 
restricto de Castella e Leão, em opposição a Portugal, Aragão, 
Navarra*) e os reinos árabes, é muito possível viajasse apenas 
dentro da península, escrevendo aquelles versos em Portugal ou 
em Aragão, depois de ter visitado as cortes do centro ou vice- 
versa. 



1) Nos provindas de Orense e Pontevedra. 

2) Hist. Compost. II, c. 84 (apud Herc. I, 281); Espana Sagrada XX, 
440 e 443 Ttirris Taberioli; ib. 314 e 347 Taberolum. 

3) Nos Nobiliários encontro uma só vez mencionado um logar de 
Taueeroos, na passagem a que ja alludi (P. M. H.: Script. 384). Trata- se de 
uma D. Rica de Taueroos (ou Taueiros), de origem gallega, da linhagem 
dos Churrichões ou TurrichÕes, que aprenderemos a conhecer mais tarde, 
e em que, de resto, entraram também os Velhos, na pessoa de uma filha 
de Pêro Nunes Velho. Na toponomyia e onomástica portuguesa temos Ta- 
veira e Tàveiro, Tavares (antigamente Taaveira Taavares; ib. Tit. LXVII). 
Tàvooso (ib. 361), pôde ser outra cousa. 

4) Todos esses reinos christãos juntos eram as Espanhas, no plural. 



— 314 — 

§ 211. Pela cantiga dialogada (394), em que presumo cabem 
a Pay Soares as estrophes 2 e 4, e a Pêro Velho 1 e 3, estamos 
informados de que este ultimo invadiu um dia o pomar de certo 
D. Kodrigo Gomes, afim de conversar com duas donzellas, muy 
fremosas 6 filhas d' algo assaz, atrevimento que provocou iras e re- 
presálias da parte do porteiro, i) encarregado de vigiar pela boa 
ordem no gyneceu da condessa de Trastámara. 

Quando se daria este caso? E onde? 

Creio que em tempo de Alfonso IX, ou mais exactamente 
entre 1215 e 1228 na Galliza, região de Trastámara,'-) quer fosse 
no castello afamado de Trava, quer em Sarria, Monteroso ou Mon- 
tenegro, visto que D. Rodrigo Gomes, rico -homem muito honrado 
e de muitos vassallos,^) estava revestido da suprema administração 
militar d'aquelles cinco districtos ou condados^) que já haviam sido 
de seu pae D. Gomes Fernandes 5), e de seu avô, o afamado Fernam 



1) Quanto a esses porteiros compare - se a rubrica da cantiga CB 455, 
citada numa das notas da Biogr. IV; e no Especulo de los Derechos Libro II, 
Tit. VII Ley I. 

2) Os antigos diziam Tras-Támar ou Tres-Támar — em castelhano 
Tras-Tamhre, lat. Trans-Tamera e Trans-Tatnerim (vid. lRo'L Tol. VII, 7). 
Esse Ta7nbre é um riozinho no norte da Galliza. 

3) Da casa de D. Rodrigo Gomes foi raptada por João Bezerra, da raça 
dos ti'aidores da Beira, uma sua sobrinha, D. Maria Rodrigues Codorniz, a 
heroina da cantiga CB 455. — Isso, segundo os linhagistas (P. M. H.: 
Script. 268, 254 e 174). O teor da rubrica que accompanha essas trovas 
de escarnho, prova todavia que ha engano na affirmação, e que em lugar 
de Oomes (Oz) deve ler -se Sanches {Sx,). Na casa do bastardo D. Rodrigo 
Sanches, em território português (Grijó?) é que essa aventura succedeu. 
Mais um caso em que os assentos dos Cancioneiros têem valia superior á 
dos NobUiarios. Os escribas trocariam provavelmente as abreviaturas Ox e 
Sx ou Gmx e Snz. — Cf. Biogr. YV^ e Randglosse 'KYl. 

4) Até fins do sec. XII era costume chamar Condes aos tenentes. — 
Cf. P. M. H.: Script. 280: Em aqiiel tempo chamauam aas gramdes terras 
que daua7n os rreys aos fidallgos conidados e por esto se chamauam os 
demais d' aquelles a quaes [os] dauam, condes. Gama Barros, Historia 
da Administração publica em Portugal, Lisb. 1885, vol. I, 122 — 132. 
Amovíveis, á vontade do rei, os condados estavam longe de constituir terras 
feudaes. 

5) Escripturas de 1170 — 1189 dão o conde G^ome;^ dominando só em 
Trastámar. Em 1190 tinha também Montem Rosum et Sarriam; em 1194 
e 1195 figura novamente como tendo só Trastámar; em 1199 torna a con- 
firmar como em 1190, tendo mais Monte Nigrum, e conserva as mesmas 
terras em 1200, menos Sarria. — Vid. Gama Barros 130 — 131, onde o 
leitor encontra indicação exacta dos documentos, publicados na Espana 
Sagrada. 



— 315 — 

Pires, dicto Conde de Trastamar, mas também de Trava por ter 
sido o seu primeiro povoador.^) 

Escusado será lembrar aqui como este barão galliziano, o mér 
hmnem que houve em EspanJia que rei não fosse, inscripto nas 
paginas da historia portuguesa como amante da rainha D. Teresa, 2) 
foi guerreado e vencido por D. Affonso Henriques nos campos de 
Vai -de -Vez, tendo de fugir de Portugal; e como peregrinou ás Terras 
Santas de Jerusalém, a fim de remir os seus peccados. Apenas re- 
cordarei que este facto se deu em 1128 para estabelecer que o 
neto, do qual tratámos, ainda nasceu no sec. XII. Como vassallo 
do Leonês D. Rodrigo Gomes administrou as tenencias ou os con- 
dados que citei,-'') posto que os linhagistas affirmem ter recebido o 
de Trastámara da mão de D. Martim Sanches.^) A este respeito contam 
até uma anecdota curiosa. Segundo elles, o Santo Rei Fernando III, 
depois de exigir repetidas vezes a entrega dos castellos a D. Ro- 
drigo Gomes, emprazou-o para se justificar. Diante das explicações 
formaes do accusado , o successor de Alf onso IX não achou todavia 
outra decisão, a não ser que „tão bom fora D. Martim Sanches e 
que tanto serviço lhe fizera que cousa que desse do que d' elle 
tinha que lho não devia a tolher." Dizem que isto aconteceu no 
acampamento de Sevilha (1247) onde de facto D.Rodrigo se achou. s) 

Varias circumstancias abalara comtudo a nossa fé na authen- 
ticidade do conto. Verdade é que D. Martim Sanches, o filho deno- 
dado de D. Maria Aires de Fornellos e de Sancho I, se desnaturou 
de Portugal em 1211, para subtrahir-se ao ódio feroz com que 
Affonso II perseguia seus irmãos, legítimos e bastardos, sem distincção 
de sexo. ^) Verdade também que conseguiu posição preponderante 

1) P.M.H. Leges 268 — 269. 

2) Herc. I,' 263 — 290 e Nota XIV. Na corte de D. Teresa, o filho de 
Pedro Froyaz, alferes -mór do arcebispo Diego Gelmires, governava nos 
districtos do Porto e de Coimbra. 

3) Roderieiís Qomex, apparece em uma escriptura de 1215 como tenente 
de Sarria e Montenegro (Esp. Sagr.XVl, Ap. 37); em 1216 tinha também 
Monterrosum; ib. XLI, Ap. 27); em 1228 Trastamar, Montenegro e Monteroso 
(XVII Ap. 3, õ, 6 e XXII, Ap. 8 e 15). — Cf. Gama Barros I, 131. 

4) „Este dom Martim Sanchex teuc delrrey quatro condados e foy 
sempre adeamtado em Oallixa em toda sa vida. E teue dei dom Rodrigo 
Oom,e'!í de Trastamar o comdado de Trastamar que ele tinha delrrey em 
teemça ein toda sa vida.''' — P. M. H. : Script. 295 e 199. 

5) Esp. Sagr. XXII, 302 (Fuero de Tuy, confirmado por S. Fernando 
era Sevilha (a. 1250). 

6) Herc. II, 231 e 234; Mon.Lus. XII, c. 21. 



— 316 — 

no reino de seu primo e soberano eleito, e que Alfonso IX galar- 
doou com quatro condados os serviços prestados. E também, que em 
todas as circumstancias D. Martim Sanches se portou mui gentil- 
mente, dando, ao batalhar contra mouros e christãos, assumpto para 
mais de um conto cavalheiresco, tradicionalmente transmittido aos 
nobiliaristas. 1) Mas em primeiro logar não vejo que Trastámar 
pertencesse aos seus domínios, 2) comquanto Duarte Nunes de Leão 
assim o affirme. ^) E depois, julgo inacreditável que o successor 
de Alfonso IX deixasse decorrer dezoito annos desde a morte do sup- 
posto doador,"^) sem liquidar um assumpto, de tanto peso,^) e não 
os quarenta dias tradicionaes. 

Como porém o facto pouco ou nada importa para o nosso caso, 
passemos adiante, sem o apurar. Os documentos históricos fixam 
para D.Rodrigo Gomes as datas 1215 e 1228. Os nobiliaristas dizem 
que Rui Gomes vivera pouco, depois da entrevista com S. Fernando. 
A data derradeira em que o vejo confirmar doações regias é 1255.^) 

Mais um traço para a sua biographia. Como os Gallegos em 
geral, o senhor de Trastámar gostava muito da monteria e cetreria. 
Dom Juan Manuel, auctor de um excellente Libro de la Caza^ conta 
que o homem bom D. Rodrigo Gomes de Galliza foi o primeiro 
que começou a matar garça com falcões bornis. '') 

§ 212. A condessa de Trastámar D. Mór [ouMayor] Affonso, era 
filha de D. Affonso Telles de Meneses, o que povoou Albuquerque (1218), 
e de D. Elvira Rodrigues Giroa, sua primeira mulher.^) Ignoro quando 



1) Luc. Tud., Chron. Mundi 113 e 114; Herc. II, 465; Script. 294, 
199, 167. 

2) D. Martinus Sancii tinha em 1219 a tenencia de Lima e Sarna; 
em 1222 a de Lima, Toronho e Montenegro. — Gama Barros I, 127 e 129. 

3) Genealogia dos Reis. 

4) E costume dizer que D. Martim Sanches morreu cerca de 1230. 
Talvez fosse em 1228. Neste anuo a tenencia de Lima, com a de Leão, 
Zamora, Extremadura, Traasserra e Toro ficou a cargo de outro filho de Sancho I, 
(mas este legitimo) o Infante D. Pedro, mordomo-mór do Leonês. Ib. 127. 

5) Buscas nas coUecções de documentos do reino vizinho conduziriam 
de certo a resultados mais precisos. 

6) Doação á cidade de Ubeda das aldeias de Cabra e Santisteban 
(Vid. Argote, Nobl. And. II, c. 1) e isenção dos Burgaleses de certos tributos 
{Esp. Sagr. XXVI, 320). 

7) Ed. Baist, 46, ?• 

8) Os amores de Rodrigo Gomes e da gentil D. Mor serviram de as- 
sumpto a um moderno romance cavalheiresco em gallego, no estylo dos 
Solaus dos românticos portugueses. Seu auctor, M. Martinez Gonzalez, ima- 



— 317 — 

ella morreu. O pae, nobilis amator totius bonitatis, conforme o seu 
epitaphio no mosteiro de Palazuelos (perto de Valladolid), assignava 
documentos no fim do século XII, distinguiu -se entre os heroes 
das Navas de Tolosa, e morreu em 1230. Depois da morte da 
primeira esposa havia casado com Teresa Sanches, bastarda de 
Sancho I, e da sua ultima companheira. 

A cantiga 394 refere -se portanto a acontecimentos anteriores 
a 1230. Como importa estabelecer relações positivas e pontos de 
contacto entre os trovadores portugueses e os da Provença, direi 
ainda, que o Conde gallego- leonês, em cuja casa andavam os tro- 
vadores Pay Soares e Pêro Velho, era não só cunhado do Português 
D. Mem Gonçalves de Sousa 11 (vivo em 1224) e de TelPAffonso, 
o de Córdova e Martos, cuja morte prematura foi pranteada por Pêro 
da Ponte (CA 464), mas aparentado também com os Senhores dos 
Cameiros {Biogr. LVIII) e com D. Diego Lopes de Haro, dois grandes 
que mais abaixo veremos relacionados com poetas da Provença. 

§ 213. Mais importante ainda que o dialogo humorístico entre 
os dois Velhos, que datámos, são outras duas cantigas a que já alludi: 
a 37% em que Pay Soares falia de sua linhagem, e da sua devoção 
apaixonada por uma parenta, altamente collocada, que lhe poderia 
ter valido, se quisesse, e principalmente, a 38*, em que a designa 
translucidamente como fílfui de Don Paay Moniz. 

Havendo um só varão d' este nome, e tendo elle, de mais a 
mais, também uma única filha, ^) de muito romântico renome, fácil 
é estabelecer de quem se trata. Tão fácil que logo o primeiro 
português que estudou o Cancioneiro, se lembrou da Ribeirinha.^) 

D. Paay Moniz, filho de D. Monio (i. é Munio, Nuflo, Nuino, 
Nuno) Osores, padroeiro ou natural de Cabreira e Ribeira na Galliza, 

gina que a filha do magnate luso - castelhano fora destinada por S. Fernando 
ao herdeiro da coroa, o Infante D. Alfonso (X)! O namorado infanção gallego 
vae a Sevilha, onde batalha com denodo, tendo a boa fortuna de salvar a 
vida ao seu rival, sendo galardoado pelo enternecido pae com a mão da 
amada e o condado de Trastámar. — Vid. Revista Oallega No. 253 (Jan. 
de 1900). 

1) O Livro Velho dá-lhe duas, mas da segunda nem mosmo o nome consta. 

2) Vid. Cap. I § 3. Com referencia ao poeta incógnito que considerava 
como auctor do cancioneiro todo, Ribeiro dos Santos dizia: „Em outros 
versos dá a conhecer a filiação de sua dama, chamando -lhe filha de 
D. Paex Moniz." Depois de reproduzir a cantiga continua: Não podemos 
saber se este Paex Monix seria o mesmo filho segundo do Conde D. Osoyro 
de que falia o Nobiliário do Conde D. Pedro. Mais nada. 



— 318 — 

de cuja estirpe o Conde trata no Tit. LIII^) e neto materno de 
Nuno Soares, o que fez Grijó, era personagem de nobre sangue,-) vivo 
ainda em 1201.^) De sua mulher D. Urraca Nunes, a Bragançôa, 
teve um só varão, Martim Paes Ribeira que já vimos casado com uma 
Valladares-Soverosa,^) e uma imica filha, D. Maria Paes Ribeira,^) 
sereia de encantos singulares, como as suas aventuras o demonstram. 
Imagino que o nosso trovador já a venerava quando o filho 
de Aífonso Henriques, o nada casto e muito impressionavel luso- 
borgonhês Sancho o Velho, se namorou d'ella, introduzindo -a nos 
paços régios. ") Ahi continuou vivendo durante mais de dez annos, até 
á hora da morte do monarca, amplamente doada com opimas herdades ^) 
e publicamente reconhecida como mãe de quatro bastardos vivos.*) 



1) P. M.H.: Seript.354:- Herc. II, 87 e 135; Mon.Lus.XIl, c. 21; 
Hist. Gen. I, 90. Cf. 178, 256, 268, 323, 333. Na 5ío^r. XLII encontrar - 
nos -hemos com um Osoir' Eannes. 

2) Este Nuno Soares, o que fez Grijó, é citado na primeira pagina do 
Livro Velho como um dos ascendentes das famílias nobres de Portugal. 
P. M. K Script. 143. Cf. 178 e 354. 

3) P. M. H.: Leges 511, 513, 516. Pelagius Moniz confirma o foral 
da Guarda (1199) como alferes; o de Abaças (1200); o de Benavente e o 
de Cezimbra (1201). — Cf. Mon. Lus.Xll, c. 28. 

4) Esta D. Maria Paes, por parte do pae, da linhagem dos Valladares, 
por parte da mãe uma Soverosa, e senhora das terras de Berredo, também 
tem a sua chronica, sendo frequentemente confundida por auctores modernos 
com sua bella cunhada. Vid. a Nota seguinte. Na Biogr. LVII veremos 
que um trovador aristocrático morreu de amores por sua causa. Os Nobi- 
liários antigos faliam d' ella a p. 166, 177 e 354. 

5) D' estes dois irmãos, affirma o Conde (354) que foram ,,naturaes" 
de Lanhoso contra Riba de Cadavo e de Berredo. O Livro Velho (177) dá 
comtudo o titulo de Berredo exclusivamente á mulher de Martim Paes, 
como se esta terra tivesse sido património seu. De modo algum quadra 
portanto á Ribeirinha o titulo de Berredo, á qual o appõe por engano 
Anselmo Braamcamp Freire na sua erudita e elegante obra sobre os Brasões 
de Cintra (p. 126 e 144). 

6) O Livro Velho trata -a euphemisticamente de nmlher dei rei (p. 178). 

7) As principaes, cuja posse lhe foi expressamente segurada no testa- 
mento de Sancho I, são: Parada, Pousadella, Villa do Conde e Pereiro. 
Vid. Hist. Oen., Provas I, 17 e Mon. Lus. XII, c. 35: Ist(e sunt hceredi- 
tates quas ego dedi Domue, Marim Pelagij S filiis méis quos de illa 
habeo : Villa Comitis c& Parada â; Pausadela S Pirarium. — Eis as ora- 
ções relativas aos filhos da Ribeiíúnha: Et dedi D. Egidio Sancij filio meo 
qtiem de illa habeo VIIÍ morahitinos de illis qui sunt in Belver; Roderico 
Sancij VIII morabitinos ; Tarasioe, VIII morabitinos , Constancioe Sancij 
VII morabitinos. 

8) Outros dois, Nuno Sanches e Mor Sanches, morreram meninos, 
ceiiamente antes de 1211, visto não serem mencionados no testamento. 



— 319 — 

D. Gil Sanches (f 1236) é o que posteriormente veremos exer- 
citar -se na arte trovadoresca. i) D. Rodrigo, já o vimos succumbir 
ás feridas que recebeu na lide do Porto (1245), sendo enterrado 
perto de Grijó, onde ainda hoje subsiste um padrão commemorativo.^) 
D.Teresa é a infanta q\ie casou, antes de 1230 (ignoro quanto) 
com D. Affonso Telles de Meneses, o de Albuquerque, cuja filha, 
enteada de D. Teresa, ha pouco encontrámos residindo no castello 
do Conde de Trastámara. A ultima. D, Constança Sanches, viveu e 
morreu no mosteiro das donas de S. Cruz (1269). 

O que nomeei em primeiro logar, cingindo -me á ordem obser- 
vada no testamento dei rei, já era de maior idade em 1213.^) 
Nasceu portanto, incontestavelmente, antes de 1200, mesmo se 
supposermos fosse declarado maior com apenas 14 annos, como 
filho de rei.*) Com este calculo concorda a data da primeira entre 
as importantes doações, com que o régio amante favoreceu a amada: 
Pai-ada e Pousadella, Era 1238 VIIIIKal. Mart, ann. regn. nostri XV. 5) 

As aventuras de D. Maria Paes não acabaram com a morte do 
soberano. Mal ella vinha de o enterrar em Coimbra ao lado de 
D. Aítbnso Henriques, regressando com grande séquito, em companhia 
do irmão, para as suas terras minhotas, eis senão quando um seu 
parente, tresneto de Egas Moniz, tresvairado por uma paixão verda- 
deiramente louca, se apossou da bella viuvinha, á força, fugindo em 
seguida homiziado para Leão, com receio da vingança da sua poderosa 
parentela. Accusado e resolutamente renegado pela sua victima, 

1) Biogr. XLV. — Cf. Biogr. IV, 6m. 

2) Hist. Oen. I, 90. — Mon. Iais. XIV, c. 24. Cf. Biogr. IV. 

3) Podo todavia ser que uma do sexo opposto o precedesse. Os chro- 
nistas collocam a Teresa Sanches no primeiro logar. P.M.H.: Script. 31. 
Neste caso, as relações de Sancho 1 com a Ribeirinha eram mais antigas 
ainda do que penso. 

4) Segundo o direito romano, a maior idade começava aos 25 annos; 
segundo o direito consuetudinário da peuinsula, os reis e filhos de rei eram 
considerados adultos ou de idade comprida, com apenas 14. — Vid. Opúsculos 
Legales de Alfonso X, Vol. I e Herc. II, 302, p. 6, 220, 223, 459. 

5) J. P. Eibeiro, Diss. Chron. III, p. 200, N» 657. Em 1209 recebeu 
a quinta de Almafalla {Mon. Lus. XII, c. 31 e XIII 10 e 14). Todos esses 
bens ie D. Maria foram disputados acreraente entre os descendentes da prole 
regia e os filhos do 2° matrimonio. A freira D. Constança Sanches venceu 
em 1257 o encarniçado pleito. Mon. Lus. XV, c. 9. — Posteriormente, 
Parada e Paradella, depois de novo litigio, passaram ás mãos dos herdeiros 
de Teresa Aunes, os Sousões, e afinal ás de D. Pedro Annes de Portel, por 
sentença de 2 de set. de 1288. — Vid. Braamcamp p. 110, 113 e 139 e cf. 
Biogr. IV, 7 d. 



— 320 — 

Gomes Lourenço de Alvarenga expiou o seu crime, sendo morto 
por justiça. 

Consorciada pouco depois com D. João Fernandes de Lima, o 
Bom — Batisella, de alcunha — nome que ha de reapparecer 
frequentes vezes nestes estudos, a Ribeirinha deu a vida a mais 
três filhos, entre os quaes tem interesse para nós apenas Teresa 
Annes, mulher de um Sousão. i) Mon-endo idosa perto de 1250, 
D. Maria Paes Ribeira foi enterrada no mosteiro de Bouro, caminho 
de Braga ao Gerez. 2) 

§ 214. Para findar, vamos á espinhosa tarefa de explicar as 
intenções de Pay Soares quando dizia: 

e vos, filha de don Paay 

Monix, e hen vus semelha 

d' aver eu por vos guarvaya. 

Evidentemente ha ahi allusão vaga a um exalçamento próximo da 
sua jovem parenta, e a um premio symbolico que elle, trovador, 
esperava receber nesse ensejo, era conformidade com certos costumes 
antigos e palacianas. K gvxxrvaya {on guarnaya, de guarnire'^) era 
uma sobre -veste de escarlata fina — luxo permittido por via de 
regra, ainda um século depois, apenas ao rei e seus mais próximos 
parentes.^) De uma arrojada conjectura de Th. Braga desprende -se 
a ideia convidativa, se o manto escarlatino seria por ventura um 
dom de noivado, pago pela noiva ao trovador que festejasse as 
bodas (quer morganáticas, quer reaes) com o melhor epithalamio 
medieval.*) Neste caso havia na cantiga um prenuncio da intro- 
ducção da Ribeirinha na camará regia. 

Se assim fosse, e não encontro explicação mais aceitável, a 
cantiga 38*, archaica no eschema métrico e no rimar, composta 



1) D. Sancho havia previsto a eventualidade. No seu testamento en- 
contram -se providencias para o caso: St ipsa casaverit etc. 

2) Mon. Lus. XVII, c. 3. — Inquisitiones ^ passim. 

3) Isso consta da pragmática de 1340, decretada por D. Affonso IV. 
Vid. Gama Barros, I, 516 e cf. Randglosse XIV. 

4) Theoria I, 57; Qtiestões 87; Curso 101; Canc. Vai. Rest. LIII, 
LVII e LXXXII. Se bem que a guarvaya nada tem com o kyvarus das 
Leges Wallicas (o múnus nuptiarum dos bretões, o qual, de resto, era 
pago em dinheiro, por parte das filhas dos poetas menores, ao chefe dos 
menestréis), ha nas explicações de Th. Braga, etymologicamente inaceitáveis, 
uma lembrança aproveitável, sobre a qual construi a minha hypothese. 



— 321 — 

antes de 1200 — talvez em 1198 — seria a mais antiga das 
que me aventuro a datar. ^) 

Mas mesmo na negativa, temos o direito de enfileirar a Pay 
Soares juntamente com os dois trovadores precedentes, não só entre 
os pre-alfonsinos, mas mesmo na geração mais antiga que floresceu 
em dias de Sancho I. ^) 

IV. Martin Soares. 

§ 215. São padrão do seu saber e da sua apreciável arte, 
além das cantigas 143 e 144, interpoladas nos cadernos dos senhores 
de Taveiroos (CB 115 e 116 = CA 395 e 396),^) as numeradas no 
índice de 151 a 174 e 1357 — 1370. O segundo grupo, que 
abranje rudes cantigas de escarnho e 7?ialdizer, de desmandado cy- 
nismo, acha-se impresso no CV de 965—978. Ao primeiro grupo, 
que encerra cantares graciosos e variados de amor, de mistura com 
alguns sirventeses e joguetes, palacianamente comedidos de expressão, 
correspondem quasi integralmente os Nos 40—61 do nosso Can- 
cioneiro. Carecendo, esta vez, de apenas uma poesia, a que demos 
logar no Appendice IV (398), o códice membranaceo attribiie as 
ultimas duas a um trovador diverso, sem nome, como todos os que 



1) Quando em 1892 esbocei a evolução da arte trovadoresca, o documento 
em que baseio hoje as minhas conjecturas, era -me desconhecido. Suppus 
então os filhos de D. Maria Paes nascidos nos últimos seis annos da vida de 
Sancho I (1206 — 1211) e estabeleci como data mais tardia da cantiga N» 38 
o anno 1206. — Qrundriss Ilb, p. 177 n. 1. 

2) Por descuido na composição omittiu-se, no meio da Nota 7 da 
pag. 318, o passo seguinte: O facto que as propriedades que o monarca lhe 
dera, eram muito mais numerosas resulta das Inquirições de Affonso III. 
Vid. p. 476 (Lavra, julgado da Maia): Et alia F« easatia et tercia fuerunt 
Dompne Marie Pelagii: et dixit qtiod audivit dici quod Dominus rex 
avus istius Regis dedit illa sua casalia Dompne Marie Pelagii sed nescit 
utrum sit verum nec ne; tamen dixit quod semper ea tenuit Dompna 
Maria Pelagii dum vixit. Cf. 480 (Avellaneda) et dixit quod fuerunt 
inde XZ7ct>» casalia Domne Marie Pelagii et de istis Xlloi^ casalia dedit 
inde Dominus Rex Sancius Dompne Marie Pelagii ij inorahitinos etc. ; 
e ainda p. 481, 482, 485. 

3) O Summario que serve de titulo ao nosso Appendice III (Vol.I, p. 743) 
não é claro nem exacto. Em lugar de attribuir a Pêro Yelho as cantigas 
392 — 397, devia ter posto: 

392 — 395 de Pêro Velho de Taveiroos; 

396 de Paay Soares e Martim Soares; 

397 de Paay Soares. 

21 



— 322 — 

lhe são privativos. (Veja- se a Biogr. immediata.) — Não existe 
d' elle cantar algum de amigo. 

O nome Martim Soares era trivial no Portugal antigo, tanto 
como o é no moderno. Na falta de distinctivos, a identificação tornava - 
se por isso muito arriscada. Falhou a que fazia de Martim Soares 
um irmão dos dois Velhos de Taveiroos, seus collegas; falhou outra 
que procurava nelle um prócere que vemos confirmar o Regimento 
de D. Affonso III, conjunctamente com D. Estevam Annes e D. João 
de Aboim ;i) e ainda a que o considerava como senhor de Baguim, 
parente dos Mogudos de Sandim e pae de Martim Alvelo.^) 

Pelas preciosas indicações do coUector primitivo das poesias 
gallaico - portuguesas sabiamos dois factos importantes: 1°. Martim 
Soares era oriundo de Riba de Lima e 2°. acreditado entre os outros 
trovadores como o melhor artista do seu tempo. ^) Dos seus versos 
respigamos mais alguns elementos. Na pátria vemo-lo ao lado não só 
dos Velhos de Taveiroos,*) mas ainda em relações, quer fossem de 
amizade, quer hostis, com o infanção minhoto EuyGromes de Bri- 
teiros^)e com orico-homemD. JoãoSoares Coelho,^) duas notabili- 
dades do tempo do Bolonhês. EmCastella fraternizou com segreis velhos 
da corte de El -Rei Sábio, como Affons'Eannes doCotom.'') Conhe- 
ceu provavelmente a Rodrigu' Eannes Redondo,^) Pedr'Amigo e 
Vasco Peres,'*) por occasião da tomada de Jaen,i*') e ainda a Pêro da 
Ponte. Em desafio com este engenhoso trovador i^) aguçou chacota 
alegre contra o cavalleiro- trovador Sueir' Eannes. Não contente de 
tratar de fingida uma sua viagem á Palestina, ^^^ deprecia (salvo erro) 



1) P.M.H.: Leges I, p. 189. 

2) Zeitschrift XX, p. 56. 

3) CÁ396 = CB116: Este Martin Soares foy de Riba de Limia 
en Portugal e trobou melhor ca todolos que trobaron e assi foi julgado 
antr' os outros trobadores. 

4) CA 396. 

5) CA 398, CB 1543 e 1544. 

6) CV 1012 e 1013. 

7) CV 966 e 967. 

8) CV 1148. 

9) CB 1509. 

10) Ha referencias a Jaen ainda na cantiga CB 1552 (de certo Nunes) ; 
em CV 429 (de Paay Oomes Charinho) ; e CB 1509 de Pedr' Amigo de 
Sevilha. 

11) CV 1170, 1179, 1184. 

12) CA 395. 



— 323 — 

as suas canções, gratíssimas aos ouvidos da arraia miúda ^j a ponto 
de provocar as envejas e sátiras malévolas dos mais distinctos 
officiaes do seu officio. E realmente uma lastima que se perdessem 
estas obras vulgares, de que Martim Soares dizia: 

Ben quisto sodes dos alfayates, 

dos peliteiros e dos mo [e] dores; 

de vosso bando son os trompeyros 

e os jograres dos atambores 

porqtie lhes cabe nas trotnpas vosso son; 

para atambaes (ou: atambores) aY dixen que non 

acham no mund' outros soes melhores! 

Tomou parte, penso que em Portugal, num torneio de maledicência, 
instaurado contra certo João Fernandes, um pobre mouro mal- 
talhado que mostrou velleidades de tomar a cruz, na época calamitosa 
quando a soldadesca infrene do emperador Frederico ameaçava Roma 
e os Tártaros invadiam a Europa. 2) A esta sátira pode -se assignar 
afoitamente a data 1241 — 1244. 

§ 216. Outra ha que estou disposta a collocar no quarto ou 
terceiro decennio — entre 1227 e 1236 — , persuadida de ouvir, 
por entre as palavras sarcásticas mas comedidas do poeta aulico, 
roncos e rugidos surdos de cólera mal reprimida contra as violências 
e os innumeros desmandos, praticados por infanções e ricos -homens 
como o Senhor de Lumiares, em tempos de Sancho II, aquelle rei 

que tanto em setes descuidos se desmede 

que de outrem quem mandava era mandado. *) 

Acho a nossa cantiga 398 importante a ponto de merecer com- 
mentario um pouco desenvolvido, o qual vou distribuir em duas 



1) CT 965: Est' outro cantar fex de m,aldi%er a um cavalleiro que 
cuidava (ou: cuidavam?) que trobava muy ben e que faxia muy bons sons 
e non era assi. Como se vê, falta aqui o nome do vilipendiado. A com- 
paração com as cantigas 1170, 1179 e 1184, vibradas por Pêro da Ponte 
contra Sueir' Eannes, torna todavia aceitável a minha hypothese. 

2) CV 975 e 978. Cf. €V 1149, 1013; CB 15á3 e 1544. 

3) Ims. III, 91. — Cf. § 203. Os excessos e actos de prepotência do 
inglório peiiodo acham -se amplamente documentados nos Inquéritos dos 
reinos posteriores. — (Vid. Herculano II Nota XXIV.) — Cf. Biogr. 11, A 
opinião official sobre D. Sancho Capello acha- se registada no velho Chroni- 
con (P. M. H.: Script. p. 31) pelas palavras: começou de seer muy boo Eey 
e de justiça. Mais ouue maaos conselheiros e despois de alli em diante 
nom foy justiçoso . . . E cassousse com Micia Lopes. E des alli foi 
pêra mal. 

21* 



— 324 — 

partes. Trato aqui dos pontos histórico -genealógicos, visto que já 
tratei os que tocam a costumes medievaes nas Notas do Vol. I. ^) 

§ 217. A epigraphe com que devemos caracterizá-la é Netas 
de Conde, ou então O roíoço de D. Elvira, porque o assumpto 
principal é ministrado pelo rapto impune de uma d' essas, havendo 
allusões a certas aventuras escandalosas de outras netas da mesma 
estirpe, designadas transparentemente por meio de aquelle cir- 
cumloquio. 

Ninguém em Portugal ignorava no sec. XIII quem eram essas 
Netas de Conde: as de Sousa ou Sousela. Para dar ideia aos do 
sec. XX do logar preeminente, ou único, que a familia occupava, 
bastará dizer que já havia Sousas quando ainda não existiam reis 
de Portugal. Entre as três dezenas de magnates, cujos nomes o 
ignoto auctor do mais archaico cadastro da nobreza peninsular trans- 
mittiu aos pósteros, como sendo padrões de onde descendem os filhos 
dalgo de Portugal, o posto de honra é concedido a D. Egas Gomes 
de Sousa, 2) o primeiro que no reinado glorioso deAIfonso VI começou 
a usar do apellido, por ser senhor de terrenos percorridos por aquelle 
afíluente do Doiro que hoje abastece de bellissima agua a invicta 
cidade. ^) 

No appenso ao Livro Velho retrocede -se muito mais: até ao 
quarto avô d' aquelle rico -homem, o semi-mythico Uffo ou Avufo 
Belfager,^) pae de Santa Senhorinha, para nelle entroncar nada 
menos que a quinta parte dos bons e ricos homens que devem 
„ armar e criar" os fidalgos, e que „ andaram á guerra a filhar o 
reino de Portugal."^) 

O Livro do Conde, tanto o fragmentário que anda junto ao 
Cancioneiro, como o treslado completo da Torre do Tombo, dá mais 



1) Em redacção diversa já patenteei os meus raateiiaes ao publico 
allernSo. — Vid. Randglosse XVII. 

2) P. M. H. : Script. 143. — A genealogia dos Sousas occupa no Ltvro 
Velho dez paginas infolio (153). 

3) Não deu, todavia, nome ao celebre mosteiro de Paço de Sousa, 
que encerra o tumulo de Egas Moniz. Como fundador d' aquelle convento, 
os nobiliaristas designam a certo D. Troctosendo Guedes. — P. M. H. : 
Script. 333 e 335. 

4) Este Uffo seria um Normando, vindo em oração a Santiago? talvez 
ti Wulf Harfager? 

5) Yid. P. M. H. : Script. 175 , onde se imprimiu Belfages, 



— 325 — 

um passo nas trevas do sec. IX, mencionando a D. Soeiro Belfager 
como pae de D. Ufo, a quem chama Ufo Soares Belfager. i) 

Abstrahindo da poética lenda de Santa Senhorinha de Basto, 2) 
e também dos contos de vendetta nacional, relativos ás cinco gerações 
mais antigas, darei a lista genealógica, passando de pae a filhos 
do primeiro Sousa em deante, e illustrando-a com algumas noticias 
históricas. 3) Senhores a principio das terras só de Panoias, entre 
a serra do Marão e o rio Tua, desde o Doiro até Murça, as suas 
herdades foram avolumando -se constantemente até 1286, como 
consta do inquérito então aberto por D. Denis.^) 

§ 218. 1". D. Egas Gomes de Sousa (fl. 1110), casado com 
D. Gon tinha Gonçalves da Maia, filha, segundo a fama, do celebre 
Lidador. Morreu em 1170, com noventa e tantos annos. ^) 

2°. D. Mem Veegas (fl. 1140), casado com Teresa Fernandes, 
filha de um mouro cristianizado por D. Alfonso YI. 

3°. D. Gonçalo Mendes de Sousa I (fl. 1170), companheiro 
de armas do primeiro rei de Portugal. Casou três vezes. Os nomes 
indicados variam. Uma das esposas, Dordéa Vêegas, filha de Egas 
Moniz, não teve prole. Não foi feliz com Sancha AfFonso das Astúrias,^) 
por esta agradar demasiadamente a D. Affonso Henriques. Só a infanta 
Urraca Sanches,'^) filha de uma irman do monarca, lhe deu successores. 
Penso ser elle o que foi sepultado no claustro do mosteiro de Alcobaça, 
onde na parede fronteira á casa do capitulo se lê na parte inferior de 
uma pedra em que está esculpido um homem a cavallo: Hic requiesdt 
Dnus Gondisaluus Menendi de Souza eujus anima requiescat inpace.^) 

1) P. M. H. : Script. 190 e 288. 

2) O original em latim acha -se na collecção académica {Script. 46 — 53); 
uma reducção portuguesa, em estylo primoroso, na obra de Braamcamp 
em que pertence aos Sousas o Capitulo IX , p. 105 — 109. 

3) Servirá para preenchimento da lacuna deixada pelo auctor citado, 
visto que omittiu exactamente as gerações do sec. XIII, saltando de Egas 
Gomes ao Conde D. Gonçalo Garcia. 

4) Vid. Braamcamp, 139, onde se lê a resenha dos principaes logares, 
deixados em 1286 pelo Conde. Entre elles encontra -se parte dos bens 
doados por Sancho I á Ribeirinha, assim como o sumptuoso paço de Lalim 
que passou ás mãos do Conde de Barcellos. 

5) Script. U4., 176, 190, 288. 

6) Ou Sancha Álvaro ou Alvares. Parece que a abreviatura J." foi 
resolvida de duas maneiras. 

7) Ou Teresa Sanches. 

8) Omitto o irmão de D. Gonçalo (D. Soeiro Mendes) e suas quatro 
irmans, para abreviar. 



— 326 — 

4°. D. Mendo — mais exactamente D. Mem, Gonçalves I — 
por antonomásia o Conde, o bom Conde, ou o Sousão — valido 
de Sancho I, era considerado como o mais notável rico- homem do 
seu tempo. Tomou parte em todas as empresas bellicas e pacíficas 
do rei até á tomada de Silves, a 3 de Set. de 1189.^) Surprehende 
não haver noticia da sua morte, nem da sua sepultura. Deixou 
larga descendência da sua mulher D. Maria Eodrigues, filha do Conde 
castelhano D. Rodrigo, o Velloso. 

5°. D. Gonçalo Mendes de Sousa II, companheiro de armas 
del-rei na tomada de Elvas, Serpa e Ayamonte, mordomo-mórde 1189 
em deante, e executor principal do seu testamento. Por isso mesmo 
foi, logo no começo do governo de Affonso II, substituído naquelle 
cargo, tendo de resistir ás tropas régias, commandadas por Martim 
Annes de Riba de Vizella, perto de Montemor (1211), nas lutas 
civis sobre a herança do fallecido.^) Em seguida sahiu da pátria, 
vivendo na corte do Leonês, que apesar de divorciado por imposição 
do papa de D. Teresa de Portugal, senhora de Montemor, continuava 
a dedicar -lhe sincero amor. Em 1218 ou 1219, tendo -se chegado 
a uma concordata sobre o testamento, regressou. Em 1223 figura como 
chanceler de Sancho 11,^) e como governador de Lamego e Viseu 
em 1235 e 1236.'^) Fallecido em 1243, jaz em Alcobaça, onde seu 
epitaphio diz laconicamente : Era 1281 ohijt Dnús Gondisaluus. 
P. N. pro anima. Casado com Teresa Soares, deixou um único 
varão que morreu sem descendentes, e varias filhas, que são as 
primeiras Netas de Conde, que se nos deparam. 

6*. D. Mendo Gonçalves II, vivo em 1224, '^j casado com 
uma filha de Affonso Telles, o de Albuquerque, da qual nasceu 
uma D. Maria Mendes, casada em Leon com um dos bastardos de 
Alfonso IX. 

6^ D. Mór Gonçalves, consorciada cora D. Affonso Lopes 
de Baião, ^) rico-homem trovador, que também tomou, como de- 
pois veremos, para ponto de partida de uma sua obra de escarnho, 
os mesmos acontecimentos que emocionaram a Martim Soares. 



1) Mon.Lus. Xll, c. 7. — Herc.IT, p. 30, 439, 451. 

2) Vid. § 203 (p. 299 nota 2). — Script 201 e 152. — Herc. II, 
456, 461, 474. — Mon. Lus. XIV. c. 5. 

3) Herc. II, 475, 5. 

4) Ib. 476,12 e 495, 4. 

5) Mon. Tais. XIV, c. 5. — Herc. II, p. 466 e 476. 

6) Bioyr. XX.ll e Biogr. V. 



— 327 



6°, D. Mana Gronçalves, 1 . , . . 

. ^ ^ , ^ , í monjas ambas no anstocratico 

6 . D. Sancha (ronçalvesj 

mosteiro de Arouca. 

O senhorio da casa passou aos descendentes do filho segundo 
do bom Conde, por elle ter fallecido antes do irmão primogénito. 

5". D. Garcia Mendes, d' Eixo, ou d' Eixo, i) figura na corte, 
de 1218 até morrer em 1239. Jaz, com a esposa, D. Elvira 
Gonçalves, filha de Gonçalo Paes de Toronho, no claustro de Alco- 
baça 2) Os dois letreiros dizem: Era MGCLXXVII teriio Kal. Martij 
obijt Donnus Garcias Menendi felicis recordationis. Comitis Donni 
Menendi filius et pater Comitis Donni Gundisalui. Anima eius 
requiescat in pace. E o outro: Era MGCLXXXIII, XVII Kal. 
lanuarij obijt Domina Eluira Gunsalui uxor Domini Gardce Menendi. 
Requiescat in pace. Este Sousão é o primeiro trovador da familia. 
Nos Cancioneiros, ou infelizmente só no CB, conservou -se uma 
única cantiga sua, importantíssima não só porque o mostra longe 
da pátria, com saudades da terra natal: 

e ora me volho tornar, 
a Sousa a lo mon togar, 
que me adota e me dona,^) 

mas também por ser composta em lemosiuo (catalanesco). E ver- 
dade que tão viciada está que a tentativa de a restaurar completa- 
mente, talvez seja desesperada. A rubrica que parece dicer Esta 
cantiga foi feita a Roy de Spanha em Monfalcó (?) seu condado (?) 
dá margem a varias considerações. O hypothetico Monfalcó será 
Monfalcó de Agramunt, que não fica muito longe de Pavía^)? 
Este Eoy será o trovador provençal Rodrigo?^) Relacionou- se 
D. Garcia antes de 1218 com o velho trovador João Soares de 
Paiva? Conheceu o Senhor dos Cameiros? o de Haro? e os pro- 
vençaes e catalães da corte de En Peire II e do moço D. Jaime? 
São problemas que não sei resolver. 



1) Ao pé de Aveiro. Ambas as formas {Eioco e Eixoó) occorrem em 
documentos. 

2) P. M. H.: Leges õ82, 584, 593, 594. — Mon. Ijus. XIV, c. 5 e 29. 
Hist. Oen.: Provas I, 159 e 162. — Herc. H, 474 le 2; 475(9). 

3) CB 454 (= 346). 

4) Prov. de Lerida. Os outros dois estão situados nas províncias de 
Barcelona e Huesca. 

5) Bartsch, Orundriss 424. 



— 328 — 

Antes de fallar de seus sete filhos (6* — 6^), entre os quaes 
ha dois poetas, registemos os nomes dos irmãos: 

5°. D. Vasco Mendes, senhor de Corva^) e governador de 
Bragança de 1223 a 1236, 2) depois da repatriação dos irmãos mais 
velhos. Morreu sem casar, parece que em 1242. D. Frei Francisco 
de S. Luís encontrou na galilé do convento de Pombeiro (padroado da 
casa de Sousa) uma lapide que dizia : VI ns. martii oh. Don. Velasc. 
Menendi filius comitis menendi E. MGGXXX.^) Ao copiar escapou, 
de seguro, o L. da data, devendo ler -se MCCLXXX, porque a 
existência d' este filho do Conde ainda em 1236, como governador 
de Bragança, está provada por documentos.'*) Muitos outros da familia 
jazem no mesmo mosteiro. 

o**. D. Eodrigo Mendes, senhor de Cidadelha,^) o único 
da familia que parece ter tomado o partido de Affonso II contra 
seus irmãos,^) floresceu na corte d' este e na do successor, eclipsando - 
se todavia mais cedo que os outros. '') Herculano imagina por isso, 
morresse antes de 1230, o que deve ser falso, em vista do epi- 
taphio alcobacense que colloca o seu fim em 1262, dizendo: Era 
MCCC in mense 8^** obiii Eodericus Menendi cujus anima requiescat 
in pace. 

b". D. Henrique Mendes, de cuja existência os linhagistas 
não nos informam, também figura em 1223 e 1224, desapparecendo 
em seguida.^) 

5*^ D. Guiomar Mendes casou com D. João Peres da Maia. 
Os dois procrearam três filhas, as Netas de Conde: 

6*. Mari' Annes, que se consorciou com D. Gil Martins, o 
fiel partidário de Sancho Capello, filho d'aquelle Martim Annes, 
já nosso conhecido, que morreu nos paues de Montemor, rico -homem 
de poder quasi igual ao dos Sousas, e cujo espirito emprehendedor 
é caracterizado de modo desusado, pela communicação que quis 
quebrar o penhasco na foz do Rio Ave, certamente para facilitar a 



1) Herc. II, 475. 

2) Ib. 474, 3-, 475, 5 e 9; 476 12. — Mon. Lus. XIV, c. 5. — Htst. Qen. 
XII, p. 237— 239. 

3) Braamcamp 419. — Herc. II, 495,4 e 497. — Cf. 502, 19. 

4) Herc. II, 495, 5; 497. — Cf. 502 No 19. 

5) Id.II, 475. 

6) Id. II, 288. 

7) Id. II, 474 e 476 (1223). 

8) Id.II, 474,3 6 475, 7 e 9. 



— 329 — 

entrada de navios em Yilla do Conde. D' este casal nasceu uma 
Teresa Gil (7") que permaneceu em Castella depois de 1248, onde 
entrou nos paços régios, creio que perto de 1260 tornando -se ahi 
favorita do filho segundo de Alfonso X, Sancho o Bravo. 

6*^ Elvira Annes, a principal heroína da nossa cantiga, se- 
gundo as indicações explicitas da rubrica, que reza assim: Esta 
cantiga de cima fez Martim Soarez a Boy Gomez de Briteyros que 
era Ifaçon — [e depois fex lo el i2et] ricotnen — porque roussou 
Dona Elvira Annes, filha de Don Joan Perez da Maya e de dona 
Guyamar Meendiz, filha dei Conde Meendo.^) O que ahi se assenta, 
concorda em absoluto com as noticias dos nobiliaristas. 2) A neta 
do Conde e bisneta do Lidador deixou -se raptar pelo simples in- 
fanção, um JunJcer qualquer. E longe de perseguir com ódio o 
insolente e brutal seductor, instigando a sua linhagem a tirar 
vingança sangrenta — dando -o por homiziado ou desafiando -o, 
seguindo o exemplo da Ribeirinha, ou o dos Limas, contra os quaes 
D. Lopo Rodrigues d' Ulhó teve de defender a sua presa (D. Teresa 
Fernandes Batisella) com trezentos cavalleiros 3) — D. Elvira deu -lhe 
a mão de esposa legitima em núpcias solemnes. 

6^ Teresa Annes, mulher de Fernand' Eannes de Lima. 

Além de D. Guiomar, houve mais duas filhas legitimas do 
Conde. 

5^. Urraca Mendes, casada em Hespanha, com Nuno Perez 
de Guzmão, o Bom, o que batalhou nas Navas de Tolosa. 

5\ Mor Mendes que falleceu em 1208, casada com certo 
D. Pedro, segundo refere a inscripção tumular em Alcobaça. 

Passemos agora aos herdeiros da casa, filhos de D. Garcia 
Mendes, 

6\ O Conde D. Gonçalo Garcia, 'i) desde 1243 chefe da 
família, governador das terras de Neiva e de Barroso, alferes -raór 



1) O que vae entre colchetes é restituição minha. Os travessões 
que accrescentei, esclarecem sobre o meu modo de entender estes dictos. 
Seria supeiiluo explicar porque é que ligo a proposição subordinada causal á 
proposição principal : Esta cantiga fez M. S. 

2) Script. 195, 291, 349. (Cf. 150, 156, 158, 184, 287). Ahi se diz 
em termos quasi idênticos: „Esta Elvira Annes rroussou-a Ruy Qomex de 
Briteiros que era infançom; e depois casou com ella. E depois fez elrey 
dom Affonso este dom Ruy Qomez rricomem, e deulhe vendam e caldeira." 

3) Script. 173. 

4) Mon. Lus. XV, c. 9 e 36. 



— 330 — 

de Affonso III, de 1254 a 1277, e seu genro desde que em 1273 
esposou D. Leonor Affonso, bastarda régia já então viuva de outro 
Sousão, seu sobrinho (7^ Estévam Annes). ^) Morreu em 1286 sem 
successão, acabando com elle a antiga varonia da casa de Sousa. 
É o segundo da estirpe que ouvimos poetar, ainda antes de 1245. 
Na única amostra do seu talento que se conservou, uma cantiga 
humorística como a de Pay Soares de Taveirós, escarnece da 
má -ventura de outro guarda -gyneceos, recommendado - lhe mais 
cautela e esperteza, pois lhe furtaram (d' esta vez dos paços de 
D. Rodrigo Sanches) uma formosa donzella, muito filha d' algo. 
Cautela e muita vigilância, visto que a elle, D. Gonçalo Garcia, 
appetecia de veras, levar raptada certa bella da sua paixão. 2) Mais uma 
vez recordo a quem lêr estas paginas que D. Rodrigo Sanches suc- 
cumbiu em 1245 ás feridas que recebera na lide do Porto, e accres- 
cento que o valente e alegre filho de Sancho I e da Ribeirinha é 
aprazivelmente cai-acterizado no seu epitaphio como alter Rotlandus, 
actu verboque facetus , numquam moestus, sed in omni tempore 
laetus. Pena é que o medonho accrescento, ingénua e sincei-amente 
encomiástico, vitans incestus, evoque incontinenti a lembrança de 
tantos crimes hediondos, commettidos exactamente nos decennios em 
que floresceu. 

6'. D. Mem Garcia de Sousa, a quem já me referi na Bio- 
graphia III, contando que esposara Teresa Annes, filha da Ribeirinha 
e de seu ultimo consorte, prima direita por tanto da Codorniz, cuja 
leviandade inspirou o Conde, governou Trás -os -Montes em 1235 e 
1236.^) Da sua prole nomearei apenas a herdeira e os que na 
mente de Martim Soares pertenciam (salvo eiTo) ao grupo de de- 
generados que importava marear e expor no pelourinho da igno- 
minia. 



1) Hist. Oen., Provas I, 11 e IV, 735. • 

2) CB 456 (= 347) „ Esta cantiga de cima fex o conde don Oonçalo 
Oareia en cas don Rodrigo Sanches por ua donxela que levaron a furto^ 
que avia nome Codornix et o porteiro avia nome Fiix." — Vid. P.M.H.: 
Script. 174, dizeres que completam o quadro, embora divirjam quanto ao 
estado da raptada, pois affirmam o seguinte: E esta D. Maria Codornix 
(sobrinha de D. Maria Paes Eibeira e D. João Fernandes Batisella) rouçou-a 
João Bexerra de casa de D. Rodrigo Oomes (sic. cf. Biogr. III, p. 314, nota 3) 
e fege nella Oonçalo Oomes o gordo; e fora ante ella casada com Martim 
Martins Marinho e fege nella D. Pêro. Martins Marinho. Segundo estes 
dizeres, estava casada, ou era viuva. — Cf. Randglosse XVI. 

3) Herc.II, 388, 479, 480, 495(4), 496(5), 497. 



— 331 — 

7^ D.Gonçalo Mendes de Sousa III, de inglória recordação, 
attentou contra a honra da própria irman, tendo de expiar o seu 
crime no Ultramar, onde morreu esquecido.^) 

T. D. Maria Mendes, sua victima, que não participou ou dos 
bens da casa, julgo que por causa d'aquelle crime, comquanto tivesse 
encontrado, posteriormente, marido nobre. Da sua união com 
Lourenço Soares de Valladares nasceu 2): 

8*. D. Inês Lourenço, que se matrimoniou com um filho 
do Bolonhês e de uma moura, chamado Martim Affonso Chichorro. 
Os dois são progenitores de outro Martim Affonso Chichorro (9"), o 
qual raptou uma abadessa de Arouca, da linhagem do raptador de 
D. Elvira — D. Aldonça Annes, filha de D. João Rodrigues de Bri- 
teiros. Tiveram mais uma filha, Maria Chichorro, que foi preten- 
dida por outro varão da familia de Briteiros, e nos occupará no 
capitulo seguinte (§ 224). 

T**. D. Constança Mendes herdou, após um litigio que durou 
até 1288, grande parte dos haveres do Conde D. Gonçalo e de 
Mem Garcia. 3) Era seu esposo (desde 1265, o mais tardar) o 
rico -homem D. Pedro Annes de Portel, filho do magnate e trovador 
D. João de Aboim, o maior privado do Bolonhês.*) Morreu em 
1298. Da sua descendência só uma filha vingou: D. Maria Pires 
Ribeira^) (9**), de cujo enlace com um meio -irmão dei rei D. Denis 
sahiu novo ramo de Sousas, o qual perdura. D. Branca, sua 
irman (9"), casada com um dos filhos bastardos do monarca trovador, 
i. é o Conde de Barcellos, morreu antes de 1304.^) 

Resta- me enumerar os outros filhos de D. Garcia Mendes d' Eixo: 

6J. D. Fernam Garcia Esgaravunha, illustre trovador e 
esposo de D. Urraca Abril , a que já alludi na Biographia III e terei 
de tornar a referir- me mais tarde, porque entrou com importante 
pecúlio no nosso Cancioneiro. '') 



1) P.M.H.: Script. 155, onde se falia de certo Fernam Lopes que 
morreu alem -mar com Gonçalo Mendes. 

2) Vid. na Biogr. II o quadro genealógico dos Valladares. 

3) Mon.Lus. XVII, c. 47. — Hist. Gen. I, 159. — Braamcamp Freire 
110, 113, 139. 

4) Biogr. XIY. 

5) ilíon. Lms. XVII, 0.47 chama -a Maria Paes Ribeira, como se para 
seu appellido tivesse adoptado o nome inteiro da sua famigerada bisavó. Ha 
nisso engano manifesto, que passou para vários estudos modernos. 

6) Cf. Cap. V. 

7) Biogr. XI. 



— 332 — 

6"^. D. Pedro Garcia, do qual sei apenas que era Senhor de 
Albouja. 

6'. D. João Garcia, senhor d'Alegrete, de alcunha o Pinto, 
casado com Urraca Fernandes, filha de Fernam Pires Pelegrim, teve 
entre outros filhos a: 

7'. Estevam Annes, o qual casou em 1271 com D. Leonor 
Affonso, bastarda de AíTonso III, deixando -a viuva ao cabo de dois 
annos. 

6". D. Maria Garces ou Garcia, outra Neta de Conde, é, 
segundo creio, a segunda heroina da cantiga de Martim Soares. 
Pelo menos podia sê -lo, uma vez que não desdenhou ligar -se ao 
clérigo mais honrado de seu tempo, aquelle D. Gil Sanches, irmão 
de D. Rodrigo, que já mencionei e tornarei a apresentar ao leitor 
na sua tríplice qualidade de prelado, filho de rei e trovador. A 
sua morte em 1236 cortou esta alliança, que devia ser considerada 
pelos contemporâneos como criminosa, por causa do intimo paren- 
tesco entre D. Gil — filho da Ribeirinha, e D. Maria, sua neta. 
De aventuras suas, ulteriores, nada sei. E provável que se recolhesse 
em um convento. 

§ 219. Isto bastará para comprehensão da cantiga, quer Martim 
Soares visasse unicamente D. Elvira Annes da Maia, a raptada (6*^), 
ou juntamente com ella a D. Maria Garces (6"), a harragana do 
bastardo clérigo; ou ainda D. Maria Mendes (7**) e Teresa Gil (7*), 
que em rigor são bisnetas do Conde. ^) Se o poeta se mostra in- 
dignado da aventura de D. Elvira, não é porque o rapto violento 
fosse então um meio novo e desusado de obter a mulher desejada. 
Até aqui já me vi obrigada a evocar a memoria de varias d' essas 
Sabinas portuguesas, cujo cortejo inteiro seria extremamente longo.'^) 
Instigados pela sua ardente paixão (de que morriam os melancholi- 
cos como Pêro Rodrigues da Palmeira) , os coléricos e rudes guerreiros 
transposeram muito a miúdo as fracas barreiras que porteiros assa- 
lariados, postados nas almenaras dos castellos solarengos, ou nas 
grades dos conventos, lhes oppunham, apesar das graves penas com 



1) Das donzellas internadas em Arouca, nada sei. Devo comtudo 
notar que nos Nobiliários se registam bastantes desacatos commettidos contra 
monjas e abadessas d' aquelle privilegiado retiro, que não cedia em nada á 
fama desgraçada do convento de Lorvão e muito depois á do mosteiro d'Odivellas. 

2) Quem quiser abra os Livros de Linhagem a p. 152 ou a Hist. da 
Administração de Gama Barros vol. I, p. 417. 



— 333 — 

que as leis ameaçavam o rouçador. O que indignava o trovador 
era a conni vencia da rica -dona; a brandura dos Sousas, que deixavam 
manchar a sua honra secular e torcer o seu orgulho; a audácia e 
astúcia do tenacissimo fidalgote Ruy Gomes de Briteiros — simples 
miles, e talvez vassallo dos Sousas; e a pouca escrupulosidade do 
reinante, que elevou a linhagem do rouçador ás mais altas honrarias. 

Ao fallar de Ruy Gomes apresentarei as provas das relações 
de dependência dos Briteiros para com os Sousas, contando que um 
irmão de Ruy foi armado cavalleiro por Gonçalo Mendes II. Então 
veremos também que o rapto se realizou em 1227, segundo os 
meus cálculos, mas que as honrarias, dispensadas ao raptador 
três ou quatro lustros depois (creio que entre 1248 e 1252 pelo 
Bolonhês, quando o filho d'aquella união já figurava na corte) 
eram a paga de serviços politicos, prestados de 1245 a 1248, e 
não o premio da sua violência juvenil. Por isso mesmo torna -se 
aceitável a supposição que os Sousas e os Maias ^ scientes das 
qualidades do infanção e das suas esperanças num futuro brilhante, 
que o favor do Bolonhês prognosticava, se curvaram deante do facto 
consummado , cohonestando - o. 

São estas considerações que me dispõem a collocar a cantiga, 
conjecturalmente, no anno 1227. Mas como nella se falia de viuvas, 
casadas e donzellas, lembro -me do caso de D. Gil Sanches e ponho 
1227 ou 1286. Comprehenderia, porém, que outrem preferisse 
datá-la de 1248, visto que na rubrica explicativa ha allusão ao 
engrandecimento do infanção, i) e também por não sabermos se essas 
notas em prosa foram redigidas na data da composição pelo próprio 
auctor, ou no acto da coUeccionação do cancioneiro pre-alf ensino e 
alfonsino , i. é no fim do reinado do Bolonhês ou principies do governo 
de D. Denis. 

§ 220. No quinto decennio encontramos a Martim Soares cm 
Hespanha. Ignoramos todavia, se a anarchia reinante, a inimizade 
dos Sousas, ou simplesmente o desejo de visitar as cortes vizinhas 
o levaram para lá. 



1) No contexto da cantiga ha referencia apenas á entrada do raptador 
na família do Conde, e aos benefícios que este passo lhe grangeava, mas 
não á sua subida na climax noblliarchica. Com respeito ao outro patriarca 
— Gueda, o Velho — nomeado por Martim Soares, vejam -se as Notas 
do Yol. I. 



— 334 — 

A cantiga que falia de Jaen deve ser dos annos immediatos 
a 124G. 1) Sendo de presumir que as que datei não sejam as pri- 
meiras composições de Martim Soares, podemos coUocar a sua prin- 
cipal actividade poética no reinado de D. Sancho II, posto que 
alcançasse o do successor. 2) 

§ 221. Ha pouco, descobriram -se no Archivo Nacional alguns 
documentos que lhe dizem respeito.^) Provam elles que Martim 
Soares era pae de aquelle João Martins Trobador, mencionado 
de passagem nos quatro Nobiliários por causa da sua alliança com 
uma dama „do sangue dos Godos." ^) Provam mais que esse filho 
era homem de maior idade em 1269, 5) e residia em Santarém, 
entre a vasta clientela do magnate D. João de Aboim, riquissimo 
mordomo de D. Affonso III, do qual nos occuparemos na Bio- 
graphia XIV, Antes de 1286 esse filho do poeta chegou a occupar 
o posto de alguazil,^) subindo muito mais tarde, perto de 1303, 
á categoria de cavalleiro (miles) — particularidade que nos autoriza 
a suppôr que o pae não era nobre. E provam ainda que a 
viuva d'elle, D. Maria Soares, depois de tornar a casar com certo 



1) CV 967. 

2) Ha muitas mais allusÕes pessoaes nas suas rimas p. ex. a uma sua 
Irma „molher de mau preço" (CV 977) e ao jogral Lopo Citola (CV 971 
e 974). Todas ellas são curiosas, mas nenhuma serve para o nosso fim. 

3) Vejam na Rev.Lus. V, 117 — 136 o artigo entitulado: O trovador 
Martim Soares e seu filho João Martinx, estudo consciencioso de Pedro 
A. d' Azevedo. Na parte geral, sobre a importância de Santarém, ha opi- 
niões que não me parecem seguras. 

4) P.M.H.: Seript. I, 170, 178, 207, 302. Julgo procedente a hy- 
pothese que João Martins recebeu o titulo honorifico Trobador por herança, 
graças ao talento superior do pae, sem o merecer por obras próprias. Nos 
Cancioneiros, pelo menos, não se encontra o seu nome. E nos cadastros da 
nobreza empregam -se, com relação a fidalgos que realmente poetaram, for- 
mulas diversas e muito mais explicitas: que foi bom, trobador (p. 166 com 
respeito a João Soares) — o qtie trobou bem (192 e 290: Esgaravunha) — 
que foy muy boo trobador e mui saboroso (272: Gaia) — e era muy bom 
trobador (349: Praga) — ou pelo menos o nome acompanhado do artigo 
definido o trobador (199: Valladares, 201 e 297: Paiva), em forma de appo- 
sito. Só no caso de João Martins o accresdento trobador segue ao nome 
directamente, sem artigo, como parte integrante; tanto nos Nobiliários, como 
nos documentos. Por junto uma dúzia de vezes. Numa passagem lemos 
todavia Johannes Martinj uieinus Sanctarenensis trobador, o que pode 
significar alcunha, mas também exercicio da profissão. 

õ) Neste anno assigna uma escriptura particular, relativa a D. João 
de Aboim. Segue outra de 1287. 

6) Rev. Lus. V., Doe. de 1288 e 1294. — Mon. Lus. XVI, c. 48 (1286). 



— 335 — 

João AfFonso, afazendado em Rio Maior, ainda vivia em 1303 como 
familiar do mosteiro de Alcobaça. ^) E pena que do mais antigo 
dos documentos não conste claramente se Martim Soares ainda então 
estava vivo. Aliás saberíamos se era certa a conjectura de Lollis^) e 
Lang^) que prolongam a sua carreira até 1270, na falsa crença de 
que todas as cantigas de Ultramar derivam da mallograda expedição 
levantina de D. Jaime de Aragão, a qual serviu de prologo á ultima 
cruzada (1269).^) Não o creio. Parece- me acertada outra hypothese 
do illustre professor de New-Haven, pela qual identifica com Martim 
Soares um homonymo que desempenhou funcções de jurado em 1220, 
nas mesmas terras de Riba de Lima onde nascera o trovador. S) 

Nas suas importantes investigações sobre concordâncias de 
pensamento e de dicção nas poesias trovadorescas provençaes e 
portuguesas , ^) o mesmo erudito demonstra que Martim Soares colheu 
ideias e modismos impressivos na vasta litteratura do sul da França. 
E tira a conclusão que o nosso auctor se encontrou muito provavel- 
mente nas cortes de Hespanha e Aragão com alguns dos mestres 
estrangeiros que as visitaram na primeira metade do sec. XIII, como 
TJc de Saint-Circ e Aimeric de Pegulhan, conhecendo ainda as 
obras de Peire Cardenal e Raimbaut d'Aurenga. '') E realmente. 



1) A formula ^,molher em outro tempo de Martim Soares Trobador 
— quondam mulier Martini Sueirii trobad,or — parece ser allusiva a 
tempos um tanto afastados. Concluir que Martim Soares viveu em San- 
tarém, unicamente por seu filho ter assistido ahi de continuo, não con- 
vence. Facto é que o trovador menciona duas vezes aquella cidade (na 
nossa cantiga 395); mas como igualmente falia de varias outras locali- 
dades portuguesas e castelhanas, não se pode tirar d' ahi illação alguma. 
Sobre João Martins confira- se na obra de Frei Brandão o Livro XVI, c. 48 
e 53 e XVII, c. 26. Um João Martins, que assigna documentos no tempo 
de Sancho II {Mon. Lusit. XIV, c. 19 e Escr. XIX) e ainda as Leis de 
Affonso III (ib. XV, c. 13 e 18 Escr. XXVII), era personagem diverso. Braga 
erra ao indicar 1228 e 1238 como annos em que o João Martins trovador 
apparece em alguns diplomas {Canc. Vat. Rest. XXIX, LVI e XLVIII) — erro 
que repeti no Grundriss 177 e 190. 

2) Stud. Fil. Bom. IV, 42. 

3) CD. p.XXXVL 

4) Vid. Randglosse V. 

5) P.M.E.: Inquis.l, 46, 48, 192, 193. 

6) Mod. Lang. Notes X, 214 — 216: The relations of the earliest port. 
lyrie sehool with the troubadours and trouvères. 

7) As these provençal poets flourished at the time when M. S. began 
his poetical career, we may not be so very wrong in supposing that he mel 
them at one of the peninsular courts where they sojourned. 



— 336 — 

as relações já apontadas com Affons' Eannes do Cotom e Pêro da 
Ponte tornam incontestável a sua sabida de Portugal, reinando ahi 
Sancho Capello e nos reinos vizinhos Fernando o Santo. Teria por- 
tanto occasião de ver e ouvir Ademar o Negro, Elias Cairel, Gui- 
raut de Bornelh, Guilhem Ademar e talvez Sordello, o Mantuano. 

V. Desconhecido I: talvez Ruy Gomes de Briteiros. 

§ 221*. O CB attribue as nossas cantigas 62 e 63 a Marti m 
Soares, auctor dos antecedentes e principalmente do sirventês sobre 
o caso da neta do bom Conde, D. Elvira Annes da Maia^) e seu 
raptador RuyGomes de Briteiros. 2) Os originaes de que se copiou 
o nosso códice continham todavia indicações em contrario, dando -as 
como de auctor diverso, cujo nome não consta, por estar incompleto. 
Não me admiraria comtudo se as coplas jocosas sobre o desamor 
de D. Elvira, nas quaes se falia da Maia e de localidades circum- 
vizinhas, fossem desabafos do próprio audacioso raptador, antes do 
acto de prepotência criminosa por elle commettido, quando o seu 
galanteio com a rica -dona ainda não havia surtido o efeito ambicionado. 

§ 222. Rodrigo ou Ruy Gomes era filho de Gomes Mendes e 
neto de Mem Pires, o primeiro Senhor de Briteiros. 3) O pequeno solar, 
hoje e já então S. Salvador de Briteiros,*) íica entre Guimarães e Braga, 
perto das famosas estações archeologicas exploradas por Francisco 
Martins Sarmento. O bisavô fora „ natural"'^) ou padroeiro de um 
convento de frades cruzios. Longos ou Longos -Yalles, situado a 
pequena distancia da raia gallega, no Rio Minho. O pae apparece 
na corte durante a menoridade de Sancho 11,^) enaltecido pelo seu 
casamento com uma filha de Gomes da Silva. 



1) CA 398. 

2) Teremos de concluir que os versos de Euy Gomes andavam an nexos 
ao cancioneirinho de Martim Soares, Pêro Velho e Pay Soares? E por 
ventura também juntos com os de Affons' Eannes do Coton? Vid. Biogr. III, 
as respectivas notas. 

^)P.M.H.: Script. I, 153, 195, 291 (Tit. XXI, 16); 184, 287 
(Tit. XXIII, 1). 

4) P. M. H. Inquisitiones ^ e Dipl. e Chartae passim. O documento 
mais antigo em que encontro citada a villa de Briteiros é de 1059 (Charta420; 
cf. 952). A villa tem hoje duas freguesias S. Salvador e S. Estevam. 

5) Na Hnguagem foreira da idade -media chamavam natural de um 
mosteiro ao seu fundador ou parente de fundador que gozava de certos 
direitos de hospedagem, jantares etc. 

6) Herc. II, 474 (A 1223). 



— 337 — 

Ruy Gomes, nascido no primeiro quartel do século (perto de 
1210, parece) figura em 1245 entre os mais ardentes partidários 
do Conde de Bolonha. Em fins de Abril d' este anno ainda assistia 
na pátria, conspirando no Porto com outros nobres e prelados ini- 
migos de Sancho Capello, contra seu valido D. Martim Gil e a 
Rainha D. Mecia Lopes de Haro. Em companhia do Bispo do Porto 
e o de Coimbra partiu em Maio para Leão de França a fim de 
presenciar o concilio convocado por Innocencio IV. i) Ávido de dar 
novos documentos da superioridade do poder ecclesiastico sobre o 
poder temporal, o Papa ia pronunciar a deposição do Emperador 
Frederico. Não era porém este successo estrondoso o que mais in- 
teressava o fidalgo português, mas antes a promulgação de mais 
uma bulia contra o Rei de Portugal, sanccionando-se a quebra de 
vassalagem de todos os seus súbditos, o que equivalia a um 
destronamento formal. 2) De Leão, Ruy Gomes seguiu para o 
Norte, juntando -se em Paris aos conjurados. Ahi redigiu, com eUes, 
os famosos pactos que Affonso III jurou guardar como Regente de 
Portugal, não sem amplas reservas mentaes. ^) Nos últimos dias 
do anno, ou nos primeiros de 1246, tornou ao reino, talvez por 
mar, na companhia do futuro soberano. Em seu nome e proveito 
percorreu as provincias, suscitando os descontentes e vendendo bens 
da coroa para juntar as grossas quantias que sabia serem indispensáveis 
para a guerra. 4) Na tenaz resistência, opposta ao usurpador, durante 
meses, por muitas povoações e fortalezas, prestou ainda serviços 

1) Herc. II, 388 — 410. — Mon.Lus. XIV, c. 25 e 32. 

2) E curioso ver a impressão produzida nos outros potentados da 
Europa pela deposição de Sancho. Conheço dois exemplos. O próprio Em- 
perador apoutou posteriormente para a sorte do monarca português como. 
exemplo assustador da arrogância do Papa, escrevendo a Fernando III de 
Castella: adfectionem vestrmn rogamus attente quatenus diligentnis adver- 
tentes , qualiter summus pontifex suis viribus qui nihil habere debet cum 
gladio non contentus in alienam messem falcem presumptuosus immittit 
et ut non longe a nobis petatiir exemplum qualiter in regno Portugalliae 
honoris sibí usurpaverit dignitatem curas vestras et ânimos exeitetis 
(Petr. de Vineis, Epist. L. I, c. lõ, apud Herc. II, 415). E Affonso X ex- 
clama em uma das suas cantigas, fallando da defecção de seus filhos e vassallos: 

Nunca assy foi vendudo 
Rey D. Sanch' en Portugal! (CM 235). 
8) Herc. II, 406; Mon.Lus. IV, Es&r.XXXY; ou Sousa, Hist. Oen.: 
Provas I, 51. D' ahi consta seu nome Rodericus Oomesii de Britteiros, a 
par de Petrus Honoriei e Stephanus loannes, mas como simples cavalleiro 
(miles). — Cf. Biogr. XIV. 
4) Herc. II, 407 e 408. 

22 



~ 338 — 

valiosissimos. Consegura p. ex. que o Castello de Lanhoso lhe 
fosse vendido. ^) 

Tanto zelo teve o premio merecido. O infanção foi investido 
com as insignias de rico -homem: pendão e caldeira.^) Pouco depois 
occupava o cargo mais importante do reino, o de mordomo -mór, 
tendo todavia de ceder o passo, ao cabo de curto tempo, a outros 
privados como D. Gril Martins e depois ao predilecto do monarca, 
D. João de Aboim. 

O rapto de D. Elvira deve ter sido anterior á revolução: o 
primogénito do fecundo enlace, D. Mendo Rodrigues, era homem 
feito não só em 1258,^) como até hoje se tem affirmado, mas já 
em 1252.'*) Sem medo de errar, podemos por tanto datar o rapto 
de 1227, pouco mais ou menos, isto é da anarchica menoridade do 
filho de Affonso II. °) 

Penso que Euy Gomes morreu cedo; ou então não soube desem- 
penhar funcções administrativas á vontade do monarca: não teve 
tenencia alguma, nem apparece . entre os confirmantes. Mas uma 
vez alliado aos Sousas pela força da sua vontade aparentou -se com 
as familias mais illustres do reino, não excluindo os ramos illegi- 
timos da Casa Real. ^) 

O estrondoso escândalo, provocado pela façanha de Ruy Gomes, 
recrudesceu, de certo, quando attingiu a dignidade de rico -homem, em 
virtude dos serviços prestados, mas — na opinião dos malévolos — 
por causa da sua criminosa prepotência. Não torno a ponderar se a 
cantiga de Martim Soares tem mais probabilidade de ser de 1227 



1) Herc. II, 410. — P.M.H.: Script. I, 349. 

2) Mon. Lus. XIV, c. 18. 

3) Mon. Lus. XV, c. 46. No tempo das Inquirições de D. Affonso III, 
i. é entre 16 de Maio e 23 de Outubro de 1258, Ruy Gomes tinha já 
filhos adultos. Em Calvilhe (julgado da Maia) onde era afazendado, pessoa 
interrogada disse: »quod medietas ipsius ville est Domni Egidii Martini, et 
Dompni Fernandi Johannis Gallecie et Dompne Taresie Martini et íiliorum et 
filiarum Dompni Roderici Gomecii de Briteyros« (p. 478). 

4) P.M.H.: Leges I, 620, Foral de Elvas. Uma sua irmã, freira 
do mosteiro de Arouca, também era de maior idade naquella data. 

5) Cf. Biogr. Ill, nota. 

6) No summario genealógico dos Sousas e no dos Briteiros, que segue, 
fica indicado quaes são estes enlaces. D. Joam Mendes de Briteiros , neto de 
Euy, casou com Urraca Affonso, filha do Bolonhês. Outro seu neto (chamado, 
Gonçaleannes) com Maria Affonso, que tinha por progenitor um filho de 
D. Denis. Posteriormente houve um enlace entre D. Violante Ponço e Ro- 
drigo Affonso, sobrinho do mesmo rei. 



— 339 — 

ou de 1248. Só remetto os curiosos para os versos de D. Affonso de 
Baião. ^) Este aristocrático amigo de folgar fez assumpto de uma 
sátira, ou antes de duas, a investidura de Ruy Gomes, e a maneira 
como o parvenu se desempenhou de um dos principaes cargos inhe- 
rentes á nova categoria. Refiro -me á esparsa de escarnho CV1082 
e á curiosa gesta de maldizer , em que moteja da primeira revista 
militar, passada em presença dei rei pelo filho da raptada. Dom 
Mendo Rodrigues de Briteiros (CT1080), com uma sobranceria com- 
prehensivel em um dos descendentes de uma das cinco linhagens 
primitivas do reino de Portugal. 2) 

§ 223. Rimas incontestavelmente suas que subsistem, além 
das cantigas duvidosas que lhe attribuo, são dois motejos, dirigidos 
contra o mouro João Fernandes, a quem já alludi^) na biographia 
antecedente como alvo dos risos de trovadores que, começando a 
versificar na primeira metade do século, alcançaram o reinado dos 
dois Alfonsos.*) 

Outros membros da mesma familia foram trovadores : o primogénito 
e herdeiro de Ruy Gomes ; e por ventura ainda o filho d' esse filho. 
Onde entre os textos do CV se regista como auctor um Dom JoJiani 
Meendiz de Besteyros (444), o índice apresenta dois nomes, um tanto 
adulterados, 5) como de costume.- Dom Meem Bes de Bryieyro e 



1) Biogr. XXII. 

2) A 1* é, como sabemos, a dos Sousãos; a 2' dos Bragançãos^ 
descendentes de um D. Alam (= Alanus) e de uma filh^a de um rei de 
Arménia que ia em peregrinação a Santiago; a 3* são os da Maia, cujo 
tronco é o Rei Eamiro; a 4* os de Baião -^ a 5* os Gascos de Gasconha, 
d' onde derivam os de Eiba- Doiro. 

3) CB 1643 e 1544 Don Roy Qomex de Breteiros fex estas cantigas 
e son d'escarnK e de mal-dixer. 

4) Martim Soares; Affonso Eannes do Cotom; D. João Soares Coelho. 

5) No índice lemos: 

858 Dom Meen rês de Bryteyro^ 

859 Dom Joham de Meendix ã bresteyro, 
1329 Dom Meem Rodrigties de berteyro, 
1543 Dom Roy Oomex, ã beeseyro. 

No texto falta o nome do poeta 3Iem Rodrigues, como já se disse, tanto 
no l"^". como no 3". lançamento. Nos logares correspondentes ao 2"*° e 4*° 
acha -se escripto: Dom Joham Meendix de besteyros (CV 444) e Don Roy 
Oomex de breeeyr^ (CB 1543). Seis formas diversas! e nenhuma exacta! 
Quanto a Dom Joham Meendiz, o logar de naturalidade apparece escripto 
com st {bresteyro e besteyros). Fica por tanto indeciso, a qual das linhagens 
pertence. Th. Braga no Gane. Vat. Rest., Storck na sua versão de uma cantiga de 
amigo , e Wagner na sua composição musical escolheram a forma Beesteyros. 

22* 



— 340 — 

Dom Joham de Meendiz de hresteyro , attribuindo ao primeiro uma 
só cantiga (444), e as restantes (445 — 458) ao segundo. Supponho 
devermos ler D. Mem Rodrigues de Briieiros e D. João Mendes de 
Briteiros. ^) Como esse appellido não continuasse por muito tempo, 
extinguindo -se em fins do sec. XIV, os pósteros confundiram -no 
frequentes vezes com Besteiros [Beesteiros = Balistarios) , outro nome 
de família também pouco vulgar, mas que ia subsistindo na topo- 
nymia do reino. 2) Foi o que aconteceu p. ex. ao medíocre historiador 
Acenheiro, que designa com este ultimo appellido ao próprio Ruy 
Gomes, na sua Chronica summariada. ^) 

§ 224. D. Mem Rodrigues de Briteiros, o successor, occupou 
decidida e efficazmente o seu cargo de rico-homem. De 1252 em 
deante encontro -o entre os magnates da corte na primeira fileira, 
caminhando a par de D. João de Aboim e Estevam Annes, e 
tomando parte em todos os actos públicos.*) Chamado aos conselhos 
da coroa e encarregado da administração militar da comarca da Maia, 
confirma, nesta qualidade, muitos diplomas régios. 5) No reinado de 
D. Denis continuou em actividade no mesmo posto, pelo menos até 
1303,^) acompanhado pelo irmão João Rodrigues e por seu pró- 
prio filho João Mendes, Para esposa tinha escolhido uma neta de 
Martim Paes Ribeiro, irmão da Ribeirinha. A de D. João Mendes 
era, como sabemos, uma das bastardas de D. Affonso III.'') 



Mas como o nome é incontestavelmente de fidalgo, e os linhagistas e os 
historiadores não conhecem nenhum d' aquelle nome, e como entre os Briteiros 
houve pelo menos um poeta, voto por João Mendes de Briteiros. 

1) A nota de Colocci, que apparece na transcripção de Monaci com os 
caracteres l. de henedo, talvez signifique l[ivro] d[ix] 7neendo? 

2) Cf. Biogr. LV, relativa a D. Affonso Meendes de Besteiros. 

3) Insd. Eist. Port. V, 68. 

4) P. ex. nas cortes de Santarém em 1273. — P. M. H. Leges I, 229. 

5) Ib.I, 620, 640, 712, 716, 719, 729, 730, 732, 733 e 736. Neste 
ultimo foral (Castro - Marim) assigna com o nome inteiro que não admitte 
duvidas, como a forma abbreviada Mem. Rod. — Frei Francisco Brandão, 
o qual nem de longe tem a auctoridade do tio, confunde -o ás vezes com 
outro Mem Rodrigues, o de Vasconcellos. Vid. Mon.Lus. XVI, c. 36. Nos 
cap. XXV, XXXVm e LI identifica -o acertadamente. 

6) Mon. Lus. XVIII, c. 6 e ss. 

7) Eis um quadro muito resumido da fihação d' esta famiha que medrou 
por bem casar, antecipando o famoso lemma da casa d' Áustria. Está claro 
que só escolhi factos que nos interessam, por se referirem a trovadores 
ou a personagens postos era evidencia por cantigas trovadorescas. — Os 



341 



§ 225. Quanto ao talento poético dos três, pouco ha que dizer. 
Ruy Gromes e Mem Rodrigues compraziam -se em compor versos 
de maledicência, balda que lhes rendeu, de vez em quando, res- 
postas apimentadas.^) De João Mendes ha cantigas de amor 
(CV 444 — 449 e 453) e algumas de amigo, ligeiras e cantáveis 
(CV 450 — 452). O assumpto de duas é um sonho em que o amigo 
apparece á amada, pronunciando meigas palavras de carinho. 

VI. Ayres Corpancho. 

§ 226. Colocci leu e escreveu três vezes Carpancko e uma 
vez Gãpancho. Comparando estas formas, que nunca vi nem sei 
interpretar, 2) com a alcunha Corpo -delgado, conservada no CT938, 
e com alguns bonitos sobrenomes descriptivos que a lingua portuguesa 



algarismos que acompanham os nomes remettem o leitor aos Livros de 
Linhagem (Ed. Acad.), ou á Mon. Lus. 

Pêro, de Longos 

I 

Mem Pires de Longos 

1» Senhor de Briteiros (156 e 287) 

I 

Gomes Mendes, de Briteiros 

c. c. Urraca Gomes da Silva (ib. e 306) 

I 



Ruy Gomes (153, 184, l9õ) Gonçalo Gomes (166) 

c. c. Elvira Annes da Maia feito cavalleiro por D. Gonçalo de Sousa 
I (Cf. Biogr. IV, 5a) 



Mem Rodrigues 
c. c. Mariannes 



João Mendes 

í. C.Urraca Aífonso 

(meia-irman 

de D. Denis 

XVIII. 6) 

I ' 
Leonor c. c. 
Martim Annes II 
seu primo 



João Rodrigues 

(195) 

c. o. Guiomar 

Gil de Soverosa II 

I 



Sancha Rodrigues 

(153 e 195) 

c. c. Pero Ponço 

de Baião 



Gonçal' Eannes 

(160) 

0. 0. MariaAffonso, 

Chichorro 
{neta de D. Denis) 



Martim Annes I 

{Mon. Lus. XVI , 62) 

c. c. Branca 

Lourenço de 

Valladares 

1 

Martim Annes II 

c. o. Leonor, 

sua prima 

I 
Violante Ponço 

(160) 

c. O. Rodrigo Affonso 
(neto de D. Denis) 

1) CV 1080 e 1082. 

2) Camp- ancho teria logar na toponymia. 



Aldonça, abb. 

de Arouca 

(i¥o».Í4tó. XVI,62) 

raptada por 
Martim Aífonso, 

Chichorro II 
filho de um meio- 
irmão de D. Denis 



Froylhe 

c. c. Fernan 

Sanches 

filho deD. Denis. 



— 342 — 

prodigalizava antigamente e que o povo nas Astúrias, na Gralliza e 
em Portugal ainda hoje gosta de empregar, caracterizando o exterior 
dos seus predilectos, julguei reconhecer nellas o apodo Corp- ancho '^) 
(== obeso). A falta do patronymico e appellido, é impossível des- 
cobrir este Aires que talvez fosse jogral. Das obras de que dis- 
pomos resulta unicamente que desprezou a vantagem de morar em 
casa d' El -Rei, preferindo viver na terra da sua dama. Conservaram - 
se d' elle nove cantigas de amigo (CV 257 — 265) e cinco de amor 
(CB 150—154), quatro das quaes correspondem aos nossos N°^ 64— 67. 
A que falta no códice, e se attribuia a outro vate nos originaes 
aproveitados pelo coUector do Canc. CB, passou para o Appendice V 
(N*' 399) simplesmente por ser possível que figurasse na folha arran- 
cada. Dos cantares de amigo, dois são halletas, e dois movem -se 
em dísticos. 

Vil. Nuno Rodrigues, de Candarey. 

§ 227. Deparam-se-nos aqui com três nomes, seguidamente: Nuno 
Rodrigues , Senhor de Candarey^ Nuno Fernandes, de alcunha Torneol, 
e, no meio dos dois, outro Nuno, apodado de Porco. ^) Este ultimo 



1) Confira -se corpo -delgado CV889 e 570; corpo -velido ib. e 401; 
corpo loado 401; corpo loçano 170; corpo enganado e corpo desembrado 
1203; assim como: cuerpo garrido e cuerpo galano^ tanto no velho e celebre 
cantar asturiano : Ay Juana cuerpo garrido , como no romance de Gerinel- 
dos (Duran 320), numa cantiga do Cancioneiro d' Herberay (No 17) e em 
outra de Vasquez (GalL, Ensaio., IV, 924). Nos excerptos da Chronica 
Geral, publicados por R. Menendez Pidal no bello volume sobre os In- 
fantes de Lara, temos as formulas: cuerpo tan leal p. 431; c. traidor 427; 
c. muy entendido 282 e 425; c. tan onrado 320 e 424; c. tan sabido 320; 
c. tan bueno e leal 424. Algumas d' estas formas teem o seu equivalente 
e talvez seu modelo nos poetas provençaes e franceses, onde é freqiiente 
encontrar: au cors legers, au cors gent etc. — Sobrenomes da mesma 
categoria não faltam nos Nobiliários. Penso em Belpastor, Barva., Bo- 
quinhas, Cabellos de ouro, Delgadilho^ Guedelha., Oordo, Orosso, Magro, 
Redondo, Orelhudo etc. Godoy Alcântara, no Ensayo sobre Apellidos Gas- 
tellanos (Madrid 1871) menciona Corpaneho e Barbancho, no paragrapho de- 
dicado ás alcunhas da estatura, formas ou partes desproporcionadas do corpo. 
A p. 189 falia também de um Joh[a]n Fernandez Delgadiello, filho de D. Fer- 
rand Diaz Cuerpo -Delgado.— Corpegiolo na cantiga CV 1043 está evidente- 
mente deturpado. Iria propor a leitura corpo lijoo, se soubesse apontar 
exemplos d' este adjectivo — derivado de levis (leviolo) como ligeiro {levi- 
ario) e o archaico livão (= leviano). — O nome de logar Lijó no Minho, 
escripto Ligioo nas Inquirições {P.M.H.: Inquir. 26, 42, 103, 182, 227) 
tem origem diversa. 

2) Pena é que Godoy Alcântara não indique onde apparece o Munnio 
Porco que menciona a p. 190 do Ensayo de Apelidos. 



— 343 — 

distinctivo, tão pouco delicado, reapparece entre as cantigas de 
amigo (CV719). Julgo- o, por isso mesmo, titulo de um terceiro 
poeta, embora haja descuidos notáveis na numeração, repartição e 
attribuição das cantigas, contadas no original, primeiramente de 180 
a 181''; depois, de 182 — 189; e novamente de 182'* a 189^ 

O nome que figura á frente d' este paragrapho falta no índice. No 
cancioneiro CB competem -lhe três cantigas: os nossos N°® 400 e 401 
e 68. Com esta composição, que torna a apparecer no CV1061 em 
nome de João de Gaia,^) principia no CA uma serie nova, incom- 
pleta, por falta de meia folha cortada. Mas ha ainda outras desigual- 
dades. A cantiga que está em segundo logar é dada como obra de 
Nuno Porco no índice e no texto de CB, desordem para a qual 
chamo a attenção do leitor, sem saber esclarecê-la. 

§ 228. Dos Senhores de Candarey ha apenas vestígios muito 
apagados. Segundo a lenda, o primeiro d' este nome, Mem Moniz, foi 
dos que entraram em Santarém , quando D. Affonso Henriques a tomou 
aos mouros em 1147.2) Uma de suas filhas, D. Mor Mendes, casou com 
Suer Yiegas Coelho, pae de D. João Soares Coelho, poeta que nos 
occupará na, BiographiaXV . Outra vergontea do mesmo tronco, talvez 
neta de Mem Moniz, é mãe do trovador Pêro Gomes Barroso, cujas 
cantigas teem nos Cancioneiros logar muito próximo das de Nuno 
Rodrigues. 3) Talvez seu tio? — Pêro Gomes foi privado do Sábio 
de Castella, o qual pela sua parte menciona em dois dos seus cantares 
de escarnho^) a Don Meendo de Candarey, tratando -o de „ amigo de 
Soutomayor." Eis tudo quanto averiguei. 

Candarey {Canderey^) apenas uma vez na transcripção de Colocci) 
pode ser a localidade gallega, pronunciada hoje Gandarey (Ponteve- 
dra), ou então outra portuguesa, dita Gondarem, a par da Foz do 
Douro. Terá alguma cousa com os nomes de logar e de familia 
derivados de gándara = charneca, como Gandarinha, Gandarella? 

Pelo nome e pela posição que occupa na 2* Parte do cancioneiro 
supponho que Nuno Porco seria jogral, dos mais antigos; talvez ao 
serviço dos senhores de Candarey? 



1) Não é o único caso em que a mesma poesia apparece duas vezes 
com attribuição diversa. — Cf. CA 184 e 213. 

2) P.M.H.: Seript.l, 159 e 318. — Cf. Herc.I, 362. —£%/•. XV, Notas. 

3) P.M.H.: Script. I, 304. — Cf. Biogr.XXL 

4) CB 367 e 368. 

5) Argote, Nobl.de And. II, c. 153 transformou Candarey em Can de Rey. 



— 344 — 

VIII. Nuno Fernandes, Torneol. 

§ 229. Torneol, de tornear , talvez corresponda a torneador = 
amigo de torneios? Também podia derivar de tornar no sentido de 
renegar? Nada sei da nacionalidade, nem da filiação. Das suas 
cantigas parece resultar apenas que foi cavalleiro ou homem d' armas, 
servindo sob o pendão de um rico -homem mentiroso, de Castella; 
e assistiu temporariamente em Olmedo, Valhadolid e Toledo. 

Temos d'elle oito cantares de amigo (CV 242— 2á9);i) uma 
d'escarn}io (CV 979)2) e treze de amor {Ind. 183 — 185" = CB 159 — 171). 
A estas ultimas correspondem os nossos N°®70 — 81 e no Appen- 
dice VII o N° 402. 

Entre o primeiro feixe de versos, no género popular, salientam - 
se alguns, cheios de vago e mysterioso symbolismo; verdadeiras 
flores do campo de delicioso e penetrante perfume.') A que 
versa sobre um thema tradicional, popular ainda no presente século 
na Galliza e em algumas villas portuguesas, foi comparada por 
Jeanroy*) ás Lochricas da Grécia^) e a um bello Morgenlied ger- 
mânico de Dietmar von Aist. ^) É uma Alba ou Alvorada (CV242), 
monologo da amante, acordada ao amanhecer pelo canto das aves. 
Outra (CV246) merece o titulo de Barcarola. A namorada vagueia 
saudosa á beira -mar, á espera do barco que ha de trazer o amigo, 
exhalando a sua paixão no estribilho sete vezes repetido: E moiro - 
me d'' amor! Também nas restantes, quer sejam solilóquios de mulher, 
na floresta »so-lo avelanal«, quer scenas caseiras entre mãe e filha, 
Nuno Fernandes dá provas de gosto apurado na escolha de seus 



1) /wrf. 641 — 648. 

2) Ind. 1371. 

3) Storck, traduziu cinco. Os seus Nos 11, 18, 23, 32, 55 correspondem 
aos Nos 245, 249, 242, 246, 243 do CV. 

4) Origines de la Poésie Lyrique en France, p. 142. 

5) Athenaeus, XV, 967. 

6) E diz: ,, Dormes, meu amigo? Ouay de nós! acordar -nos -hão. 
Ouço cantar uma ave graciosa nas ramas da titia." „ Estava a dormir 
um somno bem doce. E agora, oh criança, vens a gritar: leva -te, leva -te! 
É que não ha amor sem penas. Mas o que exigires, faxel-o-hei., oh 
minha amada." — E ella chorava do coração. „Vaes-te, e eu fico só- 
sinha e triste. Quando voltarás? tudo quanto me pode causar alegria 
vae comtigo." — Minnesangs - Friihling 39, 18. A versão poética de 
Storck acha -se em Buch der Lieder aus der Minnexeit. Miinster, 1872, 
pag. 262. 



— 345 — 

refrans. Quasi todos estes cantares são em dísticos encadeados, de 
contextura popular. ^) 

Dois dos que talvez lhe pertençam ainda, são curiosas cantigas 
de romaria a San Clemenço (CV 805—808), attribuidas a um Nuno 
com o patronymico Freex — forma deturpada, que poderia estar 
por Frz = Fernandez. ^) 

IX. Pêro Garcia, Burgalês. 

§ 230. O sobrenome autentica Burgos como berço d' este 
poeta. Portanto, não pode ser nenhum dos ricos homens da família 
dos Sousões, na qual houve vários, com o nome Pêro Garcia.^) 
Apesar da homonymia ser completa, tão pouco o podemos identi- 
ficar com um jogral tardio de Burgos, cujo genro, Apparicio Peres, 
havia emprestado ao illustre Conde de Barcellos a importante quantia 
de 1500 maravedis, pouco antes do seu fallecimento em 1354, 
posto que nenhum d' esses burgaleses estivesse vivo, quando o filho 
de D. Denis escreveu o seu testamento.'^) 

D' esta homonymia e de outras (p. ex. com o jogral Pêro 
Grarcia d'Ambroa) resulta apenas que fica incerto tudo quanto já 
tenho aventado, 5) e aqui aventarei sobre Pêro Garcia. O que 
não padece duvida é que elle poetava em tempo de Alfonso X. 
Isso consta de uma composição cynica (CV 982) , lançada contra certa 
soldadeira gallega que o monarca castelhano não desdenhou pre- 
sentear e festejar (CV64), e cujo momento de fama deve ter pre- 
cedido o anno de 1257 em que, velhusca e cruzada, esta cor- 
tesan, de sobrenome a Balteira, alias D. Maria Peres Balteira, se 
refugiou sob o amparo do convento de Sobrado como familiar e 



1) Leda m' and' eu! — Delgada! — E pousarei so-lo avelanal! e 
outros mais. 

2) Em geral , nenhum trovador figura no Cancioneiro mais de três vezes : 
1° no Cancioneiro de amor; 2° no Cancioneiro das Donas; 3° no Can- 
cioneiro de burlas. Neste logar Nuno Freez apparece num grupo de 
trovadores differentes dos que acompanham Nuno Fernandes. 

3) Na Biogr. IV citei um só (6'') : irmão do trovador Fernam Garcia, 
Esgaravunha. 

4) „ Outrosi confesso que devo mil e quinhentos marauedis de bran- 
cos de dinheiros castellãos em Burgos, os quaes a mi emprestou hum 
home qxie havia nome Apparicio Peres, genro de Pêro Qarcia, Jogral, e 
mando que os paguem a seus herdeiros.'^ — Hist. Qen.: Provas I, 140. 

5) Eandglosse 1, p. 39 e 40- 42. 



— 346 — 

amigai) Pertence, portanto, ao grupo affonsino formado por Pedr' 
Amigo, Pêro da Ponte, João Baveca, Pêro d'Arabroa, Fer- 
nam Velho, Vasco Peres Pardal e João Vasques, que a 
tomaram por alvo das suas invectivas. 

Não é impossível que o próprio D. Alfonso se refira ao nosso 
trovador numas rimas jocosas onde declara que certos servidores 
seus não o haviam de acompanhar em determinada expedição: 
Nem Pêro Garcia, nem Pêro d' Espanha, 
Nem Pêro Gallego, nem Pêro Oallinha!^) 
Pêro Grarcia occupa-se ainda de um vassallo do Sábio de Castella, 
chamado D. Fernam Dias, cuja eleição para meirinho de Vivero 
até Carrion parece ter levantado celeuma, como se fosse um injusto 
favor (CV987). 3) Viajou na Galliza passando por Lagares e Sam- 
paio (CV 989), E não deixou de assistir na corte de Aífonso III, 
onde o vemos relacionado com D. João Soares Coelho (CÁ 89) e com 
Euy Queimado (CV988), o apaixonado elogiador de D. Guiomar 
Affonso Gata. Não seria de modo algum estranho se continuasse 
a distinguir- se não somente até 1274, mas ainda em principies 
do reinado de D. Denis, visto apparecer em contacto com auctores 
que ainda então brilharam, como o engraçado D. João Airas de 
Santiago (CV1071) e o engenhoso jogral Lourenço. 

Da estima de que gozava é prova o facto de este o ter es- 
colhido para arbitro numa contenda artística com alguns des-dezi- 
dores dos seus versos (CY1034). 

De todos os trovadores gallaíco- portugueses, com excepção dos 
reis e de João deGuilhade, Pêro Garcia é o que nos deixou maior 
ramilhete de cantigas. Neste sentido corre parelhas com D. João 
Soares Coelho, excedendo a Martim Soares e Pêro da Ponte. O 
seu pecúlio compõe-se de 37 Cantigas de amor [Ind. 186'' — 223 = 
CB 172—208), numeradas no nosso CA de 82 — 110, e de 403—409 
no AppendiceYlll; duas de amigo {Ind. 649 — 650 = CV 250—251); 
e quatorze de escarnho {Ind. 1372 — 1384 = CV 980—993). Entre 
ellas ha uma tenção com um Senhor innominado (CV991). Outra 
incompleta com Lourenço, a que já se alludiu. 



1) Vid. Eev. Crit. de Hist. y. Litt., vol. II, 298 — 304, Una gallega 
celebre en el siglo XIII^ de A. Martinez Salazar. — Cf. Eandglosse V. 

2) CB 372. — Na cantiga CB 47 o rei Sábio refere -se a Fero 
d'Ambroa. 

3) Cf. CV 983 e 986. 



— 347 — 

Quanto ao valor artístico d'este conjuncto de 53 poesias, as 
sátiras não são menos rudes que as dos restantes Pseudo -Marciaes 
da idade-media peninsular. Entre as de amor julgo, pelo contrario, 
dever assignalar algumas de suavidade encantadora, i) não porque 
o leitor quatrocentista que pôs as suas siglas na margem do códice, 
as qualificasse de cantigas boas, nem porque brilhem por uma 
linguagem duétil e harmoniosa, mas antes porque revelam ver- 
dadeira commoção. Assim a phraseologia convencional não apagasse 
em parte a originalidade do pensar e a viveza do sentimento! Com 
a reserva da expressão forma contraste singular a profunda descrença 
que se manifesta em algumas, e que a ingenuidade do dizer difficil- 
mente consegue tornar menos antipathica. 

X. Joan Nunes, Camanes. 

§ 231. Accentuo Camanes, 2) julgando reconhecer um nome 
derivado que indica naturalidade do logar galliziano Caman (Ponte- 
vedra). Th. Braga, pelo contrario, inclina -se a ler Camánes ou 
Camães, persuadido que temos ahi um ascendente do cantor dos 
Lusíadas,^) e sem reparar que Nunes já indica a filiação. Entre os 
Camões históricos que conhecemos também não apparece Nuno, nem 
Nunes algum. 

Nada sei d' este auctor. Temos d' elle três cantigas de amor, 
todas de refram, conservadas no CB 209— 211 (/wd 224 — 226) e 
no CA 111 — 113; e cinco de amigo {Ind. 651 — 655 = CV 252 — 256). 
Ambos os grupos se acham próximo dos que encerram poesias do 
Burgalês, de Corpanoho e de Torneol, o que talvez signifique co- 
existência na mesma corte. Nos cantares de amigo nota -se con- 
tinuidade de assumpto, sendo todavia preciso dar -lhes ordem diversa. 
Os actores são, como de costume, uma mãe rigorista (e neste caso 
perversa), uma filha namorada, e as confidentes d' esta. ^) 

XI. D. Fernan Oarcia, Esgaravunha. 

§ 232. Visto ser um Sousão, neto do bom Conde D. Mendo, 
i. é. da família mais poderosa de Portugal, alguma coisa, embora 
pouco, consta dos seus feitos. As noticias dos linhagistas limitam - 



1) CA 103 e 110. 

2) No índice lê -se uma vez Joan Munix,. 

3) Hist. Cam. I, 44. 

4) Storck traduziu cinco: Nos 92 — 96 = 252 — 256. 



— 348 — 

se, como de costume, á indicação da genealogia, do motete com 
que o distinguiram, provavelmente por ter usado de unhas avanta- 
jadas, i) e da apostilla „o que trobou bem," 2) Os chronistas do 
reino e os da nação vizinha, aproveitando por ventura documentos que 
desconhecemos, relatam uma anecdota, referente ao tão mal conhe- 
cido drama do destronamento de Sancho Capello: um repto reali- 
zado em 1247 por Fernam Garcia ao valido D. Martim Gil de 
Soverosa, perto de Trancoso, em presença do seu senhor natural e 
do Infante D. Alfonso de Castella, repto a que o desafiado se 
negou, conforme contei na Biographia 11.^) 

Eis como a encontro narrada na fonte mais antiga, ainda 
assim posterior quasi um século ao acontecimento, na refundição 
anonyma de 1344 da Chronica Geral, a qual devemos a um con- 
temporâneo do Conde de Barcellos:^) 

. . . Entonçe torno fe el rrey don Sancho 7 el infante dou Alfonfo 
para Castilla 7 en fe tornando fueron pofar vn dia en Moreras (sic) 
apar de Tronco fo (sic) 7 vénia conel infante entonçe don Diego Lopej 
de Vijcaya 7 don Nuno Gonçalej de Lara aquien defpues llamaron 
don Nuno el bueno el que mato el rrey Bêyuça de allen mar en 
Eçija 7 oiros ornes buenos Et aefta sajon eftauan en Tronco fo don 
Men Garcia 7 don Ferrnant Garcia el que llamaron E^guara muna 
el que fue buen trobador 7 el conde don Gonçalo; 7 don Ferrnant 
Garcia armofe de todas armas finon dei efcudo 7 lança quele leuaua 
vn efcudero 7 caualgo en fu cauallo 7 llego ai palácio onde eftaua 
el rrey don Sancho 7 el infante don Alfonfo con todos fus caualleros 
7 tiro el ahnofre dela cabeça 7 fue befar la mano ai rrey don Sancho 
7 ai infante don Alfonfo; defi omillofe adon Diego 7 adon Nuno 
7 atodos los oiros ornes buenos que y eran faluo adon Martin Gil. 
Ei defpues que iodos los ouo faluados boluiefe ai rrey 7 dixole: 



1) Esgaravlmnha.^ Esgaravanha, Esgaramanha Esgaramunha são 
formas deturpadas dos antigos copistas. De livros modernos aiada poderí- 
amos colher mais variantes, igualmente falsas. 

2) P.M.H.: Script. I, 290 e 321. Cf. 192 e 152. 

3) Pina, Chron. Sancho^ c. IX; Acenheiro, c. XI; Mon. Lus. XIV, c. 29; 
Herc.II, 419, 425. 

4) Manuscripto que foi do S™ Zabálburu, hoje possuído pela viuva 
do mesmo: Cap. 300: Como regno don Sancho Capello e fue el quarto Rei 
de Portugal. Devo a copia ao meu bom amigo, o Ex™» S""^ D. Ramon 
Menendez Pidal, Crónicas Oenerales de Espana descritas por R.M.P., 
Madrid 1898, p. 17 — 58 e La Legenda de los Infantes de Lara, 395 — 399. 



— 349 — 

Senor, conofçedes me? 7 el dixo fi, ca [odes Ferrnant Garcia, mi 
natural; 7 el dixo fenor avos me enhian mis hermanos que eftan 
en Tronco fo, conuiene faber don Meyi Garcia 7 don Gonçalo Garcia 
7 don Johan Garcia 7 don Ferrnant Lopej 7 don Diego Lopej; 7 
enhian uos dejir 7 afrontar como vueftros naturales aqui ante el 
infante don Alfonfo 7 ante don Diego 7 dcni Nuno 7 ante todos 
quantos fijos dalgo que aqui eftan que vos vades para aquella villa 
que es vueflra 7 que vos acogeran enella commo afenor 7 otrofi enel 
caftillo 7 afi en todos los otros de toda la tierra con tal pleito que 
non acojan alia adon Martin Gil nin aios fuyos que eftragaron 
toda vueftra tierra 7 que nunca quifo que fe fijiefe enella juftiçia 
7 matolos que quifo fin derecho 7 dexo los que fe pago como non 
deuia, en tanto que vos non erades rrey fi non por nonbre 7 por 
linaje dela fangre que venides. Et por ende le digo que vos firuio 
fienpre mal fienpre con tnucha vueftra defonrra; 7 fi quiere dejir 
de non yo le quiero meter las manos 7 para effo vine armado afi 
como vedes 7 ally tengo el cauallo 7 yo le matare o le fare dejir por 
la garganta que vos confejo mal 7 como non deuia 7 con defonrra 
7 menguamiento de vueftro cuerpo 7 de vusfira tierra. Et efte Martin 
Gil era el que vençio la lid dei Puerto. Et entonçe don Martin Gil 
dixo: Ferrnant Garcia, mal dejides 7 fi yo non muero, mal vos 
verna dello; 7 entonçe fijo fenal a algunos delos fuyos quele fuefen 
tener el camino mas Ferrnant Garcia bien lo entendio 7 entonçe 
fi^o preguntar ai rrey fi queria yr a Troncofo 7 el dixo que non. 
Et doti Ferrnant Garcia dixo ai infante don Alfonfo: fenor fed defto 
teftimonio 7 quantos nobles aqui eftan dela afrenta que ai rrey vine 
fazer. Et eftonçe dixo adon Diego 7 adon Nuno: bien vedes lo que 
en vueftra prefençia dixe ai rrey 7 non lo quiere fa^er. Otrofi lo 
que dixe a Martin Gil 7 non quiere iorrnar a ello mas mandame 
fuera tener el camino. Por ende rruego uos don Diego 7 otrofi 
auos don Nuno que por vueftra mefura 7 nobleja delos vueftros 
efcuderos me mandedes poner en falua en Troncofo. Et entonçe 
dixo don Nuno adon Martin Gil: non guarda fies lo que vos dixo 
don Ferrnant Garcia. Ca me femeja que vos táhe como de trayçion; 
7 don Martin Gil dixo que daua poço por las palabras vanas de don 
Ferrant Garcia. Et entonçe dixeron ai rrey que aquellos caualleros 
que eftauan en Troncofo eran efcufados 7 non podian fer metidos 
en culpa por que cunplieran todo fu derecho. Et entonçe caualgaron 
don Diego 7 don Nuno 7 otros ornes buenos con don Ferrnant Garcia 



— 350 — 

7 x>'^f'^'^onlo en faluo en TVoncofo. Et defpues que efto ouieron fecJio 
tornar onfe para el rrey 7 para el infante; 7 defi fueron fe para 
Gaftilla 7 luego a poço de tienpo dio dolor ai rrey don Sancho de 
que murio en Toledo 7 y yaje [aterrado. ^) 

Vemo'-lo depois d' este facto (1248), juntamente com seus 
irmãos, na jornada do Algarve ao lado de Affonso III, cnjo partido 
os Sonsas sempre seguiram, assistindo á doação de Albufeira á 
ordem de Avis (1252). 2) De D. Urraca Abril, filha do velho de 
Lumiares (-{- 1245) e viuva de João Martins Chora, com a qual 
casou em época incerta, já fallei na mesma Biographia IIU) 

Nada consta de uma viagem d' este Sousão a pátria dos troveiros; 

mas a cantiga 126 contém a prova de que não era hospede na 

lingua e poesia francesa, pois que aproveitou ou redigiu o refram: 

Or sachiex, veroyament 
Que ie soy iwtr' ome-lige. 

Lembrarei de novo que o poeta era filho d'aquelle Garcia Mendes 
d' Eixo que tinha metrificado em provençal^) no primeiro quartel 
do século, provavelmente fora do reino, quando o chefe da familia 
D. Gonçalo Mendes, foragido por ter feito opposição á politica es- 
poliadora de Affonso II , na sua qualidade de testamenteiro de Sancho I, 
occupava situação brilhante na corte vizinha do Leonês. 

Das obras de Fernam Garcia ficaram -nos dezanove amostras: 
16 cantigas de amor, sendo dez de maestria e os restantes de refraiu 
{Ind. 2 2 7 — 243 = CB 212 — 229) ; e duas de escarnho [Ind. 1510—1511 
= CB 383—384), uma das quaes, dirigida contra João Coelho, co- 
medida na forma, é curiosa pelo assumpto familiar. A outra, uma 
das vilanias em que aquelles bárbaros guerreiros se deleitavam, 
prova relações com dois trovadores de Castella: o Burgalês (CV980) 
e Pedr' Amigo (CB1575). O CA (114—128) carece no seu estado 
actual de apenas três d' essas composições {Appendice IX, 410—412). 

XII. Roy Queimado. 

§ 233. Entre todos os Portugueses mellifluos e derretidos 
que se gabaram de morrer de amor na época do Bolonhês e de 



1) As únicas modificações que introduzi, são: maiúsculas em 
nomes próprios onde faltavam, e alguns pontos e virgulas. 

2) Mon. Lus. XV, c. 9. 

3) CA 375. — Vid. Randglosse I, 49. 

4) CB 454. — Orundriss 176, Nota 2 e 5. 



— 351 — 

D. Denis, este Ruy, Roy ou Rodrigo, é de certo iim dos mais per- 
feitos exemplares, mixto singular de ironia e de sentimentalismo, 
prototypo não bem de Macias , ^) mas antes dos que morreram de puro 
amor . . . apenas nos seus versos. Em todas as quinze cantigas que 
nos reste,m d'eUe (menos duas) 2) apresenta- se como um apaixonado 
que morreu, morre ou morrerá, deseja morrer ou cuida morrer etc.^) 
Tão monótona insistência devia provocar a hilaridade dos confrades, 
bastante perspicazes para reconhecerem o argueiro no olho alheio. 
Em nome d'elles fallou Pêro Garcia, cantando: 

Roy Qtieitnado morreu con amor 

en seus cantares, i^ar Sancta Maria, 

por ua dona que gran ben queria; 

e por se meter por mais trobador, 

porque V ela non quiso ben faxer, 

fexe-s'el en seus cantares morrer . . . 

mais resurgiu depois ao tercer dia! (CF 988.) 

Individualmente se pronunciaram vários outros como João Garcia 
deGuilhade, o qual assevera, rindo, que, tudo bem considerado, 
sempre prefere viver e aitender! e attender! (CA 234). Pay Gomes 
Charinho teve a seguinte lembrança: 

Muitos dixen con gran coita d' amor 
' que querian morrer e que assi 

perderian coita; tnais eu, de mi, 

quero dixer verdad' a mia senhor: 
qtceria-me Ih' eu muy gran ben querer, 
mais non queria por ela morrer! (CV393.) 

Não creio todavia que a alcunha com que o assignalaram , significasse: 

incendiado pelo fogo do amor, mas antes tostado pela acção do 

sol, ou ferido por qualquer accidente. 

A respeito da biographia d' este auctor não apurei cousa alguma. 

Os seus versos mostram apenas que foi contemporâneo de D. João 

Garcia (CÁ 142), Fero Garcia Burgalês (CV988) e D. Estévara, o 

cego ouvidor, motejado por João Soares Coelho (CV 1014 e 1015), 

Mem Rodrigues Tenoiro (CV1083 e 1084), Pedr' Amigo (CV1194) 



1) Os verdadeiros predecessores do prisioneiro de Arjonilla, e encarnação 
do ideal poético português, foran João Soares de Paiva e Pêro Rodri- 
gues de Palmeira, segundo informação dos linhagistas. — YiÕL.Biogr.lNl 
e LVII. 

2) CA 132 e 414. 

3) Cf. os versos 3067, 3077, 3087, 3095, 3122, 3125, 3190, 3213, 
3215, 3218, 3224, 3225, 3236, 3268, 3312, 3319, 3331, 3395, 3393. 

4) Cf. CV 595 onde João Aires joga com a palavra morrer. 



— 352 — 

e Airas Peres Vuiturom (CV1085 e 1189). i) É portanto um dos 
trovadores affonsinos, relacionados tanto em Portugal como Castella, 
embora attingisse ainda em pleno vigor o reinado de D. Denis. Per- 
tencem -lhe quinze cantigas de amor {Ind. 250 — 26G = CB 250—264 
e 266), numeradas no nosso Cancioneiro de 129—143, e 413 — 414 
no Apjjendice X; quatro de amigo {Ind. 713— 715 = CV 314 — 316 
e CB265): e outras tantas de escar7iho {Ind. 1385 — 1389 = €V 994 
— 997). Estes versos seguem immediatamente aos de João Soares 
Coelho, D.João de Aboim, GronçaTEannes do Vinhal, Tor- 
neol e o Burgalês. 2) 

XIII. D. Vaasco Gil. 

§ 234. Tanto no índice como nas epigraphes do texto, este 
nome vae sem o distinctivo nobiliarchico (o que, em verdade, succede 
com muitos outros fidalgos). Só numa cantiga jocosa onde elle se 
apresenta tençoando muito familiarmente com um Rei D. Affonso, 
que julgo ser o Sábio de Castella, este seu parceiro trata -o por 
duas vezes, e a serio, de Don Vaasco Gil.^) 

Um nobre d' este nome , o único no sec. XIII de que ha memoria 
nas obras de historiadores e linhagistas , ^) era meio -irmão de 
D. Martim Gil, o vencedor na lide do Porto, desafiado em 1248 
por Fernam Garcia, a que tantas vezes já nos referimos; filho por 
tanto do influente Senhor de Soverosa, Gil Vasques o Velho (falle- 
cido cerca de 1240). S) Ao lado dos dois encontramo-lo a confirmar 
em 1238 uma das escrituras de composição entre Sancho II e o 
Bispo do Porto. ^) Eiel ao rei destronado que os seus inimigos 
pintavam ao Papa como um mentecapto, tomou parte na guerra 
contra o Conde de Bolonha, ficando captivo numa contenda com 
os habitantes de Leiria. '^) Parece que se ligou em seguida ao de- 

1) Ranãglosse I, 46. 

2) Vid. as Notas do Vol. I, relativas aos N»» 142 e 143. 

3) CB 385. — Cf. Ranãglosse II. 

4) Nas edições commentadas do Nobiliário do Conde falia -se de outro 
D. Vasco Gil, posterior, filho de Maria Mendes e de Martim Affonso (prole 
de Affonso IX o de D. Teresa Gil de Soverosa, filha de Gil Vasques, o Velho, 
e de D. Maria Aires de Fornellos) e portanto sobrinho - neto do primeiro. 
O Livro Velho affirma todavia que Martim Affonso morreu sem geração. 

— P.M.H.: Script. I, 176. 

5) Mon.Lus.XY, c.4; XVf, c.52. — Herc. 11, 3.58, 388, 496 e 498. 

— P.M.H.: Script. I, 153, 176, 197, 199, 293 e 295. 

6) J.P. Ribeiro, Diss. Chron. IV, 2 App. 3. — Herc. II, 496. 

7) Herc. II, 412, Nota 2. 



— 353 — 

fensor do espoliado, o infante de Castella, sob cujas ordens deve 
ter batalhado na conquista da Andaluzia, principalmente no memorável 
cerco de Sevilha, visto ter chegado a ser em 1253 um dos trezentos 
herdados nessa cidade. ^) Não tenho certeza se ficou em Hespanha, 
como muitos barões do partido de Sancho, ou se regressou em 1255 
á pátria, como penso, unindo -se ao Bolonhês 2) ao ver dissipadas 
todas as probabilidades de o derribarem, depois da bulia de Inno- 
cencio IV in favor em quorumdarum.^) Ignoro também, se o seu 
casamento com uma fidalga portuguesa, D. Froilhe Fernandes, filha 
de Fernand'Eannes Cheira,'^) se eífectuou antes ou depois da catas- 
trophe de 1245. Em todo o caso, seus filhos e netos residiram 
em Portugal: o primogénito Gil Vasques, o Moço, casado com uma 
dona da illustre estirpe dos fidalgos da Maia, que primeiro fôra 
amiga de Affonso III, ^) pereceu em 1277 na lide de Gouveia, um 
dos combates civis do fim do reinado em que os velhos ódios do 
tempo das mudanças se reatearam. ^) Uma neta de D. Yasco, des- 

1) Mon. Lus. XV, c. 2 e 4. — No Livro do Repartimento de Sevilha, 
publicado por D. Pablo de Espinosa na Segunda Parte de la Historia y 
Orandexa de la Graii Ciudad de Sevilla, Ano de 1630, encontro a f. V'" 
no meio dos cavalleiros portugueses entre os quaes se dividiu o território de 
Gelmus, desde então chamado Portogalesa , logo em segundo logar a D. Blasco 
Gil, que recebeu 60 arançadas de olivaes e figueiredos com 6 jugadas de 
terra de pão. Seguem seus irmãos Manrique Gil e João Gil, e depois os 
Redondos. 

2) D. Martim Gil, que assigna em Castella um documento a 25 de Maio 
de 1254 {Argote II, cl e 9), torna a apparecer em Portugal de 1255 em 
deante {P.M.H.: Leges I, 572, 665, 667, 682, 686). Não tenho todavia 
absoluta certeza de que se trata do irmão de D. Vasco, porque houve outro 
de nome igual e seu coevo, filho de D. Gil Martins de Riba de Vizella, por 
signal até um dos mais leaes partidários de Sancho II, a cujo fallecimento 
assistiu em Toledo {Mon. Lus. XV, c. 9). E este também se reconciliou 
posteriormente com o vencedor. Em todo o caso, é positivo que antes das 
Inquirições de 1258, Affonso III já tinha restituído aos filhos de D. Gil Vas- 
ques certos bens de que haviam sido privados, como a Quinta de Sesmires. 
— Vid. Herc. III, 37 nota 2. 

3) Mon. Lus. XV, c. 17. 

4) P. M. H.: Script. I, 295. Ed. Lavana 147, 6. 

5) A respeito de Aldonça Annes será útil reler uma nota de Herc. III, 
117, n. 3. Caso as suas relações com o Rei de Portugal datem da época 
em que a Rainha D. Beatriz ainda não era núbil, o casamento de D.Vasco 
deve ser anterior á revolução de 1245. 

6) Chron. Gonimbr.: Era M- CCCXV., feria F* commissum fuit bellum 
inter Petrum stephani de thaauare et fernandum alfonsi de Caambria in 
quo bello ex parte fernandi alfonsi nobilis quidam nomine donus Egidius 

Valasei solus interiit et nullus alius. — Esp. Sagr.'í^lll^ 338. — Hist. 

Gen.: Provas I, 380. — Script. 4. — Cf. Herc. III, 150. 

23 



— 354 — 

posou o filho de D. João de Aboim, o qual se nos apresentará na 
Biographia seguinte como um dos mais resolutos campeões do Bo- 
lonhês. 

O valente guerreiro e poeta tinha sido clérigo na sua juventude, 
chegando a subdiacono. ^) Desconhecemos as razões que o levaram 
a pôr de parte os „longos pannos", certamente antes de 1238. O 
logar que devemos assignar-lhe na lista dos trovadores é entre os 
primeiros poetas alfonsinos. E certo que metrificou na corte de 
Alfonso X, mas pode ser que já figurasse em Portugal entre os 
pre- alfonsinos, 2) ao lado de Aires Peres Vuiturom, o que fallou 
denodadamente contra a deslealdade dos Bezerras e mais vendedores 
de castellos, em um dos melhores sirventeses históricos do Cancio- 
neiro (CV1088). 

Eestam de Vasco Gril treze cantigas de amor [Ind. 267 — 279 = 
CA 144 — 156), das quaes apenas sete se acham no CB 253—258; uma 
de amigo {Ind. 664 = CV266); e uma de escarnho, que é notável 
pelo decoro com que zomba {Ind. 1512 = CB385): uma curiosa tenção 
com Alfonso o Sábio, que julgo redigida pouco depois de 1252. 
Pode ser que coUaborasse com Pêro Martins, 3) na tenção CV 1020, 
lançando cruéis doestos contra a Ordem dos Hospitaleiros que accusa 
de devassidão, avareza e cobardia. Se o D. Roy Gil, ahi aggredido, 
fosse o Rodericus, Prior Hospitalis que assignou a doação de Pal- 
mella e Alcácer á ordem de Santiago, e a de Arronches ao mos- 
teiro de Santa Cruz, nos annos de 1235 e 1236,'^) teríamos mais 
uma data que combinaria perfeitamente com o pouco que sabemos 
de D. Vasco Gil. 5) 

XIV. Don Joan Peres de Aboin. 

§ 236. Estamos deante de um dos principaes vultos históricos 
da corte de Affonso III que de principies relativamente modestos 
subiu ás culminancias do poder. Emquanto o pae D. Pedro 



1) „Foy d' epistola", no dizer do Conde de Barcellos (Tit. XXV, 295). 

2) Lang CD p. XXVIII conta- o entre os que já poetavam antes de 
1211. Julgo que o confunde com Gil Vasques, seu pae. 

3) Esta poesia anda entre os versos de D. João Soares Coelho. 

4) Herc. II, 495. — Nova Malta 256 e 295. — P. M. H.: Leges I, 627 e 
630. O grande historiador chama -o D. Rodrigo Gil. Nos documentos lê -se 
Rodericus Eg.., abreviatura que pode significar Egidius ou Egas. ■ — Mon. 
Lus. XVI, c. 24. 

5) Vid. a nota que no Vol. I acompanha a cantiga 455. 



— 355 — 

Ourígues^) e o avô Ourigo, ou Ourigo Annes, eram senhores apenas 
de um pequeno solar no julgado da Nóbrega, na margem direita 
do Lima, e de algumas terras adjacentes, como Aboim, 2) João Peres 
prosperou a ponto de ser um dos mais abastados e influentes barões 
do seu tempo, aparentado com Sousas e Telles de Meneses e, por 
dois netos seus, com a própria Casa Real — Senhor de tão ex- 
tensos e numerosos terrenos no Alemtejo e no Algarve, que foi 
preciso organizar um cadastro especial para os herdeiros, ainda 
existente na Torre do Tombo. 3) 



1) E não Rodrigues, como escreve o inexacto Francisco Brandão na 
Mon. Lus. XVI, c. 53 (no c. 55 ha indicações mais correctas); nem Ouriques^ 
conforme se lê ás vezes nas Inquisitiones ; e menos ainda Henriques. 
Quanto á mãe, ha confusão. Alguns auctores chamam -na D. Maria ou Marinha 
Viegas, seguindo o supposto Livro do Conde (P. M. H.: Script. 319), a qual 
na realidade casou com um irmão de Pedro Ourigues, nomeado Fernão 
Ourigues. Outros lhe dão o nome Urraca Gil (ib. 161), filha de D.Inês 
Soares Coelha, de modo a fazerem de D. João Peres de Aboim o filho de 
uma sobrinha, i. é uma espécie de neto-torto de D.João Soares Coelho, o 
que é chronologicamente impossivel. Cf. Biogr. XV. Ambas pertenciam, 
de resto, á estirpe de Egas Moniz, o que é significativo e mostra o apreço 
em que era tido o senhor da Nóbrega. Houve entre os filhos de D. Pedro 
um Fernam Pires, Farinquel, que se distinguiu por „ catar bem o agouro" o 
que na linguagem do tempo significa „lêr a sina, á maneira gallega, pelo 
voo das aves". Uma Maria Ourigues, filha, ou antes irman, a concluir do 
apellido, que o Nobiliário nomeia frequentes vezes, mas com muita confusão, 
casou com Raimundo Veegas de Portocarreiro (irmão do Arcebispo de Braga 
João Egas), o audacioso partidário do Bolonhês que raptou a Rainha D. Mecia 
Lopes de Haro de ao par de Sancho II. — Vid. Mon. Lus. XV, 31. Herc. II, 
387, 397 e .510. — P.M.H.: Script. 340 e seg. 

2) O primeiro Ourigo (ou Eurigo) Ouiigues de que ha noticia (P. M. H. : 
Script. 269 e 356), fundou o castello da Nóbrega por ordem de D. Affonso 
Henriques, recebendo em troca dois casaes de Penelas. — P.M.H.: In- 
quisitiones 38 : Oorigo Ooriguiz . . . fecit illum castellum de Anovrega. — 
No mesmo julgado adquiriu mais bens, como a quinta de Crastafroia e pré- 
dios em Ermello, S. João de Grovelas e S. Maria de Aboim (ib. 37, 117, 119). 

3) Livro do registo das cartas dos bêes et ereãeas (= heranças) que 
Dõ Joam de Portel teue nestes reinos. — Cf. J. A. de Figueiredo, Nova 
Malta II, p. 27 n. 8; 59 n. 24. O „ Livro I de Affonso lII" encerra também 
documentos importantes, relativos ao valido. Sobre o modo como eUe veio 
a ser vixinho de dezenas de concelhos que o herdaram liberalmente, soUi- 
citados e instigados ás vezes pelo próprio monarca, ha espécies curiosas 
nas paginas dedicadas por Herculano a este e outro ministro prepotente de 
Afiíonso III. — Hist. Port. III, 111 — 117. — Todavia esse outro privado do rei, 
o chanceler Estevam Annes, despertou muito mais envejas e malquerenças 
que o Senhor de Aboim, por causa da sua insaciável cobiça, aspereza de 
caracter e sem -cerimonia de proceder, praticando actos que os pósteros 
qualificaram de rapina. — Cf. Biogr. XV. 

23* 



— 356 — 

Tanto no Livro Velho como no Livro do Conde affirma-se que 
João Peres foi feito rico -homem por D. Affonso, de onde deveríamos 
concluir que anteriormente fora apenas infanção, como Ruy Gomes 
de Briteiros. Ambos accrescentam ainda, depois de enaltecer a sua 
bondade e honradez, assim como o grande numero dos seus vassalos 
e o avultado dos seus bens, que tudo isso era devido á mercê 
dei - Rei. 1) Creio que a maledicência influiu um tanto sobre os 
linhagistas. Segundo Herculano, o pae e o avô já gozavam de 
bastante influencia. Julga reconhecer o avô de D. João em um 
Honoricus Johannes que ocorre assignando em 1223 o foral de 
Sanguinedo em Panoias^) e o pae no Petrus Orige, senescallus 
Comitis Boloniae, mencionado pelos historiadores franceses como 
prisioneiro no batalha de Saintes, a qual o Bolonhês Affonso de 
Portugal rompeu em 1242, repellindo as tropas de Inglaterra. 3) 
E certamente com razão, visto que Petrus Honorici apparece no jura- 
mento de Paris como camerarius ao lado de Stephanus lohannes e 
Rodericus Gomesii de Britteiros.^) A estas e mais provas de de- 
voção, dadas ao Conde, não só emquanto viveu em França, mas 
muito especialmente nos tristes e ruidosos successos que o resti- 
tuíram ao seu pais, transformado em protector e regente e, por 
fallecimento do legitimo monarca, em Rei de Portugal, é que, 
João Peres deveu a sua fortuna. 

De 1248 em deante nunca decahiu na confiança e affeição de 
Affonso III, prestando serviços na conquista do Algarve, no difficil 
governo d' esta tão disputada provinda , e nas guerras e contendas, 
sustentadas por causa d' ella contra o rei castelhano. Juntamente 
com seu filho Pedro Annes teve de ir na primavera de 1263 a 
Sevilha, jurar homenagem das fortalezas algarvias,^) em penhor de 
que o príncipe português ajudaria, em caso de guerra, seu sogro 



1) P. M. K: Scripí. 1, 161 e 319. — Cf. 152, 193, 178 e 341. — Hist. 
Gen.: Provas VI, 673. — Mon. Lus. XV, c. 9, 30, 31 , 34; XVI, c. 5, 23, 52; 
XVII, c. 47, assim como as Escripturas elucidativas no fim da Parte IV e V. 

2) Herc. II, 301 e 475. — P. M. H. : Leges I, 599. — Encontro o mesmo 
personagem em 1226 a assignar o foral de Marvão, ao lado de D. Abril Pires e 
Gil Vasques. E verdade que em ambos os documentos como simples testemunha 
sem conf. e sem dominus^ o que mostra que realmente não era rico -homem. 

3) Herc. II, 385 (Matth. Paris ad. ann. 1242. Nangis, ad calcem Join- 
ville Hist. S. Louis, ed. 1761, p. 185). 

4) Mo7i. Lus. IV, Escr. XXXV. — Cf. Herc. II, 387 e 397. 

5) Tavira, Loulé, Faro, Silves, Aljezur e Paderne eram castellos postos 
em terçaria de 1263 — 1267. 



— 357 — 

com cincoenta lanças, estipuladas pouco antes em um tratado de 
paz, destinado a pôr termo ás longas desavenças sobre o dominio 
das terras arrancadas aos mouros.^) Em 1264 collaborou na de- 
marcação dos limites de Leão e Portugal. 2) Três annos mais 
tarde, após a visita paga ao avô por D. Denis, criança de cinco a 
seis annos, obteve a quitação das cincoenta lanças e ordem de 
entregar os castellos a Affonso III, que desde então ficou em pleno 
e pacifico senhorio do Algarve.^) Ainda em 1282, quando D. Denis 
já empunhara as rédeas do governo, voltou novamente a Sevilha, 
como embaixador, no acto de se publicar a sentença contra Sancho, 
o infante bravo e rebelde.*) 

Na corte, D. João Peres desempenhou vários cargos. Durante 
algum tempo foi alferes.^) De 1254 em deante serviu de mordomo 
da menina e futura rainha D. Beatriz,^) passando em 1264 a 
mordomo da cúria.'') De 1258 em deante pertencia ao conselho 
dei Rei,^) a cuja reconciliação com a egreja, in extremis, assistiu 
e que o nomeou seu testamenteiro.^) Foi também procurador de 
Évora 1*^) e da comarca do Alemtejo. ^i) Continuou a prestar serviços 
durante o curto periodo da regência de D. Beatriz e no tempo de 
D. Denis. 12) Em Junho de 1287 era fallecido. i^) 

1) Sobre as pazes de 1263, a ratificação de 1264, e a remissão de 1267 
consulte -se Herc. III, 66, 74 e Nota IX. 

2) Mon. Lus. XV, o. 30. — Santarém, Quadro I, 2 e Corpo Dipl. I, 19. 

3) Mon. Lus. XV, c. 34 — Santarém, Corpo dipl. I, 16 e 23. A 
carta, pela qual Alfonso X manda a D. João de Aboim e Pedrannes de Portel 
entreguem os castellos ao seu soberano, alsolvendo - os da homenagem e 
cedendo todo e qualquer direito ao Algarve, é de 16 de Fevereiro de 1267. 

4) Santarém, Quadro I, 112; Figanière, Rainhas de Portugal 123. 

5) Ha um doe. de 1250 onde assigna como sub-signifer ou alferes 
menor. — P. M. K: Leges I, 636 e 652. — Mon. Lus. XV, c. 18 (1254). 

6) Mon. Lus. IV, Escr. 31; Figanière, Rainhas de Portugal 122, 248 
e 249. 

7) P.M.H.: Leges I, 213, 215, 216, 217, 706, 710, 716, 733 etc. 
E uma longa serie de leis e foraes de 1264 — 1273, confirmados por Domnus 
Joannes Petri de Avoyno maiordomus curiae. 

8) P.M.K: Leges I, 198. 

9) Hist. Oen.: Provas I, 56 — Mon. Lus. XV, c. 47. 

10) P. M. H.: Leges I, 736: temns Elboram (a. 1277). — Diss. Chron. I, 
294. — Mon. Lus. XVI, c. 23, 25, 26. 

11) P.M.H.: Leges I, 729 e 730: tenens terrani de Ultra- Tagum 
1273. — Mon. Lus. V, Escr. 8. 

12) Mon. Ltts. XVI, c. 36. No anno 1283 ainda assigna como tenens 
Ultra -Tagum. — Cf. c. 25, 26, 28, 31, 38, 44 (por erro 34). 

13) Mon. Lus. XVI, c. 52; cf. c. 48. — Rev. Lus. V, 125 — 127. É abso- 
lutamente impossível que o illustre privado de Affonso III seja o mesmo 



— 358 — 

§ 237. A mais importante entre as innumeras mercês e doações 
que logrou, pro multo servido quod mihi fecistis bene et fideliter 
longo tempore in Francia, in Hispânia, in regno Portugalliae , ^) 
foi a licença, de construir o castello e de repovoar a villa de 
Portel, 2) o antigo „Marmelar", ficando com o senhorio de todos os 
direitos espirituaes e temporaes. Em conformidade com este pri- 
vilegio, D. João, juntamente com sua mulher e o primogénito, deu 
foral á nova villa, datado de 1 de Dez. de 1262, segundo o foro 
e costume de Évora. 3) Mandou construir ahi, de 1258 a 1268, 
segundo cálculos de Herculano, o mosteiro do Marmelar, com a 
egreja de S*** Maria, de accôrdo com o insigne Affonso Peres Farinha,^) 
doando -a e sujeitando -a com todas as mais de seu termo (que de 
futuro se fundariam) a Ordem dos Hospitaleiros. Foi ahi que es- 
colheu sepultura para si e sua mulher D. Marinha Affonso, filha 
d'aquelle Affonso Pires de Arganil, que trouxe as cabeças dos 
mártires de Marrocos para Santa Cruz de Coimbra depois de 1220, e por 
mandado do Infante D. Pedro (1 187 — 1258).^) Esta valiosa doação*^), 
outorgada in puram et perpetuam eleemosynam, levantou tal brado 



personagem que figura como juiz de Betanços em uma escriptura gallega de 
compra, relativa á herdade de Armeá, effectuada entre o mosteiro de Sobrado 
e D. Maria Peres (a Balteira) em 1 de Junho de 1257. {Rev. Crit. Ilist. 
Litt. I, 234.) Bastará lembrar que em Galliza ha nada menos de seis aldeias 
de nome Abuim e que nessas houve certamente sempre muito João. 

1) Mon. Lus. XV, c. 36: . . . et in aliis locis uhi mihi neeesse fuit. 

2) A primeira licença, relativa a esta fundação , é de 1257. Ordena ao 
concelho de Évora que dê a D. João dilatada herdade nas proximidades de 
Portel, no valor de 6000 sólidos, a qual veio a ser demarcada e coutada em 
1265. — Vid. Diss. Chron. I, 295. — A villa fica próxima ao rio Degebe, 
ou Ogidebe, affluente do Guadiana. 

3) P.M.H.: Leges I, 703: Todolos moradores de Portel e de seus 
termhos . . . devem seer nossos vassallos e obedecerem a nos e a todolos 
nossos successores assi como a senor ... Cf. ib. 489 o foral do Marmelar, 
dado na época de Sancho I (1194). 

4) Sobre este benemérito Prior dos Hospitaleiros e a extensa inscripção 
coUocada nas traseiras da egreja de Sta Maria, veja- se a argumentação op- 
posta por Herc. (II, 327 e 491) á Nova Malta de Figueiredo. N' ellas diz. 
Frater Alfonsus Petri Farina Ordinis Ospitalis Sancti Johannis leroso- 
limitani existens etatis L annorum incepit edifícare hoe monasterium per 
mandatwn nobillissimi domini lohannis Petri de Avoyno qui dedit in 
elemosina ordini ospitali hereditatem pro fundatione istius monasterii et 
cum mugnis possessionibus dotavit. 

5) Script. 112, 113, 115. A degollação teve logar a 16 de Jan. 1220. 
Ignoro a data da tresladação dos restos para Coimbra. 

6) Mon. Lus. V, Escr.Q, de 2 de AbrU de 1271. 



— 359 — 

que ainda no sec. XVI o senhor de Aboim era habitualmente desig- 
nado como „o que deu a villa do Marmelar á Ordem de S. João."i) 

O appellido de Aboim, 2) que o filho de Pêro Ourigues da 
Nóbrega escolhera para si, por ser nado e criado no logar d' este 
nome, não perdurou: o filho Pedro Annes, que desde 1263 accom- 
panhára o pae em quasi todos os seus feitos, ora como tenens Al- 
garhium, ora como governador de Leiria, entitulou-se de Portel.^) 
Do seu consorcio com D. Constança Mendes de Sousa, bisneta do 
Conde D. Mendo, nasceu, como ficou explicado, entre outros filhos, 
D. Branca Pires, casada com um dos filhos illegitimos de D. Denis, 
o trovador e linhagista Conde de Barcellos. Este foi quem herdou 
parte dos bens do d' Aboim, Outra filha, D. Maria Peres matri- 
moniou -se com D. Denis Affonso, bastardo do Bolonhês. 

Lembrarei ainda que o esposo de D. Marinha Affonso adquiriu 
para a sua fundação uma relíquia, parte do lignum crucis, por 
esta ter brilhado mais tarde nas mãos do Prior dos Hospitaleiros 
Frei Álvaro Gonçalves Pereira, avô do Condestavel, na batalha do 
Salado,^) segundo a lenda contada no Livro do Conde. Pedro Annes, 
fiel servidor de D. Denis, parece ter tido pretensões literárias, sem 
todavia ser poeta. Um seu capellão, Gil Peres, traduziu, por sua 
ordem, e por ventura a pedido do monarca, a importante crónica 
do mouro Eassis, juntamente com o nobre architecto árabe Mestre 
Mafamude. ^) 

§ 238. Como poeta João Peres ensaiou-se, como a maioria 
dos trovadores alfonsinos, nos três géneros consagrados na corte 
portuguesa, compondo ao todo 33 poesias. Seu nome apparece, 
por isso mesmo, três vezes no índice: a encabeçar as cantigas 



1) P. ex. nas obras de André de Eesende. 

2) Em textos latinos (a. 985) a villa de Aboim tem o forma Abulin por 
Abolini, genitivo de Abulinus, nome próprio que occorre em outro docu- 
mento de 974. — Vid. Archeologo Port. IV, 198. 

3) D. João perpetuou todavia o nome de Aboim, edificando outra villa 
do seu appellido perto de Elvas. — Nova Malta II, 195, n. 72. — A quinta 
e a casa de S. Maria d' Aboim, adquiridas tarde, no anno de 1270, e que 
nas inquirições de D. Denis foi achada honrada, também permaneceu pouco 
tempo na familia, pois que no reinado de D. Affonso V foi comprada por 
um Fernão Martins, criado do arcebispo de Braga. — Mon. Lus. XVII, 
c. 47. 

4) P.M.H.: Script. I, 186 — 189. 

5) Cf. André de Resende , Epist. ad Bartol. Cabed. e Antig. Evor., c. 1 1 . 



— 360 — 

295 — 311; 665 — 677 e 1400 — 1402. Todavia não nos podemos 
gabar de conhecer o pecúlio inteiro. As 17 cantigas, certamente de 
amor, que constituíam a primeira serie faltam, todas, nos apographos 
italianos, e também no códice português, menos uma (CÁ 157). As 
onze, collocadas entre os cantares de amigo (CV 267 — 277), são gra- 
ciosas e fluentes. Uma é uma Pastoreia. Aboim dirigindo -se a 
cavallo a Santiago de Compostella, pelo caminho francês, encontra 
um grupo de pastoras. Uma d'ellas queixa -se de desgostos de 
amor, entoando versos de estylo popular, provavelmente tradicionaes, 
quer fossem do próprio Aboim, quer de autor diverso: 

Nunca molher crea per amigo, 

pois s'o meu foi e non falou migo!^) 

A esses uma das companheiras replica, cheia de paixão e de es- 
perança : 

Deus! ora messe o meu amigo 

e averia gran praxer migof^) 

Críticos estrangeiros ^) acharam frisante a semelhança entre esta 
scena e outra, esboçada por Gruiraldo de Bornelh, numa pastoreia 
a la usanxa antiga A) E na verdade, este Provençal, enaltecido 
por Dante ^), e que fez esforços para obter a primazia sobre todos 
os trovadores, alcançando o titulo de mestre,^) apresenta três donzelas 
a cantar {três tosas en chantan).'') Mas a igualdade cifra -se só nisso. 
As suas pastoras, verdadeiras palacianas disfarçadas, deploram a des- 



1) Cf. CV 843. Nunca jamais per amor ereerei, Pois que me mentiu 
o qtie namorei. — Ib. 418. E ja qual molher devia Ch-eer per nidh' ome 
nado. — CD 1125 — 1128. Oi mais nom é nada Be fiar per namorado 
Nunca molher namorada Pois que mi -o meu a errado. — CD 2101. Nunca 
molher deve, bem vos digo, Muit' a creer perjuras d' amigo , onde devemos 
ler per juras., considerando per como adverbio, como em todos os mais 
exemplos que juntei. E um logar commum da poesia popular. Lang 
(CD p. LXXII) forneceu um exemplo francês e outro italiano. 

2) Cf. CV300. Par Deus se ora, se ora chegasse! Co el mai leda 
seria. Jeanroy (p. 133) diz: il ne serait pas impossible que quelques uns 
de ces refrains appartinssent réellement à la poésie populaire; malheu- 
rensement rien n' autorise à V affírmer. 

3) Jeanroy 133; Lang XXXV e LXXV; Mod. Lang. Notes X, 
226 — 227. 

4) Lo douz chant d' un auxelh. Bartsch , Qrundriss 242 , 46. 

5) De vulg. eloq. 2, 2. 

6) Appellidam-no também o poeta da honestidade. 

7) A meu ver, as pastoras introduzidas por Aboim são quatro, mas 
apenas duas cantam nas estroplies conservadas. Supponho que a poesia con- 
tinuava em outras tantas estancias, cada uma com seu dístico final. 



— 361 — 

mesura e o dano que han tomado alegria e solaz, cingindo -se 
ás ideias do trovador, que lhes expõe, moralizando, desventuras e 
gravames pessoaes. 

Muito mais parecidas são na sua frescura, não raras vezes 
excessiva, as campesinas e serranas dos romances e das pastoreias 
francesas, de cuja bocca ouvimos numerosos cantarcillos semi -popu- 
lares, aparentados com os de cá, embora ás vezes sejam de uma 
precisão e um realismo que contrasta com o candor vagamente 
poético das manifestações da musa gallaíco -portuguesa.^) Mesmo o 
principio da composição portuguesa — Cavalgava noutro dia — irmana 
perfeitamente com a typica introducção francesa: Je chevauchoie 
V autrier.^) As três damas também não faltam em exemplares do 
Norte da França. 3) Mal se pode duvidar que o companheiro do Conde 
de Bolonha se deleitasse em saborear em Paris, no quarto e quinto 
decennio do sec. XIII, os productos lyricos então mais em voga, e 
que estes o impressionassem sufficientemente para não precisar de 
modelos directos da Provença^) no acto de poetar. Chronologica- 
mente, a sua Pastoreia pode ser a primeira das pouquíssimas que 
subsistem nos cancioneiros gallaico -portugueses. 5) 

Quanto á cantiga CV279 que, sendo de amor, está fora do seu 
logar, as indicações não são concordes. No CA esta poesia figura 



1) Cf. Jeanroy, especialmente Parte I, c. 1 e 5 e Parte 11, c. 5. A 
pag. 114 lê -se: »quand un chevalier aborde une bergère il est rare que 
celle-ci ne soit point occupée à chanter et quand le poete nous dit ce qu'elle 
chante, o' est ordinaireraent un refrain. « — Bartsch, Altfranxosischc Ro- 
inanxen und Pastourellen. Leipzig 1870, Parte I, 20—26, 31, 34 — 36, 
38, 41, 4õ, 48, 49, 51, 53; Parte III, 38, 48, 57, 69, 71. 

2) Das 241 composições, entre pastoreias e romances colleccionadas por 
Bartsch, um cento pelo menos começa com a formula: „outro dia, «con- 
tinuando com o verbo « cavalgar": IJautricr chevauchoie, Uautrier quant 
me chevalchoie, Uautrier chevachai pensis e por ahi alem ctmi gratia in 
infinitum. As restantes indicam a localidade, como as serranilhas peninsu- 
lares (p. ex. Entre Arras et Douai), ou pintam dias de Abril e Maio pelo typo: 
Huimain ou dolx móis de mai ou Le pre?nier jour de mai. 

3) Bartsch, Homanxen u. Past. I, 20: Trois sereurs seur rive mer 
chantent der; ib. 21 onde assistimos ao colloquio cantado por três casadinhas 
mal maridadas. — Cf. CV867: Três moças cantavan d'a7nor, Mui fremo- 
sinhas 2Jastores. 

4) Não será demais repetir aqui a phrase discutidissima de Eaymundo 
Vidal : La parladura francesa vai mais et es plus avinenx a far romanx 
et pastourellas. 

5) Depois d' elle appareceram apenas quatro rivaes: primeiro Pedr' 
Amigo (CV 689) e Lourenço (866 e 867); depois Aires Nunes (464) e 
D. Denis (102, 137 e 150). 



— 362 — 

no meio de versos que vão attribuidos nos apographos italianos a 
Rodrigu'Eannes Redondo, mas como nella se manifestam reminis- 
cências de modelos franceses, parece -me antes de D. João. Assim 
o entende Lang, conferindo o distico: 

non saben tanto que possan saber 
qual est a dona que mi fax morrer 

com outro de Baudouin de Conde 

Ja par moi n' iert noumée 
Ceie que fai amée. 

Mas, accrescento eu, a mesma ideia se repetiu tantas vezes na 
Provença e na França, e tantas vezes também em Portugal, que 
para acreditarmos num empréstimo directo, seria preciso correspon- 
dência de forma muito mais pronunciada. 

As três cantigas de maldizer são tenções pouco saborosas, de 
modo algum isentas de palavras tão baixas, que admira encontrá-las 
no vocabulário de um rico-liomem da confiança dei -Rei, mesmo 
na idade -media. Na primeira (CV1009), que versa sobre as más 
qualidades de um jogral, o Senhor de Aboim é apostrophado pelo 
seu parceiro D. João Soares Coelho simplesmente de João Peres, 
motivo insufficiente para a julgarmos anterior ao seu supposto le- 
vantamento á categoria de rico -homem. O titulo de Aboim é-lhe 
concedido na segunda (CVlOll),^) em que o „accomettedor" Coelho 
moteja da sua vaidade de poeta, amesquinhando o seu talento. Na 
ultima (CVIOIO), o magnate trava razões com Lourenço, 2) dis- 



1) Está incompleta, faltando a quarta estrophe. 

2) Com relação a Lourenço remetto o leitor kBiogr. XXXVIII e á 
Randglosse I, 57. Devo emendar todavia algumas indicações e apreciações 
menos correctas d' aquelle estudo. ' Os versos 1 — 3 da cantiga CV 1022 , em 
que se repete três vezes a palavra joero, parecem -me adulterados. O primeiro 
pêro pode ser o adverbio per hoe, mas também a forma familiar do nome 
Pedro. O mesmo advirto sobre a cantiga 1051 , que principia também com 
as palavras Pêro Lourenço. Subsistem d' elle duas cantigas de amor (CV 693 e 
706); sete de amigo (CV 865 — 871); oito tenções em que o vemos ora agredido 
violentamente por D. João de Aboim (CVlOlO), D. João Soares Coelho 
(CV 1022 e CB1601), João Garcia (CV 1104 e 1105), ora accomettendo 
cavalleiros como Rodrigu' Eannes (CV 1032) , Pêro Garcia (CV 1034) , João 
Vasques do Talavera (CV 1035) e Martim Moxa (CV 1036) ; e ainda um sir- 
ventês (CV1033), lançado contra Pedr' Amigo, o qual replicou em o No CV1202. 
A ousadia da jogral, a sua jactanciosa philaucia, o arrojo de querer celebrar 
damas da corte em versos de amor, mas em especial os talentos indubitáveis 
do humilde cantor, despertaram ciúmes e despeitos da parte de trovadores 
que, desfazendo systematicamente tanto da sua sua arte como dos seus costumes, 



— 363 — 

tincto jogral dos poucos que se metteram a trovar, não satisfeitos 
com a faina de somenos valia de cantar e tocar composições 
alheias. 

P.S. Muito depois de eu ter redigido o meu artigo, publicou - 
se em Lisboa a obra histórico -heráldica de grande merecimento, 
entitulada Livro Primeiro da Sala de Cintra por Anselmo Braam- 
camp Freire^), segunda edição de artigos, escriptos em 1884 para o 
conhecido jornal Diário lllustrado, que não cheguei a vêr. Nelle ha, 
intercalado no capitulo consagrado aos Sousas (IX), um excurso (III) 
sobre a familia de Aboim, embora o seu brasão esquartelado 2) 
(1 6 4 enchequetado d' oiro e azul de três peças em faixa, e três 
em pala; 2 e 3 d' oiro, três palas de azul) occupe apenas o 42° 
lugar na sala manoelina dos veados. D' este excurso, riquíssimo em 
noticias exactas e que muito recommendo ao leitor curioso, vou 
transcrever o trecho que se refere ao engrandecimento da casa pelas 
doações e heranças abarcadas por D. João o clientulus et fidelis vas- 
sallus do rei registadas no Livro dos bens. 

„Pelo livro se vê a ambição do valido de D. Affonso III; tudo 
lhe convinha, contanto que augmentasse as suas riquezas. Encon- 
tram -se ali cartas de doações, privilégios, diligencias, compras, 
vendas, adopções para heranças, quitações e outros contratos; uns 
do rei, outros de varias ordens militares e monacaes, de vários 
concelhos, de cidades e villas, que o recebiam com sua mulher e 
filhos por seus vizinhos, dando -lhe herdades, e finalmente de 
particulares que lhe vendiam, ou davam, ou deixavam seus bens, 
adoptando -o por filho, a elle, ou a seu filho mais velho, para her- 
darem a metade, ou a terça parte de suas legitimas, mesmo havendo 
filhos. Começam os registos da era de 1287 (a. D. 1249) em 
deante. ^) 

Quanto a rapinagem, de que Herculano o accusara, seu per- 
spicaz continuador prova que no caso especializado na Historia de 
Portugal, o D. João, pae de D. Pedro Annes, obrigado a restituir 



o afugentaram da corte portuguesa. Parece que retirou para Castella onde 
o encontramos, ligado com I). Pêro Gomes Barroso, um dos trovadores 
de Affonso X, oriundo de Portugal (CV 1051). — Cf. Biogr. XXI. 

1) Lisboa 1899. Aproveitei-o, na revisão d' este volume. 

2) Pag. 114 — 144. 

3) Uma carta de quitação geral de todos os contratos, directa ou in- 
directamente havidos entre o rei e o seu mordomo, foi -lhe de resto con- 
cedida em 3 de Janeiro de 1276. 



— 364 — 

ao concelho de Sortelha certos bens usurpados, não era o Senhor 
de Aboim, mas sim D. João Martins Chora. ^) 

XV. D. Joan Soares Coelho. 

§ 239. Incontestavelmente este é um dos trovadores mais 
notáveis, tanto pelo numero das suas cantigas, como pelas suas 
relações litterarias com Alfonso X e ainda com um dos provençaes 
que visitaram as cortes peninsulares. Em razão do seu contacto 
com outros poetas portugueses — todos elles alfonsinos e pre- 
alfonsinos — já tive ensejo de me referir a Coelho em paragraphos 
anteriores, 2) assim como em varias notas finaes,^) em que com- 
mento as cantigas. 

João Coelho^) ou Joan Coelho, na legitima forma archaica, 
empregada no códice membranaceo) , 5) Joam Soares,^) ou ainda, 
mais correctamente, D. Joam Soares Coelho,'') teve illustres avoengos, 
como tantos outros trovadores gallaíco- portugueses. E tronco dos 
Coelhos de Riba -Doiro um certo D. Munho Veegas, denominado o 
Gasco , por ter passado de Gasconha para Portugal no sec. X ou XI. s) 
A gloria principal da linhagem cifra -se na histórica façanha do 
decantado Egas Moniz, prototypo da gram fidelidade foriuguesa e 
para leaes vassallos claro espelho.^) Filho, creio que segundo -genito^^) 
de Suer Veegas, que foi o primeiro entre os Ben-Egas, apodado 
pelos seus Íntimos com o sobrenome Coelho, João Soares tinha por 
avô materno, conforme já ficou dito, a Mem Moniz, Senhor de 
Candarey, dado pela tradição como um dos valentes que primeiro 
entraram em Santarém, na noite de 15 de Março de 1147.^^) 



1) Accrescentarei ainda que na Bibl. Mun. Ebor. se conserva um con- 
trato de D. João de Aboim com o bispo e cabido de Évora (MS. CIX. , 1 — 15). 

2) Biogr. IV, VII, IX, X, XIV. 

3) CA 89 e 104 — 107. 

4) CV 1009, CB 1511. - Cf. CB 466. 

5) CA 89. 

6) CV 786, 1009, 1011, 1021, 1022, e CB 1501. 

7) CV 280, 1012, CB 1501, assim como na passagem correlativa do 
índice. 

8) Cf. Biogr. V, p. 339, nota 2. 

9) Lus. I, 41 e VIII, 13. — Herc. I, 492. 

10) Nos Nobiliários é mencionado em primeiro legar seu irmão Pêro 
Soares Coelho ou Coelhinho. — Vid. Script. 159. 

11) No bello poema em prosa latina, quasi coevo do feito (attribuido 
por Herculano a um nionje de Alcobaça), em que o próprio Ibn - Erric apparece 
narrando as particularidades do insidioso accommettiraenta^o verdadeiro heroe 



— 365 — 

Avô paterno era Egas Lourenço, e bisavô Lourenço Yeegas, o 
Espadeiro, o que amou muito el rey D. Affonso Henriques, e non-no 
chamava senão irmão, porque o criara seu padre A) 

Entre as varias formas alatinadas do nome, que occorrem fre- 
quentes vezes em diplomas régios, as mais usadas são: Johannes 
Suarii — Domnus Johannes Suarii — Domnus Johannes Sugerii 
Conelius — lohannes Suarii Conelyo (ou Conelio), lohannes Sugerii 
Coello , ou então, com maior exacção Dominus Joluxnnes Suerii 
Conelius.^) Nas versões usa- se de vez em quando João Sueiro 
Coelho.^) Como conselheiro de Affonso III assistiu, embora com al- 
guma irregularidade, na corte portuguesa, de 1250 a 1279, quer 
ella estacionasse no Algarve, quer em Coimbra, Lisboa, Santarém, 
Leiria, ou alhures.^) Mas nunca occupou cargo algum aulico ou 
administrativo que o obrigasse a ficar de assento em Portugal. A 
falta da sua assignatura durante annos,^) não só em documentos 
onde, depois de confirmados pelos mais altos dignatarios, se nota 
a formula: et per alios de consilio ou no texto: de consensu et 
auctoritate meorum procerum , mas mesmo em outros abundantemente 
providos de assignaturas, talvez indique que João Soares, de caracter 
independente, costumava ausentar -se da pátria, andando terras, para, 
mais propenso ás bellas- artes do que a negócios do Estado e em- 
presas bellicas, se inteirar da evolução da arte de trovar, e também 
para espalhar sons seus, e as suas palavras, pelas outras cortes 
peninsulares, como verdadeiro trovador. 



é Metn Eaniires. De companheiros seus, apenas são mencionados Gonçalvo 
Gonçalves, Fernam Peres, um jovem Moqueime e um renegado, Martim Mohab. 
— P.M.H.: Script. I, 93 — 95. — Herc. I, 362 e 526. — Mas isso, se não 
autoriza, tão pouco invalida a asseveração dos linhagistas, porque evidente- 
mente mais de cinco tomaram parte no assalto, reclamando em seguida a 
gloria de actores principaes! 

1) P.M.H.: Script. l, 150, 159 e 317 — 318. Egas Lourenço era, de 
resto, filho natural. — Mon. Lus. X, c. 21. 

2) Em 1250 e 1255 Coelho assignava singelamente Johannes Soarii; 
mas como vários outros cortesãos (um notário, um templário, commendador 
de Lisboa, um cónego, um arcediago de Calahorra e um clérigo d'el-rei) 
usassem do mesmo nome, o rico -homem tentou outras formas, fixando -se 
a final na que indico em ultimo logar. 

3) Frei Francisco Brandão emprega esta forma, p. ex. na Mon. Lus. XV, 
c. 37 e 42. 

4) A sua posição talvez não fosse bem definida. Vejo -o tomar assento 
ora entre ricos -homens, ora entre infançÕes. Em geral só sei-ve de teste- 
munha, sem confirmar. 

5) De 1255 — 1256, 1259 — 1260, 1262 — 1265, 1268 — 1271. 



— 366 — 

As ténues memorias que d'elle ficaram, habilitam -nos afixar 
algumas datas da sua residência em Portugal. Depois de accom- 
panhar o Bolonhês na conquista do Algarve, i) este capitulo obscuro 
da historia portuguesa, confirma em Coimbra a outorga dos bens 
do Mouro Abozoab ao chanceler Estevam Annes (1250). 2) De 
ahi por deante assigna alguns foraes: 1252, o de Elvas e Torres - 
Vedras; 1253 o de Yinhaes. Em 1254 foi agraciado nas cortes 
de Leiria com a villa do Souto da Eibeira. ^) Um anno depois con- 
firma o foral de Aroche; 1257 o de Monforte; 1258 o de Aguiar 
da Beira; 1261 o de Monsão; 1266 os de Silves, Murça, Noura 
e Pena da Bainha. Em 1269 assiste em Lisboa á promulgação das 
leis sobre os Mouros forros do Algarve. Em 1273 põe o seu nome 
por baixo do foral dos Mouros forros de Évora, e do de Freixo, 
e Monforte de Rio Livre,*) depois de haver tomado parte, no anno 
anterior, na reunião de magnates onde se decretou a lei dos ricos 
homens e cavalleiros que faziam assuada.^) 

Em 18 de Dezembro de 1278 apparece nas cortes de Santa- 
rém.^) A 18 de Março de 1276 não falta na audiência, dada ao 
Núncio Frei Nicolau, '') nem tão pouco no acto da reconciliação do 
rei moribundo com os poderes ecclesiasticos (i7 de Jan. 1279). 8) 

Na época de D. Denis,^) depara -se -nos apenas seu filho Pêro 
Annes, ^<*) escolhido em Junho de 1278 para entrar na plêiada de 
próceres que iam constituir a casa do herdeiro da coroa, ^^) d' ahi 
em deante associado ao poder régio, debaixo de cujo peso vergava 
o usurpador, doente, cheio de remorsos e excommungado. 



1) Mon.Lus.^Y^ c. õ, 7 e 9. 

2) Ib. XV, c. 7. 

3) Arch. Nac. , Livro de Âffonso III, foi. 4, segundo Brandão na Mon. 
Lus. XV, c. 9 o 18. — O nome geographico falta na abundantíssima Ghoro- 
graphia moderna. Mas, no dizer de Brandão XVI, c. 2, trata -se de Souto 
de Riba de Homem, no Minho {Livro I de Alem Douro f. 216). 

4) P.M.H.: Leges I, 620 — 733. 

5) Ib. 223. 

6) Ib. 229. 

7) Mon. Lus. XV, c. 42. 

8) Mon. Lus. XV, o. 37. 

9) E sabido que a publicação dos P. M. H. assim como a Hist. de Port. 
alcançam apenas o fim do reinado de Affonso III. 

10) Já sabem que alguns companheiros de João Soares continuam a 
figurar na corte do successor. 

11) Mon. Lus. XVI, o. 15—17. 



— 367 — 

Este filho, fallecido antes de 1317,^) não se distinguiu por 
feitos de nomeada. Os historiadores apenas o citam como pae de 
um dos três algozes de Inês de Castro, aquelle Pêro Coelho, cujo 
sobrenome provocou o atroz gracejo attribuido, pela lenda e tardia- 
mente, ao Justiceiro.^) Das filhas trato em outro logar. 3) Bastará 
lembrar aqui que uma d' ellas morreu em 1282, segundo o epi- 
taphio^) e se dermos fé aos nobiliários, ao cabo e por motivo de 
aventuras singulares de amores criminosos por que passou depois 
de casada. Outra (Mor Eannes) casou com João Peres de Porto- 
carreiro, sobrinho d' aquelle audacioso Raymundo que em 1245 se 
apossou da rainha D. Mecia Lopes, levando -a a Ourem. Quanto á 
mulher de João Soares, nada consta além do nome e da naturali- 
dade: D. Maria Fernandes, Dordiis, Dordiz ou Dordees, de Galliza. 
Talvez S*« Maria de Ordês? 

§ 240. Tudo o mais que sabemos de João Coelho é inferido 
de versos seus e de outros alheios. Apura- se que, embora gentil - 
homem, o trovador, ávido de gloria e bastante jactancioso, sahiu 
da sua terra em peregrinação. Dma vez gaba -se de que o mais 
atrevido entre os jograes da corte ainda não tinha implicado com 
elle, chamando -se então trovador pela graça de Deus,^) e explicando 
a reserva de Lourenço com o medo que a sua habilidade superior 
lhe incutia: 



1) As indicações de Argote de Molina (Nobl. Andai. II, c. 153) que 
nos dá D. João Soares Coelho vivo c sano em 1320, a tomar parte com as 
armas na mão nas contendas de D. Denis com o seu primogénito, não tem 
fundamento algum. Penso que ha confusão com outro João Coelho (II) , filho 
de Estévam Coelho (I) e bisneto do trovador. Cf. o quadro genealógico no 
fim d' esta Biographia, 

2) „Ell Rey deu hum grande açoute a Pedro Coelho no rosto .^ e elle 
soltou, dizendo contra EU Rey: Ah! tredor! fé perjuro! algox, dos ornes! 
carniceiro! E EU Rey dixe que lhe trouocessem cebolla e vinagre pêra o 
Coelho . . . e tnãdou tirar o coração pellos peitos a Pedro Coelho . . . e 
dixe Pedro Coelho ao que lhe tirava o coraçam: „Mete a mão á parte 
esquerda e achalloâs mayor que de hú touro e mays leal que o de hu 
cavallo (Acenheiro, Chron. p. 18). Os relatores antigos attestam, pelo con- 
trario, que Pêro Coelho morreu contritamente, reconciliado com todos aquelles 
que o haviam sentenciado. — Script. 221 e 310. — No sec. XV houve outro 
Pêro Coelho entre os poetas da corte de Alfonso V, o aragonês. — Víd. 
Canc. Gomez Nieva fl. 79 (p. 45) e A. de los Rios VI, 457. 

3) Nas Notas relativas á cantiga CA 89. 

4) Era MCCGXX, 17 Cal. Sept. ohiit D. Urraca Joannis Coella filia 
Joannis Sugerii Coello et uxor Sugerii Menendi Petiti. 

5) CV 1011 , 20 . . . trohar que mi Deus deu. 



— 368 — 

porque sáb' el que quant' en trohar jav 
que mi- o sei todo^ e qu'é tod' en mi! 

Nesta occasião allude vagamente ás suas relações internacionaes : 
6 do que se polo mundo faz, sei.'^) Em outra tenção, com o jogral 
Juião, af firma que este nem de longe correra tantas terras, nem 
tão boas, como elle, seu senhor. 2) Ha mais uma em que Picandon, 
official da mesma arte, vindo de fora, pede ao fidalgo português, 
cujos dons está esperando, o favor de o recommendar /^er w /bs.se.^) 
E verdade que as únicas cidades estrangeiras, citadas nas cantigas 
de Coelho, são Toledo e Orgaz. '^) Com relação a uma ama por 
elle celebrada, ainda se menciona a comarca de Burgos a Carrion, 
e muito vagamente toda Castella. '*) Fora d' isso, unicamente logares 
pátrios.^) Mas tal pobreza de referencias nada prova em vista do 
caracter convencional da poesia palaciana. 

§ 241. Era Toledo, Orgaz, Burgos ou Carrion, ou em qual- 
quer outra residência hespanhola. Coelho viu o afamado En Sordello 
de Goito, Mantuano de origem, mas provençal pela sua lingua e 
arte. Devemos suppôr que travou relações com elle, alcançando 
que o altivo aventureiro, enaltecido na Divina Commedia'^) e no 



1) CTlOll, V. 17. 

2) CV 768: Joan Soares de pran, as ^nelhores \ Terras andastes 
que eu nunca vi \ ... Joan Soares, nunca vi chamada \ Molher ama nas 
terras u andei | . . . En as terras u eu soia viver \ Nunca mui hõa 
dona vi tecer. 

3) CV 1020: Joan Soares, mui de coraçon \ Vos perdoar ei que mi 
dedes don \ E mi busquedes prol per u andardes. 

4) CV 1011. O de Aboim, motejando de certas bravatas de Coelho, 
replica: ca ben o podedes dizer assi, \ E que é vosso Toled' e Orgax. Só 
então na resposta é que Coelho se serve da mesma formula: mais Toledo 
nem Orgaz non poss^ eu aver. 

5) CB1511. — Cf. Randglosse I, 26 — 27. 

6) CV 1014: Lixboa, Santarém, Coimbra, Runa, Arnado, Amarante. 
— Cf. 1092: Eno Beote cabo Santarém,. 

7) Purg. YI e YII. — Copio apenas a bella apostrophe em que o 
Dante celebra o trovador: 

O anima lombarda, 

come ti stavi altera e disdegnosa, 

e nel mover degli occhi onesta e tarda! (VI 61.) 
A outra, dirigida por Sordello a Virgílio, seu compatriota, ó citada por San- 
tilhana na Carta ao Condestavel (§ õ) : 

O gloria de' Latin — disse — per cui 

mostro ciò che potea la lingua nostra! 

O pregio eterno dei loco ond' io fui . . . (VII, 16.) 



— 369 — 

tratado De Vulg. Eloq.,'^) imitado mas também hostilizado pelos 
poetas coevos, lhe recommendasse um jogral, capaz de o entreter, 
cantando e tocando muitas canções e boas. E Picandon, cujo nome 
ainda agora alleguei. Mas antes de esmiuçar esta difficil questão, 
será bom dizer mais duas palavras das obras de João Coelho. 

§ 242. Del Rey ahajo, um só entre os trovadores nos deixou 
colheita maior de versos, 2) e poucos ha, como oBurgalêseGuilhade, 
que emparelhem com João Soares, legando -nos mais de 50 com- 
posições. 'Eo índice, o seu nome encabeça as cantigas 312 — 330, 
678 — 692 e 1403 — 1416, sempre immediatas ás de seu com- 
panheiro D. João de Aboim. Pela concordância com o que ficou 
assente a respeito das obras d' esse trovador, de D, Yasco Gil, 
Pêro Garcia, Euy Queimado, e Torneol, o leitor, suspeitando a 
verdade, procurará de certo no primeiro grupo, cantigas de amor\ 
no segundo, cantares de amigo, e no ultimo, versos de escarnho. 

Das 22 cantigas de amor, 5 faltam nos apographos italianos. 
Conservaram -se todavia numa folha do CA (N°* 158 — 162) de sorte 
que possuímos o pecúlio inteiro. Ás nossas cantigas 163 — 179 
correspondem CB 259 — 274 (= 316 — 330 do original). Os 15 can- 
tares de amigo estão numerados 280 — 293 no CT, devendo notar - 
se que o ultimo é um conglomerado de dois fragmentos. Os de 
escarnho correm de 1012 — 1025. Entre elles ha um em que se 
apresentam como tençoantes um Pêro Martins e D. Vasco; por 
tanto, mal pode ser adjudicado a Coelho, entre cujos papeis andaria. 
Accrescem, pelo contrario, as duas tenções com o Senhor de Aboim ^) 
e outra com Juião, o jogral.*) 

Entre os versos eróticos, bem feitos e variados, não só quanto 
ás formas métricas, ha duas obras em que, desejoso de novidades, 
embora receando invenções arrojadas, tenta recamar a urdidura con- 
vencional com alguns traços realísticos. Fallo das cantigas da ama^) 
que serviram de ponto de partida a varias outras, por mim já 
examinadas num estudo especial.^) Baldado esforço, porque o 
único effeito da frouxa innovação foi suscitar contra o rebelde cor- 



1) Ed. Pio Rajna I, XV, 2. 

2) João Airas de Santiago. 

3) CV 1009 e 1011. 

4) CV 786. 

5) CA 166 e 171. 

6) Zeitschrift XX: Der Ammenstreit , Randglosse I. 

24 



— 370 — 

tesão a ironia de magnates, como Esgaravunlia (CB1511), Airas 
Peres Yuiturom (CV 1092), D.João Garcia (CB1501 cf.l024), Mar- 
ti m Al velo (CV1025) e de jograes como Lourenço {CV1501 cf.l022) 
e Juião (CV 786). Também nas outras cantigas de Coelho ha, de longe 
em longe, vislumbres da vida real. Uma vez pede a Deus, lhe 
torne a mostrar a amada como a vira num dia memorável: seendo 
con sa madr^ en un estrado. Em outra occasião pinta os porme- 
nores de uma despedida, com tintas na verdade muito pallidas, 
mas aprazíveis: e me non falou, nen me quis dir . ..' | TJ Ih' eu díxi: 
,,con graça, mia senJior," \ Catoume un pouqu' e teve-mi-en des- 
den (CA 174). Yarias vezes expõe aos amigos o seu estado d' alma (177). 
Eespeita a dona amada como se fosse filha de rei (175). Nem mesmo 
ousa chamá-la senfior (167). Para encobrir o seu nome, leva o 
i'equinte até ao ponto de empregar o pronome indefinido alguen (175). 
Quanto aos cantares de amigo, delicados como quasi todos os 
do género, serviu -se na maioria dos casos do scenario e das figuras 
estereotypicas : a namorada, sanhuda quando o amigo se ausenta 
sem sua licença, queixosa quando uma mãe descaroavel a guarda 
com rigor, tristonha ao pé da fonte (onde lava os cabellos), depois 
de ameaçada e ferida por querer ir ao encontro do amado. Alguns 
afastam -se ainda assim da regra; uma vez introduz uma mãe que, 
longe de contrariar o solaz da filha, a protege obrigando -a a, jubi- 
losa , reconhecer tão rara bondade. ^) Aqui e acolá utiliza um prolo- 
quio popular. 2) 

Das cantigas de escarnho, em parte desbragadas, algumas 3) visam 
o mesmo pobre corcunda, de feições mouriscas, que mencionei como 
objecto dos impropérios deMartim Soares, Ruy Gomes e Affonso 
do Cotom.^) Outras 5) occupam-se da extrema myopia d'aquelle 
mesmo D. Estêvam que Ruy Queimado escolheu para alvo de seus 
gracejos^) e de que logo direi mais algumas palavras. Com relação 
a tenções, além das que fez com D. João deAboim e das duas que se 



1) CV 287 e 293^ 

2) Quen ama Deus, ama a verdade (CV 1022); ca diz o vervo que 
non semeou \ Milho qusn passarinhos receou (CV 284); | Quen Deus guar- 
dar non quer | No7i pode guardado, seer (CA 162). 

3) CV 1012 e 1013. 

4) CV 1014 e 1015. 

5) CV 1009 e 1011. 

6) CV 786 e 1022. 



— 371 — 

referem á ama^ subsiste apenas a dirigida pelo próprio Coelho contra 
Picandon. 

§ 243. Mostrando -se ou fingindo -se pouco satisfeito com o 
saber profissional do segrel, perplexo por um mestre como En 
Sordello o ter estimado digno de brilhar na corte, exige explica- 
ções, não sem franzir o sobr' olho senhorilmente : ou vos, ou el 
dad' ende hon recado!'^) como que o mantuano estivesse presente, 
ou a pequena distancia, ás ordens do português. 2) 



1) CV 1021. Eis a estrophe inicial no texto diplomático de Monaci: 

Vedes picandou soo maravilhado 

eu denfsordel que ouçõe tenções 

muytas e boas ey mui boos soes 

como fui enteu preyto tan errado 

poys no sabedes iograria faxer 

por quew) fex p corte guarecer 

ou uos ou el dadende bon recado. 
Tentei a restituição, lendo: 

Vedes, Picandon^ son maravilhado 

eu d' En Sordel de que ouç(o) entenções 

muitas e boas e mui bõos soes, 

como fui en teu preito tan errado. 

Pois non sabes jograria faxer, 

^porquê vus fex per corte guarecer? 

Ou vos, ou el, dad' ende bon recado! 
Mas nos versos 2 e 3 talvez a lição proposta por Lollis seja preferível: 
ouço em tenções . . . e em mui boos soes (1. soes), tomando ambas as vezes 
en {inde) no sentido: da parte d'elle. A forma entenções por tenções era, 
de resto, muito usada em Portugal (CV 1022). Quanto á significação estamos 
ambos de accordo. II primo (Coelho) ehiede, in sostanxa, ai secando 
(Picandon) come mai messer Sordello, autore di cosi buone tenxoni e 
melodie faceia tal conto di lui, cosi poço pratico di giullaria, da ren- 
derlo gradito a corte. — Vita e Poesia di Sordello di Ooito p. 28. 

2) Sordello diz na contenda com Bremon: 

Ben a gran tort ear m' apella joglar, 
c'ab autre vau et autre ven ab me, 
e don ses penre, et el pren ses donar 
q' en son cors met tot qunnt pren per mercê; 
mas eu non pren ren don anta m' eschaja, 
anx met ma renda e non vuoill guixerdon 
mas sol d' amor etc. (VII). 
Isto é: Engana -se, chamando -me joglar; pois vou com outro e outro 
vai comigo; dou setn receber e elle recebe sem dar, embolsando tudo com 
quanto o mimoseiem; mas eu não aceito cousa alguma que me possa 
envergonhar ; antes gasto as minhas rendas e regeito galardão que não 
seja d' amor etc. Mas os seus adversários ainda assim se referem aos dons 
que recebia. 

24* 



— 372 — 

Mas onde? Em Portugal? Na corte do Santo Rei que libertou 
Hespanha de mar a mar e que, segundo o testemunho do filho, 
era juiz muito competente em assumptos de joglaria?^) No paço 
de seu pae, o velho leonês, visitado por trovadores provençaes, 
como Ugo de San Circ e Guiraldo de Bornelh? Ou então, João 
Soares frequentou Jaime, o Conquistador, no seu reino de Aragão? 
E quem era este Picandon que responde em português, não menos 
correcto que o do Italiano Bonifácio Calvo, 2) em phrase cortesã, 
mas tão firme que abrandou as iras verdadeiras ou fingidas do 
seu interlocutor? 3) Um estrangeiro que aprendeu a linguagem 
gallaíco- portuguesa? Ou um peninsular, doutrinado pelo mantuano 
durante a sua estada àquem dos Pyreneos, para que na península 
soubesse entoar com arte os seus sirventeses políticos e moraes e 
as suas canções e esparsas? Ignoramo'-lo, infelizmente. 

§ 243*'. Quanto a esta estada, o ultimo e muito erudito bio- 
grapho de Sordello, opina que ella durou de 1229 a 1232,*) recahindo 
por tanto em uma época em que o gentil capitão, galante de sua 
pessoa, bom musico, bom poeta e grande amador, mas moult iruant 
e falsj já gozava de luzida fama, comquanto esta ainda não tivesse 
attingido o seu auge.^) O terminus ad quem resulta, segundo elle, 
de outra viagem ao Poitou, emprehendida por Sordello (pouco depois 
da ida a Aragão, Castella e Leão) em visita a um grand-seigneur 
francês, Savaric de Mauléon, o eminente fautor e aficionado da poesia 



1) Recordo a passagem bem conhecida da Crónica General: „Pagaba- 
se de ornes de corte que sabian bien trovar et cantar, et de joglares que 
sopiesen bien tocar estru?nentos , ca de esto se pagaba el mucJio et entendia 
quien lo facia bieti et quien no." 

2) Ha todavia pelo menos um provençalismo nas estrophes de Pican- 
don: falimen (v. 14 e 28) por falha. 

3) Na terceira estrophe, Coelho arremessa -lhe doestos veh ementes, 
accusando-o de frequentar tafurarias e tabernas e de ser amigo de rixas. 
Mas na fmda retracta -se, pedindo perdão. Estou em duvida se as letras 
Sinher são realmente a forma provençal de Senhor. Se fosse certo, 
teríamos de reconhecer um provençal em Picandon. Mas o tratamento é 
estranhaveh 

4) Antes do exame a que Cesare de Lollis procedeu, fora costume 
coUocar a viagem de Sordello á corte de Fernando III nos annos 1237 — 1241. 
— Vid. O. Schultz em Zeitschrift VII, 207 — 210. — Orundriss 174, 5 e 
Lang, Mod.Lang. Notes X, 210 — 211. 

5) Foi perto de 1220 que Sordello principiou a documentar os seus 
dotes poéticos. 



— 373 — 

provençal, que falleceu em 1233.1) q terminus a quo infere -o de 
occorrencias na vida agitada do audacioso roubador de fidalgas, que 
teve de fugir precipitadamente da Lombardia para escapar á vin- 
gança de barões que trahira, como os formidandos Ghibelinos, 
Alberico da Romano e Ezzelino. E certas referencias ao Senhor 
de Leon, nos versos de um enemigo de Sordello, confirmam LoUis 
na sua hypothese, visto que este titulo compete de -direito, em vida 
de Sordello, apenas a Affonso IX, cujo successor, Rei de Castella 
desde 1217, cingiu a coroa das duas monarchias, de 1230 em 
deante. A Affonso IX refere portanto as palavras de Pedro Bre- 
men Ricas Novas, em que, fustigando a ingratidão do (segundo 
elle) fingido cavalleiro, ou motejando da desfeita por elle soffrida 
na corte do Leonês, exclama: 

Del Seignor de Leon dis aquel mal qtie poe 

En Sordels, ta7it l'es greu quand quer c'om non ditx d'oc.'^) 

Dubitativamente lhe refere ainda outras allusQes,^) muito embora 
nas poesias do próprio Sordello não liaja uma única palavra rela- 
tiva àquelle monarcha. Os outros soberanos, dos quaes recebeu va- 
liosos donativos (também no dizer de Bremon),'*) de modo que re- 
gressou rico da sua expedição, devem ser Fernando EEI como senhor 
de Castella, e D. Jaime, o aragonês. De ambos falia, e por signal 
com censuras acres e injustas no celebre sirventês em que distribue 
o coração do seu amigo e protector Blacatz aos descorçoados. ^) 
Além d' isso, compôs varias poesias onde menciona o rei de Aragão, 
dedicando -lhe mesmo uma d'ellas.^) 



1) Lollis p. 28. — Savaric tinha visitado, antes de 1214, as cortes de 
Alfonso VIII e Pedro II de Aragão. Segundo os Anales Toletanos^ tomou 
parte em 1217 na cruzada emprehendida pelas Ordens miUtares com gentes 
dos Reis de Castella e Leão e dos outros reinos contra os Mouros de Cáceres: 
Savaric de Mallen (sic) con muchas gientes de Gascona fueran cercar 
Cancies (sic). — Esp. Sagr. XXIII, 400. 

2) Do Senhor de Leão dix qiiafito mal pode En Sordello; tão morti- 
ficado fica quando alguém não lhe responde „que sim." — Poetes 
occit. 216: Bartsch, Orundriss 220, 6- 

3) AUusões áquelle que é seu enemigo porque não lhe deu a mula 
(a aquel que fo sos enemics que la mula noil detj. 

4) E deis aufres dos ac qu' en venc d' Espaigna rics: e dos outros 
teve does taes que com elles regressou rico de Espanha. 

5) Lollis V: Planher vuelh En Blacatx en aquest leugier so. — 
Veja-se Milá, Trov. p. 154; Zeitschr. XXIII, 201 e Komania XXVIII, 479. 

6) E são: o sirventês aos três desherdados (IV) „Puois nom tenc per 
pajat d'amor, assim como o sirventês moral contra a malvadez dos ricos 
(XVI) : Qui beis membra dei segle qu' es passatx. 



— 374 — 

Até aqui estou de accôrdo, embora a argumentação sobre o 
leonês fiqiie sujeita a leves objecções.^) Outro ponto ha, e este 
toca de perto o nosso D. João Soares, em que me afasto com- 
pletamente do modo de vêr do investigador italiano. Além da pri- 
meira viagem de Sordello, lembrou -se elle de suppôr outra, posterior, 
estendendo-a ou estendendo ambas, até Portugal. 2) Isso no prin- 
cipio do seu estudo, 3) Mas no decurso ulterior da biographia não 
volta mais a esta hypothese. Pelo contrario, ahi prova sufficiente- 
mente, que Sordello permaneceu na Provença de 1233 a 1265, 
passando o resto da vida até 1269 na Itália. Yê-se por isso que 
a supposta segunda viagem foi ideada exclusivamente para explicar 
o encontro de Coelho com o mantuano, em harmonia com os dados 
que o próprio Lollis tinha estabelecido anteriormente a respeito do 
trovador português, no seu excellente estudo sobre Alfonso o Sábio 
e as suas cantigas profanas.*) Ahi o desenhara como um dos mais 
tardios trovadores peninsulares, motejador de um valido de D. Deuis, 
opinião que ainda agora sustenta, s) juntando a reflexão que ao 
gentil-homem de certo não convém attribuir peregrinações trova- 
dorescas pelas cortes de outros paises, e a igualmente errónea ob- 
servação que nos seus versos Coelho mostra não conhecer senão 
cousas e pessoas pátrias. Como pelo outro lado teve de datar de 
1241 duas cantigas do supposto trovador dionysio, e precisa de uma 
data atrasada, é este o anno que parece querer fixar para a segunda 
excursão de Sordello.^) Para confirmá-la julga ter descoberto um 



1) Ha casos em que os trovadores chamam Bei de Leon a Fernando lU, 
Alfonso X , Alfonso VIII e VII , induzidos pelo ritmo e a rima : p. ex. no 
descordo de Bonifácio Calvo; mas nas epigraphes em prosa não subsiste 
a mesma razão e no caso de que se trata, não ha que duvidar. 

2) Convém observar que outro biographo de Sordello, Oscar Schultz, 
hesita sobre a data e a interpretação da formula: seignor de Leon. Acre- 
dita ainda assim na segunda viagem que também considera necessária para 
explicar o encontro com o magnate português. — Zeitsehrift XXI, 239. 

3) La notixia ci resulta certa da una tenzone tra Joan Soares Coelho 
e il giullare Picandon. — Lollis p. 28. 

4) Stud. fil. rom. IV, 31 — 66. 

5) Uattività poética di J. S. Coelho, protrattasi indubbiatnente fino 
ai regno di don Dionisio, non può aver avuto comincianiento se non 
essendo già inoltrato il sec. XIIL — Lollis, p. 29. — La data dei 1241 
. . . mi par certa anch' oggi. Ma non mi par men certo che altri molti 
sian dei tempo di rè Dionisio (Ib. n. 5). 

6) Não o diz directamente, mas 1241 é a única data que occorre no 
trecho de que fallo. 



— 375 — 

esteio nuns versos provençaes, dirigidos contra o mantuano por 
Jolianet d'AlbessoD. Vejamo'-los. Enumerando, com o exagero 
a que os apodadores se julgam obrigados, as terras percorridas por 
Sordello, e oppondo-llies na segunda estrophe aquelias que em 
direcção opposta atravessou uma sua amiga desleal, a celebre Cunizza, 
o poeta provençal Johanet (que floresceu nos três primeiros de- 
cennios do século), diz: 

Vostra dompna, segon lo meu semblan, 

vos contra [fatx] , bel amic en sordel, 

car vos annatx prouenxa conqistan, 

encfleterra, e franza, e lunel, 

e lenioxij aluergjia e uianes 

e bogoigna e totx, los autres pães, 

e (T espagna los jilans eis pois el mon 

de conqerre tutor nos er' affron.^) 

Lollis traduz, não sei se bem ou mal, a ultima plirase: E siete 
uomo da conquistare i piani e i poggi e i monti di Spagna, con- 
cluindo que Sordello estava em vésperas de uma viagem á penín- 
sula, a qual, por andar precedida de muitas outras excursões, 
já realizadas na Itália, „wão parece ter sido a primeira, anterior 
a 1230" (sic). Sendo, porém notório que o mantuano já estivera 
em Florença, Verona e Treviso (sendo afamado e infamado em toda 
a Lombardia) assim como em algumas cortes provençaes, antes de 
emprehender o seu giro hespanhol,^) não vejo o que possa autorizar 
semelhante interpretação. Pelo contrario, caso se tratasse de se- 
gunda viagem, Johanet devia ter introduzido no seu aranzel de 
nomes geographicos alguns nomes de terras hispânicas. 3) Oxalá 



1) I. é = A vossa dama, segundo o meu parecer, 

imita -vos, bello amigo En Sordello, 

pois vos andais conquistando a Provença, 

Inglaterra, França, e Lunel, 

o Lemosim, a Alvernlia, o Viannês, 

Borgonha e todos os outros paises; 

e d' ora em deante as planicies e as collinas e os montes 

de conquistar de Hespanha vos será afronto. (?) 
Ou antes: „e d' ora avante tomareis a peito a conquista etc"? — Stud. fil. 
rom. XIV, 171. — Archiv XXXIV, 403. 

2) Lollis, Sordello^ p. 30 falia da sua longa estada em Provença antes 
de 1235. 

3) A ironia seria muito mais pungente se, marcando ponto depois de 
conqistan, podessemos referir todos os nomes geographicos que seguem ao 



— 376 — 

que o illustre critico ponha de lado a sua hypothese, quando re- 
conhecer que as peregrinações do português, pelo menos a Leão e 
CasteUa, são mais que prováveis. 

§ 244. Pela minha parte penso que João Soares Coelho passou 
a mocidade fora de Portugal, como tantos outros barões, descon- 
tentes com as revoltas continuas que perturbaram a menor idade de 
Sancho II, designada muito pitorescamente nos documentos coevos como : 
Umpo do roubo, ou quando erat rouba — 1223-1228 ou 1230 — ^), 
e também o ultimo decennio do reinado. Se, sahindo da pátria em 
1229, tivesse seguido a fortuna do Bolonhês, a cujo lado o vemos 
de 1250 por deante, não o teríamos de procurar em Hesphanha, 
mas sim em França. Na cantiga de escarnho CV 1012 e na 1013* 
com as suas allusões a batalha de Cortenuova, o Emperador Fre- 
derico, a invasão dos Tártaros e aos preparativos para a terceira 
cruzada, não possuímos, de certo, as estreias do gentil -homem. Os 
primórdios da sua actividade poética devem ser do decennio que 
decorre de 1230 a 1240. Estas datas temporans tornara -se vero- 
símeis, se ponderarmos que a mãe era filha de um valente que se 
distinguiu no meado do sec. XII, tendo o três -avô criado o pri- 
meiro rei de Portugal. Torno a lembrar que o bisavô era collaço 
de Affonso Henriques, devendo o avô ter aproximadamente a idade 
de Sancho o Velho (n. em 1154 e fallecido em 1211). 2) O pae 
seria por tanto contemporâneo de Affonso II (f 1223) o que vem 
a igualar o nosso poeta chronologicamente com Sancho II e 
Affonso III, cujo servidor foi, de facto, conforme mostrei. O filho 
de João Soares era homem no reinado de D. Denis, como disse, e 
o neto, executor das ordens de Affonso IV, expiou o seu crime em 



verbo er do ultimo verso. Johanet diz, de resto vos amiatx conqistan, 
fallando de uma acção principiada, mas não concluida. 

1) Herc. II, 273 — 279, 304 — 306 e 473 — 484 nota XVI e XXIII. 
— Cf. CM 245. 

2) Teríamos de coUocar o seu nascimento no segundo decennio do 
século XII. Parece todavia que teve muito mais idade, sendo adulto em 
vida de Sancho I. Digo isto,- julgando -o idêntico ao Suarius Venegas, 
que foi nomeado em 1199 pretor da cidade da Guarda, novamente fun- 
dada. — P.M.H.: Leges I, 511. — Herc. II, 96 — 98. — Naquella data 
mal se pode tratar de Sueiro Veegas o Velho (I), filho de Egas Moniz, 
que já figurava em 1128. 



— 377 — 

1360.^) As relações de Coelho com Airas Peres Vuiturora, o 
implacável antagonista do Bolonhês, fel e vinagre contra os que 
venderam os castellos, trahindo o legitimo soberano, 2) concordam 
também. 

De modo algum contradiz a curiosa observação que alguns ver- 
sos de amor de João Soares foram recolhidos relativamente cedo 
em Castella e aproveitados pelo filho de S. Fernando, quando ainda 
se deleitava na composição de versos profanos. ^) De onde se segue 
que o português pode ter assistido em Leão antes de 1230. 

O torneio sobre a ania^ que tentei datar de 1273, seria neste 
caso uma das producções senis do poeta, a não ser que se des- 
cubra o meio de assignar outra data anterior, á serie toda, incluindo 
a composição €V 1024, relativa ao decreto real sobre os trovadores 
e suas damas.*) As cantigas de escarnho, lançadas contra Estêvam, 



1) Eis um retalho do quadro genealógico dos Coelhos: 

rSueiro Veegas 11, Coelho (1199) 
\Mor Mendes de Candarey ou Gandarey 
I 



ÍPero [Soares] Coelho I TJoão [Soares] Coelho I 

(^Brites Annes Redondo \Maria Fernandes d' Ordês ou Ordis 



Fernam Annes, clérigo 



ÍPero [Annes] Coelho II (f 1317) 
\Margarida Esteves 

I 
TEstevam Coelho I 
1 Maria Mendes Petite 



I João Coelho II 
* filha de Martim 
I Peres d' Aboim 

^ I 

Maria Coelho 



Suer Coelho 

(de Santarém) 

neta de Diego 

Lopes de Baião 



j Estevam Coelho 11 
\ SenhorinhaÂffonso 

João Coelho III. 



Pêro Coelho 
filha de Vasco 

Pereira 
, (t 1360) 



P.M.H.: Script. 150, 159, 317. — Estevam Coelho II ainda estava vivo 
em 1352 quando seu filho João Coelho (III) e seu irmão mais velho — 
João Coelho II — ambos como vassallos do Infante D. Pedro, cediam a 
este na cidade do Porto certos direitos, pelo muito bem, e m,erce que nos 
e os do nosso linhagem sempre d' elle recebemos e entendemos receber a- 
deante. 

2) CV 1088 e 1089. — Cf. 1023 e 1092. 

3) Veja- se Randglosse I, p. 38, assim como as Notas que acompanham 
as nossas cantigas 160 e 175. 

4) CV102á:. — Cf. CB15U (=387). — Randglosse I, 31 — 33. — 
LoUis, Cant. Álf. p. 55. — Lang CD p. XXyiTT. 



— 378 — 

o Cego, as qiiaes Braga, ^) Lang^) e Lollis^) imaginaram compostas 
em tempo de D. Denis, serão por ventura igualmente frutos de 
uma verde velhice. Mas repito: nada nos obriga a referi-las 
a Estêvam da Guarda, como querem os críticos citados.*) As 
28 composições d' este cortesão pertencem todas ao sec. XIV, ^) e 
nem uma só responde ás diatribes contra o Estêvam, apodado pela 
sua curteza de vista, egoismo ladino, e génio impetuoso, que o 
levava a dar pancada de cego. ^) Em nenhuma se responde ou falia 
a qualquer dos cinco maldizentes do óptimo ouvidor, nem tão pouco 
de algum d' elles , o que seria significativo , mesmo quando versassem 
sobre assumptos diversos. Os maldizentes'^) também não tratam o 
seu Estêvam com o nome completo, que tanto se prestava a troca- 
dilhos.®) Entendo por isso que se trata de um personagem diverso, 
do tempo de Aífonso III, seu coUaço, e por isso o mais favorecido e 
mais odiado entre os seus validos, com quem já nos encontrámos nos 
paragraphos anteriores.^) Como D. João de Aboim e Pêro Ourigues, 
este Estêvam, cujo patronymico é Annes, tinha seguido a fortuna 
do Bolonhês, figurando no juramento de Paris. ^'') Revestido no 
cargo supremo de chanceler, apenas o infante empunhara o sceptro, 
conservou- se neste posto até morrer em 1278,^1) engrossando sempre 
os seus bens de raiz, com cobiça tão desmedida que Herculano o 
qualifica de terrivel.'^^) Em documento algum apparece com mais 



1) Gane. Vat. Rest. LV e LXHI. 

2) CD XXXV e XL. 

3) Âlf. X, p. 39 e 43. 

4) Bandglosse I, 46 — 48. 

5) Este trovador, um dos últimos cujos versos andam nos cancioneiros 
gallaico- portugueses, apparece de 1304 — 1324 como empregado da Casa 
Real onde serviu de ichão, escanção -mor e escrivão. — Cf. § 174 (nota) 
e 354. 

6) CV 1089, de Vuiturom. 

7) CV 1014 e 1015. Coelho; 1089 Vuiturom; 995 e 997 Queimado; 
1083 e 1085 Tenoiro; 1194 Pedr' Amigo. Todos, trovadores alfonsinos. 

8) O emprego do vocábulo guarda na Cantiga CV 1194 parece ser 
casual, visto não ser repetido tanto como era praxe, quando se tratava de jogar 
com um nome próprio, empregado ao mesmo tempo como apellativo. — 
Cf. CA 466. 

9) Já sabemos que houve outro Estêvam Annes, o de Valladares, um 
dos trovadores cujos versos se perderam. — Cf. § 175 e 204. — Lang, 
(CD XXXI e Mod. Lang. Notes 'X.^ 213) confunde este com o chanceler. 

10) Mon.Lus., Vol. IV; Escrit. XXXV. 

11) P. M. H.: Leges I, 198 e 229. — Mon. Lus. XV, c. 9 e XVI, c. 17. 

12) Hist. Port. III, 111 — 117. 



— 379 — 

nome do que Estevam Annes, certamente por ser filho de um fidalgo 
modesto/) mas no Cancioneiro nem mesmo este patronymico vem 
indicado. Apenas Don Estevan, de sorte que a minha opinião não 
passa de mera suspeita. 

§ 245. Resta fallar de duas poesias alheias em que occorre 
o nome João Coelho. Julgo que em ambas se trata do nosso tro- 
vador, porque no sec. XIII não conheço outro fidalgo caracterizado 
com aquelle sobrenome. 2) A obra de Pêro Garcia (CA 89), na qual 
Coelho é citado como confidente de seus amores, já é nossa conhe- 
cida. Na segunda {Ind. 466 = CB 358) ha mesmo um pormenor que 
confirma o meu modo de ver. João Coelho é ahi tratado uma vez 
de Joan Coelheiro^)^ variante que não me parece mero expediente 
do metrificador, á cata de rima, porque um dos Livros de Linhagem 
applica o mesmo nome, derivado, ao irmão mais velho do trovador.^) E, 
caso importante, d'aquella extensa e curiosa cantiga, de caracter 
jocoso (mas espinhosa como todo o cyclo em que nos vem apre- 
sentada), é auctor, segundo a epigraphe do texto e do índice, El 
Rey Don Affonso de Leon. 

Eis -nos pois novamente em face do problema, se Coelho fre- 
qiientou a corte do ultimo leonês"? ou se aquella poesia deve ser 
adjudicada a seu neto, Alfonso o Sábio? Após a composição de 
que se trata, segue -se iramediatamente a Salve -Rainha que é obra in- 
contestada do auctor das Cantigas de Maria (CM 467), e mais versos 
(profanos esses) até 478, sobrescritados d' esta vez: El Rey 
Affonso de Castella et de Leon. Podia ser, que essa epigraphe 
andasse fora do seu logar, devendo na verdade anteceder o N*' 466. 
Ou então todas as onze precedentes seriara do Castelhano, tendo - 
se omittido apenas, por lapso de penna, uma parte do titulo, no 



1) Randglosse I, 54. — Herc. II, 387 chama -o filho de um fidalgo 
de Além -Douro, cuja ascendência não é bem conhecida. Brandão tenta provar 
com documentos que os de Fermoselha eram seus parentes , possuidores de bens 
immoveis ao norte do pais e em Santarém, e que Estevam Annes tinha 
irmãos. De Estevam da Guarda, vindo de Aragão, como pagem da Rainha 
Santa, não consta que trouxesse comsigo parente algum. 

2) Th. Braga, Canc. Vat. Best. XLVIII quis reconhecer neste João 
Coelho o irmão de Fero Coelho, o justiçado. Só por curiosidade recordo ao 
leitor que Diez, Varnhagen e Bellermann julgaram um dia ter descoberto 
em João Coelho o auctor do Cancioneiro inteiro. 

3) No Cod. tohan colheiro. 

4) P.M.H.: Script.I, 159. — Em logar de Fero Soares Coelheira, 
um dos mss. do Livro Velho traz Coelhinho. 



— 380 — 

apographo. A prova de que as rubricas que encimam o N<* 456 
e o 464 não eram explicitas a respeito da filiação do monarca, no 
códice- pae, temo' -la nas duvidas de Bembo e Colocci, que ambos 
acompanharam esta mão -cheia de versos com notas contradictorias, 
em que se allude a Affonso IIÍ de Portugal, Sancho Capello e mesmo 
a Affonso II de Aragão, i) 

A solução d' estas duvidas é sobremodo difficil, exigindo exame 
minucioso. Pensei já qiie o verdadeiro auctor era o Leonês. In- 
clino -me agora a admittir que o cyclo, repleto de nomes e allusões 
a pequenos acontecimentos aulicos, pertence a Alfonso X, mas sem 
poder espalhar luz sobre vários pontos obscuros. Direi apenas com 
relação á poesia alludida que só ao Sábio ou a Fernando III, mas 
de modo algum ao Leonês, competia fallar de Sevilha como uma 
parte do seu reino onde ia peregrinar um súbdito seu. Também a 
cidade Librilla^) mal podia ter importância e interesse para quem 
não fosse o conquistador de Murcia e do Andaluz. E de Alcalá la 
Keal, ou de Ben-Zaide, conquistada pelo próprio Alfonso X, pode 
affirmar-se o mesmo. ^) Eis a extensa cantiga, espécie de romance 
burlesco com doze consonancias diversas, que demostram uma habi- 
lidade como nenhum trovador, a não ser o Sábio, a documentou: 

Don Gonçalo, pois qiieredes ir d' aqui para Sevilha 

por veerdes voss' amiga, (non o tenh' a maravilha), 

contar vus ei as jornadas, lego' a legoa, milh' e milha. 



1) Eepito que temos no índice, a encimar o No 456, a rubrica: il Rey 
don Affonso de leon, acompanhada da nota de Colocci — bembo dice di 
Ragona figlio di Berenghieri. Alia lectio t portugal Rey don Sancho 
deponit (?); e ao lado do N" 467 a epigraphe: il Rey don Affonso de Gastella 
et de Leon^ seguida da nota: vide nel mio lemosino ai re di Gastella ha 
sepius el re Affonso et leon (sie). No texto (f. 100'') do CB a primeira 
cantiga vae precedida da seguinte nota marginal : R° outro R° das Cantigas 
q fex o mui nob' Rey don Saneho deyõit e diz ai eu coitada como uiuo. 
— Deponit talvez esteja por depoit, erro por de port.? abreviatura por de 
Portugal? exactamente como na rubrica da cantiga CV 920? 

2) É assim que penso emendar lib'ra, embora não esteja em rima 
com Sevilha, maravilha, milha. Mas Librilha (penso no logar Librilla em 
Murcia, bispado de Cartagena) podia também ser forma aportuguesada de 
Librija, Lebrija (Sevilla), uma das conquistas andaluzas que se revoltaram 
em 1263. — Cf. Chron. Alf., c. X. — D. Anrique na Cantiga CB 464 
recorda o Senador, ao qual se referem CV999 e 1008; D. Garcia Perez na 
cantiga CB 465, o nobre que foi meirinho -mór da Galliza no anno 1282. 

3) A cantiga 468 tem apparencias de ser fragmento de um hymno á 
Virgem. Mas essa pertence ao segundo cyclo, já reivindicado por Lollis a 
favor de Alfonso X, 



— 381 — 



Ir podedes a Librilha (?) 
5 e depois ir a Alcala 
que ajades de perder 

ua cousa sei de vos 
e por-én [eu] vo'-lo juro 
sempr' avedes a morrer 
10 Enporén eu vo'-lo rogo 
que quand' entra[r]des Sevilha 
e non dedes nemigalha 

Porque vus todos amassen 
bõos talhos en Espanha 
15 e quen se vosco filhou, 
Con esto fostes cousido 
de todas cousas comprido 
e nos feitos [muit] ardido, 
E pois que vossa fazenda 
20 e queredes ben amiga 
non façades d' ela capa, 

E pois que sodes aposto 
guardado -vus de seerdes 
ca dizen que baralhastes 
25 Con aquesto que avedes 
uquer que mão metestes 
a quenquer que cometestes, 

E non (m'o) tenhades por mal 
l que foi das duas espadas 
30 ca vus oí eu dizer: 
E ar oí vus dizer 
con esta vossa espada 
jamais de o ón guariren, 
E por esto [vus] chamamos 
35 porque sempre as tragedes 
com que fendedes as penas, 



e torceredes ja- quanto, 
sen pavor e sen espanto 
a gamacha nen o manto, 
e tenh' o por mui gran brio, 
muit' a firmes e a fio: 
en invern' ou en estio, 
e vo'-lo dou en conselho 
vus catedes no espelho 
por min nen por Joan Coelho. 
sempre vos muito punbastes; 
metestes pois i chegastes, 
sempre vos dei gaanhastes. 
sempre muit' e mesurado, 
e apost' e ben - talhado, 
e muito aventurado, 
tèedes ben alumeada (?) 
fremosa e ben -talhada, 
ca non é cousa guisada, 
e fremoso cavaleiro, 
escatimos' e ponteiro, 
con [don] Joan Coelheira. 
mui mais ca outros compristes; 
guarecendo én saistes; 
sempre mal o escarnistes, 
se em vossas armas tango: 
que andavan en un mango? 
„Gon esta 'spetei o frango." 
que a quenquer que chagassen 
que nunca se trabalhassen 
se o ben non agulhassen (?). 
nos „o das dtias espadas" 
agudas e amoadas, 
dando grandes espadadas. 



Para concluir, advertirei que Alfonso IX, nascido em 1171 de 
uma infanta portuguesa, devia ser, á data da visita de En Sordello 
e de João Soares Coelho, um encanecido septuagenário, com um 
pé na cóva,^) e por isso mesmo, pouco disposto a versejar. 

§ 246. Confrontando as 53 composições de Coelho com as 
40 opulentas de En Sordello, não descubro empréstimo algum 
directo de poesias inteiras, quer fosse quanto ás ideias, quer quanto 
á forma. Ha apenas certa semelhança de Índole na maneira como 
ambos bravateiam, gabando os seus méritos pessoaes e rebaixando 
a habilidade dos outros trovadores; no desejo de se afastarem dos 



1) Segundo o Livro da Noa de S. Cruz, o Leonês nascera em 1171: 
Ih-a MCCVIIII mense februario hora tertia in die Ascensionis Domini 
natus est Rex Alfonsus filius Regis Fernandi éb Done Oraee Regince. 



— 382 — 

motivos tradicionaes da inspiração provençalesca; na predilecção por 
uma phraseologia singela e transparente. Aqui e acolá podia relevar 
certas expressões como p. ex. as imprecações contra a perigosa con- 
descendência dos olhos, causadores das » coitas « do coração; o desejo 
de morrer mil vezes no dia; o modo como implora da amada provas 
da sua afeição, mas provas que nem de leve manchem o seu honor 
— s'onor salvan. — Mas estes traços não são, de modo algum, 
monopólio dos dois, pertencendo, pelo contrario, ao vocabulário con- 
vencional dos trovadores todos, em geral. 

Está claro que as relações com o mantuano não impediam 
que imitasse outros provençaes. O estudo de um envolvia em geral 
o conhecimento de outros. Lollis já notou uma concordância notável 
com versos de certo Granei, o qual numa occasião provocara de 
balde o Senhor de Goito a tençoar com elle sobre a valia do amor 
e das armas. 1) Ambos recordam a invasão mongolica e a marcha 
do Emperador contra Koma, vendo nestes nefastos successos pre- 
núncios da vinda do Antechristo. O provençal Granet exclama 
que outra-mãr aug dir que Antecrist venha^) e Coelho escreve 
E se non foss' o Ante-Christo nado, Non averria esto que aven, 
referindo - se ainda aos tradicionaes Quindeehn Signa ante Judicium. ^) 
Embora eco de um clamor levantado effectivamente por occasião da 
vinda dos Tártaros, tal coincidência não parece fortuita. 

XVI. Rodrigu' Eannes Redondo. 

§ 247. A familia dos Redondos, muito ramificada, vem men- 
cionada nos nobiliários antigos, immensas vezes, por causa das suas 
allianças com Pereiras, Silvas, Portocarreiros , Yinhaes e muitas 
outras linhagens illustres.*) O pae de Rodrigo Annes, rico -homem 
da corte de Sancho II, chamado D. João [Peres], alcunhado de Be- 
dondo talvez por causa da sua obesidade, era filho de Pêro Soares, 

1) Sordello, p. 32 e 33, n. 1. 

2) Pos anc nous vale amors. — Bartsch, Or. 189, 5. — Malin, Oe- 
diehte 543. — Dirige -se a Bertran de Lamanon, um dos provençaes que 
visitaram o Sábio de Castella. Diez, Leben^ p. 469. 

3) CV 1013. — Cf. § 290 onde trato de uma cantiga de Álvaro Gomes, 
jograr de Sarria, a Martim Moxa (CV 471) em que também se falia do Ante- 
christo, mas sem allusão directa aos Tártaros. 

4) P.M.H.: Script. I, 150, 151, 168, 225, 227, 313, 333, 334, 338; 
especialmente Tit. XXI, 10; XXXIV, LII e LVI do Livro do. Conde. — 
Cf. Sousa, Hist. Qen.: Provas I, 148, 150, 152, 154, 155, 187 com notas 
marginaes indigestas, mas nem por isso desprezíveis. 



— 383 — 

o Escaldado, 1) da família dos Velhos, que descendem dos de Baião, 
como sabemos. Casado, em segundas ou terceiras núpcias, 2) com 
uma Pereira, D. Mór Peres, teve d' ella cinco varões: Gonçalo, João, 
Rodrigo, Martim e Pêro. Todos usaram do patronymico Annes e 
do sobrenome do pae. 

Para fixar a época em que Rodrigu' Eannes floresceu, disponho 
de um punhado de notas soltas. Entre ellas escolho as que se referem 
a personagens nossos conhecidos, ou com que importa travar relações: 

V. O avô em que tentei reconhecer o trovador Pêro Velho j^) 
ainda vivo em 1248, tomou parte na tomada de Sevilha, ao lado 
de outros encanecidos portugueses. 4) 

2°. O pae figura na corte tumultuaria de Sancho Capello, até 
1239, assignando primeiro e confirmando depois, foraes e doações, 
em companhia de Rodrigo Sanches, Gil Yasques, Abril Peres, Mem 
Garcia, Ponço de Baião e os mais que costumo enumerar. 5) Em 
1253 apparece entre os herdados de Sevilha, signal certo de ahi 
haver militado em 1248.^) 

3°. Uma meia -irmã de Rodrigo, Beatriz Annes, casou com 
Pêro Soares Coelheiro, irmão mais velho de D. João Soares Coelho.'') 

4°. Gonçal' Eannes achou -se no cerco de Sevilha, ao lado de seu 
pae, D. João Peres Redondo, do tio Martim Pires Zote e do avô.^) 

5°. João Annes, por ventura o mais novo dos irmãos, foi ad- 
dido á casa de D. Denis em 1278.^) Durante o reinado d' este 



1) Escaldado, por ter poucas barbas (Script. 333). Dos outros seus 
filhos, um foi alcunhado de Bravo, outro de Zote, e o terceiro de Velho. 

2) Da primeira mulher já tivera larga descendência, unicamente 
feminina. 

3) Vid. §209 e p. 353, notai. 

4) Script. 284. — Mon. Ims. XIX, c. 2 e 3. — Espinosa, Hist. Se- 
vilha II, f. 7^. 

5) Herc. II, 371 e 497. — Mon. Lus. XIV, c. 18. 

6) Espinosa f. 7\ 

7) Script. 147 e 159. Outra, Costança Annes, mulher de D. Ruy 
Garcia de Paiva, que também militou no cerco de Sevilha morreu cerca de 
1280. — Mon. Lus. XVI, 64 e XV, 4. 

8) Mon. Lus. XV, c. 2 e 4. — Espinosa 7\ 

9) Mon. Lus. XVI, c. 15 e 17. — Escrit. V: loanni loannis Redondo 
vassalo suo 300 lib. in panis pro sua soldada 25 die Decêbris. As in- 
dicações com que Fr. António Brandão acompanha esta passagem são in- 
exactas. Álvaro e João Rodrigues, que ambos se criaram em casa de 
Fr. Álvaro Gonçalves Pereira, o insigne Prior dos Hospitaleiros, não eram 
bastardos de Eodrigu' Eannes, mas sim de um seu filho illegitimo, Pêro Ro- 
drigues. — Cf. Script. 313. 



— 384 — 

monarca assistiu a vários actos públicos, p. ex. á fundação do 
mosteiro de Odivellas em 1294. i) No anno immediato levou carta 
de desafio para Valhadolid aos infantes e magnates alii reunidos, 
pregoando guerra contra Castella, em nome dei -Rei de Portugal. 2) 

6°. Martim Annes fez doação de certas propriedades suas ao 
bispo do Porto D. Sancho Peres (1299). 3) 

7°. Este bispo, que governou a diocese portuense de 1296 a 
1300, muito bem visto de D. Denis, era filho de uma meia-irmã 
de Rodrigo, chamada Teresa Annes. ^) 

8°. O primogénito do poeta, Fernam Rodrigues, auctor 
de alguns versos conservados nos Cancioneiros,'^) era mordomo - 
mór de D. Pedro de Aragão em 1297, ou logo depois.^) Em 1316 
foi nomeado meirinho -mór do reino, '^) succedendo neste cargo a 
D. João Simão, ou Simião, grande privado de D. Denis e por elle 
honrado com alguns versos de burla. ^) Em 1333 era fallecido. 

1) Mon.Lus.XVU, c. 24. 

2) Ib., c. 27. — Santarém, Quadro I, 116. 

3) Cunha, Cat. Bisp. Porto II, c. 13. — Hist. Qen.; Provas I, lõO, 
152, 154, 155. 

4) Hist. Oen.: Provas I, 155. Tiuha sido clérigo era 1269, chantre 
em 1285, depois deão da Sé até 1296. As notas sobre os Redondos que 
acompanham o Livro Velho na edição de Sousa, referem -se aos cadernos 
do arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira. 

5) CV 1147 e talvez 1148. 

6) Foi em 1297 que o cunhado de D. Denis veio a Portugal, onde se 
estabeleceu, casando com D. Constança Mendes Petite. — ilíow. Z/«s. XVII, 
c. 42; XVI, c. 34; XVIII, c. 39; e XIX, 25. — P.M.H.: Script. I, 306. 

— A cantiga de Fernam Eodrigues principia: Don Pedro este cunhado del- 
rei I Que chegou ora aqtii d'Aragon. Este infante, filho de En Peire III, 
irmão por tanto da Rainha Santa, é um dos poucos aragoneses que verse- 
jaram em Portugal. Dos lais que cantou (CV 1147, lõ — IG), quer fosse em 
provençal, quer em português, nenhum vestígio perdurou, a não ser que 
redigisse os lais anonymos de Tristan e Lançarote, com os quaes principia o 
Canc. CB. — Oxalá que de Roma nos venham brevemente as variantes que 
se apuram da collação dos Canc. CB e CV. Em face de proposições tão 
obscuras, como o refram do No 1147, e a rubrica que acompanha esta can- 
tiga, o desejo de as possuir renasce sempre de novo. Pôde ser que o mor- 
domo, fortuitamente ferido por D. Pedro, não seja o poeta Fernam Rodri- 
gues, mas isso não influe nos nossos cálculos. 

7) Mon. Lus. XVIII, 55. Penso que obteve esta posição depois da 
morte de seu senhor, o qual estava vivo aindo em 1314, quando a Rainha 
Santa escreveu o seu primeiro testamento, mas já era fallecido em 1321. 

— Vid. Ribeiro VasconceUos, D. Isabel de Aragão, vol. II, 6 e 15. — Figanière, 
Rainhas de Portugal LXXI e 168. — Lacerda, Hist. S. Isabel 88 e 237. 

8) Sobre I). João Simion (= Simhon) vid. Mon. Lus. XVI, c. 15; 
XVII, c. 18 e 51; XVIII, c. 52, 53 e 55. — Script. I, 355. — Lang, 



— 385 — 

Como prova da grande valia que este Redondo grangeára na corte, 
basta allegar que sua viuva, D. Marinha Affonso, encarregou a 
própria Rainha Santa de executar as suas ultimas vontades. Morta 
ella, deixou o encargo a D. Aífonso IV, o qual em 1338 se occupou 
effectivamente d' este assumpto. ^) 

9°. Por esta D. Marinha Affonso, filha de Pedro Affonso de 
Zamora, Rodrigu' Eannes era aparentado com D. João de Aboim, 
casado, como sabemos, com outra dona do mesmo nome. 2) 



CD CXXXVIII e No 141. Em Portugal desde 1293, serviu de aio a Fer- 
nam Sanches, um dos filhos illegitimos de D. Denis, e também a D. João 
Affonso de Albuquerque, neto del-Eei. 

1) Hist. Gen.: Provas I, 236. 

2) Costuma-se affirmar, desde Lavanha, que Marinha Affonso , mulher 
de Femam Rodrigues Redondo, era sobrinha da sua homonyma, esposa de 
D. João de Aboim; e a affirmação parece exacta, embora os textos dos 
nobiliários não a autorizem. No Livro Velho encontro as indicações seguintes: 

1. ... e este Payo Soares foi casado com Sancha Fernandes Del- 
gadilha que fex em ella D. Estevainha Paes. E esta D. Estevainha casou 
com D. Pedro Affonso de Çamora e fex em ella Payo Pires „ Pichei", João 
Pires, Lourenço Pires, Constança Pires, Velasquida Pires e Marinha 
Affonso (p. 151). 

2. Fernão Rodrigues Redondo . . . foi casado com filha de Pêro Affonso 
de Çamora (p. 168). 

3. Estevam Paes casou com Maria Affonso, filha de Affonso Peres 
de Arganil e de D. Velasquida de Çamora (p. 149). 

A. E o sobredito D. João d' Aboim . . . foi casado com D. Marinha 
Affonso, filha de Affonso Pires d' Arganil (e este Affonso foi o que trotcue 
as cabeças dos martyres a Santa Crux de Coimbra) e de D. Velasquida 
de Çamora (p. 161, cf. 152). 

No Livro do Conde as passagens correspondentes dizem: 

1. E este dito Paay Soares de Valladares foy casado com dona 
Sancha Fernandes Delgadilha e fex, em ella dona Estevainha Paes que 
foy casada com D. Pêro Affonso d' Arganil (p. 296). 

2. E Fernan Rodriguex foy casado com D. Marinha Affonso filha 
de D. Pedro Affonso d' Arganil e de D. Estevainha Paes de Valladares 
(p. 313; cf. 227). 

3. E. Estevam Rodriguex (sic) . . . foy casado com D. Maria Affonso, 
Pires d' Arganil e de D. Valasquida de Çatnora (p. 308). 

4. E este D. Joham d'Avoym foy casado com D. Marinha Affonso 
filha d' Affonsso Pirex d' Arganill (que trouve etc.) e de D. Vallasquida de 
Çamora (p. 319). 

D' estes trechos, que não seria difficil multiplicar, não se pode con- 
cluir directamente que Pedro Affonso fosse filho de Affonso Pires, embora 
o nome seja um forte indicio e as datas concordem. Affonso Pires era 
adulto em 1220, ao trazer a Coimbra as relíquias de Marrocos por mandado 
d' aquelle inquieto filho de Sancho I, o Infante D. Pedro (1187 — 1258) que 
fez vida de aventureiro, deixando rasto brilhante da sua fúria bellica em 
Marrocos, Leão, Aragão, Sevilha, nas Baleares, Valência, Portugal e no 

25 



~ 386 — 

10**. O segundo filho de Rodrigo, João Rodrigues Redondo, foi 
heroe de um drama de adultério, em dias de D. Denis, cujo eco 
se reflectiu no Livro do Conde. ^) 

De todos estes factos podemos inferir, sem receio de errar, que 
Fernam Rodrigues Redondo deve ser enfileirado entre os trovadores 
dionysianos e Rodrigu' Eannes entre os alfonsinos, ao lado de Coelho, 
Aboim, Cogominho e Baião, 2) comquanto a sua vida se prolongasse 
até princípios do sec. XIV. 2) 



Oriente. — Pedro Affonso devia ser um velho respeitável quando em 1271 
occupava, em casa de seu cunhado, o de Aboim, o logar do honra entre os 
convidados para a assignatura solene da doação do Marmelar aos Hospita- 
leiros. O que resulta dos trechos que trasladei com toda a evidencia é que o 
Pedro Affonso de Çamora do Livro Velho e o Pêro Affonso de Arganil do 
Livro do Conde são o mesmo individuo, que usava ora do appellido proveniente 
da herança paterna, ora do que era inherente á origem da mãe. Mesmo 
nos documentos assigna ora de Arganil (P.M.H.: Leges I, 229), ora de 
Çamora (Ib. 731 e Man. Lus. V, Escrit 6). — Arganil ou Arganin está situado 
na comarca de Çamora; mas houve e ha também uma villa do mesmo nome 
em Portugal (Leges I, 403). Eis o quadro da supposta filiação, com indi- 
cação do essencial: 

Affonso Pires de Arganil (1220) 
c. c. Velasquida de Çamora 



Pedro Affonso de Arganil ou de Çamora Marinha Affonso 

(vivo até 1277) (viva até 1288) 

c. c. D. Estevainha Paes de Valladares c. c. D. João de Aboim 

I 
Marinha Affonso (f c. 1338) 
o. c. Fernam Eodrigues Redondo (f c. 1330). 

A respeito do parentesco dos Barrosos com outra Marinha (ou Maria) Affonso 
de ao par de Zamora consulte -se o Tit. XXIX, § 10 e XXX, § 10 em 
P. M. H.: Script.l, 211 — 213 e 301 — 302. — Em um documento publi- 
cado na Rev. Lus. V, 126 dá- se constantemente á esposa do senhor d'Aboim 
o nome D. Maria. 

1) P.M.H.: Script. I, 338. 

2) Rodrigu' Eannes figurou na assembleia convocada em 1290 por 
D. Denis, a fim de ordenar inquirições, legislando sobre honras e coutos 
que os nobres tinham accrescentado , em defraudo da fazenda real (Man. 
Lus. XVI , c. 69 e 70 e Escrit. 23 da Parte V). Em 1294 assignava a carta 
de doação pela qual o concelho de Santarém cedia ao rei o paul de Magos. — 
Rev. Lus. V, 131. — E a prova de que ainda estava vivo e activo em 1305 
temol-a em um documento citado por João Pedro Ribeiro, Diss. Ghron. I, 305. 

3) No Orundriss § 40 colloquei Fernam Rodrigues entre os poetas 
alfonsinos e Rodrigu' Eannes entre os dionysianos e post- dionysianos. Como 
se vê, o contrario é que é a verdade. 



— 387 — 

O fragmento CV 1148, attribuido a Fernam Rodrigues, deve 
pertencer portanto ao pae, por ser dirigido a Fero da Pont e.^) Já 
na Biographia XV ficou estabelecido que uma das poesias do grupo 
que tento adjudicar -lhe (CA 184), se acha inscripta no CV como 
obra de D. João de Aboim. 

§ 248. Estamos muito mal informados sobre o que é seu nos 
cancioneiros. No índice o nome Rodrigu'Eannes Redondo occorre 
uma única vez, como auctor das cantigas de amor 331 — 336 
(CB 275— 280). São cinco apenas, porque 335 é repetição de 331. 
Reproduzo -as no Ajyp. XI, 415 — 419. No texto do CV, o nome 2) 
acompanha ainda uma cantiga de escarnho: a 1146* {Ind. 1613), e esta 
vae seguida das poucas que restam do filho. ^) O motivo para eu 
Uie attribuir, duvidando, além d' isso, as cinco composições que 
preenchem a folha 46 do CA (180—184), producto apenas de um 
meu calculo de probabilidades, já ficou exposto nos Cap. III e IV, 
relativos ao códice. 4) 

§ 249. D' esta vez, nem mesmo a cantiga de escarnho, de lin- 
guagem muito comedida, encerra espécies que elucidem as relações 
de Rodrigu' Eannes. Verdade é que ella não carece do nome pró- 
prio da pessoa que o motejador quis chasquear, condição obrigatória 
naquelles pratos apimentados. Mas Soeir Fernandes,^) o taful, 
que elle expõe ás risadas da corte, chamando a attenção para umas 
çapatas douradas, de que usava fora da estação,^) é uma entidade, 
para mim desconhecida. 



1) Quem não aceitar a minha hypothese deve conceder que Pêro da 
Ponte, mestre na sua arte em 1236, continuou a metrificar no reinado de 
D. Denis! Mas no fragmento 1148 de um dos Redondos parece haver allu- 
são á tomada de Geen (Giennium = Jaen), realizada como, se sabe, em Março 
de 1246. 

2) Tão necessária como a coUação das variantes seria a das attribuições. 
O índice está longe de concordar sempre com o texto. 

3) Encontro: Rodigianes rredondo ao pé de CV331; Rodriguef Anes 
Redõdo 334; Rodrigranes Redondo ao pé de 1613; Fernã rodrigues ro- 
lado no índice. 

4) Cap. III, § 134; Cap. IV, Misc. 49 e 51. 

5) Um cavalleiro d' este nome figura como testemunha do bispo eleito 
da Guarda, o celebre Mestre Vicente, no acto da povoação e aforamento 
de Alter-do-chão (1232 Suerius Fernandi), mas não posso provar se é a 
elle que Rodrigu' Eannes se refere. — P.M.H.: Leges I, 421. 

6) Zapate demirate entram na tarifa de artefactos, taxados em 1253 
por Affonso III. — Script. p. 195. 

25* 



— 388 — 

Entre os seus versos de amor ha uma cantiga curiosa por não 
se parecer com nenhuma outra (CAál6). Sem ser de amigo, é de 
personagem^ introduzindo uma dona que descreve a uma companheira 
o estado de triste depressão em que o amante leal ficara, depois 
de certa despedida que presenciou. As referencias aos pannos^ 
certainente significativos, que ella vestia, são todavia tão vagas e 
veladas que seria arriscado querer adevinhar se eram de luto, de 
ordem, de „ segurança ",i) ou festivos, a modo de quem vem de comer 
o pão das bodas. ^) Outra ha (418) que se distingue pela technica, 
entrando na deminuta serie das que empregam dodecassyllahos. Nella 
brilha um dos rarissimos tropos da poesia archaica. Quanto á tenção 
CV 1032 em que o chufador Lourenço se degladia com umKodrigu' 
Eannes, accusando-o de não saber compor canções de geito, e 
bravateando como de costume, parece -me que não se trata do 
fidalgo Eedondo, mas antes de um jogral ambulante, bem visto nos 
corrilhos populares, quer fosse o Eodrigu' Eannes Alvares da 
cantiga CV562, quer outro, desconhecido. 

Quem achar imprópria a attribuição dos Nos 180 — 184 a este 
poeta, deverá designar o auctor como Desconhecido VIII. 

XYII. Desconhecido 11. 

§ 250, O auctor da cantiguinha 185 parece ter escolhido 
para modelo a poesia 178 de Coelho, lembrando -se também dos 
N°« 65 e 67. 

XVIII. Roy Paes de Ribela. 

§ 251. Não colhi resultado nas minhas indagações acerca d' este 
Rodrigo. 3) Filho de qualquer Payo (Paayo = Pelagio) e natural de 
uma das numerosas localidades peninsulares que se chamaram, e 
ainda hoje se chamam, Ribela. Só na Galliza conto cinco, e três 
em Portugal. Não ha portanto motivo para taxarmos de espúria 
esta forma, substituindo -a por Ribera, com a pretenção descabida 
de descobrir no trovador gallaíco- português um ascendente da illustre 



1) Era costume medieval pedir o habito de qualquer ordem (pannos 
seeuritatis) para servir de guarda na vida e de mortalha na morte, sem 
comtudo fazer nenhuns votos, nem tomar compromissos para o futuro. 
Mas a mulher de vestes monacaes , costumava viver recolhida num mosteiro. 
— Cf. Ribeiro de Vasconcellos, D. Isabel de Aragão I, 68 — 69. 

2) CV358. 

3) No índice 1417 e 1440 lê -se Boy Paex,. 



— 389 — 

linhagem d' aquelle Perafan de Ribera, adelantado de Andaluzia, 
como o foi de facto aqiiell' outro Ruy Paes de Ribera, veeino de 
Sevilla, que é auctor de um ramalhete de versos, compostos entre 
1379 e 1424 e recolhidos no cancioneiro gallaifco- castelhano de 
Baena. 1) Nem tão pouco nos cumpre considerá-lo como parente 
da formosa Ribeirinha, filha de Paay Moniz e de seu irmão Marti m 
Paes, o de Ribeira. A favor de conjectura tão immotivada nada 
mais se poderia allegar do que as innumeras relações de parentesco 
entre a fidalguia do pequeno reino lusitano. Será mais prudente 
assentar que se trata de um cavalleiro obscuro, de uma só lança, 
e trovador de seu officio, como p. ex. João Garcia de Guilhade, 
Ruy Queimado e Pêro Garcia. 

As obras de Roy Paes habilitam -nos apenas a determinar com 
pouca exacção a época em que viveu, indicando a corte castelhana 
de Alfonso X como uma das que frequentou. Em certo cantar- 
zinho seu , satírico , muito desempenado (CV 1026) , figura um Fernand' 
Escalho, sujeito ridículo, de péssimos costumes, doente de um olho 
(ou seja mal -olhado)^ o qual concitou a animad versão de mais dois 
poetas alfonsinos: o burgalês Pêro Garcia (CV 984— 986) e o jogral 
Pêro d' Ambroa (CV 1135). Outros dois cantares ha que vestem, como 
o primeiro, as leves roupagens das cantigas de vilão ^). D'elles, 
críticos phantasiosos poderiam inferir que o auctor, menestrel vian- 
dante, ia transpondo a península desde as colunas de Hercules 
até aos altos dos Pyreneus, surgindo ora nos paises vascongados, 
nos castellos dos Haros e Cameros, ora em Portugal, ora nas cam- 
pinas do Guadalquebir. E todavia forçoso recordar que aos paços 
régios, tanto de Burgos, Toledo e Sevilha, como aos de Santarém 
acudiam não só poetas de varias regiões, mas também damas e 
soldadeiras vagantes de diversa procedência, podendo muito bem ser 
que convivessem nos mesmos recintos onde Roy Paes tinha entrada, 
bellas de Biscaia (CV1045), Guadalajara (Belenha^) CV1026), Anda- 
luzia (Arcos ib.),*^) e Portugal (Alanquer CV 1050). A meu ver, 



1) Nos 288 e 300. — Cf. Menendez-Pelayo, Antologia IV, LXXIII; 
Amador de los Rios VI, 550. 

2) Temos dísticos com rimas singulares, acompanhados de um refram 
mais curto, em cinco poesias de Roy Paes: CV 1026, 1027, 1015, 1046 
e 1049. 

3) Ha de resto mais localidades que receberam nome da abundância 
de meimendro (beleno = veneneus) que produzem. 

4) Também em Portugal e na provinda de Burgos ha villas de nome Arcos. 



— 390 — 

ha unidade de tempo e logar nessa chacota cora o estribilho popular: 
d' amores ei mal, onde, gabando- se da sua isenção amorosa, nomeia 
quatro donzellas que lhe eram indifferentes,^) e na outra em que 
mostra despeito por uma donzella de Biscaia o ter regeitado.^) Em 
algumas cantigas de escarnho, bem escabrosas, Roy Paes divulga 
complacente e até jovialmente a sua própria deshonra.^) Em outra, 
cujas estrophes rematam com o mote poético: Alva! ábriádes-m,'alá! 
dirige -se evidentemente a uma soldadeira, das que caminhavam de 
pousada em pousada com a malinha (maetá) das alfaias na mão 
{CV1049). Três vezes ouvimo'-lo escarnecer dos parcos jantares de 
um rico -homem. *) — Signaes insufficientes para provar que o auctor 
pertencia ao mister vilipendiado dos jograes. Fortes duvidas op- 
pugnariam tal suspeita, porque, além d' estes versos satiricos e 
em parte bestiaes,^) são -lhe attribuidos nos apographos italianos 
treze cantigas de amor, em estylo palaciano, dedicadas a uma sua 
senhora (índice 337 — 349 = CB 281 — 293, os nossos N°« 186-198). 
B estas acham -se collocadas próximo das de vates aristocráticos 
alf ensinos, como Coelho, Barroso, Ulhoa. E verdade que mesmo 
ahi se manifesta certa predilecção pelos géneros jogralescos. Apenas 
uma é de mestria (CÁ 197). Todas as restantes são de refram. Uma 
distingue -se especialmente pelo seu caracter popular: o tom é 
abertamente alegre, sem nenhuma nota plangente; entre os louvores, 
liberalmente distribuídos, brilha uma metaphora poética: 

com' antr' as pedras hon rubi 
sodes antre quantas eu vi. 



1) No primeiro dístico da cantiga CVlOlô: {A donxela de Biscaia \ Ainda 
me a preito saia \ De noite ao luar!) Braga pretende reconhecer reminis- 
cências da estranha lenda heráldica dos Haros, narrada no Livro do Conde, 
Tit.IX, 259. — Cf. Cane. Vat. Rest. LIV: Era o coouro de Biscaia que andava 
na casa de Haro, similhante aos gouril de Bretanha, o que o trovador 
aqui rogava! Eu distingo apenas desejos de desforra de um namorado 
cheio de despeito. De passagem direi que coouro é co- ovro = coluber, uma 
cobra masculina. 

2) Storck imitou bem o vulgarismo e a agilidade d' estes versos. — 
Vid. Aus Portugal und Brasilien, No 39. — No quarto dístico interpreto 
as letras senylhani riq por Sevilh' (= Síbylla) Anrrique, por ser indispen- 
sável um nome feminino, podendo faltar muito bem o de logar, como no 
terceiro distico. 

3) CV1048 e 1050. 

4) CV1027, 1046 e 1047. 

5) índice 1417 — 1418 =- CV 1026 e 1027 e índice 1440—1446 = 
CV 1045 -1050. 



— 391 — 

Em opposição aos preceitos cavalheirescos a dama é designada com o 

seu nome/) e o refram vae anteposto á cantiga, servindo -lhe de 

thema: 

Par Deus, ay dona Leonor 
gran ben vos fex, Nostro Senhor! 

Signaes de certa antiguidade. A coordenação das rimas {aaab BB) 
assemelha-a a um género muito em voga na península, onde ainda 
nos sec. XV e XVI teve numerosos representantes na escola de Gil 
Vicente, Juan dei Encina e Badajoz. 2) 

A cantiga de mestria approxima-se da maneira dos provençaes, 
tendo rima continuada, tal como p. ex. o galante dialogo de Aimeric 
de Pegulhan entre domna e senher e Amors e amics, que parece 
ter servido de modelo a vários trovadores peninsulares.^) 

Para terminar perguntarei se será simples acaso o vermos entre 
as figuras da vinheta que precede o rotulo das cantigas de Roy Paes, 
uma rapariga com pandeiro na mão, guarnecido de guisos, único 
nestas miniaturas?*) 

XIX. D. Joan Lopes d'TJlhoa. 

§ 252. Dos Ulhoas ou Ulhoos (=-= Ulhós),^) como também se 
dizia, trata -se apenas incidentalmente nos livros de linhagem. João 
Lopes é mencionado no Tit. XLI: Dos de Baian, como marido de 



1) O nome Leonor era muito pouco comraum nos primeiros sé- 
culos da monarcliia, em que predominam as Dordias, Ouroanas, Ousendas, 
Gontrodas e Leogundas. No Livro Velho ha apenas cinco ou seis aristo- 
cratas, de nome Leonor. A mais proeminente, e a única que pertence 
aos círculos trovadorescos , é D. Leonor Aífonso, filha illegitima do Bolonhês 
e mulher do poeta D. Gonçalo Garcia; cunhada, portanto, de outros dois, 
nossos conhecidos, Mem Garcia de Eixo e Fernam Garcia Esgaravunha. 
Não ha todavia indicies que Roy Paes fosse homem de um d' aquelles 
próceres. 

2) Costumo apellidá-Ios: Pandeiro -Weisen (i. é Pandeiradas ou Pan- 
deiretas)^ lembrando -me de um dos exemplos mais graciosos, cujo refram 
diz: Taho-os yo, mi pandero. \ Tano-os y pienso en ai! O cancioneiro 
musical está cheio d' elles; e tanto na Itália, como na França do norte eram 
muito usados. 

3) Bartsch, Chrestoín. Provençale 155: Domna, per vos estauc en 
greu turmen; Orundriss 10, 23. 

4) Cf. Cap. III, § 137. 

5) A respeito de vocábulos gallego - portugueses derivados de deminu- 
tivos em -olus, -ola, -olum; vid. Mirisch, Das Suffèx-olus in den roma- 
nisehen Sprachen. 1884. — Cf. Miseellanea Caix- Canello, 1885, p. 158; 
Rev. //WS. III, 145 e Estudos de phil. mir. I, 89 ss. 



— 392 — 

D. Costança Lourenço Taveira. ^) Apparecem ainda um Fernam Lopes 
d'Ulhoa, talvez filho do mesmo pae, e D. Tareja Lopes, irmã d' este 
ultimo, segundo o Conde, 2) ou sua filha, segundo o Livro Velho.^) 
De João Lopes não resta nenhuma composição satirica, faltando - 
nos por tanto todos os elementos positivos. Possuimos apenas sete 
cantares de amigo, graciosos, mas anodinos, balletas na maioria.^) 
São lamentações em forma de monólogos, ou então queixas da mal- 
ferida, lançadas contra a mãe, servindo de desabafo para com as 
amigas á namorada, que se vê triste e só {Ind. 695 — 701 = 
CV 296—302). Possuimos ainda onze cantigas de amor, os nossos 
Nos 198— 209 (J>z(í. 350 — 360 = CB 294-304). Metade é de mes- 
tria e metade de refram. Em ambos os casos, Ulhoa fica próximo 
de Fernam Fernandes Cogominho. Na lenda de D. João Tenório 
temos os Ulhoas ao pé dos Tenorios, e na realidade os solares de 
ambas as familias confinam, em terras gallegas. ^) 

XX. Feman Gonçalves de Seabra.') 

§ 253. Este fidalgo tão pouco teve entrada nos nobiliários, 
a não ser de passagem, como esposo de fulana Fernandes de Bema 
(Biedma) no Tit. LXXV, dedicado a Sotomayores, Tenoiros, Bemas 



1) P. M. H.: Script. I, 337. — Segundo os genealogistas gallegos, foram 
fundadores da casa de Ulhoa o poeta Pedro Annes Marinho e sua mulher 
Sancha Vasques , i. é um bisneto do legendário D. Fruela que casou com uma 
sereia (Marinha). Neste caso João Lopes seria parente de dois trovadores: 
Pedro Annes Marinho e Martim Annes. 

2) P.M.H.: Script. I, 388. 

3) Ib. 149. 

4) Uma só vae em dísticos. 

5) Lang {Mod. Lang. Notes X, 229) compara uma das heroinas de 
João Lopes com a de uma velha cantiga francesa, publicada por Jeanroy 
{Orig. 501 No XXI). A portuguesa exclama: Por Deus, se ora chegasse \ 
Con elle nmy leda seria; a francesa: O' en ferai \ Droit a son plesir \ 
S' il m' en daigne oir — semelhança de sentimento que não é prova de 
imitação directa. 

6) Sanabria é um logar leonês, perto da fronteira gallaico- portu- 
guesa (Prov. Zamora). Ás formas castelhanas Sanabria e Senabria corre- 
spondem em português Saabra, Seabra, Seavra^ Siavra e também, a meu 
ver. Saraiva (de saaivra = sãabria). Tanto Seabra como Saraiva servem 
de nome de familia. Como apellativo saraiva, synonymo de granizo 
(astur. xaravia) , é de origem desconhecida. Varias quintas e casaes cm Por- 
tugal tomaram de seus donos o nome Seabra e Saraiva. A identificação de 
Seabra com Seara (=senara, Erntcfcld)^ tentada por A. Martinez Salazar 
na Rev.crit. I, 234, não se pode tomar a serio. 



— 393 — 

e mais fidalgos da Galliza.i) Vários da estirpe distinguiram -se no 
sec. XIV, como servidores dos reis de Castella, Fernando IV, Alfonso XI 
e D. Pedro. 2) 

Como poeta, o Senhor de Senabria está no caso de Ulhoa: 
absteve- se de maldizer do próximo, como se tivesse em mira as 
Sete Partidas e as disposições da Ordem da Banda, Temos de 
considerá-lo como companheiro de Affonso Meendes de Besteiros, 
Barroso, Baião e Guilhade, cujos versos se acham nos cancioneiros 
perto dos seus. O que ahi se encontra é pouco, mas teve a sorte 
de ficar bem conservado. Consta de uma só balleta de amigo 
{Ind. 737 = CV338) e de quinze cantigas de amor. Só oito figuram 
nos apographos italianos {Ind. 384 — 393 = CB 330 — 339); cinco 
são idênticas aos nossos N°^ 217 — 221, formando um conjuncto com 
as que numeramos de 210—216, privativas do^ códice membranaceo. 
Os três restantes, que talvez fizessem parte do CA, ou não, appare- 
cem no Appendice XII, 445—447. A 213'^) acha- se repetida no 
CV55(=443 do supposto original) com attribuição a Airas Vaz. 
Poetou principalmente cantares tristes em que manifesta as suas 
magoas, de modo tão subtil que nunca Ih' a poderon entender , para 
em outras cantigas se gabar d' esta sua arte, assegurando aos loucos 
preguntadores que jamais haveriam de conhecer a sua dama. 

Eesta recordar que o de Seabra foi chronologicamente dos 
primeiros trovadores gallaíco- portugueses, cujo nome o mundo apren- 
deu a repetir, muito antes de algum dos cancioneiros ter vindo á 
luz: desde o dia em que o Marquês de Santilhana enviou ao quarto 
neto de D. Denis, o Condestavel D. Pedro de Portugal, a sua famosa 
Carta- Pr oemio , historiando a evolução das litteraturas românicas. 
A razão porque o Marquês se lembrou quasi exclusivamente do 
nome „FernantGonzalez de Sanabria", quem a poderá hoje adevinhar? 
Talvez por motivos puramente accidentaes, como a existência entre 
08 seus familiares de um que tivesse este mesmo apellido? 



1) P.M.H.: Script. 386 e 388. 

2) Temos Pedro Xuarez e Fernam Garcia Senabria na Chron. Fern. 
Anno 1308 (pag. 152 — 159); Mem Rodrigues em 1350 na Chron. Pedro, 
c. 12, como partidário de D. Henrique de Trastamara. Fernam Garcia figura 
também nos nobiliários (p. 173). Uma Tareja Fernandes de Seabra casou 
em Portugal com D. Martim Dade, conselheiro de Aífonso III e alcaide de 
Santarém, de 1253 — 1283. 

3) A dona que eu vi. 



— 394 — 

É natural que Milá/) Bellermann e outros contassem o poeta 
entre os trovadores dionysianos, fundando -se na passagem alludida,^) 
onde ao fallar do grande volume de cantigas, serranas e dizeres 
portugueses e gallegos, que viu em criança em poder de sua avó, 
o Marquês affirma que a maior parte das cantigas era de D. Denis, 
havendo outras de João Soares de Paiva e do nosso auctor. 

XXI. D. Pêro Oomes Barroso. 

§ 254. Não ha certeza de que Pêro Barroso e D. Pêro Gomes 
Barroso sejam um só individuo.^) O primeiro nome vem indicado no 
Índice, como auctor das cantigas 1441 — 1447 (= CV 1051 — 1057), 
ás quaes accrescem ainda os N»^ 392 e 393 (OV 1 — 2 ou CA 222—223), 
encabeçados no texto do CV com o mesmo nome. Ao segundo 
attribuem-se as composições 732 — 734 (= CV 333— 335) e o 
N« 1003 (=CV592 e 593). Fortes indicies faliam todavia a favor 
da identificação, posto que as obras do auctor appareçam neste caso 
distribuidas não em três fracções, como de regra, mas em quatro. 
O compilador achou -se por ventura embaraçado em frente da canção - 
sirventês 1003. Na duvida, se a havia de contar entre as cantigas 
de amigo ou as de escarnho, deu -lhe, á cautela, logar á parte?*) 

Segundo o historiador de Sevilha^) e Argote de Molina, que 
se encosta neste particular a um illustre descendente dos Barrosos, 
D. Pêro Gomes foi um dos herdados de Sevilha,^) o que indica 
que assistira á tomada da cidade, combatendo. E o poeta Pêro 
Barroso refere -se em uma das suas coplas de escarnho á conquista 



1) Trovadores , p. 529. 

2) Ed. Am. de los Rios p. XII. Nas notas do editor e nas de Sanchez 
nada ha que valha a pena ponderar aqui. O Mem Rodrigues, celebre „por 
su acendrada y no desmentida fidelidad ai rey D. Pedro," é posterior ao 
poeta, como se vê pelas notas anteriores. 

3) No Grundriss p. 190 ainda separei' os dois, dando o titulo nobili- 
archico a ambos. Braga {Gane. Vat.Rest. LI) julga dever separá-los, mas 
o motivo que indica não tem valor: a simples allusão ao porto de Acre não 
é indicio sufficiente para datar uma poesia. 

4) A estrophe que devia ser a derradeira precede as restantes , acom- 
panhada do uma rubrica que diz: E [ejsta cobra, a prestumeira doesta 
cantiga, de Don Pêro Oomex que dix: do que sabia nulha ren non sei, 
fazendo suspeitar que o texto não foi colhido inteiro no ms.-pae, provindo 
talvez de uma folha solta, pelo menos em parte. 

5) Ortiz de Zuniga, Anales III, 241. 

6) Nobl. Andai. p. 159 da nova edição. No Livro do Repartimento Pêro 
Barroso figura de facto entre os Gallegos que receberam terrenos no logar 
de Monpunena, chamado Oallega de ahi em deante. — Vid. Espinosa 7'^. 



— 395 — 

da Andaluzia/) como quem militou na fronteira, alludindo ainda 
em outra parte á deslealdade de vassallos que abandonaram seu 
senhor na guerra, 2) occorrencias que também serviram ao próprio 
Alfonso X^), e mais trovadores da sua côite,*) de assumpto para 
composições satíricas. Além d' isso, vemo'-lo em relações com um 
dos jograes, addidos á corte do Sábio S) e escarnecendo d'elle, man- 
communadocom vários poetas castelhano- alfonsinos: G-onçal'Eannes 
do Vinhal, Pedr'Amigo de Sevilha e Baveca.^) Pelo outro 
lado, não faltam nos seus versos reminiscências de Portugal: nomes 
de fidalgos que não podiam ter grande nomeada fora da pátria. '') 
Longe de invalidar as affirmações dos historiadores e nobiliaristas, 
estas allusões servem, pelo contrario, a autenticá-las. — De mais a 
mais, no Livro do Repartimento , o herdado é chamado Pêro Barroso! 

1) CV 1056: Qraã' a Deus e a mia espada \ E aaneu cavalo louro, \ Ben 
da vila de Orãada | tragtC eu o our' e o mouro.' A localidade Mora, mencio- 
nada nesta cantiga, será a que fica perto de Orgaz, na comarca de Toledo. 

2) CV 1053: Un ricome que of eu sei \ Que na guerra non foi 
aqui (1054); Chegou aqui don foão. \ E veo mui ben guisado \ Pêro 
non veo ao Maio! (1055.) — O erudito investigador C. de Lollis (p. 53) julga 
encontrar no primeiro verso o nome D. Joan; mas o códice traz foam, e 
o metro exige uma palavra de três syllabas i. é fo-ã-o. Não ha pois motivo 
para a troca. Foão = fulano e também ftian occorrem, de resto, frequentes 
vezes (€V69, 690, 904, 908, 918, 920, 926, 1110, 1153, 1154; CB 1500, 
1502, 1538, 1539 e 1558). 

3) Cy69, 74, 77, 79. — Cf. Randglosse VI. 

4) CB 1502 de Oil Peres Conde, e 1558 de D. Affonso Meendes de 
Beesteiros. 

5) Pêro d'Ambroa. — CV1057. 

6) Segundo Lollis, trata -se da cruzada de 1269, opinião que não 
partilho. — Cf. Rev. Crit. II, 303 e Randglosse VII. 

7) CV 1052 D. Ponço de Baian (Cf. Biogr. XXII) e 1056 Roy 
Oom.es de (ou da) Telha. Est' ultimo português, coevo de Affonso III, citado 
de um modo muito abrupto, cujo fim não percebo, era pae de uma das 
formosas patrícias que souberam captivar por algum tempo o volúvel marido 
da Rainha Santa. Pode ser que a Aldonça Rodrigues da Telha se dirijam 
algumas das cantigas de amor de D. Denis. A preferencia que sempre deu 
ao filho d' esta dama, D. Affonso Sanches, parece provar que entre todas as 
favoritas foi ella a mais amada. — Cf. § 204 p. 306, 6". - Mon. Lus. XVII, 
c. 2. — Hist.Oen.l, 273. — P. M. H.: Script. 157, 308, 319, 362. Seria 
temerário inferir da simples citação do nome do pae, na cantiga de Pêro 
Gomes, qualquer referencia a essa aventura. 

Meu senhor., que vus semelha 
do que xe vos carapelha, 
e vos anda na orelha 
rogindo come abesouro? 
[come] roy gomex de telha 
tragu' eu o our' ' e o mouro. 



— 396 ~ 

Contam os últimos i) minuciosamente que D. Pêro, de origem 
portuguesa, treneto de Gueda o Yelho,^) era filho de D. Gomes 
Viegas, senhor de Basto, mas não de sua mulher de benção, D. Mor 
Eodrigues de Candarey. Como bastardo de nobres qualidades pre- 
feriu procurar fortuna ao longe, passando para Castella, onde militou 
e prosperou, chegando a casar em Toledo com D. Chámoa {LJam- 
hra = Flamtnuld) Fernandes de Azevedo, filha de um D. Fernam 
Peres de Azevedo, o qual descendia de D. Rodrigo Froiaz de Tras- 
támara, o Bom. Engana -se, portanto, Argote, embora pouco, quanto 
á origem, chamando -o cavallevro principal de Galliza.^) Da parte que 
teve no cerco de Sevilha não acho pormenores nos auctores portu- 
gueses que consulto. Mencionam apenas, como combatentes, seu 
avô Egas Gomes e um inuão d' elle , D. Gueda Gomes ; ^) mas tal 
omissão pouco importa, em vista do documento original, transcripto 
por Espinosa. 5) 



1) P.M.H.: Seript. 213, 301 e 305: E Oomex Veegas de' Basto 
[o terceiro dos Qtiedãos] foy casado com Dona Moor Rodrigues de Can- 
darey e fex em ella Buy Ooinex de Basto e Paay Oomex, e Mecm Oomex : 
e ouue ontro filho em huiima filha de huum escudeiro que nom foi liidimo 
que ouue nome dom, Pêro Oomex Barroso que valleo mais que os outros 
irmãaos . . . Este . don P. O. foy boo e muito homrrado e foi casado em 
Tolledo co'nt dona Ghamoa Fernandex, filha de Fernam Pirex d^ Axevedo. 

2) Cf. CA 398. 

3) De mistura com indicações fidedignas, hauridas nos apontamentos 
de T). Pêro Lopes de Ayala (o gran - chanceler e chronista de Pedro o Crú) 
cujo avô era neto de Pêro Gomes, o auctor da Nobl. da Andai, propala 
hoatos falsos. Quanto ao parentesco do chanceler e de Pêro Gomes I e II, 
oil-o definido num pequeno quadro: 

ÍPero Gomes Barroso I 
\D. Chámoa Fernandes 

I 
ÍFernam Gomes Barroso 
\D. Mexia Garcia de Sotomayor 



Mestre Pêro Gomes Barroso II ÍSancha Fernandes 

\Pero Lopes de Ayala I 

I 
Fernam Peres de Ayala 

i 
Pêro Lopes de Ayala II. 
O filho de Pêro Gomes I edificou o mosteiro da Trindade em Toledo, onde 
jaz com sua mulher. 

4) P. M. R: Seript. 284; 3Ion. Lus. XV, c. 2 e 3. 

5) Escuso de dizer que a assistência do avo e do neto no mesmo campo 
de batalha não seria única. Já vimos que três gerações da família dos 



— 397 — 

Quanto á época em que D. Pêro sahiu de Portugal, nada consta.^) 
Podemos apenas datar conjecturalmente uma das suas poesias dos 
primeiros tempos passados em terra estrangeira, tempos de prova- 
ção, senão de miséria, em que a fortuna ainda não o tinha bafe- 
jado. Refiro -me aos curiosos versos em que exclama: 

moir' ew, do que en Portugal 
morreu don Ponço de Baian. 

Não sei que interpretação deva dar a esta allusão. Talvez os 
amigos, vendo -o definhar longe da pátria, e scientes de amores 
malfadados, se lembraram de espalhar o boato que, desnaturado 
por causa da sua paixão. Pêro Gomes morria consumjMis amore, 
recebendo em resposta as coplas jocosas em que assegura que 

. . . averia gran sabor 
de comer . . . se tevesse pan.^) 

Certo é que a sua sorte melhorou. Em imia das cantigas de 

amigo, ^) a formosa que introduz, e que pode representar D. Chámoa 

Fernandes, refere -se ao seu amigo, qtie é cem el-rey , e a favores 

recebidos, dizendo: 

punha el rey ora de Ihi faxer ben, 
e quanto s^el quiser^ tanto Ihi den. 

Antes da ida de Alfonso X á busca da coroa imperial (1273) serviu 
de medianeiro entre o monarca e os ricos -homens rebeldes, que 
se haviam alliado ao rei de Granada.^) Nada mais sei. Um seu 
neto, Senhor de Xodar, teve o castello e a villa de Alcalá de Ben- 
zaide, em vida de D. Alfonso X que a conquistara aos mouros. 
Outro neto e seu homonymo, filho de Sancha Pires, o clérigo 



Redondos militaram juntos no cerco de Sevilha; factos idênticos repetiram - 
se muitas vezes nas guerras hispânicas, até Alcácer -Quebir. — Quanto á 
omissão do seu nome, é sabido que nas listas dos lidadores apenas se nomeiam 
pessoas de auctoridade, e só excepcionalmente os donzeis que ainda não 
tinham ganho as esporas de cavalleiro. 

1) Da nota seguinte pode concluir -se que ainda estaria em Portugal 
era 1235. 

2) Cf. Biogr. XXII, onde se assenta que de 1235 em deante não encontro 
provas da existência de D. Ponço de Baião. — As letras dade soryã no pri- 
meiro verso de CV 1052 talvez possam ser emendadas á vista do CB. 
Rimando com pan e Baian devem completar, salvo erro, a proposição moir' 
eu aqui, por meio de uma fórmula adverbial de quatro syllabas, equivalente 
a: de fome^ de inanição. 

8) CV 334. 

4) Ghron. Aff., c. 51. 



— 398 — 

Mestre Pedro, chegou a ser grande privado de Sancho, o Bravo, 
o qual soUicitou em 1293 do Arcebispo de Toledo farta prebenda 
para o dito Mestre, seu protegido. Foi aio de Alfonso XI, chan- 
celer, e bispo de Cartagena. Em 1327 subiu á dignidade cardi- 
nalícia, distinguindo -se outrosim como escritor muito erudito. É 
d'elle o Libro de los Consejos et Consejeros, espécie de espelho de 
príncipes, baseado sobre o pseudo -aristotélico Secretum secretorum.^) 

§ 255. Com relação ás rimas do trovador português direi ainda 
que dirigiu algumas, sobre a compra de uma casa, em que ficara 
ludibriado, 2) ao jogral Lourenço, que já conhecemos como contem- 
porâneo de D.João de Aboim e D.João Soares Coelho. Pelo logar 
que occupa nos cancioneiros, ficando perto de Fernam Gonçalves de 
Seabra, Affonso Lopes de Baião, Mem Eodrigues Tenoiro 
e Eoy Paes de Ribela, fica confirmada a chronologia que ideei. 

XXII. D. Affonso Lopes de Bayan. 

§ 256. Mais um rico -homem do tempo de Affonso III, que 
firma com o seu nome, já citado varias vezes, numerosos docu- 
mentos e diplomas, ao lado de trovadores nossos conhecidos, como 
Aboim, Coelho, Ruy e Mem Rodrigues de Briteiros, Esgaravunha, 
Redondo, e vários ainda por conhecer, como Lobeira, Cogominho, 
e outros mais. Em fidalguia não cede o passo a nenhum d'elles. 



1) Rodriguez de Castro II, 729. — Ni colas António, Bibl. Vet. I, 65, 
No 2õ6. — Memorial Histórico JI^ 114. — Cron. c. áá. — Amador de los 
Rios IV, 89 — 92. — Jahrbuch VI, 79 e X, 156; e principalmente G. Baist no 
Qrundriss , p. 411 — 412. — Os auotores hespanhoes e allemães affirmam 
que o cardeal morreu em 1345. Os portugueses assentam 1348 e Avignon, 
onde fundara três annos antes o mosteiro de Santa Praxedes, no qual jaz. 
Segundo elles, fora em 1344 deão da Sé de Lisboa. — Cf. Sousa, Gat. Pont. e 
Gard. Port. em Memorias Acad. Hist. Port. 1725, na lista dos que sendo 
estrangeiros se contam entre os Portugueses, porque tiveram egrejas e bene- 
ficios em Portugal. — Um erudito académico, Leitão Ferreira, confundiu o 
cardeal com outro prelado do mesmo nome, que também esteve algum 
tempo em Portugal. Fallo do auctor do Libro de la justicia de la vida espiri- 
tual., escrito depois de 1380. Desgostoso dei Rey D.Pedro, ao qual diri- 
gira admoestações como bispo de Sigiienza, e receando vingança, trans- 
feriu -se a Portugal em 1356, sendo eleito bispo de Coimbra, dois annos 
depois, e passando para a sé de Lisboa em 1362. Morreu como arcebispo 
de Sevilha (1380). Pedro Lopes de Ayala fá-lo cardeal, na Ghronica de 
D. Pedro, An. 1355, c. 9. — Vid. Ortiz III, 250 n. 2. — Gat. Bisp. Goimbra 
em Mem. Acad. Hist. Port. 1724, p. 112 e Baist, Orundriss IP, p. 445. 

2) CV1051. 



— 399 — 

Muito pelo contrario. O senhorio de Baião, de Riba-Doiro,^) per- 
tencia aos descendentes de certo Arnaldo, vindo no sec. XI de França 
á península, segundo tradição nobiliarchica d'aquella era. Enlaçados 
com os Egas, Sousas e Yalladares, e os de Bragança, Lima e Zamora, 
os ricos- homens d' esta linhagem usaram sempre do titulo de Baião, 
sem alcunha alguma, até ella se extinguir por falta de descendência 
masculina. 2) O avô do poeta, Affonso Hermigues, teve varias filhas, 
casadas em Castella e Leão o e dois varões: D. Ponço e D. Lopo.^) 
Pontius Alfonsi, tenente da Beira e de Baião, adulto nos últimos 
annos de Sancho o Velho*) e servidor do moço Affonso II, 5) figura 
na perturbada menoridade de Sancho CapeUo (1223 — 1229)^), ecclip- 
sando-se apenas por alguns annos, mas tornando a reapparecer em 
1232, 1233, 1235 como princeps terrae. Segundo o Livro do Conde, 
sua mulher D. Mor Martins, dos de Riba de Vizella, fora amante 
dei Rei Affonso II. O trovador illustre, de que ainda agora falía- 
mos,^) vassallo do Castelhano, allude vaga e veladamente á sua 
morte, de modo a fazer -nos scismar sobre as ignotas circunstancias 
que por ventura a motivaram. Quem lesse apenas o refram da 
alludida cantiga, que torno a repetir: 

Moir' eu do que en Portugal 
morreu D. Ponço de Baian^, 

pensaria talvez em consumpção, loucura, ou suicídio, como resultante 
de uma paixão ciumenta e funesta, lembrado dos vários provençaes, 
franceses e portugueses que em lendas românticas morreram de amor. 9) 

1) No concelho moderno d' este nome, districto do Porto. O primeiro 
documento em que occorre é a Charta 451, de 1066. 

2) O Tit. XL, p. 331 do Livro do Conde está confuso e incompleto, e 
precisa de confronto com o Tit. XXXV e XXXVI, p. 321 e 297. O Livro 
Velho, p. lõl, 179 e 183, pelo contrario, fornece noticias parcas mas fide- 
dignas, confirmadas em numerosos documentos, que indicam a filiação de 
um ou outro da família. — Cf. Mo7i. Lus. XIV, c. 5. 

3) P.M.R.: Seript. I, 178 e S%l. — Leges 351, 355, 358, 365, 372, 
374 etc. até 618. 

4) Desde 1209. 

5) P.M.H.: Leges 471 (a. 1217 e dúzias de vezes) de 351 a 584. 

6) Herc. (II, 489 e 495, Nota XVI), cita diplomas régios de 1223—1226, 
1232, 1233 e 1235 em que D. Poncio figura entre os confii-mantes, ao lado 
de Abril Peres, Rodrigo Sanches, Gil Vasques; de 1229 em deante, como 
tenens Baya?)i, tenens Bayam et Beiram ou princeps terrae. 

7) D. Pêro Gomes Barroso, o nosso N» XXI. 

8) CV 1052. 

9) O provençal Jaufre Rudel, Andrieu de França e o catalão Pau 
de Benlliuvre. — Cf. LoUis, Sordello, p. 275 e 290. — Raynouard II, 



— 400 — 

Examinando a composição inteira e reflectindo sobre a idade e posição 
de D. Ponço, entre os magnates mais influentes e opulentos da 
corte, ^) reconliecerá nella todavia certo tom zombeteiro que, junto 
ás referencias a verdadeira ou fingida penúria de Gomes Barroso, faz 
lembrar, como efl^eito de contraste, trufas e champanha, e certos 
accidentes gastronómicos que também já foram causadores de mortes 
fulminantes, bem sabidas. 

O único filho de D. Ponço, Petrus Pontii, primo direito do 
trovador, apparece entre os magnates de 1252 a 1280, ora sem 
indicação da tenencia, ora como governador de vários districtos: 
Sea (= Sena, hoje Cem), Trás -os -Montes 2), Baião (de 1266 em 
deante), Youga (de 1277 a 1280) e Cinfães (1282). 

Dominus Lúpus Alfonsi, casado com Aldara Viegas, assigna 
foros e diplomas de Affonso II, sempre em companhia de D. Ponço, 
desapparecendo como este, de vez em quando, no tempo accidentado 
de Sancho II. 3) Seus filhos Fernam, Diogo, e Afí^onso, todos com 
o patronymico Lopes de Baiam, principiaram a figurar na corte afrau- 
cesada do Bolonhês, só depois da revolução, exactamente como o primo 
D. Pêro Ponço. E bem possível portanto que a familia toda se tivesse 
afastado das aulas regias, passando para fora do reino, seguindo em 
França a parcialidade de Affonso III. Faltam, comtudo, as provas.^) 
D. Fernam Lopes que encontro só de 1253 a 1256, como tenente 
de Bragança, acaso morreria cedo.^) D. Diogo Lopes, trocando o 
districto de Lamego algumas vezes contra o de Viseu (entre 1253 e 
1278), desempenhou durante todo este tempo funcções importantes. 
Juntamente com o Senhor de Aboim foi p. ex. nomeado em 1264 



299. — Romania I, 106. — Gaston Paris, Jatifre Eudel em Revue Hist.^ 
vol. 53; A. de los Elos, Obras de Santillana p. 594. 

1) P. M. H. : Leges I, 620 (a. 1229). 

2) P.M.H.: Script. 179 e 183; Leges 620, 644. — Sousa, Proms 1, 
61. — Mon. Lus. , Vol. V, Escrit. 8. — João Pedro Ribeiro, Diss. ehron. I, 280. 

3) P.M.H.: Leges 358, 365, 370 etc. até 612. — Mon. Lus. XVI, 
c. 21 e 36. Nos diplomas aproveitados por Herculano não figura entre os 
confirmantes. 

4) As affirmações de Th. Braga neste sentido (no Gane. Vat. Rest.^ 
p. XLVII), com relação a D. Affonso Lopes, são gratuitas. Em outro logar 
chama -o grande privado do Bolonhês, asserção que também não é correcta 
— Vid. Trovadores 117. 

5) P.M.E.: Leges 640—665. No anno 1256 é D. Affonso Telles 
quem principia a oocupar o mesmo posto. D. Fernam Lopes não figura 
nas cortes de 1273. 



— 401 — 

para demarcar os limites do reino de Leão e Portugal, da foz do 
Caia até Sabugal. i) Finalmente, o nosso poeta foi governador das 
terras de Sousa 2) de 1253 a 1277, e d'ahi em deante da comarco 
de Riba - Minho 3) , continuando neste cargo nos princípios do reinada 
de D. Denis, até 1280, pelo menos.*) E todavia possível que 
assistisse anteriormente, de 1245 a 1253, na corte de Castella e 
Leão, tomando parte na brilhante conquista e repovoação de Sevilha. ^) 
Sua mulher, D. Mór Gonçalves, filha de D. Gonçalo Mendes é, con- 
forme expliquei na Biographia IV, uma das celebres netas de Conde. 
Não consta todavia que incorresse com justa razão as irónicas cen- 
suras de Martim Soares.") Ignoro quando foi alcaide de Alemquer, 
mas o facto em si é certo. Testemunha ocular narra num docu- 
mento um conflicto que elle teve com o concelho que governava. 



1) Santarém, Corpo Dipl.l, 13. 

2) Ha um pequeno sirventês em que o jogral Diogo Pezelho finge 
fallar em nome de um tenente, cahido no desagrado de um arcebispo, ou 
mesmo fulminado pela excommunhão, por haver entregado a seu dono um 
castello em terras de Sousa. E simula pedir a absolvição, promettendo 
cumprir d' ahi em deante o mandado da Santa Madre Egreja . . . commettendo 
traição (CV1124): 

Meu senhor arcebispo, and' eu escommungado, 

porque fix lealdade . . . 

per mia nialaventura tívi un castelo en Sousa 

e dei -o a seu dono . . . 

soltade-me, ay senhor, 

e jurarei mandado que seja traedor. 
Ha aqui evidentemente allusão aos successos dos annos 1245 — 1247 e ao 
metropolita de Braga, agente principal na deposição de Sancho Capello, 
mas de modo algum referencia a D. Affonso Lopes de Baião, como Th. Braga 
entende (Canc. Vat. Rest.^ p. XLIV). — Até á ascensão do Bolonhês ao throno, 
os Soverosas (Gil Vasques e Martim Gil) eram tenentes de Sousa e Riba -Minho, 
conforme consta de numerosos documentos. — É mais um castello a ajuntar 
aos que Herculano cita como submettidos só depois de estreito assedio 
(H, 410). 

3) P.M.n.: Leges 212, 216, 229, 572, 644 — 736. Seu nome falta 
no Tit. XL do Livro do Conde, occoi-rendo no Tit. XXXVI e no Livro Velho. 

4) Em 1278 na doação de Lourinhã ao infante D. Aífonso assigna no- 
vamente como tenente de Sousa, assim como em 1280 numa doação de 
Alcobaça (ilíow. L?/s. XVI, c. 21 e 25); no mesmo anno na da Quinta de 
Manjapão á Infanta D. Branca, como tenens Ripam -Minii {Mon.Lus. V, 
Escr. 8. — Provas I, 61). 

5) O nome» Alfonso Lopes de Bayan« está no Livro do Repartimento 
a f. 25 da impressão de Espinosa, não entre os Portugueses, mas á parte, 
no numero dos que foram herdados em Borgabenzerra, localidade cujos 
rendimentos Alfonso X destinava para as suas galeras. 

6) CA 398. 

26 



— 402 — 

por causa da nomeação de porteiros, e perpetua um dicto que 
o honra. ^) 

§ 257. As poesias que se dizem de D. Affonso são poucas, 
uma dezena apenas. Temos duas cantigas de amor [índice S95 — 396 
= CV 5 — 6 ou €A 224 — 225), de uma submissão incondicional, quer a 
destinatária fosse a rica -dona a que alludi ainda agora, quer outra 
das garridas e velidas , que nos apresenta em quatro cantares de 
amigo, muito esbeltos e briosos {índice 738 — 741 = CV 339 — 342). 
Ap])roximam-se estes dos genuinos géneros populares, tanto pelo 
assumpto — romarias com indicação da localidade,-) candeias quei- 
madas, orações e outras costumeiras tradicionaes — como pelo 
franco paganismo que respiram, pelo rythmo de bailado de uma 
d' ellas (CV 342) e pela singeleza da construcção estrophica (aaxx). 
Das quatro cantigas de escarnho (Ind. 1467 — 1470 = CV 1079 — 1082), 
muito comedidas e de uma reserva digna de reparo no meio dos 
libellos que as circumdam, uma refere -se ao mesmo Al velo {Al- 
billus '^ Albino) com quem D. João Soares Coelho teve de cruzar 
armas. ^) E ainda aqui a sua abundante cabelleira, esbranquiçada, 
que dava ao jovem o aspecto de um velho encanecido e lem- 
brava ao mesmo tempo certa raça canina felpuda, que serve de 
thema ou razão ás duas estrophes (CV1079), obrigando o motejante 
a jogar com a formula cão -pastor (^ Schãferhund e weissJiaariger 
Jdngling).^) Outro dizer tem assumpto singularmente prosaico: a 
construcção de uma boa casa em Arouca, para a qual o rico- 
homem procura madeira nova. Se nelle se escondem ironias e gra- 
cejos, confesso que não os descobri; nem tão pouco os percebo na 

1) Herc. IV, 227. — D. Affonso constituirá um substituto no seu logar. 
Este usurpou o provimento do dicto cargo , pondo um porteiro de sua mão, 
com o que o concelho se deu por gravemente offendido. „Succedeu d' alii a 
pouco tempo vir D. Affonso Lopes á villa, e estando na igreja de Sancto 
Estevam foram falar com elle muitos homens bons da ten'a, representando - 
lhe o agravo que o seu alcaide fazia ao concelho em usurpar lhe a portaria. 
Respondeu -lhes D. Affonso Lopes dizendo: »Não quisera eu, meus amigos, 
a troco desta igreja cheia de ouro, que por minha causa houvesse quebia 
em vosso foro.« E de feito ordenou a N. seu alcaide (menor) (jue deixasse 
ao concelho o provimento daquelle caso." 

2) A respeito de S. Maria das Leiras apenas sei que ha unia aldeia 
d' este nome em Terra de Neiva e outra na Galliza (Corunha). — Vid. P.M.H.: 
Inquisitiofies , p. 27 ou 277. 

3) CV1025. — Rttfidglusse I, .55 — 56. 

4) Pastor significa um jovem [xagal). — Vid. p. ex. CV 957; e P.M.H.: 
Script.l, 171 e 364. — fíandglosse I, 68. 



— 403 — 

resposta com que D. Affonso foi favorecido pelo almirante de Alfonso X, 
Pae Gomes Charinho (CV1159). 

Superiormente importante, e uma das mais curiosas composi- 
ções dos cancioneiros é a Gesta que fe% D. Affonso Lopes a D. Meendo 
e a seus vassalos, de mal dizer (CV1080), a primeira parodia da 
litteratura portuguesa que neste campo ameno ostenta tantas ri- 
quezas, e ao mesmo tempo imitação directa das Chansmis de Oeste 
da França do Norte. E a única que comprova conhecimento um 
tanto intimo da poesia épica francesa em Portugal , no sec. XIII. ^) 
O rico -homem de velha estirpe ridiculariza o infanção, a quem a 
mercê do soberano concedera recentemente pendão e caldeira, e 
vassallos para criar e armar. Mas não é nesta ironia que consiste 
a novidade. Com este fim mostra-o, não no seu solar, mas na 
casa de Ordem de Longos onde tinha pousadia, como natural e 
padroeiro. Ahi reúne os seus vassallos, chamados (a julgar pelo 
pequeno epilogo, a esparsa CV 1082) para serem apresentados em alardo 
a Affonso III. Em pé, no meio de uma eira, e não sentado em 
faldistorio de oiro, é que o arremedador de Carlos -Magno recebe 
os seus homens, fidalgotes de poucos meios, ainda não affeitos aos 
luxos nem ás cerimonias da corte, mal -vestidos, mal -montados e 
com maneiras labregas. Os cavàllos, os arreios, as armas, os nomes 
e alcunhas e as próprias pessoas, sua filiação, seu modo de fallar, 
tudo é alvo de motejos maliciosos. O franco riso que despertam, 
embota todavia a ponta das flechas, e tira-Dies o veneno, embora 
o proloquio popular que forma o desfecho da esparsa, enuncie clara- 
mente a moralidade: 

Qual ricotnen, tal vassallo! 
qual concelho, tal campana! 

O titulo de gesta, usado exclusivamente nesta composição, o metro 
que é o decassyllabo épico bi- partido (de 10, 11 ou 12 syllabas 
grammaticaes) com cesura depois da quarta ou quinta e acento tónico 
na ultima syllaba par de cada hemistichio, a distribuição em femí.v 
monorimas [laisses hwnoteleutes) de extensão desigual, rematadas 



1) Menendez y Pelayo, encostado a Braga {Antologia Hl, 38) vae mais 
longe, reconhecendo nesta parodia um testemunho da diffusão de cantares 
de gesta na península, assim como do metro em que se escreviam. — Ke- 
conheço outra prova de que a Ghanson de Roland não era desconhecida 
em Portugal no epitaphio já citado de Rodrigo Sanches, o heróico bastardo 
de Sancho I, que succumbiu na lide do Porto em 1245: alter fuit hic 
Rotulandus. — Cf. § 218, 6". 

26* 



— 404 — 

com a onomatopeia Eoi! iieuma completamente desusado em Por- 
tugal i), são outras tantas provas de que D. Affonso Lopes de Baião 
conhecia, pelo menos, a obra -prima da poesia épica francesa, o poema 
de Eoncesvalles. 2) O logar da revista, a casa de Ordem (ou maison) 
de Longos, o nome de pessoa, enunciado no titulo, mas substituído 
no texto pela alcunha significativa de D. Velpelho {voljjelho , vul- 
peculus = raposo) , assim como as indicações sobre os alardeados ^) 
tornam provável que o motejado fosse Mem Rodrigues de Briteiros, 
filho d' aquelle Ruy que conseguiu não só fazer perdoar graves 
culpas suas, mas levantar -se ao nivel dos mais altamente gradua- 
dos na hierarchia nobiliarchica , pela sua decidida adhesão ao 
Bolonhês. ■*) O ódio dos de Baião contra a familia do parvenu não 
era comtudo muito profundo, ou então não resistiu á fortuna sempre 
crescente dos Briteiros e ao inevitável contacto nos paços reaes. 
Uma das irmãs de Mem Rodrigues casou com D. Pêro Ponço de 
Baião"), como mostrei na tabeliã genealógica inserta na Biographia V. 
Pode ser ainda que na cantiga da madeira nova^ o próprio D. Affonso 
apelle para as boas graças de outra filha do raptador, a Abbadessa 
de Arouca, D. Luca Rodrigues.*^) 

XXIII. Meeii Rodrigues Tenoiro. 

§ 258. Chronistas portugueses e castelhanos registam a trágica 
sorte de um fidalgo d' este nome , vassallo de Pedro o Justiceiro de 
Castella. Receando a vingança do tyranno, por ter tomado parte 
em Toro no anno de 1354 numa briga entre os Toledos (Albas) 



1) Em todo o caso é muito parecido o neuma dos marinheiros e pe- 
dreiros nas suas manobras, quer a bordo dos navios, quer ao içar de pedras 
de construcção : e-ó-i — n-i. 

2) Cf. G. Baist em Grõber, Grundriss § 10: „eÍD Portugiese odei- 
Galizier endlich parodiert geradezu den Turold, die 10-SiIbner und das J.o/." 
— Th. Braga, Curso, p. 72. 

3) Alguns dos personagens introduzidos na resenha humorística (como 
Lopo Gato, o sobrinho de Cheira, Martim de Frazão e Meem Sapo) podem 
ser identificados. 

4) Th. Braga, Canc. Vat. Rest. XXXIX viu bem que tínhamos ahi um 
retrato grotesco da cavallaria, mas não reconheceu qual o individuo que a 
troça do rico -homem visava. Pelo contrario, D. Velpelho é a seus olhos 
o Renard da epopeia burguesa do fim da Idade -Media, servindo para sati- 
rizar algum ferrenho e extemporâneo partidário de Sancho II, ou então 
para motejar da disposição legal das Partidas, que admittia apenas cantares 
de gesta (ib. p. XLVII). 

5) P.M.H.: Seript. 195. 

6) Ib. 1,77. 



— 405 — 

que o rei favorecia, e próceres ria sua própria estirpe, como Alfonso 
Jufre (alguacil - mor de Toledo) o D. Juan Tenório (reposteiro e valido 
do monarca)/) Mem Kodrigues refugiou -se em Portugal, como era 
praxe no sec. XIII. Poucos annos depois foi, pelo vingador de Inês 
de Castro entregue ao seu algoz, em escambo contra Pêro Coelho, 
sendo publicamente justiçado em 1360. 2) 

Filho do valente almirante de Alfonso XI, Alfonso Jufre, um dos 
heroes de Algecií-as (1340), este Mem Rodrigues o Moço, era neto 
de Diego Alfonso e bisneto de Gonçalo Pires, o qual, pela sua 
parte, descendia, por seu pae Pedro